Oscar Galindez: argentino made in Brasil

Redação Webrun | Triathlon · 03 mar, 2003

Oscar Galindez: um dos melhores pedais do triathlon mundial (foto: Fernanda Paradizo)
Oscar Galindez: um dos melhores pedais do triathlon mundial (foto: Fernanda Paradizo)

Oscar Galindez nasceu na Argentina, mas mora em Santos, no litoral de São Paulo, onde treina para se consolidar como um dos principais triatletas do mundo.

Você diz ser seu maior adversário. Quais são os seus limites?
Oscar Galindez – Não tenho. Quem achar que tem limites não vence. Quem não desiste é o verdadeiro campeão, pois um dia consegue.

Quais os títulos que você persegue?
Oscar Galindez – Meu grande objetivo é um título do Ironman do Havaí. Já participei de uma Olimpíada, em 2000, e já realizei este sonho. É claro que se uma medalha vier será excelente, no entanto, minha participação em 2004 depende da Federação Argentina, do apoio para buscar pontos em provas internacionais. Quanto ao Ironman, quem está entre os 20 classificados tem chance de, ao longo dos anos, alcançar uma medalha. Acredito que entre 3 a 5 anos, disputando a competição e dentro desta faixa de classificação, o atleta chegue ao pódio. Pretendo ganhar mais experiência em 2003 e ir melhorando meus resultados até conseguir realizar meu objetivo.

Existe uma ordem de prioridades?
Oscar Galindez – O Ironman do Havaí, porque os outros, Pan-Americano de 2003 e Olimpíada, dependerão do calendário, das condições que terei para disputar e também da Federação Argentina. Minha prioridade é o Havaí.

Quais as condições que fizeram você trocar a Argentina pelo Brasil.
Oscar Galindez – Estou no Brasil há 7 anos, mas há 15 disputo provas aqui. Na época em que decidi mudar, tinha o patrocínio da Reebok, sendo metade da empresa na Argentina e a outra do Brasil. Depois passou a ser só brasileiro, então, como já vinha competindo, gostava do País e meu patrocinador estava aqui, resolvi mudar. Primeiro, morei no Rio de Janeiro e depois vim para Santos. Na época da minha mudança (95), o Brasil estava vivendo um bom momento no triathlon, respirava mais o esporte que a Argentina.

É difícil ser argentino no Brasil?
Oscar Galindez – Não. É difícil para quem carrega a rivalidade Brasil x Argentina. Existem as brincadeiras dos colegas, mas não passa disso. A minha relação no triathlon é como se fosse um jogador estrangeiro que vem para um clube brasileiro de futebol, vim para prestar um serviço, para colaborar com o esporte. Há quem goste ou não de mim, como também era na Argentina.

Por que você escolheu um brasileiro, Ayrton Senna, e não um argentino como ídolo?
Oscar Galindez – Escolhi Ayrton Senna como ídolo pelo que ele representa, sem pensar na nacionalidade. Ele é um exemplo fora e dentro das pistas. Tento me espelhar nele. Ele era simples, “agressivo-controlado”, sabia dominar uma competição. Digo agressivo não no sentido negativo, mas de uma pessoa corajosa, que sabia arriscar e fazer o melhor. Fora do esporte era tranqüilo e controlado. No triathlon sou assim, agressivo, estou sempre arriscando, ultrapassando, a melhor defesa é o ataque.

Com que freqüência você visita parentes na Argentina?
Oscar Galindez – Anualmente, pelo menos duas vezes por ano. Sempre passo Natal e Ano Novo na Argentina.

Como você avalia as crises nos seus dois países: Brasil e Argentina?
Oscar Galindez – Não confio mais em políticos. A crise que a Argentina está passando, o Brasil viveu algo parecido com o Collor, com a população tendo seu dinheiro preso e sem meios de sobreviver. A situação dos países da América Latina não é boa e nem estável. Perdi dinheiro na Argentina porque estava no banco.

Descreva sua rotina de treino.
Oscar Galindez – Realizo de 15 a 20 km de natação, 300 km de bike e 60 km de corrida por semana. Também faço musculação em dois ciclos, janeiro e junho, totalizando no ano o ideal 18 semanas. Por exemplo, para o Ironman enfatizei o trabalho de resistência e fortalecimento para evitar lesões e ganhar força. Treino em torno de 5 a 6 horas por dia, sempre de terça a domingo. Estou disputando menos provas por ano, no entanto com mais qualidade, porque caso contrário o físico não agüenta no Havaí.

Qual é o seu forte no triathlon?
Oscar Galindez – O ciclismo.

E o ponto fraco?
Oscar Galindez – Meu ponto fraco é a natação, portanto dou mais ênfase a essa modalidade nos treinos.

Como é composta sua equipe de trabalho?
Oscar Galindez – Meu técnico é o Marcelo Borges e minha esposa administra minha carreira e também faz o trabalho psicológico. Médico, só quando há lesões.

Você tem 5% de teor de gordura e 54% de músculos. É possível melhorar mais fisicamente?
Oscar Galindez – Acho que estes valores não variaram muito, apesar de não ter uma avaliação mais atual. Pode haver mudanças fisiológicas e físicas. No entanto, estes números não importam muito, o que vale é a performance.

Você disputa provas de várias distâncias, como a olímpica e o ironman. Qual o segredo para se dar bem nas duas?
Oscar Galindez – O segredo é a boa preparação. E quando você define seu objetivo uma preparação não anula a outra, pois tudo é planejado para atingir uma meta.

Se tivesse que optar, com qual distância ficaria?
Oscar Galindez – Atualmente com o Ironman. Se pudesse ficaria com as duas, pois existem provas olímpicas muito boas. Já o Ironman é o que me inspirou a fazer triathlon, esperei mais de 15 anos para participar da competição, tenho um respeito por ela. E a prova é a única que tem evoluído. Por exemplo, esperamos tanto por Sydney. Mesmo depois de se tornar olímpica a premiação não melhorou em outros eventos. Também não ajudou a atrair mais gente para o esporte. Pior, sem apoio os atletas têm que buscar pontos para a prova olímpica em eventos internacionais. No Ironman as inscrições são concorridas, todo mundo quer disputar.

Conte como foi seu início de carreira.
Oscar Galindez – Em 1985 assisti uma prova do Ironman do Havaí pela televisão e achava aqueles caras uns malucos, como conseguiam completar a prova? E aí me despertou a vontade de fazer triathlon. Antes já tinha praticado atletismo e basquete. Entrei no triathlon em 86, disputei a minha primeira prova em 8 de novembro, em Embalse (Córdoba), era o Campeonato Estadual e Nacional na categoria menores. Fiquei em quarto lugar. Aos 18 anos fui campeão argentino e por aí minha carreira foi evoluindo.

É verdade que seu passatempo é jogar videogame com o filho?
Oscar Galindez – Quando digo jogar videogame é para expressar que tento usar meu tempo livre para curtir meus filhos e mulher, tenho pouco tempo, pois treino demais. Gosto de sair de carro por aí viajando e conhecendo vários lugares. Minha rotina é treinar, minha mulher é quem administra minha casa e carreira.

Há quanto tempo é casado?
Oscar Galindez – Estou casado com a Lisa há 7 anos e tenho dois filhos. O Thomaz nasceu na Argentina e está com 6 anos. A Sofia, que nasceu no Brasil, está com 2 anos.

Você tem dominado o triathlon no Troféu Brasil e vai em busca do hexa. Você não tem adversários no Brasil?
Oscar Galindez – O nível brasileiro é muito bom e por isso vim morar aqui, para disputar de igual com os adversários. Me dou bem porque me preparo para as provas, tenho paixão pelo triathlon. Talento (genético) ajuda bastante.

Como está a carreira internacional. O ano de 2002 foi de bons resultados?
Oscar Galindez –Este ano, após a cirurgia no ombro, me recuperei bem e me consolidei em provas de longa distância, o que me deixa mais confiante para o Ironman.

Por que escolheu Santos para morar?
Oscar Galindez – Santos é a cidade que teve mais provas de triathlon no Brasil, digo no sentido de melhor nível. Tenho amigos na cidade e a proximidade de São Paulo, por causa dos patrocinadores, ajuda.

Fale de sua participação em Sydney e dos problemas que enfrentou.
Oscar Galindez –Avalio minha participação em Sydney como boa. Mesmo com problemas, fiquei somente há 2’35” atrás do primeiro colocado, o que me deu o 28º. A a prova olímpica é para nadador que corre bem, todo mundo vai no vácuo e na prova de bike tem muita sacanagem, os atletas não puxam e o ciclismo, que é o meu forte. Durante o ciclismo, eu estava num grupo de 30, então bateram na minha traseira e estouro um pneu, perdi quase 2 minutos para trocar e voltar a prova.

Você tem 31 anos. Acredita estar no auge da carreira? Até quando é possível competir em alto nível no triathlon?
Oscar Galindez – Acredito que estou no auge. Acho que é por estar no triathlon há quase 17 anos e pela experiência que adquiri e as conquistas que tenho. O limite para competir é até quando você não ganhar mais, o tempo é relativo de cada atleta.

O que falta para os sul-americanos conseguirem maiores resultados internacionais?
Oscar Galindez –Os sul-americanos têm que acreditar no potencial deles, não ajoelhar diante dos estrangeiros. E, é claro, precisam de mais apoio de patrocinadores, federações e organizações

O que americanos e australianos têm, que nós não temos?
Oscar Galindez – Nós temos raça, o que eles não têm. A situação do país também reflete no esporte, enquanto eles têm uma condição de acesso a bons materiais e apoio para treinar, os sul-americanos não têm, então, fica difícil igualar a preparação.

Alguns triatletas brasileiros já sofreram problemas como atropelamento. O que é preciso para se ter condições ideais de treino?
Oscar Galindez – As pessoas de carro têm que ter mais cuidado, pois nós corremos sozinhos e são os motoristas que devem estar atentos e dirigir com cautela. Geralmente temos que correr pelas ruas, pois não é toda cidade que tem lugar ideal para treinar.

Como é sua alimentação?
Oscar Galindez – Faço geralmente de 4 a 6 refeições, não sigo nenhuma dieta, pois acredito que cada atleta tem que encontrar sua alimentação ideal. Tento manter uma regra de 60% carboidrato, 20% proteína e o resto de gordura. Evito frituras e tento controlar doces, o que é um grande problema. Sou louco por doces. Também tomo multivitamínico e aminoácidos.

Que dicas dá para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Oscar Galindez –Acreditar no trabalho que está realizando, confiar na equipe de trabalho e ter paixão pelo esporte.

Qual é sua estratégia durante as provas?
Oscar Galindez – A melhor defesa é o ataque. Sempre tento arriscar, aguardando o momento certo,quando há vácuo. Quando não há, procuro sair bem no início, principalmente na bike, que é meu ponto forte.

Conte como é o projeto para desenvolver quadros de bike.
Oscar Galindez – Começou há 2 anos na Itália e estou trabalhando com um artesão italiano (Giovani Peliccioli, também produz para marca Fausto Coppi) tentando comercializar no Brasil. O quadro é feito sob medida, com a mesma qualidade dos utilizados pelos profissionais italianos de ciclismo, no entanto ele não tem um custo barato.

Ficha Técnica:
Nome: Oscar Saul Galindez.
Nacionalidade: Argentino.
Data de Nascimento: 05 de Junho de 1971.
Local de Nascimento: Rio Tercero – Córdoba Argentina.
Profissão: Triatleta Profissional.
Treinos e competições: Desde 1986
Altura: 1,75m.
Peso: 74 Kg.
Melhor tempo em 1 Km de corrida: 2min38.
Melhor tempo em 400 metros de natação: 4min51.
Melhor tempo em 5 Km de ciclismo: 6min.
VO2 MAX: 82 ml.Kg

Principais Conquistas:
Top Ten no Ranking Mundial de Triathlon: 1992, 1993, 1994, 1995, 1996
Campeão Mundial de Duatlhon: 1995, Cancun – México
Dez Vezes campeão Argentino de Triathlon
Hexacampeão Sul-Americano de Triatlhon
Pentacampeão Pan-Americano de Triathlon
Hexacampeão do Troféu Brasi
Hexacampeão do Triathlon Internacional de Santos.

Este texto foi escrito por: Rafael de Marco

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