Triathlon · 14 fev, 2004
É assim que Carla Moreno começa a ficar conhecida no circuito internacional e pretende aumentar a fama com ouro no Pan e uma medalha olímpica
Pronta para buscar o ouro. Depois de conquistar a medalha de prata em Winnipeg/99, Carla Moreno vai correr, nadar e pedalar para chegar em primeiro nos Jogos Pan-Americanos, em agosto, em Santo Domingo, sua segunda participação no evento. A República Dominicana é apenas uma escala. A atleta, que tem lugar cativo na Seleção Brasileira desde 99, tem como destino Atenas 2004. Treina duro para atingir sua grande meta: uma medalha olímpica. Melhor brasileira qualificada no ranking mundial em 2002 (9º colocada), a brasileira voadora conta, nesta entrevista exclusiva para SuperAção, um pouco de sua trajetória vitoriosa, planos para a carreira e confirma mais uma vez que o sucesso é conseqüência de muita dedicação e determinação.
Você foi a melhor brasileira do ranking da ITU em 2002, o que espera para este ano?
A posição tem variado bastante, hoje (última semana de maio) estou em 10º lugar. O mais importante são os resultados e não o ranking, pois existem várias provas toda semana e você cai e sobe como se estivesse pulando numa cama elástica. Me preocupo com os resultados. Os pontos serão conseqüência.
E quais são os planos para a carreira?
Dentro do triathlon, hoje, só tenho como objetivo uma medalha nos Jogos Olímpicos. Se vai ser ano que vem, se vai ser em 2008, não sei. Estou lutando com todas as minhas forças.
Como estão suas expectativas em relação ao Pan?
Venho me dedicando ao máximo para estar no pódio, mas não gosto de falar sobre resultado no ar. O triathlon é uma prova que depende de equipamento e, dessa forma, tudo pode acontecer. Não podemos menosprezar ninguém e lutar muito.
A disputa em Santo Domingo promete ser acirrada?
Todas as competidoras são fortes, pois são as melhores de cada país. Mas, sem dúvida, a briga entre brasileiras, americanas e canadenses vai ser legal.
Você se inspira em alguém, tem um ídolo?
Eternamente Ayrton Senna. Cada vez mais me encanto com os projetos que sua irmã (Viviane) vem realizando. Sempre estou admirando a performance alheia, todos aqueles que lutam e conseguem. E tenho que dizer que às vezes a minha também.
Como é a sua rotina?
Minha rotina é treinar, treinar e treinar. Mas, nas minhas horas livres, gosto de estar em casa com meu marido. Minha família sempre faz churrasco. Eu adoro! E gosto de fazer compras.
Como é a sua preparação?
Não tenho planilha, quilômetros e horas. Treino geralmente em três períodos, e também faço massagem e alongamentos. Quando tenho tempo, faço aulas de postura, pois sou um ponto de interrogação, preciso melhorar. Acho que o treino tem que ser de acordo com a capacidade de cada indivíduo. O meu treino só seria bom para o meu clone. O meu técnico varia muito e nem sempre faço os três esportes no mesmo dia ou, às vezes, faço duas vezes a mesma modalidade.
Quem compõe sua equipe de trabalho?
Meu técnico é o Cali, tenho um fisioterapeuta que é o Marco Aurélio, meu massagista é o Paulo (meu marido, também fisioterapeuta), e um médico que é o Dr. Oscar Naranjo, que cuida de toda alimentação e suplementação.
Quais são os cuidados com alimentação?
O Dr. Oscar é quem fez meu Fusca virar Formula 1. Estou ainda na Formula 3.000, na F-1 chego ano que vem. Faço uma dieta balanceada, pois meu médico me conhece e adaptou o que meu organismo absorve melhor. Não adianta eu falar que bebo de 3 a 4 litros de leite por dia, quem conseguiria? Eu e o bezerro. Não consumo o que realmente não gosto, não aprecio frituras, exceto banana à milanesa, não gosto de refrigerante, de cerveja, em compensação não fico sem doce nenhum dia, sou uma pessoa muito elétrica, como chocolate umas quatro vezes. Também como sanduíche quando tenho vontade. Não sou escrava, mas tenho consciência e como o que me faz bem. Não como sem vontade, a gula é o problema.
O que a fez se dedicar ao triathlon?
Eu era nadadora e comecei a praticar corrida de rua pra sair da rotina. Aí foi só comprar uma bike. Comecei em 1996. Não fui nenhum fenômeno na natação (disputava provas de 100m e 200m peito e 400 medley), senão não estaria no triathlon. Adoro natação de paixão, passo horas assistindo uma prova pela TV.
Qual é seu ponto forte na modalidade?
Acho que sou média nos três esportes e quero melhorar nos três. Tudo depende da prova, você precisa ter natação de primeiro pelotão, ciclismo para se manter e corrida pra decidir.
Qual foi a prova mais difícil que você já disputou?
A etapa da World Cup de Nice, na França. Me lembro que o ciclismo tinha uma serra e era super difícil. Quando reconheci o percurso, um dia antes, chorava a noite de tanto nervoso, achava que não conseguiria. Antes da prova, o técnico australiano (parceiro do Cali) que estava me acompanhando, chegou e disse que esperava algo de bom porque confiava em mim. Senti, naquele instante, minutos antes da largada, a responsabilidade. Na primeira volta do ciclismo perdi minha garrafa de água, ou seja, fiz 40km de bike no seco. Na corrida serviam água com gás. Conclusão: não podia tomar se não vomitaria. Estava mal, em 8º lugar quando faltavam duas voltas de corrida, 2 ou 3 km para terminar, e o técnico já estava cansado de gritar, bravo, e eu cansada, com sede. Teve uma hora que ele desistiu. Eu estava morta, mas pensei, vou provar que não desisto. Dei um sprint, a galera levantou, e as pessoas pensavam que tinha tomado algo, porque o narrador dizia que eu estava voando e não correndo, brasileira voadora! Cheguei em segundo lugar e chorei muito ao ver a bandeira do Brasil no pódio. Ficaram dois ensinamentos: quando tudo parecer impossível, se não chegou o final, há sempre esperança e, a dor física pode ser superada quando estamos felizes, ou seja, aquela dor terrível, a sede, foram superadas ao pendurar a medalha no pescoço e ver a Bandeira Nacional no alto. E ainda pude surpreender meu técnico, que achava que tudo estava perdido.
Você nunca participou de Ironman, tem planos para este tipo de competição?
Não sei se vou participar. Acho que tenho que ter um objetivo de cada vez. Se não, você se perde no meio do caminho. Gostaria de ter participado dos 10km de pista para tentar o índice dos Jogos Pan-Americanos, mas meu técnico não deixou. Então, entendi que estava errada, o triathlon já é, por natureza, um esporte que exige muito, portanto, é preciso de tempo para tudo.
Até quando você acredita ser possível competir em alto nível no triathlon?
Depende da cabeça do atleta. A Fernanda Keller, por exemplo, está com quase 40 anos e dá show no ironman. Tudo depende se o atleta vai ter paciência e condições físicas (muita lesão poderá levar a uma curta carreira). Na minha opinião, carreira é questão de objetivo. Se você alcançou sua meta, como vai pensar depois? Então entra a questão do tempo. Quando se tem uma motivação e um objetivo, se vai longe.
Entre as competidoras atuais, quem são suas maiores adversárias?
Quando dá a sirene, todas são iguais, quem cruzar a linha de chegada em primeiro é a melhor naquele dia. Nem sempre estamos bem sempre e ninguém é invencível. Por isso, não acredito em adversárias, sempre pode surgir alguém pra surpreender, então, ficar ligado é o melhor adversário.
Que dicas daria para quem sonha em ser campeã de triathlon?
Ser dedicado e estar preparado para sofrer. Do céu só cai chuva, raios, gelo!
Qual foi o momento mais importante da sua carreira?
Vai ser quando eu conquistar meu objetivo (uma medalha olímpica).
Você sempre demostrou ser bastante vaidosa...
Sou sempre cuidadosa. Gosto de olhar no espelho e me sentir bonita. Não gosto de ficar suja ou suada. Sempre estou cheirosa e bem arrumada. Não gosto de roupas frescurentas, mas gosto de ter meu estilo de vestir. Sou detalhista e observadora. Acho que isso é uma grande vantagem dentro do meu esporte. O detalhe faz a diferença.
E como é a Carla Moreno?
Sou uma pessoa feliz, que gosta muito de conversar e ajudar as pessoas. Meu maior defeito é querer tudo do meu jeito e gostar de resolver os meus problemas e dos outros logo.
Atletismo · 08 fev, 2004
Hudson de Souza curte o bom momento após a conquista histórica no Pan-Americano, mas trabalha muito para brigar por medalhas em Atenas.
As distâncias percorridas por Hudson Santos de Souza, do início da carreira na pista de concreto, em Brasília, até os dias de hoje, foram bem maiores e mais difíceis que enfrentar incansáveis africanos nos 1.500 metros, prova que é sua especialidade. Dono de duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, na República Dominicana, se tornou o primeiro atleta da história a chegar ao lugar mais alto do pódio nos 1.500 e 5.000 metros na competição continental. Feliz, sim. Satisfeito, não. Força de vontade é o que não falta ao atleta de 26 anos, que espera não só marcar presença, como fazer bonito na próxima Olimpíada, na Grécia em 2004. Tenho determinação desde pequeno. Quando quero fazer uma coisa, vou até o fim. E é com esse pensamento que o atleta se prepara para uma verdadeira bateria de treinamentos e viagens na busca da tão sonhada medalha olímpica.
Em novembro, Hudson desembarca em Cochabamba, na Bolívia, para mais de um mês de treinamento na altitude. Em 2004, vai participar do Mundial Indoor, na Europa, em fevereiro, e logo depois segue para uma temporada de treinos nos Estados Unidos. Serão mais de 25 provas antes da Olimpíada. Meu objetivo maior agora é correr atrás do índice. Para carimbar o passaporte para Atenas, o brasiliense precisa correr os 1.500m abaixo de 3min35, tempo do índice A da IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo). Neste ano, ele vem correndo na faixa de 3min36, fato que não o assusta, uma vez que tem como melhor marca 3min33.
Com os pés no chão, Hudson sabe que não vai ter moleza na temporada 2004. Com o destaque pela dupla conquista na República Dominicana, as cobranças por resultados tendem a aumentar. O pessoal acha que o Pan-Americano é uma Olimpíada, mas não se lembram que faltam quatro continentes, e são esses que atrapalham. Os atletas da Europa e o África são os que mais dificultam no atletismo, explica. Os africanos são um calo no pé de quem faz atletismo, brinca.
Mas nem sempre a briga de Hudson foi por tempo nos 1.500 metros. Ele começou no salto em altura, quando tinha 14 anos. Mas o grande diferencial na carreira ocorreu pelo incentivo dos pais. Já competindo, sentia na pele as dificuldades da falta de dinheiro para comprar tênis e bancar viagens. Não tinha dinheiro para nada. Pensou em trabalhar, mas os pais impediram, dizendo que deveria continuar no atletismo, pois seria um grande atleta para o Brasil. Meus pais acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Ainda falei que queria trabalhar, e eles disseram: não, não e não. Fique fazendo o esporte que é bem melhor pra você. Pô, eu até chorei. Chorei pra caramba, conta, emocionado. Com quase 16 anos, ele iria pegar a vaga de boy que era do irmão na Caixa Econômica Federal, empresa que hoje é sua patrocinadora.
Motivado a continuar no atletismo, permaneceu no salto em altura por um ano e meio até passar a treinar com João Sena. Com Sena, mudou de prova. Começou a correr os 800m e 1.500m. Nessa época, quando o atleta é juvenil, o cara vai mais pela distância, quer correr bem menos, lembra ele, referindo-se as provas de fundo. Suas primeiras importantes conquistas vieram aos 17 anos, quando o treinador já era outro: Adauto Domingues. Morando em São Paulo, longe da família, Hudson foi incorporando os 1.500 metros e começou a obter as conquistas que hoje o consagram. Logo estabeleceu o recorde juvenil sul-americano para a distância e ficou com o terceiro lugar no Pan-Americano da categoria. Após dois anos treinando com Domingues, foi para as mãos de Luiz Alberto de Oliveira, ex-técnico do campeão olímpico Joaquim Cruz, com quem está até hoje.
A fama nacional após os Jogos Pan-Americanos ainda é novidade na vida do atleta. Tanto, que tenta se acostumar com o assédio, a curiosidades das pessoas e a rotina de autógrafos em qualquer lugar que vá. Está muito recente, mas é uma coisa muito gostosa. Receber o carinho do público desse jeito é bem legal, explica.
Família - Muito apegado a família, Hudson lembra do carinho da mãe, que procurava sempre acompanhar os passos do filho. Minha mãe era minha fã número um. Tinha as gravações, fotos, tudinho, lembre o atleta, com saudades.
Protetor, recentemente trouxe o irmão mais novo para morar com ele, em Presidente Prudente. Meu pai e meu outro irmão trabalham e minha irmã fica um bom tempo na escola. Ele ficava sozinho em casa e tinha alguns amigos que não eram boa pinta. Poderiam acabar influenciando na vida dele, relata. Diego, hoje com 17 anos, também treina e, segundo o irmão coruja, promete muito. Ele está treinando 400m com barreiras. Daqui há três anos vai ser um grande atleta. O moleque é mais talento que eu.
Corre bem mais fácil e tem a passada mais larga, completa.
Influenciado pelos treinos cansativos são dois perídos por dia, sendo que descança apenas uma vez por mês Hudson não tem uma vida muito agitada fora das pistas. Ele se define como um cara tranquilo, que gosta muito do aconchego do lar. Não gosto muito de balada. Curto mais ir ao shopping, sair para jantar, ir ao cinema. Também gosto de ir nos parques, detalha.
Consciente de que o atletismo não é para sempre, planeja completar os estudos. Estou querendo cursar Educação Física ano que vem, mas não sei se vai dar. Vou me dedicar mais à Olímpiada e deixar para o outro ano, mas é bem importante terminar os estudos, completa.
Corridas de Rua · 07 fev, 2004
Quando se está na infância, nossa maior preocupação é com as brincadeiras. Nesse momento da vida, o fato de não termos compromissos, de não se preocupar com um futuro eminente, faz com que tudo seja uma forma de diversão. Assim, brincando, nascem as estrelas. Assim, brincando, nasceu Valdenor dos Santos Pereira. Natural de São Raimundo Nonato, no Piauí, Valdenor deu seus primeiros piques durante as aulas de educação física, e não parou mais. São 18 anos colecionando conquistas. Mas tanto sucesso e reconhecimento não passavam pela cabeça do atleta. No início era tudo uma grande brincadeira. O professor sempre acreditava no meu potencial. Eu não acreditava que tinha essa capacidade.
Valdenor é mais um batalhador do atletismo. De família pobre, lembra das dificuldades que marcaram o começo da carreira, que hoje é uma das mais representativas entre os atletas em atividade. Dificuldades como falta de materiais, de apoio e de oportunidade, felizmente ficaram para trás. Sou uma pessoa realizada no esporte. O que eu consegui, dá para sobreviver. Entre milhões, sou um privilegiado, esclarece. Mas não só o dinheiro conquistado ao longo da carreira e a possibilidade de ser um atleta patrocinado Valdenor é atleta do Cruzeiro é que alegram o atleta. O fato de ser um ídolo e dar exemplos para outras pessoas deixa Valdenor envaidecido. É bom ter esse assédio. Quem não gosta?, dispara.
Com um jeitão caseiro, Valdenor preza muito o lado família, que garante nunca ter abandonado. Fora das ruas e pistas, o atleta se define como uma pessoa simples, humilde, amante de plantas e animais. Valdenor vive em uma chácara, em Brasília, cercado de verde e tranqüilidade. Não sou só eu não. O Vanderlei (Cordeiro de Lima) também gosta desse estilo de vida, lembra.
No melhor de sua forma, garante que hoje treina menos e corre mais do que no início da carreira. Antes eu treinava muito por conta, explica. Esse treino mais light dos tempos atuais inclui dois períodos de corridas, três vezes na semana. Na parte da manhã (6h40) são 15 quilômetros e durante a tarde (15h) mais 10 quilômetros. Distâncias que são alteradas conforme a competição que participa.
Aos 33 anos de idade, engana-se quem pensa que Valdenor está parando. Vou continuar correndo pelo resto da minha vida. O esporte, para mim, vai ser eterno, enfatiza.
Eterno mesmo deve ser o fôlego de Valdenor. O atleta tem como foco, a disputa da maratona na Olimpíada de Atenas em 2004. Para conseguir tal objetivo, aguarda ansiosamente a confirmação de sua inscrição na maratona de Berlim, em setembro, na sua primeira investida para conseguir o índice olímpico.
Se depender da vontade, Valdenor já tem vaga garantida. E vários são os motivos para tanta expectativa por parte do atleta. Uma delas é que Valdenor já esteve muito próximo de disputar uma Olimpíada, a de Atlanta, em 1996, mas houve uma mudança nas regras para definir os representantes brasileiros nos jogos e o corredor, mesmo com o índice, ficou de fora. O outro motivo é a sua volta às maratonas. Em sua última prova, na Grécia, em 1997, sofreu uma grave lesão no músculo adutor da coxa, que o tirou das ruas por quase um ano. Fiquei seis meses parado. Voltei a correr após um ano. Nesse período, quase parei no esporte.
Com tudo isso, Valdenor esperar poder completar ainda mais o seu currículo de vitórias. Afinal, vencer uma prova olímpica é o único título que lhe falta na carreira.
Triathlon · 04 fev, 2004
Juraci Moreira luta contra contusões e má fase para reencontrar o caminho das vitórias rumo a Olimpíada
O esporte de alto rendimento é implacável. Se os resultados não aparecem, o atleta descobre rapidamente o que é cair do céu para o inferno. Os motivos para perda de rendimento, normalmente, começam com contusões. Os problemas físicos limitam o desempenho e a falta de confiança completa o quadro de má fase e jejum de vitórias O ano de 2003 tem sido marcado pela luta de Juraci Moreira Júnior para interromper esse círculo vicioso.
O triatleta de 24 anos sofre com contusões desde o início do ano, o que prejudicou seu desempenho no ranking mundial. Depois de terminar 2002 na 18º colocação, sendo o melhor brasileiro na lista, chega ao segundo semestre na 41º colocação (Leandro Macedo, em 20º, é o atleta nacional mais bem ranqueado). Não bastasse a insatisfação pela distância que se forma à sua frente no ranking, Juraci teme que os problemas atrapalhem seu principal objetivo: a Olimpíada de 2004. Isso porque o primeiro brasileiro na classificação da ITU garante vaga para Atenas sem necessidade de seletiva.
Juraci luta para dar a volta por cima e repetir o feito de Sydney, em 2000, quando foi o atleta mais jovem a disputar uma prova olímpica de triathlon. Paciência, perseverança e muito treino são algumas das armas necessárias para atingir o objetivo.
Uma das grandes decepções deste ano foi perder a vaga para os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. Além de sofrer com uma lesão na panturrilha do início do ano, o triatleta foi alvo da falta de sorte durante a seletiva. No trecho de ciclismo, o pneu estourou e ele acabou ficando de fora da briga pela vaga. É o segundo Pan que fico de fora. Em 99 (Winnipeg), não tive tempo para me classificar. Agora que tinha condições, aconteceu tudo isso, conta.
Para fugir do Pan, partiu para duas etapas da Copa do Mundo, mas não as completou. Buscando uma maneira de melhorar os resultados, foi treinar em San Diego (EUA), considerada o berço e capital do triathlon. Logo no primeiro dia, uma torção no tornozelo causou pequenas rupturas nos ligamentos, o que o deixou sem correr por 25 dias.
Mesmo com os inúmeros problemas, não desanimou e foi disputar a etapa de Nova Iorque. Precisava completar uma prova para ganhar mais confiança. E seguindo na linha que desgraça pouca é bobagem, o mau tempo no Rio Hudson fez com que a organização substituísse o trecho de natação por mais um trecho de 5km de corrida. Nessa, o meu técnico fala: Vamos na igreja nos benzer, brinca Moreira. Mas o fato de ter que correr mais que o previsto, mesmo após a lesão, não desanimou Juraci, que finalmente pode completar uma etapa, chegando na 29º colocação entre 37 inscritos na categoria elite.
Se os resultados de 2003 são para se esquecer, a rápida ascensão no esporte não pode ser deixada de lado. Poucos sabem que em 1998, quando foi campeão brasileiro juvenil, Juraci cruzou a linha de chega à frente dos profissionais. Deveria ter sido o atleta mais jovem a ganhar o título. Deveria. Ganhou, mas não levou em função da idade. O fato é que depois do feito do então garoto, a regra foi alterada, sendo possível que um juvenil seja campeão nacional adulto.
Natural de Curitiba, no Paraná, Juraci deu seus primeiros passos, ou melhor, braçadas no esporte aos 9 anos, incentivado pelo pai, praticante da modalidade. Empolgado, aos 11 anos queria treinar mais forte, já motivado pelo espírito de competição. No clube onde nadava, teve contato com alguns triatletas, entre eles Luís Catta Preta. Convidado a praticar a nova modalidade, participou de um Biathlon, quando estava prestes a completar 14 anos, e venceu na categoria.
O primeiro triathlon foi no ano de 1994, no Troféu Brasil, em Santos, onde terminou na 5º colocação Na categoria. O resultado o motivou ainda mais, uma vez que estava preparado para completar a prova em 1h10 e conseguiu fazer um tempo cinco minutos melhor. Agora, não poderia parar mais. Mas surgiu um pequeno problema: não tinha bicicleta. Como o primeiro incentivo normalmente vem de casa, recebeu da mãe US$ 400 para adquirir o equipamento. Para conseguir o objeto, Juraci foi ao Paraguai, junto com um colega muambeiro de seu irmão para trazer a tão aguardada bicicleta.
Aquilo era uma coisa que eu queria. Meus pais me incentivaram na medida certa. Tudo ocorreu no meu tempo, lembra. Na verdade, o triatleta reclama da superexigência de alguns pais, que querem ver seus filhos campeões, mas na verdade acabam atrapalhando. É tanta pressão, que o filho acaba fazendo aquilo por obrigação. Não pode ser assim. Cada um tem o seu tempo, analisa.
Tempo que hoje é escasso. Para manter o fôlego durante as inúmeras competições, o triatleta treina todos os dias, em dois períodos, com uma média diária de cinco horas. Por semana, são de 20km a 25km de natação, 50km a 70km de corrida e nada menos que 300km pedalando. Isso sem contar os alongamentos e as sessões de fisioterapia, que vem se submetendo devido a uma lesão no tornozelo.
Tudo é acompanhado de perto por seu segundo pai, o técnico Homero Cachel. Treinando Juraci desde os tempos de natação, sabe, só de olhar, quando o pupilo não está bem. Ele sabe tudo sobre mim. Fico muito tempo com ele. Às vezes chego meio triste, com alguma coisa. Ele percebe na hora, relata o triatleta.
Para suportar o volume de treino, faz cinco refeições diárias. Gosta de produtos à base de mel e entre os treinos ingere barra energética ou cereais com iogurte. A nutricionista Lili Purin vem acompanhando a evolução física de Juraci e, com base no que está ocorrendo no circuito mundial, têm a missão de parar o crescimento do atleta. O Simon Whitfield, que é campeão olímpico, está cada vez mais magro. Eu era bem magrinho quando comecei e fui ficando mais forte. No circuito mundial, todo mundo está mais magro. Do ano passado para cá, engordei 2kg, sendo que 1,8kg de músculos, revelou.
Com tanta dedicação ao esporte, quase não sobra tempo para a família e até para o sono. Às vezes tiro o domingo de folga só para dormir até mais tarde, diz. Sobre a família, o fato de estar sempre treinando ou viajando, o afasta das coisas mais comuns, como o almoço em família ou aniversário de parentes. Sempre atarefado, procura reservar um tempo para a namorada, além de fazer coisas que gosta. Gosto de sair para jantar, ir ao cinema, ficar na cama dormindo ou assistindo tevê. Na verdade quero ficar descansando, pois os treinos são bem desgastantes, completa. Na verdade, descansa para treinar mais, competir melhor e voltar a vencer.
Perfil (até 2003):
Nome: Juraci Moreira Júnior
Idade: 24 anos
Natural de: Curitiba Paraná
Peso: 76kg
Altura: 1,89m
Tempo de triathlon: 10 anos
Patrocínio: Pão de Açúcar, Brasil Telecom e Sesi Paraná
Principais resultados:
Campeão brasileiro amador 1996 e 1997
Campeão brasileiro de 1998
Campeão sul-Americano 1998
Campeão do Pré-Olímpico do México 1999
8º Colocado na Copa do Mundo da Austrália 1999
10º Colocado na Copa do Mundo do México 1999
Vice-campeão brasileiro em 1999
Bicampeão do SESC Triathlon de Caiobá/PR 1999/2000
2º colocado no Pré-Olímpico do Brasil 2000
22º colocado nos Jogos Olímpicos de Sydney (atleta mais jovem da modalidade)
Bicampeão brasileiro de 2000/2001
2º colocado no Triathlon Internacional de Portugal 2001
5º colocado no Triathlon Internacional da Itália 2001
1º Brasileiro no Ranking Mundial de Triathlon 2001
3º lugar Mundial de Fast Triathlon - Equipe Brasil 2002
Vice-campeão Triathlon Internacional Uruguai 2002
Campeão do Triathlon Internacional da Guatemala 2002
7º Colocado na Copa do Mundo do Japão 2002
Campeão brasileiro de 2002.(quarto título de campeão brasileiro elite)
Medalha de ouro por equipe Jogos Sul-Americano Rio de Janeiro
3º lugar na Copa do Mundo do Japão 2002 (melhor resultado de um brasileiro desde 1998 em etapas da Copa do Mundo)
23º lugar no Ranking Mundial - dezembro 2002 (1º brasileiro)
Campeão Mundial de Fast Triathlon 2003 - por equipe
3º Colocado no Pré-Olímpico de Brasília-DF Brasil junho 2003.
Esporte Adaptado · 04 ago, 2003
Pauê supera o trauma de perder as duas pernas e dá lição de vida ao se dedicar ao triathlon
As piores situações podem ser superadas. Este pensamento otimista pode ser comprovado com o esforço e determinação de um triatleta amador, Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê. Nem o acidente que lhe tirou as duas pernas o fez desistir da paixão pelo esporte. Não há definição melhor para a garra do atleta de 21 anos do que a frase de seu amigo virtual (trocam e-mails regularmente), o rapper Gabriel Pensador: O garoto corre atrás. Nesta entrevista à Revista SuperAção, ele conta sua história e a importância do triathlon em sua vida.
Como era a sua vida antes do acidente?
Fui atropelado por uma locomotiva que transitava em uma área dentro de São Vicente, onde moro, e que estava desativada por motivos de segurança, falta de proteção (cerca) e por passar dentro de uma cidade. Era noite (por volta das 20h30), a locomotiva vinha apagada e tomei um grande susto. Não tive reação no momento. Foi muito rápido. Porém, lembro de tudo minuciosamente, desde o momento do ocorrido até a hora que cheguei ao hospital e fui medicado. O acidente ocorreu dia 8 de junho de 2000. Eu estava indo treinar em uma academia que fica do outro lado da quadra da minha casa, e para ter acesso precisa-se atravessar a linha férrea. Sempre fui adepto de atividades esportivas. Competia no surfe e fazia um trabalho de musculação e natação em academia para preparação física. O triathlon entrou na minha vida após o acidente. Tudo aconteceu no auge da adolescência, aos 18 anos.
E como foi a sua recuperação?
Fiquei 58 dias no hospital. Passei por fases muito complicadas, com crises de embolia asséptica, choque anafilático a alguns tipos de antibióticos, paradas cardíacas... Quando tudo parecia bem, de uma hora para outra meu estado se agravou, fiquei pior do que quando dei entrada no hospital. Foram fases difíceis. Para se ter uma idéia, era removido todos os dias do hospital onde estava para a Santa Casa de Santos para sessões de câmera hiperbárica, o que ajudou a conter a proliferação de bactérias alojadas na parte amputada. Além disso, tomava duas anestesias, uma geral e outra hack, diariamente, pois não suportar a dor. Foi a única medida que os médicos tiveram para amenizar meu sofrimento, me fazendo dormir nas sessões de centro cirúrgico diárias (limpeza do coto - membro amputado).
Qual a importância do esporte na sua recuperação?
Minha adaptação foi muita rápida. Um mês após a cirurgia de fechamento de coto, eu estava em cima das minhas novas pernas (próteses). Não estava andando ainda, mas acredito que esse fato foi o pontapé inicial da reabilitação psicológica. Fui, aos poucos, pegando confiança com o uso de algumas orteses (muletas, andador) e, em menos de três meses treinando, estava seguro e caminhando para essa nova etapa de vida. Com certeza o esporte entra como fator relevante, pois, sem dúvida, foi ele quem me deu a total confiança e capacidade para estar hoje levando uma vida normal. O esporte, de início a natação apenas, foi a alavanca que me projetou para que tivesse uma reabilitação com rapidez e sucesso. No começo, nadar era muito difícil, devido ao ponto de equilíbrio que havia mudado em meu corpo. Mas, aos poucos, tudo foi ficando melhor, me empolguei e voltei até a surfar.
Quando o triathlon entrou na sua vida?
Iniciei no triathlon em 2001, com os treinos, e no ano passado passei a competir. Na verdade, o que sempre foi minha dificuldade, e continua sendo, é a adaptação à corrida sobre as próteses (dores na região do coto), parte que faço na cadeira de rodas no triathlon. Comecei por dois motivos: qualidade de vida e por estar envolvido em um ambiente onde só existiam triatletas. Esse foi o fator mais certo para a escolha. Ver atletas como o Paulo Miyashiro, Fred Monteiro, Oscar Galindez sempre foi um estímulo. Depois, conheci atletas em condições parecidas as minhas, como o Rivaldo Martins. Além, é claro, do meu técnico, José Renato Borges, e da instituição educacional, a Unimonte, que sempre me apoiaram.
Em dois anos no triathlon, quais foram as mudanças nos seu treino?
Digamos que mudou bastante em relação à intensidade e constância. Antes, acredito que estava em situações delicadas, com a musculatura hipotrofiada. Ganhei condicionamento nadando e fazendo musculação. Meu segundo passo foi a adaptação em pedalar, mas foi fácil. Comecei na bicicleta ergométrica, passei a fazer aulas de bike indoor e, enfim, comecei a pedalar na pista. Com certeza não se pode esquecer do fator psicológico, que sempre foi muito trabalhado. Na fase que estava apenas nadando, meu técnico fazia questão que eu estivesse presente em todas provas aquáticas (competições de piscina, travessias em mar aberto), tanto é que fui ganhar confiança para competir depois de uma travessia de cerca de 8km que cortava a baia de Santos e São Vicente. Hoje, nado cerca de 3 km em piscina (6 vezes por semana); pedalo cerca de 40 a 70 km (pelo menos 2 vezes por semana) e corro (está começando agora a treinar na cadeira). Antes, eu fazia as provas andando, pelo menos umas três provas fiz andando, portanto, antes meu treinamento era andar bastante, que serviu para minha adaptação social.
Quais as principais dificuldades que enfrentou no esporte em função do acidente?
Adaptação nos encaixes de próteses. No começo tudo dói. Sofria muito para andar nas longas distâncias (acima de 10 km). Hoje, consigo numa boa. Como falei, tive dificuldades para nadar devido ao equilíbrio do corpo na água, a parte de trás tendia a afundar, já que não existia batida de perna.
Como foi a primeira prova de triathlon?
Foi em Santos, no Internacional de Triathlon, num revezamento, fiz o pedal com mais dois companheiros. Mas a sensação da estréia foi na primeira etapa do Troféu Brasil 2002. Foi inesquecível. Pude lembrar todos os momentos difíceis que havia passado em menos de dois anos e perceber o poder de Deus na minha vida. Pude me sentir especial naquele momento. Foi muito linda minha chegada, todos gritavam em coro meu nome e torciam, alguns até choraram. Pude ver que era tudo muito verdadeiro, pois a maioria que estava presente vivenciou meu acidente. A partir dali, fui tocado no coração e senti que esse era um dos meus deveres nessa vida, trazer alegria e garra para as pessoas.
O que o triathlon trouxe para a sua vida?
Me deu consciência de superação, fortalecimento e qualidade de vida. Enxergo o triathlon como uma modalidade igual as outras, que busca a integração corpo e mente do atleta. Fazer uma prova de triathlon não é só preparo físico, não. Tem que ter cabeça .
E quais os seus sonhos no esporte?
Obter resultados, futuramente, representando o Brasil. Tenho muita vontade de competir numa Paraolimpíada.
Como será sua preparação para atingir este objetivo?
Ainda estou estudando. Gostaria muito de ir caso o triathlon integrasse as Paraolimpíadas. Se for para ir em outra modalidade, precisaria estar pontuando no esporte específico, e isso eu não venho fazendo. O triathlon tem sido meu esporte competição. Conversei com a canadense Lorene Hatelt, responsável pela integração das categorias no Mundial de Cancun e ela está brigando para que o triathlon integre as Paraolimpíadas. No momento existem 10 países que participam do Mundial, precisariam de no mínimo 24. Mas estou sem pressa, a hora que vier, estarei mais experiente e preparado.
Como foi a participação no Mundial?
Obtive o primeiro lugar na categoria amputado bilateral abaixo do joelho. Porém, a competição acabou sendo com outros tipos de deficientes para que houvesse uma motivação. Completei a prova em 2h46min33, com o tempo de natação de 30min19, bike em 1h24min10 e corrida para 46min36. Eu era o único na categoria amputado bilateral, mas existiam muitos outros atletas portadores de deficiência física. Acho que fui o quinto a sair da água e creio ter ficado entre os 10 primeiros entre mais de 80 atletas de todo mundo. Claro que minha amputação é muito mais complicada em termos de prática esportiva, por isso acredito que fui o único na minha categoria. No ciclismo, competia com atletas com amputação unilateral e ,sem dúvida, eram eles que me puxavam. Fiz um ciclismo bom, pois devido ao calor e a umidade do local, o tempo acabou se estendendo um pouco mais que o meu normal, mas isso aconteceu com todos. Tenho que fazer um agradecimento especial a Letícia Amorim, técnica de vôlei de praia da dupla olímpica Adriana Behar e Shelda. Foi ela quem me deu a passagem e estadia do mundial. Ela me conheceu no programa do Faustão.
Mesmo disputando na categoria deficientes, você tem deixado muitos atletas normais para trás.
Sim. Por exemplo, em Caiobá, no Paraná, cheguei na frente de 112 competidores que tinhas as duas pernas. Sempre disputo na categoria deficientes, mas lá não existe essa categoria, então, acabo tendo que competir com o pessoal da minha faixa etária (20-24 anos), a categoria mais forte do amador. Mesmo assim, esse ano cheguei na frente de cinco atletas da categoria.
Quem são seus ídolos?
No esporte, Ayrton Senna. E meu pai e minha mãe, eles sofreram mais que eu. So heróis por tudo que encararam.
Como é o apoio da família em relação ao esporte?
Eles me apoiam e muito, na verdade, em tudo. Tenho um irmão, o Bruno, o qual amo muito. Ele sofreu muito por mim e hoje é meu companheiro de treinos e da vida. Tenho alguns amigos que são muito importantes pra mim, sempre que possível estou em contato com eles, pois a amizade é difícil de encontrar.
E além do esporte, o que gosta de fazer nas horas livres?
Faço faculdade de Fisioterapia (2º ano), pretendo me especializar com reabilitação de amputados. Adoro surfar, namorar, sair para as baladas quando não há competições. Muitos abominam essa minha postura, mas acredito que não preciso mostrar nada para ninguém, sou eu, do jeito que me sinto feliz. Me considero uma pessoa normal, esse papo que atleta não sai para a noitada é arcaico. Consigo separar as coisas e as responsabilidades. Hoje sou uma pessoa equilibrada e amadurecida.
Quais provas irá disputar este ano e qual é a sua meta para esta temporada?
Pretendo fazer todas as provas do Troféu Brasil, algumas do Pré-Olímpico, falta conversar melhor com o Carlinhos Froes (presidente Cbtri) e Pan-Americano e Mundial. Sem dúvida, a meta é o Mundial, etapa que tem maior importância para qualquer atleta.
Perfil:
Corridas de Rua · 04 abr, 2003
Ninguem segura segura esse garoto! Franck Caldeira de Almeida deixa rastro de vitórias como juvenil e estréia na categoria adulta com fome de vitórias.
A natureza é composta de ciclos. Existem em todas os níveis da vida. No esporte não é diferente. De tempos em tempos uma geração de atletas aparece para ocupar o espaço de seus antecessores. O atletismo nacional começa a viver uma dessas fases com Franck Caldeira de Almeida. Aos 19 anos, foi o segundo melhor brasileiro na Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro 2002. Grande resultado, que ganha maior proporção se lavado em conta o fato de o atleta ainda ser juvenil na época.
O mineiro Franck é considerado uma das promessas do atletismo nacional. Há 4 anos no esporte, faz em 2003 a primeira temporada como adulto. Como juvenil é recordista do Estado do Rio de Janeiro nos 10 mil metros pista, com o tempo de 29min47, campeão brasileiro, sul-americano e pan-americano da mesma prova em 2001. Ano passado, foi terceiro colocado na Prova de 10km do Brasil, campeão dos 10 km da Corrida dos Fuzileiros Navais e dos 9,3 km da Corrida dos Correios. Ainda na retrospectiva de 2002 está o quarto lugar na Corrida de Reis de São Caetano 12 km, a medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos (Belém/Pará), além do quinto lugar na Meia Maratona do Rio, sendo segundo melhor brasileiro.
A fase juvenil ficou para trás. Franck irá brigar por espaço entre os melhores. Para a temporada 2003, a qual o mineiro começou com a conquista do título da Corrida de São Sebastião (10 km), as metas são o índice para os 10 mil no Pan-Americano e um pódio na Meia Maratona do Rio de Janeiro. Mesmo sabendo que o prazo para conseguir uma vaga no Pan está expirando, Franck se mostra confiante. Sei que está um pouco em cima da hora, faltam alguns meses apenas para a competição, mas vou me empenhar ao máximo e se estiver preparado para encarar este desafio vou conseguir uma vaga. O técnico Henrique Viana confirma o desejo de ver o pupilo na República Dominicana, em agosto. Para isto é necessário um treino de alto nível de altitude para conseguir o índice nos 10 mil metros.
O novato planeja, a médio prazo, conquistar um título da São Silvestre. Mas afirma ser necessário adquirir mais experiência antes de enfrentar o desafio. E com paciência e muito trabalho acredita que alcançará os maiores sonhos como esportista: se manter entre os melhores corredores do Brasil, conquistar uma medalha olímpica e pan-americana. Hoje com 20 anos, mostra maturidade, sem deixar de lado a postura humilde de sempre estar disposto a aprender e evoluir.
Rapidez - Enquanto o técnico Henrique Viana projeta para Franck uma preparação para disputar a maratona no Pan de 2007, no Rio de Janeiro, o atleta prefere esperar. O Henrique pensa na maratona para 2007. Quero aproveitar mais minha velocidade até os 25, 27 anos, para depois disputar maratonas. Quero desfrutar mais tempo da minha especialidade, os 10 mil metros. Mas vamos combinando cada meta a ser atingida e até 2007 temos um longo percurso.
Como a maioria dos garotos brasileiros, Franck tentou ser jogador de futebol, mas quando percebeu que aquela não era a modalidade ideal para seu talento, aproveitou o incentivo do irmão e partiu para a corrida. Sempre tive o sonho de ser esportista, mas quando treinava futebol sabia que aquela não era a minha praia. Então, aos 16 anos, resolvi deixar os campos e por influência do meu irmão Paulo César, que corria como atleta amador, comecei. Quando corri pela primeira vez senti que tinha jeito.
O atleta disputou a primeira prova na cidade em que nasceu, Sete Lagoas. Terminou em quinto na competição de 12km. Logo depois foi campeão juvenil da Meia Maratona de Belo Horizonte, ficando em 25º na classificação geral. Com as boas performances nas provas da região, foi indicado para treinar em Petrópolis (RJ), na equipe Pé de Vento, a qual integra desde 2000. Resolveu mudar para a cidade serrana para estudar e treinar, onde mora atualmente num apartamento com mais cinco atletas.
Henrique Viana não economiza elogios ao atleta que, para ele, tem as características para ser um vencedor no atletismo. No dia 20 de abril de 2000 ele se mudou para Petrópolis tendo como melhores marcas 31min50 nos 10.000 metros e 15min50 nos 5.000 e vem melhorando rapidamente seus tempos (veja quadro). O Franck é muito dedicado e tem uma obsessão para resultados positivos. Ele, inclusive, se irrita quando corre mal e fica difícil aceitar uma classificação negativa. Correto, dedicado, responsável e talentoso, ele é o verdadeiro perfil de um campeão.
Mesmo com pouco tempo no atletismo, o caçula de uma família de sete irmãos afirma que o esporte realizou um sonho e trouxe benefícios para sua vida. Com o atletismo conheci um aeroporto. Minha primeira vez foi quando fui disputar o Sul-Americano de Cross Country, em Bogotá (Colômbia). O esporte me proporciona conhecer novas pessoas, ampliar minhas relações. Aprendi a me comunicar melhor, a conviver com outras pessoas e suprir a falta da minha família.
Segundo o corredor - que tem como inspiração Paul Tergat, que considera uma máquina de correr - o primeiro ano como adulto vai ser duro. Será um período de aprendizado. No ano passado tive algumas experiências, mas ainda falta correr de igual pra igual com os mais velhos. Nesta temporada também vou começar a treinar musculação para fortalecimento. Para estar melhor nas provas de meia maratona e 10 km.
Para Viana, o atleta não terá problemas na mudança de categoria. Correndo em Friburgo, em dezembro de 2002, ele chegou 1min5 à frente do segundo colocado, fato difícil de acontecer, normalmente, na categoria adulto. Ainda mais quando é feito por um juvenil. Na verdade, esta fase de transição, para ele, não existe. Ele está 10 anos à frente. Veja bem, os grandes atletas brasileiros têm entre 28 e 32 anos. Ele, com 20 anos, está conseguindo os mesmos resultados. No dia 20 de janeiro deste ano, na comemoração dos festejos de São Sebastião, na corrida do mesmo nome, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro, ele venceu nada mais que um dos ícones do atletismo das corridas de longa distância, Valdenor Pereira dos Santos, que ficou em segundo lugar com a marca de 30 minutos cravados, contra os 29min48 do Franck.
O treinamento do corredor é feito em dois períodos, sete dias por semana. Na fase de preparação para competição, faz uma média de 200 km por semana. O técnico explica que a preparação consiste em rodagens, corridas de curtas, médias e de longas distâncias iniciando com 10 km até 24 km, no máximo, alternando entre as semanas. Além disso, corridas intervaladas, fartleks e interval-trainings estão na rotina do atleta. A alimentação é balanceada, evitando a ingestão de doces e carne com gordura. Franck faz quatro refeições diárias e complementa a dieta com vitaminas.
O adolescente, que abriu mão das festas pelo esporte, confirma que vale a pena o sacrifício. Foi difícil me adaptar a rotina de atleta, tive que abrir mão da diversão à noite, que gostava muito, para treinar bem no dia seguinte, mas não me arrependo porque as conquistas compensam. O passado recente confirma que há capacidade para conquistas, a preparação é adequada e determinação para vencer não falta. Agora é esperar para ver a jovem promessa brasileira se tornar realidade e brilhar nos pódios nacionais e internacionais.
Confira como foi a evolução da performance do atleta nos 10.000m
Triathlon · 03 mar, 2003
Oscar Galindez nasceu na Argentina, mas mora em Santos, no litoral de São Paulo, onde treina para se consolidar como um dos principais triatletas do mundo.
Você diz ser seu maior adversário. Quais são os seus limites?
Oscar Galindez - Não tenho. Quem achar que tem limites não vence. Quem não desiste é o verdadeiro campeão, pois um dia consegue.
Quais os títulos que você persegue?
Oscar Galindez - Meu grande objetivo é um título do Ironman do Havaí. Já participei de uma Olimpíada, em 2000, e já realizei este sonho. É claro que se uma medalha vier será excelente, no entanto, minha participação em 2004 depende da Federação Argentina, do apoio para buscar pontos em provas internacionais. Quanto ao Ironman, quem está entre os 20 classificados tem chance de, ao longo dos anos, alcançar uma medalha. Acredito que entre 3 a 5 anos, disputando a competição e dentro desta faixa de classificação, o atleta chegue ao pódio. Pretendo ganhar mais experiência em 2003 e ir melhorando meus resultados até conseguir realizar meu objetivo.
Existe uma ordem de prioridades?
Oscar Galindez - O Ironman do Havaí, porque os outros, Pan-Americano de 2003 e Olimpíada, dependerão do calendário, das condições que terei para disputar e também da Federação Argentina. Minha prioridade é o Havaí.
Quais as condições que fizeram você trocar a Argentina pelo Brasil.
Oscar Galindez - Estou no Brasil há 7 anos, mas há 15 disputo provas aqui. Na época em que decidi mudar, tinha o patrocínio da Reebok, sendo metade da empresa na Argentina e a outra do Brasil. Depois passou a ser só brasileiro, então, como já vinha competindo, gostava do País e meu patrocinador estava aqui, resolvi mudar. Primeiro, morei no Rio de Janeiro e depois vim para Santos. Na época da minha mudança (95), o Brasil estava vivendo um bom momento no triathlon, respirava mais o esporte que a Argentina.
É difícil ser argentino no Brasil?
Oscar Galindez - Não. É difícil para quem carrega a rivalidade Brasil x Argentina. Existem as brincadeiras dos colegas, mas não passa disso. A minha relação no triathlon é como se fosse um jogador estrangeiro que vem para um clube brasileiro de futebol, vim para prestar um serviço, para colaborar com o esporte. Há quem goste ou não de mim, como também era na Argentina.
Por que você escolheu um brasileiro, Ayrton Senna, e não um argentino como ídolo?
Oscar Galindez - Escolhi Ayrton Senna como ídolo pelo que ele representa, sem pensar na nacionalidade. Ele é um exemplo fora e dentro das pistas. Tento me espelhar nele. Ele era simples, agressivo-controlado, sabia dominar uma competição. Digo agressivo não no sentido negativo, mas de uma pessoa corajosa, que sabia arriscar e fazer o melhor. Fora do esporte era tranqüilo e controlado. No triathlon sou assim, agressivo, estou sempre arriscando, ultrapassando, a melhor defesa é o ataque.
Com que freqüência você visita parentes na Argentina?
Oscar Galindez - Anualmente, pelo menos duas vezes por ano. Sempre passo Natal e Ano Novo na Argentina.
Como você avalia as crises nos seus dois países: Brasil e Argentina?
Oscar Galindez - Não confio mais em políticos. A crise que a Argentina está passando, o Brasil viveu algo parecido com o Collor, com a população tendo seu dinheiro preso e sem meios de sobreviver. A situação dos países da América Latina não é boa e nem estável. Perdi dinheiro na Argentina porque estava no banco.
Descreva sua rotina de treino.
Oscar Galindez - Realizo de 15 a 20 km de natação, 300 km de bike e 60 km de corrida por semana. Também faço musculação em dois ciclos, janeiro e junho, totalizando no ano o ideal 18 semanas. Por exemplo, para o Ironman enfatizei o trabalho de resistência e fortalecimento para evitar lesões e ganhar força. Treino em torno de 5 a 6 horas por dia, sempre de terça a domingo. Estou disputando menos provas por ano, no entanto com mais qualidade, porque caso contrário o físico não agüenta no Havaí.
Qual é o seu forte no triathlon?
Oscar Galindez - O ciclismo.
E o ponto fraco?
Oscar Galindez - Meu ponto fraco é a natação, portanto dou mais ênfase a essa modalidade nos treinos.
Como é composta sua equipe de trabalho?
Oscar Galindez - Meu técnico é o Marcelo Borges e minha esposa administra minha carreira e também faz o trabalho psicológico. Médico, só quando há lesões.
Você tem 5% de teor de gordura e 54% de músculos. É possível melhorar mais fisicamente?
Oscar Galindez - Acho que estes valores não variaram muito, apesar de não ter uma avaliação mais atual. Pode haver mudanças fisiológicas e físicas. No entanto, estes números não importam muito, o que vale é a performance.
Você disputa provas de várias distâncias, como a olímpica e o ironman. Qual o segredo para se dar bem nas duas?
Oscar Galindez - O segredo é a boa preparação. E quando você define seu objetivo uma preparação não anula a outra, pois tudo é planejado para atingir uma meta.
Se tivesse que optar, com qual distância ficaria?
Oscar Galindez - Atualmente com o Ironman. Se pudesse ficaria com as duas, pois existem provas olímpicas muito boas. Já o Ironman é o que me inspirou a fazer triathlon, esperei mais de 15 anos para participar da competição, tenho um respeito por ela. E a prova é a única que tem evoluído. Por exemplo, esperamos tanto por Sydney. Mesmo depois de se tornar olímpica a premiação não melhorou em outros eventos. Também não ajudou a atrair mais gente para o esporte. Pior, sem apoio os atletas têm que buscar pontos para a prova olímpica em eventos internacionais. No Ironman as inscrições são concorridas, todo mundo quer disputar.
Conte como foi seu início de carreira.
Oscar Galindez - Em 1985 assisti uma prova do Ironman do Havaí pela televisão e achava aqueles caras uns malucos, como conseguiam completar a prova? E aí me despertou a vontade de fazer triathlon. Antes já tinha praticado atletismo e basquete. Entrei no triathlon em 86, disputei a minha primeira prova em 8 de novembro, em Embalse (Córdoba), era o Campeonato Estadual e Nacional na categoria menores. Fiquei em quarto lugar. Aos 18 anos fui campeão argentino e por aí minha carreira foi evoluindo.
É verdade que seu passatempo é jogar videogame com o filho?
Oscar Galindez - Quando digo jogar videogame é para expressar que tento usar meu tempo livre para curtir meus filhos e mulher, tenho pouco tempo, pois treino demais. Gosto de sair de carro por aí viajando e conhecendo vários lugares. Minha rotina é treinar, minha mulher é quem administra minha casa e carreira.
Há quanto tempo é casado?
Oscar Galindez - Estou casado com a Lisa há 7 anos e tenho dois filhos. O Thomaz nasceu na Argentina e está com 6 anos. A Sofia, que nasceu no Brasil, está com 2 anos.
Você tem dominado o triathlon no Troféu Brasil e vai em busca do hexa. Você não tem adversários no Brasil?
Oscar Galindez - O nível brasileiro é muito bom e por isso vim morar aqui, para disputar de igual com os adversários. Me dou bem porque me preparo para as provas, tenho paixão pelo triathlon. Talento (genético) ajuda bastante.
Como está a carreira internacional. O ano de 2002 foi de bons resultados?
Oscar Galindez -Este ano, após a cirurgia no ombro, me recuperei bem e me consolidei em provas de longa distância, o que me deixa mais confiante para o Ironman.
Por que escolheu Santos para morar?
Oscar Galindez - Santos é a cidade que teve mais provas de triathlon no Brasil, digo no sentido de melhor nível. Tenho amigos na cidade e a proximidade de São Paulo, por causa dos patrocinadores, ajuda.
Fale de sua participação em Sydney e dos problemas que enfrentou.
Oscar Galindez -Avalio minha participação em Sydney como boa. Mesmo com problemas, fiquei somente há 235 atrás do primeiro colocado, o que me deu o 28º. A a prova olímpica é para nadador que corre bem, todo mundo vai no vácuo e na prova de bike tem muita sacanagem, os atletas não puxam e o ciclismo, que é o meu forte. Durante o ciclismo, eu estava num grupo de 30, então bateram na minha traseira e estouro um pneu, perdi quase 2 minutos para trocar e voltar a prova.
Você tem 31 anos. Acredita estar no auge da carreira? Até quando é possível competir em alto nível no triathlon?
Oscar Galindez - Acredito que estou no auge. Acho que é por estar no triathlon há quase 17 anos e pela experiência que adquiri e as conquistas que tenho. O limite para competir é até quando você não ganhar mais, o tempo é relativo de cada atleta.
O que falta para os sul-americanos conseguirem maiores resultados internacionais?
Oscar Galindez -Os sul-americanos têm que acreditar no potencial deles, não ajoelhar diante dos estrangeiros. E, é claro, precisam de mais apoio de patrocinadores, federações e organizações
O que americanos e australianos têm, que nós não temos?
Oscar Galindez - Nós temos raça, o que eles não têm. A situação do país também reflete no esporte, enquanto eles têm uma condição de acesso a bons materiais e apoio para treinar, os sul-americanos não têm, então, fica difícil igualar a preparação.
Alguns triatletas brasileiros já sofreram problemas como atropelamento. O que é preciso para se ter condições ideais de treino?
Oscar Galindez - As pessoas de carro têm que ter mais cuidado, pois nós corremos sozinhos e são os motoristas que devem estar atentos e dirigir com cautela. Geralmente temos que correr pelas ruas, pois não é toda cidade que tem lugar ideal para treinar.
Como é sua alimentação?
Oscar Galindez - Faço geralmente de 4 a 6 refeições, não sigo nenhuma dieta, pois acredito que cada atleta tem que encontrar sua alimentação ideal. Tento manter uma regra de 60% carboidrato, 20% proteína e o resto de gordura. Evito frituras e tento controlar doces, o que é um grande problema. Sou louco por doces. Também tomo multivitamínico e aminoácidos.
Que dicas dá para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Oscar Galindez -Acreditar no trabalho que está realizando, confiar na equipe de trabalho e ter paixão pelo esporte.
Qual é sua estratégia durante as provas?
Oscar Galindez - A melhor defesa é o ataque. Sempre tento arriscar, aguardando o momento certo,quando há vácuo. Quando não há, procuro sair bem no início, principalmente na bike, que é meu ponto forte.
Conte como é o projeto para desenvolver quadros de bike.
Oscar Galindez - Começou há 2 anos na Itália e estou trabalhando com um artesão italiano (Giovani Peliccioli, também produz para marca Fausto Coppi) tentando comercializar no Brasil. O quadro é feito sob medida, com a mesma qualidade dos utilizados pelos profissionais italianos de ciclismo, no entanto ele não tem um custo barato.
Ficha Técnica:
Nome: Oscar Saul Galindez.
Nacionalidade: Argentino.
Data de Nascimento: 05 de Junho de 1971.
Local de Nascimento: Rio Tercero - Córdoba Argentina.
Profissão: Triatleta Profissional.
Treinos e competições: Desde 1986
Altura: 1,75m.
Peso: 74 Kg.
Melhor tempo em 1 Km de corrida: 2min38.
Melhor tempo em 400 metros de natação: 4min51.
Melhor tempo em 5 Km de ciclismo: 6min.
VO2 MAX: 82 ml.Kg
Principais Conquistas:
Top Ten no Ranking Mundial de Triathlon: 1992, 1993, 1994, 1995, 1996
Campeão Mundial de Duatlhon: 1995, Cancun - México
Dez Vezes campeão Argentino de Triathlon
Hexacampeão Sul-Americano de Triatlhon
Pentacampeão Pan-Americano de Triathlon
Hexacampeão do Troféu Brasi
Hexacampeão do Triathlon Internacional de Santos.
Corridas de Rua · 19 fev, 2003
Com pouco mais de 4 anos de atletismo, Ednalva Laureano se transforma em uma das principais corredoras do Brasil
Pode-se dizer que existe uma Ednalva antes e depois do atletismo? Como elas são diferentes?
Ednalva - Existe. Antes eu era mais sofrida. Agora a situação está melhor, posso ajudar um pouco a minha família. Até parei de estudar na 2ª série porque achava que não precisava, pois não sairia da roça. Aprendi apenas a assinar o nome. Agora voltei para a escola, meu técnico e a esposa dele me incentivaram muito. Hoje tenho sonhos e uma profissão.
Você, algum dia, sonhou em ser esportista?
Ednalva - Uma vez. Aos 15 anos estava assistindo a São Silvestre com meus pais e irmãos (Ednalva tem 11 irmãos) e falei de brincadeira que um dia eles iam me ver correndo na TV, estaria na São Silvestre. Mas foi só isso. Nunca alimentei o sonho de ser esportista, no entanto aconteceu e hoje não troco o atletismo por nada.
O que é preciso para ser destaque no atletismo?
Ednalva - Precisa muito esforço e nunca desistir. Quem quer vencer como atleta tem que se sacrificar e se dedicar para depois conseguir as coisas boas, como os títulos, conhecer novos lugares, ter amigos. O que não pode é dar moleza. Treino todo dia, faça chuva ou sol, mesmo quando meu técnico não está comigo.
Como é o dia a dia da atleta/estudante Ednalva?
Ednalva - Treino de manhã, descanso e treino à tarde também. À noite vou pra escola, estou fazendo a 3ª e 4ª séries (supletivo). Quando tem competição e viagens, perco um pouco dos estudos, mas quando estou em Campina Grande tento recuperar. Consigo levar bem esporte e estudo.
Como está seu treino?
Ednalva - Treino todos os dias em dois períodos e faço musculação e massagem duas vezes por semana. De manhã faço 15 km e à tarde 12 km. No sábado e domingo só de manhã. O treino mais longo é no domingo, que faço 20 km, quando não tem competição. Mas o treino vai alterando, depende da fase de preparação.
Quais são os objetivos a Curto, médio e longo prazos?
Ednalva - Penso em melhorar meus treinos, a performance e disputar mais provas fora do Brasil em 2003. Meu sonho é estar em uma Olimpíada. Vou fazer de tudo pra conseguir o índice para os 10 mil. Disputo meia maratona, mas meu forte são os 10 mil. No próximo ano quero disputar o Troféu Brasil. Participei em 99. Em 2002 fiquei de fora por lesão.
O que é mais difícil: o trabalho na roça ou se preparar para ser atleta de alto nível?
Ednalva - Eu gosto da roça, quando estou no sítio ainda faço alguma coisa. Os dois trabalhos são difíceis, mas a recompensa no atletismo é bem melhor. Não desisto por nada do atletismo.
Como você se envolveu no atletismo?
Ednalva - Nunca pensei em ser corredora, sabia que ia continuar trabalhando na roça e vendendo frutas na feira para ajudar meus pais. Em 95, disputei uma gincana escolar, uma prova de 2km, e venci. As pessoas falavam que eu tinha jeito, mas para mim era só brincadeira. Depois, em 98, um amigo, o Gabriel Sanfoneiro, começou a me incentivar a treinar para virar atleta. Eu achava bonito o atletismo, mas nunca tinha tido oportunidade. Meu pai achava que não era para mim, que eu tinha que trabalhar na roça, pois já estava com 21 anos e velha para o esporte. Então, falei para o Gabriel que se ele encontrasse um técnico, iria treinar.
Ele conseguiu?
Ednalva - Conseguiu. Em janeiro de 98 comecei a treinar com o Josa (Moral). Saia três vezes por semana do sítio para vir até Campina Grande e nos outros dias trabalhava de manhã e treinava a tarde na roça. No domingo fazia feira para buscar dinheiro para as despesas. A minha primeira corrida foi em Bananeiras (6 km), depois de um mês que estava treinando. Venci e fiquei com mais vontade de treinar. Ao longo do tempo parei de ficar na feira e comecei a trabalhar em casa de família para ter mais tempo para os treinamentos. Depois de um ano e um mês correndo, vim morar com o meu treinador na cidade para poder me dedicar aos treinos, a academia e diminuir as despesas de viagem.
Os seus pais apoiaram?
Ednalva - O meu pai não aceitou o atletismo até um ano e seis meses de treino. Hoje ele gosta muito. Quando comecei a vencer ele viu que eu tinha chances. Depois de seis meses que comecei no esporte, participei da Corrida da Fogueira, em Campinas Grande, com as melhores atletas do Estado e fiquei em primeiro lugar. Comecei em pequenas provas na região, depois no estado, até chegar as grandes.
O quanto você acha que ter feito trabalho braçal te ajudou no esporte?
Ednalva - Ajudou bastante. Se morasse na cidade não estaria no atletismo. O povo da cidade tem facilidades que fazem desistir do atletismo. Muitas garotas começaram junto comigo, eram mais jovens e não continuaram porque preferiram passear a treinar. Eu não tinha opção: ou treinava ou voltava para a roça, onde sabia que não teria um futuro diferente.
Quais são seus sonhos?
Ednalva - Quero ter o meu lar, comprar uma casa para a minha mãe na cidade. No esporte sonho com uma medalha olímpica e um pódio na São Silvestre.
Como foi a conquista do título de atleta mais rápida do país (após vencer a corrida Tribuna FM, em Santos, considerada a mais rápida do calendário nacional, com o tempo de 33m16)?
Ednalva - Estava num período de treinamento bom, mas não esperava chegar em primeiro, já que em 2001 fui a 11ª colocada. Controlei o ritmo porque estava um dia muito quente e consegui render bem. Quando percebi estava liderando. Quero baixar meu tempo para 32 minutos (10km), sei que é difícil, mas aí, sim, vou achar que estou sendo uma das melhores do Brasil.
O quanto e como a sua vida mudou com o sucesso no esporte?
Ednalva - Sou a mesma pessoa de antes, gosto de brincar com todo mundo, só que agora vivo na cidade e me dedico exclusivamente ao atletismo. E tenho um pouco de dinheiro. Antes eu tinha que pedir emprestado para as minhas irmãs, que trabalham em casa de família, para poder viajar e comprar vitaminas. Agora eu as ajudo no que posso.
Qual é seu ponto forte como atleta?
Ednalva - Gosto do que faço, tenho muito incentivo, torcida e sempre quero fazer o melhor para deixar todo mundo feliz.
Na sua opinião o que falta para o Brasil dominar nas provas em nível internacional?
Ednalva - Falta apoio e estrutura para o atleta se preparar. Se tivéssemos estrutura igual a dos estrangeiros, teríamos grandes conquistas.
Você gosta da organização das corridas no Brasil? Falta alguma coisa?
Ednalva - Falta os organizadores valorizarem os atletas nacionais. Eles preferem bajular os estrangeiros do que melhorar a premiação para os brasileiros.
Ganhou muito dinheiro com o esporte? Como você investe?
Ednalva - O que ganhei até agora deu para bancar minhas despesas com competições, para me manter no atletismo. Só deu para comprar um sítio em Alagoa Nova, mas que não tem nada ainda, só a terra. Estou com patrocínio da Mizuno desde julho e da prefeitura de Campina Grande desde janeiro. Antes, eu tinha que ficar entre as cinco primeiras na maioria das competições para ganhar um dinheiro para a próxima prova, agora esta pressão está menor com ajuda dos patrocinadores.
Que conselho você dá para as mulheres que querem começar no esporte?
Ednalva - Que elas enfrentem os desafios com muita vontade, pois vale o sacrifício e é uma profissão que dá saúde e te proporciona boas relações.
O Brasil tem mais tradição e resultados no masculino que no feminino. Isso pode mudar?
Ednalva - Pode e já está mudando. Nós, mulheres, estamos vencendo grandes corridas e mostrando que podemos levar o Brasil mais longe.
Você faz algum tipo de preparação mental para competir?
Ednalva - Não faço nada especial. Assisto TV, converso com as amigas.
Como é a vida fora do esporte?
Ednalva - Gosto de ir para a casa dos meus pais, visitar as amigas e assistir filme em casa.
Como é a sua alimentação?
Ednalva - Balanceada como de todo atleta. Como bastante verduras e frutas. Complemento com BCA, carboidratos. Faço cinco refeições diárias e tomo bastante líquido.
Acredita que poderia ter hoje melhores resultados se tivesse tido mais facilidades na vida?
Ednalva - Sim. Se o apoio tivesse vindo antes, meus resultados aconteceriam mais cedo. Desde que entrei no atletismo me dediquei totalmente. Abri mão de tudo pelo esporte e compensou o fato de ter entrado tarde no esporte. Acho que enquanto tiver saúde vou estar correndo.
Como é a Ednalva Laureano mulher?
Ednalva - Não sou muito vaidosa. Não tenho namorado e sou bem simples, não gosto de estar muito arrumada. É raro usar batom, maquiagem, só em ocasiões especiais.
Corridas de Rua · 12 fev, 2003
Férias para os pés? Nem pensar... Aos 38 anos, Luiz Antonio dos Santos passa longe da aposentadoria. Superou problemas físicos e treina forte em busca de títulos.
A história é conhecida. Atleta de origem humilde que alcança o sucesso. Mas este personagem tem um capítulo diferente. Estreou tarde no mundo das corridas e depois de 13 anos de carreira nem pensa em aposentadoria. Aos 38 anos, o maratonista Luiz Antonio dos Santos sonha em conquistar uma medalha olímpica e espera virar mais uma página de sua história em 2003.
Não penso em aposentadoria porque ainda sinto que posso vencer maratonas. Quando começar a perceber que os meus tempos já não são mais competitivos, vou procurar outras categorias. Esta história de aposentadoria me incomoda, porque estou com 38 anos tenho que parar? Acho que não tem que avaliar número e sim a performance. Muitos começam cedo e param mais cedo. Tive um início tardio para a média e, portanto, vou passar a idade esperada. Tem que se avaliar o treinamento e os cuidados do atleta e não simplesmente a idade. Tenho condições de me manter na elite.
Como a maioria dos garotos brasileiros, Luiz Antonio sonhava ser um grande jogador de futebol. De vez em quando brincava de correr em provas na cidade natal, Volta Redonda, e se saia bem. Estava sempre entre os 10 primeiros. Aos 22 anos conheceu um corredor da equipe de Barra Mansa (RJ) e pediu para ir competir em uma prova no Rio de Janeiro. Naquela época ir conhecer o Rio de Janeiro era um sonho, pois a situação era difícil e não tinha dinheiro para nada. Então, ele me disse que se eu estivesse às 2h da manhã na rodoviária de Volta Redonda, podia ir junto. Saí a meia noite de casa, a pé, percorri uma distância de 6km e fui disputar a minha primeira prova (10 km - Volta do Maracanã). Da equipe de Barra Mansa eu fui o melhor (16º). Então comecei a treinar com este pessoal, mas continuei trabalhando na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), depois fui garçom, mas nunca deixei de competir.
Somente aos 25 anos, Luiz Antonio começou a treinar com orientação profissional e a buscar resultados no atletismo. Disputei uma prova de 5 mil, pista, no Rio, na qual fui 8º colocado, com 14min26. Lá conheci o técnico Henrique Viana e comecei a treinar em Petrópolis. E neste primeiro ano trabalhando juntos já fui 20º na São Silvestre.
Após quatros anos de treino, Luiz Antonio estreou em maratonas vencendo a prova de Blumenau, em 93, com o tempo de 2h12min15. Cheguei na maratona como uma conseqüência dos treinos. Eu via que tinha mais facilidade nas provas longas, tinha resistência e ritmo. Naquele mesmo ano, o brasileiro foi disputar uma das mais importantes competições internacionais, a Maratona de Chicago. E somou mais uma vitória. Estava certo, tinha facilidade nas provas longas e muitas outras conquistas vieram. Em 13 anos de carreira, o corredor considera o ano de 95 o melhor de sua história. Naquele ano fiz quatro maratonas, sendo que venci duas (São Paulo e Fukuoka) e fiquei em terceiro nas outras (Boston e Suécia), conquistando uma medalha de bronze no mundial.
O passado é glorioso, mas Luiz Antonio dos Santos prefere olhar para o futuro e trabalhar em busca de novas conquistas. Eu sempre assistia a São Silvestre e dizia que um dia ia correr aquela prova, mas nunca achei que ia chegar tão longe. Mesmo jogando futebol gostava de corrida e as coisas foram crescendo. Com certeza foi mais do que sonhei. Mas agora quero mais. Não digo que sou um atleta totalmente realizado. Ainda falta uma medalha olímpica e um pódio de São Silvestre. O maratonista participou da Olimpíada de Atlanta/96, na qual foi 10º colocado na maratona. É veterano na São Silvestre. Ele disputou mais de dez vezes a prova e tem como melhor resultado o sexto lugar.
Nos últimos dois anos, Luiz Antonio enfrentou problemas como a falta de patrocínio e lesões. Em 2000 teve uma pubalgia, que o deixou afastado do esporte por 7 meses. Depois ficou mais de um ano e meio sem apoio, treinando sozinho. Este é o momento de virada, vou deixar as tristezas dos últimos anos para trás e mostrar que posso buscar resultados. Com os problemas que passei, algumas pessoas chegaram a achar que eu tinha morrido, pois quando você não está bem as pessoas desaparecem, não tem mais aqueles tapinhas nas costas. Fui abandonado. Mesmo com as dificuldades nunca pensei em parar. Mesmo sem apoio, paguei meu tratamento, continuei mantendo a forma, treinando e disputei algumas provas, conseguindo bons resultados. Isso me motivava a continuar, pois sabia que tinha condições de dar a voltar por cima.
Desde julho de 2002 competindo pela equipe BM&F/Pão de Açúcar, Luiz Antonio vem reformulando sua preparação e agora conta com o treinamento de Ricardo DAngelo. O maratonista divide sua preparação entre Campinas (SP) e Taubaté (SP), na qual está programada uma maratona em abril. A prova ainda não está definida. Poderá ser na Holanda, Inglaterra ou EUA. O objetivo para 2003 é buscar índice para o Pan-Americano ou Mundial, para isto terá que correr abaixo de 2min12. Para DAngelo, o aspecto físico, o início tardio e a experiência contribuem para o prolongamento da carreira de Luiz Antonio. O ápice de um maratonista se dá entre os 32 e 36 anos e o Luiz, por ter começado mais tarde e apresentar um bom rendimento, tem chances de uma sobrevida no esporte.
E para garantir esta continuação, até a alimentação tem recebido atenção especial. O atleta está sob a orientação de uma nutricionista. Antes eu tinha uma alimentação saudável, mas não era muito preocupado com isso. Comia pouco. Agora faço quatro refeições diárias, tomo um café da manhã adequado, antes era só um cafezinho preto e ia treinar. Não é porque você tem conquistas que tem que se achar o melhor. Tem que estar sempre aprendendo e melhorando. Mesmo com tantas metas e dedicação à vida esportiva, o corredor ainda encontra tempo para relaxar. Nas horas livres gosta de visitar os pais em Volta Redonda, dançar e ouvir pagode.
Conselho - Para quem está começando no atletismo, o maratonista aconselha muita dedicação, não visar apenas o ganho financeiro e nunca desistir, pois o sacrifício um dia será recompensado. O corredor de 38 anos, que considera seus pontos fortes a disciplina e a persistência, afirma que o atletismo transformou sua vida. Eu vivia mal ou bem com um salário mínimo, não conhecia nada no mundo, ir para o Rio de Janeiro era um sonho. Hoje tenho melhores condições, posso proporcionar qualidade de vida aos meus filhos (quatro) e ainda ajudar a minha família. Por meio do esporte Luiz Antonio comprou três apartamentos, duas casas e um sítio. Até o ano passado tinha uma padaria, negócio que encerrou para se dedicar exclusivamente ao atletismo. Mesmo tendo a oportunidade de conhecer vários países, o cidadão de Volta Redonda sempre preferiu se manter concentrado nos hotéis. Então, como ele mesmo afirma, esteve em muitos locais, mas não os conheceu.
O atleta da BM&F/Pão de Açúcar acredita que o nível do atletismo brasileiro vem melhorando. No entanto, alerta para o prejuízo dos casos de doping. Temos que ter cuidado com o doping, pois acaba manchando a imagem dos corredores brasileiros. Mesmo aqueles que ganham com esforço, treino e preparação acabam sendo vistos como dopados. O atleta brasileiro tem muita qualidade e grande potencial, só precisa de mais apoio para se preparar. E o corredor é pessimista quanto ao futuro dos brasileiros nas provas de pista. Para ele a falta de estrutura e incentivo acarretará na diminuição de atletas nas pistas, já que acabam migrando para as ruas em função da remuneração e das melhores condições de treino.
Luiz Antonio alerta para a ganância da organização brasileira. No Brasil corrida virou um negócio, quanto mais dinheiro melhor. O atleta de elite acaba sem reconhecimento, se ele vai correr ou não, não faz tanta diferença. O que vale são os 15, 20 mil corredores pagando inscrição.
Luiz Antonio dos Santos:
Triathlon · 03 fev, 2003
Única latina com título mundial, Sandra Soldan faz da força mental um diferencial na modalidade
Sandra Soldan terminou 2002 como a única latino-americana com um título mundial reconhecido pela ITU (International Triathlon Union ) no aquathlon e melhor sul-americana no Mundial de Triathlon, com o nono lugar. Quem conhece a garra, talento, dedicação e disciplina dessa carioca prevê mais um ano de conquistas internacional em 2003, com os Jogos Pan-Americanos e o Mundial da Nova Zelândia. Se tudo correr de acordo com os planos de Sandra, estará no auge em 2004. Não por acaso, ano olímpico. O segredo para o sucesso em uma modalidade tão física quanto o triathlon? Além das qualidades citadas acima: cabeça. Ela sabe, como poucas, manter a concentração e a calma em momentos de grande tensão, comuns em disputas de alto nível. Se fosse preciso escolher uma palavra para definir Sandra Soldan, esta seria determinação.
Como é ser a única latina com título mundial?
Sandra Soldan: Fiquei muito feliz com resultado, pois mostrou que o trabalho que eu e meu técnico e marido, Carlos Eugênio Ferraro, o Nenem - estamos fazendo está no caminho certo. E espero que isso sirva de incentivo para outras meninas verem que não é impossível, basta treinar com dedicação.
O ano de 2002 foi das provas internacionais. O que te marcou?
SS: Bem, aconteceram coisa boas e ruins. Na Europa tive um pneu furado em Nice, um tombo em Portugal, além da minha bicicleta roubada em Nice. Tudo de bom veio no México (Puerto Vallarta), onde fiz uma prova impecável, conquistando a vitória, além do Mundial de Aquathlon e de Triathlon ,ambos em Cancun, onde fui campeã e nona colocada.
Quais as diferenças em competir no Brasil e no exterior?
SS: No Brasil encontramos poucas meninas, porém de grande qualidade. O triathlon feminino brasileiro está entre os 5 melhores do mundo. Nas provas internacionais uma das maiores dificuldades é a quantidade de mulheres largando junto, emparelhadas, lutando nos primeiros minutos por um espaço dentro da água. A dificuldade a seguir fica em fazer uma transição rápida para poder pegar um pelotão bom no ciclismo.
Você está perto da vaga olímpica. Quais são seus planos e projetos para 2003?
SS: Na verdade a busca pela vaga para 2004 começou em 2001 e seguiu com as provas internacionais do ano passado. Em 2003 os meus objetivos continuam sendo as provas internacionais, com maior foco nos Jogos Pan-Americanos, em agosto. Será uma temporada longa, que começa em janeiro e terminará em dezembro, com o Mundial na Nova Zelândia. Pessoalmente, meu objetivo continua sendo melhorar minha corrida para que consiga disputar de igual para igual com as melhores do mundo. Isso vem acontecendo gradualmente com um trabalho progressivo de treinamento visando o pico em 2004.
Como foi a conquista no Aquathlon e a participação no mundial de Triathlon?
SS: A conquista deste título foi muito comemorada, mas depois do mundial de triathlon! Escutar o hino nacional em um campeonato mundial foi muito emocionante. A prova de triathlon também foi muito boa, na qual fiz o quinto melhor tempo na corrida, com grandes adversárias. Na natação, tive um pequeno contratempo, pois recebi um "caldo" de uma australiana logo na primeira bóia, quando me encontrava no primeiro grupo. Isso certamente interferiu no meu resultado final, pois depois disso nadei os 1.200m que faltavam sozinha, entre o primeiro e o segundo pelotão. Mas isso faz parte. Por isso, o mais importante em uma prova de alto nível é a concentração, para que não haja erros em detalhes, e a determinação em dar o melhor de si até o último segundo, pois a prova só termina quando se cruza a linha de chegada.
Você terminou 2002 como a 15ª do ranking mundial. Dá para sonhar com o primeiro lugar?
SS: Isso é questão de tempo e determinação. A disciplina é minha maior virtude. Com isso e um pouco de sorte nas provas, para que não existam erros, e a continuação desta infra-estrutura de patrocinadores e CBTri (ela integra a equipe permanente formada pela entidade), chegamos lá.
Você vai fazer parte da Equipe Médica da ITU em 2003. Como será sua atuação?
SS: O meu maior interesse nisso é adquirir conhecimento. Falta informação para o triatleta brasileiro na área de medicina esportiva, principalmente em relação às drogas proibidas e suas doses máximas aceitáveis. Fora outros assuntos desta especialidade. E isso também faz parte de um aprendizado para minha futura carreira como médica esportiva (ela é formada em medicina pela UFRJ desde 1997).
Descreva sua rotina de treinamento.
SS: Acordo cedo todos os dias, às 6h30. O ciclismo é pela manhã, das 7h às 9h, mais ou menos. A natação é das 12h às 13h30. E a corrida é a tarde. Faço 5 sessões por semana de ciclismo, 5 de natação e 5 a 6 de corrida. Às segundas e quintas são os treinos de pista de corrida, mais intensos. Às quartas e sábados são os treinos mais duros de ciclismo.
Descreva como é sua alimentação
SS: Minha alimentação não segue nenhuma dieta xiita. Procuro evitar doces e frituras e dar prioridade às frutas, verduras, legumes e carboidratos. Como carne bovina pelo menos uma vez por semana, e procuro dar maior atenção à hidratação, pois é fundamental para o rendimento. Sempre carrego barras energéticas comigo, power bar de proteína ou de cereal, para os horários entre refeições. Sigo uma suplementação alimentar orientada por uma nutróloga, baseada em vitaminas, aminoácidos e minerais.
O que falta para o Brasil ser uma potência no triathlon?
SS: Agora não falta mais nada. A CBTri tem verba e estrutura para manter a equipe permanente, fora outros projetos para as categorias de base. Isso está nas mãos competentes do presidente Carlos Froes, que leva isso com muita responsabilidade. Agora é questão de tempo.
Quais seus pontos fortes e fracos no triathlon?
SS: Meu ponto forte é a natação, pois nadei pelo Flamengo por 15 anos. Ainda preciso melhorar o meu tempo nos 10 km de corrida.
Como você define Sandra Soldan?
SS: Uma pessoa movida por muita determinação e disciplina. A calma e a concentração nas provas de alto nível são minhas principais virtudes. Meu técnico e marido é o meu principal incentivador. O triathlon, hoje, é a minha vida. Sou uma pessoa feliz com o que eu faço. Tento aproveitar ao máximo cada momento.
O maior sonho esportivo é a medalha olímpica?
SS: Com certeza. Como é o sonho de todo atleta.
Como é sua vida fora do esporte. O que gosta de fazer para relaxar?
SS: Gosto de ir ao cinema, sair para comer em qualquer lugar, e praia. A música também se faz presente em qualquer lugar. Nos treinos longos, sempre levo um walkman. Leio principalmente nas viagens, que não são poucas. No dia-a-dia é jornal e tv.
Qual o segredo para se manter concentrado?
SS: Quanto maior o nível da prova, mais importante o preparo mental. A visualização da prova na semana que antecede, ou até mesmo na véspera, é de extrema importância. Desde o que se vai comer no café da manhã, a hora que vai acordar, o aquecimento, onde vai largar... tudo. Durante a prova procuro esvaziar a minha mente e ter uma única palavra nela: atitude. O resto é fazer força e estar concentrada na prova em toda a sua duração.
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