
Fernanda Keller é uma das precursoras na briga pela premiação igual (foto: Fernanda Paradizo)
Em pleno século XXI, com o grande número de mulheres que se inseriram no mercado de trabalho, que até então era exclusivo para homens, ainda existem certas diferenças. Algumas competições insistem em oferecer valores menores para o tal sexo frágil; confira o depoimento de atletas e organizadores de prova sobre esse assunto.
São Paulo – Ainda hoje existe essa discriminação entre homens e mulheres, não é em todo lugar, mas em alguns lugares da Bahia, por exemplo, ainda há, comenta a atleta Marily dos Santos. Porém, em São Paulo esse problema também acontece como na São Silveira de Barueri, uma das seletivas para a tradicional São Silvestre.
Corri uma vez essa prova, que teve premiação de R$ 5.000 para os homens e R$ 1.500 para as mulheres, lamenta Marily. Nós tivemos o mesmo esforço que os homens e merecíamos a mesma coisa, completa a atleta, que diz não participar mais de eventos que tem essa prática.
Oswaldo Felippe Júnior, da TH5 eventos, se diz totalmente contra essa discriminação. Apesar do número de mulheres em provas ser menor do que o de homens, sempre premiamos igual. Eu acho justo, não dá para fazer essa diferenciação, diz o responsável pelo Circuito das Praias, Maratona de Revezamento do Guarujá, circuito Biathlon Series, entre outros.
Mesma visão – Já José João da Silva, bicampeão da São Silvestre e responsável pela JJS Eventos, partilha da mesma opinião. Nós seguimos a norma de igualdade para todos, que é aplicada em nível mundial, que a IAAF utiliza. Ou premiamos igual ou não damos nada, ressalta. Infelizmente ainda existem algumas corridas que fazem essa diferenciação, não as de expressão mundial, mas as menores.
Apesar de a participação feminina não ser tão grande quanto a masculina, cada mulher representa mais de três homens, pois ela, num certo momento da vida, leva uma criança. Elas deveriam até receber mais, brinca Zé João.
Entre as triathletas, Carla Moreno afirma que não chegou a pegar a época em que havia premiação diferenciada. Hoje as competições pagam a mesma coisa, pelo menos para o primeiro lugar, mas o que acontece às vezes, como no Long Distance, é ter premiação para três mulheres e cinco homens. Isso acontece, segundo ela, pois o número de mulheres é muito menor, às vezes são 50 concorrentes do sexo masculino contra 10 do sexo feminino.
O número de mulheres ainda é pequeno, mas vem crescendo e acredito que isso reflete nas academias, por exemplo. Antigamente academia era coisa para homens e hoje em dia tem muito mais mulheres treinando.
Uma das atletas que durante muito tempo brigou com os organizadores para que houvesse premiações iguais para ambos os sexos foi Fernanda Keller. Ela compete em provas de Ironman há 20 anos e conta que quando chegava num evento onde a premiação era diferente, ela arrumava as malas e ia embora.
Eu me espelhei em atletas de fora do Brasil, que faziam a mesma coisa e sempre levantavam o esporte. Não tem porque ser diferente, não há menos brilhantismo no esporte para mulher, pelo contrário, ela dá um charme ao esporte, comenta a triathleta.
Fernanda conta que uma vez foi participar de uma prova no Espírito Santo e, ao chegar, os organizadores já avisaram que a premiação seria menor, pois havia menos mulheres do que homens inscritos. Eu disse para eles ficarem com os homens, que eu ia embora. Naquele momento nenhuma mulher ficou do meu lado, pois como eu era favorita, queriam que eu desistisse. Depois, quando eu mudei a premiação, todas me agradeceram.
Apesar de brigar por valores iguais na hora de receber um prêmio, Fernanda diz não gostar quando a mulher tenta competir de igual para igual com os homens, tanto na forma de pensar, como na hora de competir. A mulher nunca vai ser igual, ela não tem que competir. Ela perde a razão, porque tem um jeito de pensar feminino que nunca vai ser igual ao do homem, além de ter uma fisiologia diferente.
Diferença ainda continua – Já faz alguns anos que as premiações foram igualadas nas competições oficiais, mas algumas pessoas ainda insistem em organizar eventos com premiações diferenciadas. Nesse caso, Keller diz que as atletas precisam se mobilizar e promover um boicote para tentar mudar essa questão.
Não tem porque ser diferente, a gente pedala, nada e corre o mesmo percurso e ainda por cima tem premiação menor, não é justo. Ainda por cima nós é que carregamos os homens na barriga, temos que trabalhar, ser atleta, sou fã das meninas. Não que sejamos melhores, mas sou fã da força da mulher, deixa o aviso.
Este texto foi escrito por: Alexandre Koda