
Altemir (732) na largada da Meia Maratona de Oita no Japão… (foto: Iranílson Silva)
As vezes pequenos gestos transformam-se em grande acontecimentos, quando tem o endereço certo, a hora certa e principalmente a pessoa certa. Altemir Luís de Oliveira, 3º colocado na Maratona de São Paulo, um dos melhores corredores em atividade no Brasil, corre como um dos favoritos na Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, Dez Milhas Garoto e ainda na Maratona de Florianópolis.
Treina forte para a Meia Maratona de Oita e fala sobre alguns acontecimentos de sua vida, sobre atletismo, drogas e superação. De quando alguém, com força de vontade e oportunidades pode vencer obstáculos muito maiores que o preconceito e as barreiras arquitetônicas.
O site CADEIRANTES.COM.BR teve um bate-papo com uma das maiores promessas do atletismo brasileiro nas provas de fundo, foi também vencedor da Volta da Pampulha 2001 e Troféu de Melhor Índice Técnico dos Jogos Paradesportivos da Região Sul, realizados na cidade de Itajaí/SC no útimo mês de julho.
Todos que o conhecem ou já ouviram falar, sabem que é o Gringo. Poucos, porém, sabem de suas alegrias, agruras, dificuldades e idéias. O papo foi bem legal, acompanhem.
Cadeirantes.com.br – Qual o Clube que você representa?
Resposta: Altemir Luís de Oliveira Gringo: Clube Gaúcho de Desporto em Cadeira de Rodas, da cidade de Porto Alegre – RS
Cadeirantes.com.br – Qual a sua deficiência e qual foi a causa?
Gringo – A minha deficiência é trauma medular, causado por disparo de arma de fogo, bala perdida.
Cadeirantes.com.br – Como você conheceu o esporte adaptado, Quando começou a competir e porque começou a competir?
Gringo Eu conheci o esporte adaptado em meados de 1990 em um Centro de Reabilitação Profissional na Avenida Bento Gonçalves, na cidade de Porto Alegre, RS, através do professor Heraldo que me deu as primeiras dicas e posteriormente o Professor Aldo Carlitos Potrich, o maior incentivador do esporte para PPDs (pessoas portadoras de deficiência) e comecei a praticar a modalidade de basquete em cadeira de rodas. E em 1999 eu migrei para o atletismo. Eu comecei no esporte, em princípio, por curtição, pois antes de ser PPD eu praticava o esporte tradicional do Brasil o futebol. Eu tinha uma vida ativa. No início, do esporte adaptado, era realmente só passatempo, pois eu conheci muitas pessoas novas com na mesma condição física que a minha.. Depois eu comecei a levar mais a sério o esporte até chegar a minha condição atual de profissional.
Cadeirantes.com.br – O que você acha de falarmos um pouco de drogas?
Gringo Olha cara, droga na minha vida já fez parte por um bom tempo, no mínimo uns dez anos. Hoje eu tenho 29 anos. O cigarro, álcool e até droga pesada como cocaína. Eu fiquei um bom tempo nesta vida, isso por opção própria. O local onde você mora, as companhias e sem a opção de ter o que fazer. Eu fiquei paraplégico e fui começar a praticar esporte 06 anos depois do ocorrido. Na época eu tinha 17 anos era adolescente não pensei muito e a curtição era drogas, quando me dei por conta estava quase no fundo do poço. Eu reconheço que em certas ocasiões eu atrapalhava a vida da família pois eu usava drogas na frente de todos, mãe, irmão, vizinhos, perdi o controle usando droga direto e de uma ora para outra, sem o auxílio de ninguém eu resolvi parar, largar tudo.
Cadeirantes.com.br – Você acha que largar, qualquer tipo de droga, lícitas (cigarro álcool) ou ilícitas depende única e exclusivamente do usuário ou precisa de ajuda. Essas pessoas que dizem que não conseguem, o que você acha disso, pois você já esteve do outro lado?
Gringo No mínimo 50% é vontade própria, pois caso contrário não adianta ninguém tentar ajudar. A ajuda de colegas, família (fala na mãe) amigos que não curtem a droga dando conselhos é muito importante neste processo. Não foi o meu caso, pois a iniciativa partiu de mim mesmo, pois eu encontrei ocupação para suprir a lacuna da droga e após algum tempo não houve como conciliar os dois eu, felizmente, não precisei de ajuda psicológica e outros métodos para isso.
Cadeirantes.com.br -E hoje como você avalia esta troca da droga pelo esporte?
Gringo Foi a melhor troca da minha vida eu não quero essa situação de dependência para ninguém, pois existem casos que são muito dolorosos para que o dependente consiga se afastar da droga, pois a droga é alguma coisa que a gente vai gostando e vai se afundando. Quando a gente se dá conta a droga já faz parte da vida do dependente. Assim como o esporte faz parte da minha vida. Eu acordo todos os dias e sei que tenho treino, se não saio pela manhã à tarde eu vou para a academia malhar, sempre estou com ele. É como a droga na vida do dependente, o cara não tem nada para fazer, pensa o quê? Vou me drogar. Falta a opção de fazer alguma coisa produtiva.
Cadeirantes.com.br – E porquê você escolheu o atletismo? Você era um atleta sem expressão no basquete em cadeira de rodas, o seu primeiro esporte e agora você é um atleta de ponta, que está bem no ranking?
Gringo – O atletismo não foi uma escolha direta minha, foi um amigo meu, o Carlão, que desde a primeira vez que me viu em 1985 me convidou para correr e eu fui começar em 1989. Com todo este tempo a idéia ficou bem amadurecida na minha cabeça. Antes eu não fui porque não tinha material (cadeira, luva, etc) e eu não tinha muita vontade de praticar, mas em 1989 ele adquiriu uma cadeira nova e sobrou a cadeira usada e foi a deixa que eu precisava, pois eu já estava enchendo o saco de basquete, não sei se é era eu quem não me relacionava bem com o grupo, pois constantemente eu estava arrumando conflitos e inimizades. Na época que fui para o atletismo eu já estava largando o esporte, largando o basquete, pois no Brasil não tem expressão nenhuma e no Rio Grande do Sul muito menos. Aqui no Rio Grande do Sul o basquete é de 3ª Divisão para baixo.
Cadeirantes.com.br – Na sua visão, porque o basquete gaúcho está nesta situação? Falta incentivo, profissionalismo o quê?
Gringo – No meu ponto de vista está faltando tudo, pois não temos equipes com espírito profissional, mas falta principalmente material humano (jogadores), pois as cadeiras fabricadas no Brasil até que tem um bom nível de qualidade frente as fabricadas nos EUA e Europa. Tá faltando quem sirva de espelho para despertar a vontade de praticar esporte. A galera que tá jogando basquete tá só afim de fazer lazer e hoje isso não se encaixa no meu cotidiano. Eu não me vejo jogando basquete somente pelo lazer, logicamente que eu gosto de bater uma bolina nos finais de semana, mas daí é lazer mesmo eu bato a minha bolinha mato a vontade mas depois eu fico uns três meses sem jogar.
Cadeirantes.com.br – Esse material humano que você fala, são profissionais especializados em basquete em cadeira de rodas ou são portadores de deficiência?
Gringo Sim são profissionais na área, não só no basquete, mas no esporte adaptado, pois no país temos poucos e no RS muito menos. Mas como já disse, faltam PPDs que queiram praticar esporte com o objetivo de vencer, sem aquela idéia de ocupar o tempo e passear pelo Brasil. Bem ou mal, mesmo na terceira divisão, sempre aparece alguma competição para viajar e passear, mas como já disse, sempre no intuito de se divertir e não com o objetivo de competir.
Cadeirantes.com.br – Você tem algum ídolo no esporte?
Gringo – Sim tenho eu admiro muito a Hortência e o Zico.
Cadeirantes.com.br – Por quê?
Gringo – A garra e a vontade de vencer da Hortência me emocionava. Eu assisti muito basquete por causa dela, hoje eu já nem assisto muito pois não tem alguém que tenha estas características. Ela passava força e confiança a todos em quadra. Essas qualidades me inspiram nos meus treinos e competições. O momento que mais me chamava a atenção era o do chute, quando fechava os olhos e concentra-se. Dava para ver no olho dela que aquele ponto era para uma nação e não pelo dinheiro que ganhava, pois eu acredito que ela não tenha ganhado muita grana com o basquete.
O Zico eu admiro ele como atleta. Ele foi ídolo do time de futebol da maior torcida do Brasil e sempre foi humilde. Eu traço um paralelo com o Romário que é um grande craque, mas está sempre enrolado com suas declarações na imprensa fazendo críticas ora para um ora para outro. O Zico você nunca viu ele fazendo isso. Teve problemas graves de lesão, deu a volta por cima, consegui superar, foi para o Japão onde hoje ele depois de tantos anos ainda é ídolo por lá. Sempre humilde, acho que é o que está faltando para o Romário e o Pelé que toda a hora estão trocando farpas.
Cadeirantes.com.br – Sei que treina muito sério, vc sonha algum dia ser ídolo de alguém?
Gringo Lógico que sonho em deixar uma história. Eu estou a quatro anos no atletismo. Poucos dias atrás eu participei dos Jogos Regionais Paradesportivos na cidade de Itajaí (SC) e agora o pessoal já está me conhecendo, antes eu chegava lá corria e nem era notado, mas agora é diferente, antes eles me conheciam apenas como Altemir quando os locutores chamavam para a prova, mas agora não, é diferente eles me chamam pelo nome de guerra que é Gringo e sabem que eu estou no meu Estado treinando forte e se eles não fizerem o mesmo vão se danar, pois eu não estou de brincadeira. Eu gostaria de ser ídolo de algum PPD ou não, pois eu quero demonstrar as potencialidades de uma PPD. Quero demonstrar que quando se sofre algum acidente e fica com seqüela de trauma medular, a vida continua normal, você não vira super homem porque está praticando esporte e muito menos coitadinho por que está em cadeira de rodas. Eu posso ser ídolo de alguém tranqüilamente da família, da sobrinha, da afilhada, sei lá, mas esse alguém vai estar com alguma foto sua daqui a 40 60 anos guardada como recordação e eu vou ter a certeza de que representei alguma coisa para aquela pessoa pois caso contrário não teria guardado uma foto tanto tempo assim.
Cadeirantes.com.br – E a sua primeira corrida, você lembra ainda?
Gringo – Sim lembro, foi em março de 2000, na Rústica Semana de Porto Alegre, uma prova de 10km, onde participaram uns 10 atletas e eu cheguei em 2º (segundo) lugar a partir disso eu tive a certeza de que daria certo, pois como era a minha primeira corrida eu estava apenas começando, mas não imaginava em chegar no estágio que estou. É claro que tem muita coisa ainda para ser feita, mas eu notei que tinha muito potencial e um bom pedaço do caminho já estava vencido, uma vez que os competidores que estavam ali já estavam correndo a bem mais tempo que eu e consegui vencê-los com uma certa vantagem. Depois da prova eu tive um momento só meu de reflexão e decidi apostar em mim daqui para frente. É uma prova inesquecível, naquele dia eu me senti no paraíso. Pois entrei na prova sem pretensão e cheguei ao pódium. Hoje não, eu corro com mais responsabilidade, não de vencer a prova, mas de chegar bem colocado em virtude dos patrocinadores. Essa sem dúvida foi a minha melhor corrida até hoje e minha próxima melhor será no dia em que eu me aposentar, quando eu vou sair pelas provas do mundo só para passear e me divertir.
Cadeirantes.com.br – Como foi a emoção da primeira vitória o primeiro troféu?
Gringo Foi nos 16 quilômetros na Volta Internacional da Pampulha no mês de novembro de 2001. Eu cheguei e estavam todos me esperando para fotografar e entrevistar. Foi muito emocionante, apesar da televisão, em especial, que transmite a prova ao vivo para o Brasil e sequer dar atenção aos corredores em cadeira de rodas eu apareci na chegada e após três dias no bairro onde moro as pessoas me falavam que haviam me visto na televisão. Entrevistas, fotos, sala vip, pódium, homenagem do locutor oficial da prova, pedido de telefone para contato, isso tudo é maravilhoso, inesquecível.
Cadeirantes.com.br – Uma prova que você não vai esquecer, por ser boa ou ruim?
Gringo – Uma boa: Maratona Internacional de São Paulo 2002. É uma prova muito técnica com muitas subidas e descidas, com um asfalto ruim e esburacado. Eu fiz uma comparação com a Maratona de Porto Alegre que foi a minha primeira maratona e o meu tempo foi fantástico, diante de tantas dificuldades. Foi a primeira vez que eu corri toda a prova no pelotão da frente com os ponteiros mantendo o mesmo ritmo até o final e não amarelei
Uma ruim: Meia Maratona de Oita, no Japão, onde eu corri com febre (tive uma crise renal) e por um erro da nossa confederação (ABRADECAR) nós largamos na última fila, pois eles não mandaram os nossos melhores tempos. Essas são as duas provas inesquecíveis até hoje.
Cadeirantes.com.br – Planos para o futuro?
Gringo – Meia Maratona do Japão, em novembro deste ano, para qual estou treinando muito e depois quero correr a Maratona de Boston em 2003, são as provas que estou dando prioridade. Também tem a paraolimpíada em Atenas para a qual eu vou me aprimorar na prova dos 5.000. Os meus planos é chegar na final, pois se eu receber incentivo eu tenho condições de fazer uma boa prova lá.
Cadeirantes.com.br -O que mudou na sua vida depois que a RCM Informática começou a patrociná-lo?
Gringo – Patrocinador é o ar que eu preciso para respirar. Fora a vontade, a determinação a gente tem que ter alguma empresa que dê o suporte financeiro, pois o atleta tem que somente treinar e não ficar pensando em como vai pagar a água a luz. Depois da chegada da RCM estão aí os meus resultados onde eu evoluí mais de 60% do meu desempenho.
Eu acredito que represente bem a marca da empresa que me patrocina, pois sou determinado em tudo que eu faço. E o dinheiro eu uso para pagar material, técnico, academia, viagem. Não fosse o patrocinador eu já haveria abandonado, pois não teria condições de continuar. Se mais empresas apostassem nos atletas, mais gente poderia sair da marginalidade e transformar-se em um atleta de renome como eu. O esporte é comprovadamente um resocializador. Vários PPDs que conheço, por não terem opção, comprar balas e vão para os sinais de trânsito vender. Estamos desperdiçando muitos talentos por aí.
Cadeirantes.com.br – Como a sua família vê a sua participação no esporte?
Gringo – Eu venho de família pobre com mais quatro irmãos, órfãos de pai desde os 4 anos (eu). Nós nunca tivemos muito entusiasmo no esporte uma vez que não havia ninguém que nos mostrasse o caminho. Na minha família jamais se sonhou com alguém indo para outros países, aparecendo na mídia. Eles demoraram um pouco para assimilar essa minha condição de atleta. O esporte da família era o futebol, mas de 2 anos para cá todas me incentivam e me ajudam de uma maneira ou outra. Até grana para eu comer já me deram. Tem aqueles que eu veja apenas uma vez por mês, mas mesmo assim eles acompanham os meus resultados. Eu tenho uma obrigação moral com todos eles, pois eles sempre querem informações sobre mim e ainda buscam mais nos jornais, televisão, etc. Eu fiquei PPD aos 17 anos, para qualquer mãe isso é um incômodo, mas agora ela também me olha com outros olhos. Eu a entendo, pois uma mãe coloca um filho no mundo andando em cima das pernas e depois ela tem que ver o mesmo em cima de uma cadeira de rodas. Se fosse somente a cadeira até que não era nada, mas tem todo o processo onde se corre risco de vida em hospital, tem que fazer muitas adaptações, principalmente na casa, é bastante complicado, pois a intenção dela é salvar a vida do filho. Eu vi nos olhos da minha mãe que ela ficou muitos anos tristes, mas hoje eu sou o mesmo de antes do acidente, sou motivo de alegria, passou o trauma. Eu consegui recuperar todas as esperanças que ela tinha em mim. Ela é a que mais vibra com os meus feitos, sempre me pede uma lembrança das cidades por onde passo.
Cadeirantes.com.br – O que seria um grande passo para podermos potencializar a corrida em cadeira de rodas aqui no Sul e no Brasil?
Gringo – É meio complicado falar nisso. De repente eu tenho uma idéia muito boa, que são parecidas com as de outras pessoas, mas as autoridades que deveriam fazer alguma coisa, não tem vontade política de fazer com que as coisas aconteçam. Nós devemos muito disso a nossa cultura. Somos uma minoria de 10% da população, e infelizmente não existem políticas e nem cultura é voltada para isso. Nas próprias competições, os organizadores nos deixam participar por uma razão política, a gente vê na cara deles que se pudesse não deixava correr. Nós somos vistos como incômodo para os organizadores, temos que esperar uma nova geração para mudar tudo isso, talvez eu nem esteja mais aí para ver isso, mas vou continuar lutando contra essas idéias preconceituosas. Não existe uma política para a participação de todos nas principais provas do país. Eles dão muita importância para os corredores estrangeiros não se importando com as demais categorias. A ABRADECAR e o COMITÊ PARAOLÍMPICO também tem muita culpa disso pois são os organismos que deveriam ser responsáveis por nossas lutas. Fazemos tempos que deveriam serem respeitados, pois se estivéssemos fora do Brasil seríamos muito apoiados.
Cadeirantes.com.br – ABRADECAR e Comitê Paraolímpico são entidades que servem de elo entre o atleta e as Organizações Governamentais. Como você vê essas entidades nos dias de hoje?
Gringo – Hoje eu enxergo a Abradecar e o Comitê Paraolímpico, com uma visão muito contrária com o discurso de objetivos que são pregados por eles. No início, quando eles consolidaram essas Entidades foi com o objetivo de solidificar os direitos que temos hoje, busca de verbas públicas em âmbito federal, estadual e municipal, loterias, bingos e verbas privadas.
O início foi bom, pois fizeram o que pregavam, mas hoje em dia mudaram totalmente a visão. Hoje as verbas existem e eles estão recebendo sem muito esforço, pois a luta foi extenuante para alguns companheiros no passado, quando era uma tarefa árdua, era as trevas no esporte adaptado. Hoje em dia é uma guerra de belezas, pois a Abradecar e o Comitê preocupam-se somente com aquilo que dá mídia, eles vivem em conflito e quem sai perdendo somos nós atletas. São esses órgãos que tem a incumbência de levar as delegações para as competições internacionais e tem sérias divergências. Deveriam retroceder um pouco e voltar aos velhos tempos onde o atleta e o esporte era a razão principal. Nos últimos Jogos Regionais eu treinei feito doido para dar índice para ir ao mundial, fiz o tempo necessário e não fui convocado, em contrapartida houve uma lavação de roupa sobre desvio de verbas, verbas mal empregadas, gastos indevidos e outras coisas. Essa lavação de roupa deveria ter outro fórum, enquanto isso eu deixo de participar de uma competição importante como o Campeonato Mundial. Após a minha rotina de treinos, muitas vezes eu e meus colegas nos pegamos falando sobre a parte organizacional de Abradecar e Comitê Paraolímpico ao invés de ficarmos traçando planos para futuras competições. E quase sempre ao final destas conversas alguém comenta que não tem jeito, que não tem solução. Isso é triste, pois eu ralo com convicção de tempos melhores, mas o dia a dia me trás perspectivas sinistras. Fazemos muitos planos, traçamos metas e as coisa não mudam. O que resta a fazer é treinar, pagar a passagem do próprio bolso e ir correr fora do país, pois lá somos reconhecidos. Aqui no Brasil nem a minha modalidade onde tenho um dos melhores tempos do mundo na minha categoria o Comitê ou a Abradecar reconhece isso, nem sabem que eu existo.
Cadeirantes.com.br – Faltando em reconhecimento, esse tempo que você fez em Itajaí nos Jogos Regionais é um tempo muito bom, que deveria habilitar você para competições internacionais, tipo Campeonato Mundial de Atletismo na França, alguém lhe deu alguma explicação convincente para a sua não convocação?
Gringo – Pois é, mais uma vez, eu tenho que repetir. Eles não têm informações para fornecer, não dão explicações quanto a tomadas de tempo, quando serão, qual é o índice que devo alcança, essas coisas. O Comitê que deveria me fornecer esse tipo de informações, como já disse, nem sabe que eu existo. Não cumprem 1/3 do que reza no estatuto. Uma das finalidades é fomentar o esporte. Eu tenho tempos para estar no ranking mundial e a eles não interessa isso, apesar de o meu Clube mantê-los informados. Incentivar atletas, descobrir novos talentos, com objetivo de formar uma equipe boa para mundiais e paraolimpíada. Eu não recebi convite o mundial está acontecendo e eu estou aqui em Porto Alegre, com tempo, para no mínimo fazer uma final. Para que serve então todo o meu empenho e dedicação no esporte, sem falar no investimento financeiro que já fiz antes de ter patrocinador. Dá desânimo, pois eu poderia estar em um dia bom e fazer um tempo fantástico e estou aqui, sem explicações. Essa minha ida até a França me daria, também, curriculum. Com um bom curriculum é difícil conseguir apoio financeiro imagine sem. Este tipo de competições são uma boa oportunidade para se conseguir curriculum. Levam os atletas que eles escolheram, não informaram os critérios nem a forma de convocação. De repente, quantos atletas na minha condição ficaram no Brasil?
Cadeirantes.com.br – Preconceito. Fala um pouquinho sobre isso, pois você é uma pessoa politizada e esclarecida e já viajou para fora do país em competição.
Gringo – Olha a PPD que não tiver um pouco de conhecimento, aquilo básico, aquele que se imagina normal ao lado dos normais que não se assume como PPD pode se complicar, pois ele entende que é uma pessoa andante vai a certos lugares e nem percebe que está sendo discriminado. Ter que subir no elevador de cargas, com a desculpa de que pode sujar as paredes e tapete do elevador social com as rodas da cadeira é uma das muitas maneiras de discriminação. Entrar pela porta traseira dos prédios por não haver adaptação em prédios públicos. Eu sei que o preconceito existe, ele está ali, mas eu consigo driblar estas situações conversando, principalmente com porteiros e explicando a situação. Na maioria das vezes eu consigo o resultado esperado. Muito se deve pela falta de informação, pois a partir do momento em que o cidadão recebe informações ele começa a reivindicar e fazer valer os seus direitos. Isso, no meu caso, já não acontece nos dias de hoje, pois eu tenho informações sobre os meus direitos. Mas nos dias de hoje eu ainda tenho problema com a localização de camelôs, carrinhos de cachorro-quente nos rebaixamentos de meio-fio, calçadas ocupadas com material de construção, cadeiras de bares, calçadas mal conservadas, os banheiros adaptados são poucos, os locais de lazer quase nunca têm acesso para cadeira de rodas, o que acontece então o cara acaba não saindo para lugar nenhum, ficando em casa e assistindo uma fita com a namorada. Ficando assim cada vez mais difícil a reintegração à sociedade. Fica faltando assim a liberdade do ir e vir. Em vários lugares querem me ajudar a subir e descer escadas, mas eu não gosto disso, não por orgulho, mas porque quero ter a minha liberdade de ir e vir e porque é muito importante num contesto maior. Esses lugares não tem que contratarem ninguém para me ajudar, eles têm sim que adaptar esses locais às minhas necessidades. Já o transporte coletivo está um pouquinho melhor. Eu por exemplo já fiquei mais ou menos 1 hora 1 ½ no ponto esperando o ônibus, mas as empresas estão se rendendo e colocando mais veículos adaptados nas suas linhas. A relutância em colocar esses veículos é o custo mais elevado. Mas se depender do transporte público para fazer toda a rotina de treino que faço hoje, a pessoa vai penar para treinar.
Este texto foi escrito por: Carlos Roberto Oliveira