Entrevista

Valmir Nunes: corredor sem limites

O ultramaratonista Valmir Nunes é bicampeão mundial de 100km e planeja continuar correndo, correndo, correndo...

Imagine correr distâncias superiores a duas, quatro ou cinco maratonas e cruzar a linha de chegada feliz da vida. Suicídio? Loucura? Não. Trata-se do mais puro sentido de superação. Amor incondicional ao esporte sem fronteiras. Assim são os ultramaratonistas. Assim é Valmir Nunes, o brasileiro dono de dois títulos mundiais nos 100km e dono da terceira melhor marca de desafios 24h (273km823m) do planeta. Natural de Santos, o atleta é um lutador. Ultrapassa cada quilômetro com a mesma garra com que derrotou uma doença que poderia ter sido fatal no final da adolescência.

A determinação do atleta da Mizuno/Memorial é tanta, que até parece fácil atravessar uma centena de quilômetros, no mínimo, lutar contra adversidades naturais ou adversários incansáveis. Preocupação? Sim, com um rival interno. “Nunca penso no adversário. A única pessoa de que tenho medo é de mim mesmo”. Para quem acredita que correr compulsivamente necessita um dom especial, a resposta de Valmir é simples e direta. “Quem nasce com o dom é o velocista. Fundista tem que treinar muito, sofrer bastante.”

E foi ‘sofrendo bastante’ que Valmir chegou longe. A vocação por conquistas, que hoje o fazem um dos maiores nomes da categoria no mundo, começou lutando pela vida. Aos 18 anos, logo após começar a se dedicar ao atletismo, surgiram sintomas de uma grave doença. Perdia peso e muito sangue. As dores constantes resultaram em meses de internação. Vários médicos o examinaram e as previsões não eram animadoras. O problema no aparelho digestivo, chamado reto colite ulcerativa, só teria solução se parte do intestino fosse removido. Seria o fim do sonho de ser corredor. Quando tudo parecia perdido, um médico de Santos trouxe a boa notícia. Um novo medicamento poderia recuperá-lo. Com o tratamento, Valmir começou a apresentar melhoras e aos poucos foi retomando a vida normal.

Aos 22 anos, era um feliz corredor de provas de rua (10km, 15km, meia-maratona e maratonas), quando percebeu que poderia encarar desafios maiores. Como sentia-se bem correndo por horas e horas, resolveu disputar uma competição de 100Km. Curioso é que quando começou a participar desse tipo de desafio, ainda tinha algumas recaídas da doença, que desapareceram com o tempo. ”Troquei as dores da doença pelas dores e cansaço dessas provas”, brinca.

Na primeira prova de 100km, disputada em Uberaba (MG), em 1990, Valmir teria a chance de ganhar uma passagem para competir na Espanha. Determinação e garra fizeram valer o esforço. Venceu e ganhou o direito de correr em terras espanholas. O problema é que a passagem, prometida pelos organizadores, não veio. Obstinado, foi atrás de ajuda e conseguiu viajar para conquistar o terceiro lugar nos 100km de Santander. Foi um começo mais que promissor na ultramaratona.

A partir deste ponto, várias foram as conquistas deste santista. Além de ser bicampeão mundial, é recordista brasileiro, sul-americano, e das américas na distância de 100km. Valmir também detém a melhor marca mundial nessa distância (6h18min09), obtida no campeonato mundial na Holanda, em 1995.

O segredo para manter a disposição após anos correndo milhares de quilômetros? “Amor ao esporte, sempre”, lembra. Além da conquista pessoal, o atleta pode, enfim, viver do que mais gosta. “Tenho uma casa e a possibilidade de pagar os estudos da minha esposa e do meu filho”. Mas Valmir garante que nunca pensou no lado financeiro. “No atletismo não tem dinheiro que pague a superação, os recordes, os números, as vitórias.”

Desafio realmente parece ser a palavra-chave nas conquistas de Valmir. No primeiro título mundial, em 1991, na Itália, passou por momentos angustiantes. Viajou com apenas US$ 40 no bolso e ainda se perdeu. A prova seria disputa em Faenza, no sábado, mas ele desembarcou em Florença, em uma quinta-feira à noite. Ao bater na porta do hotel, já fechado, e procurar pelos atletas, notou o erro. Desesperado, ligou para um amigo na Espanha, que confirmou o equivoco. Como era madrugada, e não teria como seguir viagem, dormiu na rua, próximo ao hotel. Na manhã seguinte, pegou um trem até Faenza.

A essa altura, seus dólares tinham ido ‘pro espaço’. Fome e preocupação latejavam sua cabeça e estômago, mas a solidariedade fez a diferença. Alguns atletas espanhóis providenciaram um jantar ao brasileiro com spaguetti à bolonhesa. Após tanto sofrimento e noites de sono interrompido, natural seria que o desempenho fosse um completo desastre. Surpreendendo a todos, Valmir conseguiu reunir forças para se concentrar no maior objetivo: o título mundial. Correndo seguro, alcançou o líder da prova no quilômetro 70 e terminou com três minutos de vantagem para o segundo colocado.

Após tanta dificuldade, entende-se porque esse título é uma das maiores emoções do ultramaratonista. Não só pela conquista inédita, mas pela superação física e mental. Uma receita de campeão, que garante que toda pessoa que pensa em praticar atletismo deve se dedicar muito ao que faz. “É um caminho muito árduo, mas vale a pena.”

Engana-se quem pensa que Valmir já alcançou todas as metas. O recorde mundial nas 24h é seu grande objetivo. Garantias que vai buscar mais esse recorde são muitas. Exigente consigo mesmo, é do tipo que não desiste nunca, ou quase. “Se eu for ouvir meu cérebro, paro em todas as provas. Só paro na hora que minha perna não conseguir mais correr. Andar não é o meu negócio.”

Rotina - ‘Louco’ pelo que faz, Valmir, que treina sozinho desde 1990, corre sete dias por semana, pegando uma ‘folguinha’ somente no domingo à tarde. Na rotina de treinos, em dois ou até três períodos no dia, percorre trechos de 20 a 30 km. Distâncias que sobem gradativamente quando está perto de competições. E tudo isso pelo simples prazer de se desafiar.
Sempre lembrando a paixão que tem pelo atletismo, Valmir é incansável na busca de ideais e seus limites. “Gosto de correr em terrenos difíceis. Corro muito na terra, na areia fofa. Aliás, gosto muito de correr na areia fofa.”

Aos 38 anos, lembra do tempo em que tinha apenas um par de tênis para treinar e competir. “Usava o calçado até não dar mais. Isso é complicado, pois aumenta o risco de lesões”. Hoje, experiente e com possibilidades de fazer um treino adequado, utiliza três pares de tênis por mês. Além disso, o bicampeão mundial dos 100km lembra que já não é tão ‘novinho’ assim. “Eu, que já passei dos 30, procuro evitar ao máximo o impacto. Se você usa muito o tênis, ele vai perdendo o amortecedor e, com isso, aumenta o risco de lesões”, explica.

Procurando orientar os mais jovens, o atleta dá uma dica: “O caminho é longo. Tem que treinar muito. Ter objetivos e procurar alcançá-los. Quem quer viver do esporte, tem que se superar.” Um bom caminho para vencer no esporte é ter uma referência, um ídolo. Valmir procurou se espelhar nas passadas seguras de José João da Silva.

Projetos - Valmir Nunes espera poder desenvolver um trabalho com jovens na cidade de Santos. Além de promover melhor qualidade de vida, pretende trabalhar “duro” com o atletismo, procurando, assim, incentivar a prática do esporte. “Temos bons jogadores de futebol porque temos muitos praticantes. Não temos tantos corredores, porque são poucos os que praticam. No exterior existem muitas escolinhas de atletismo e aqui de futebol”, analisa o atleta.
A falta de memória e exposição dos atletas contribui para que o atletismo não seja tão praticado no País. Segundo Valmir, os corredores do passado têm muito o que passar aos mais jovens, só que eles sumiram. “Falta memória, mais exposição. Poucos que são reconhecidos. Se um atleta se destaca, é bom para todos.” Mesmo assim, Valmir está otimista quanto ao futuro do atletismo nacional. “O Brasil tem tudo de bom. As coisas estão mudando.”

Reprodução autorizada da edição #7 da Revista SuperAção - Setembro 2003.


Valmir Nunes: corredor sem limites

Ultra Maratona · 04 set, 2003

O ultramaratonista Valmir Nunes é bicampeão mundial de 100km e planeja continuar correndo, correndo, correndo...

Imagine correr distâncias superiores a duas, quatro ou cinco maratonas e cruzar a linha de chegada feliz da vida. Suicídio? Loucura? Não. Trata-se do mais puro sentido de superação. Amor incondicional ao esporte sem fronteiras. Assim são os ultramaratonistas. Assim é Valmir Nunes, o brasileiro dono de dois títulos mundiais nos 100km e dono da terceira melhor marca de desafios 24h (273km823m) do planeta. Natural de Santos, o atleta é um lutador. Ultrapassa cada quilômetro com a mesma garra com que derrotou uma doença que poderia ter sido fatal no final da adolescência.

A determinação do atleta da Mizuno/Memorial é tanta, que até parece fácil atravessar uma centena de quilômetros, no mínimo, lutar contra adversidades naturais ou adversários incansáveis. Preocupação? Sim, com um rival interno. “Nunca penso no adversário. A única pessoa de que tenho medo é de mim mesmo”. Para quem acredita que correr compulsivamente necessita um dom especial, a resposta de Valmir é simples e direta. “Quem nasce com o dom é o velocista. Fundista tem que treinar muito, sofrer bastante.”

E foi ‘sofrendo bastante’ que Valmir chegou longe. A vocação por conquistas, que hoje o fazem um dos maiores nomes da categoria no mundo, começou lutando pela vida. Aos 18 anos, logo após começar a se dedicar ao atletismo, surgiram sintomas de uma grave doença. Perdia peso e muito sangue. As dores constantes resultaram em meses de internação. Vários médicos o examinaram e as previsões não eram animadoras. O problema no aparelho digestivo, chamado reto colite ulcerativa, só teria solução se parte do intestino fosse removido. Seria o fim do sonho de ser corredor. Quando tudo parecia perdido, um médico de Santos trouxe a boa notícia. Um novo medicamento poderia recuperá-lo. Com o tratamento, Valmir começou a apresentar melhoras e aos poucos foi retomando a vida normal.

Aos 22 anos, era um feliz corredor de provas de rua (10km, 15km, meia-maratona e maratonas), quando percebeu que poderia encarar desafios maiores. Como sentia-se bem correndo por horas e horas, resolveu disputar uma competição de 100Km. Curioso é que quando começou a participar desse tipo de desafio, ainda tinha algumas recaídas da doença, que desapareceram com o tempo. ”Troquei as dores da doença pelas dores e cansaço dessas provas”, brinca.

Na primeira prova de 100km, disputada em Uberaba (MG), em 1990, Valmir teria a chance de ganhar uma passagem para competir na Espanha. Determinação e garra fizeram valer o esforço. Venceu e ganhou o direito de correr em terras espanholas. O problema é que a passagem, prometida pelos organizadores, não veio. Obstinado, foi atrás de ajuda e conseguiu viajar para conquistar o terceiro lugar nos 100km de Santander. Foi um começo mais que promissor na ultramaratona.

A partir deste ponto, várias foram as conquistas deste santista. Além de ser bicampeão mundial, é recordista brasileiro, sul-americano, e das américas na distância de 100km. Valmir também detém a melhor marca mundial nessa distância (6h18min09), obtida no campeonato mundial na Holanda, em 1995.

O segredo para manter a disposição após anos correndo milhares de quilômetros? “Amor ao esporte, sempre”, lembra. Além da conquista pessoal, o atleta pode, enfim, viver do que mais gosta. “Tenho uma casa e a possibilidade de pagar os estudos da minha esposa e do meu filho”. Mas Valmir garante que nunca pensou no lado financeiro. “No atletismo não tem dinheiro que pague a superação, os recordes, os números, as vitórias.”

Desafio realmente parece ser a palavra-chave nas conquistas de Valmir. No primeiro título mundial, em 1991, na Itália, passou por momentos angustiantes. Viajou com apenas US$ 40 no bolso e ainda se perdeu. A prova seria disputa em Faenza, no sábado, mas ele desembarcou em Florença, em uma quinta-feira à noite. Ao bater na porta do hotel, já fechado, e procurar pelos atletas, notou o erro. Desesperado, ligou para um amigo na Espanha, que confirmou o equivoco. Como era madrugada, e não teria como seguir viagem, dormiu na rua, próximo ao hotel. Na manhã seguinte, pegou um trem até Faenza.

A essa altura, seus dólares tinham ido ‘pro espaço’. Fome e preocupação latejavam sua cabeça e estômago, mas a solidariedade fez a diferença. Alguns atletas espanhóis providenciaram um jantar ao brasileiro com spaguetti à bolonhesa. Após tanto sofrimento e noites de sono interrompido, natural seria que o desempenho fosse um completo desastre. Surpreendendo a todos, Valmir conseguiu reunir forças para se concentrar no maior objetivo: o título mundial. Correndo seguro, alcançou o líder da prova no quilômetro 70 e terminou com três minutos de vantagem para o segundo colocado.

Após tanta dificuldade, entende-se porque esse título é uma das maiores emoções do ultramaratonista. Não só pela conquista inédita, mas pela superação física e mental. Uma receita de campeão, que garante que toda pessoa que pensa em praticar atletismo deve se dedicar muito ao que faz. “É um caminho muito árduo, mas vale a pena.”

Engana-se quem pensa que Valmir já alcançou todas as metas. O recorde mundial nas 24h é seu grande objetivo. Garantias que vai buscar mais esse recorde são muitas. Exigente consigo mesmo, é do tipo que não desiste nunca, ou quase. “Se eu for ouvir meu cérebro, paro em todas as provas. Só paro na hora que minha perna não conseguir mais correr. Andar não é o meu negócio.”

Rotina - ‘Louco’ pelo que faz, Valmir, que treina sozinho desde 1990, corre sete dias por semana, pegando uma ‘folguinha’ somente no domingo à tarde. Na rotina de treinos, em dois ou até três períodos no dia, percorre trechos de 20 a 30 km. Distâncias que sobem gradativamente quando está perto de competições. E tudo isso pelo simples prazer de se desafiar.
Sempre lembrando a paixão que tem pelo atletismo, Valmir é incansável na busca de ideais e seus limites. “Gosto de correr em terrenos difíceis. Corro muito na terra, na areia fofa. Aliás, gosto muito de correr na areia fofa.”

Aos 38 anos, lembra do tempo em que tinha apenas um par de tênis para treinar e competir. “Usava o calçado até não dar mais. Isso é complicado, pois aumenta o risco de lesões”. Hoje, experiente e com possibilidades de fazer um treino adequado, utiliza três pares de tênis por mês. Além disso, o bicampeão mundial dos 100km lembra que já não é tão ‘novinho’ assim. “Eu, que já passei dos 30, procuro evitar ao máximo o impacto. Se você usa muito o tênis, ele vai perdendo o amortecedor e, com isso, aumenta o risco de lesões”, explica.

Procurando orientar os mais jovens, o atleta dá uma dica: “O caminho é longo. Tem que treinar muito. Ter objetivos e procurar alcançá-los. Quem quer viver do esporte, tem que se superar.” Um bom caminho para vencer no esporte é ter uma referência, um ídolo. Valmir procurou se espelhar nas passadas seguras de José João da Silva.

Projetos - Valmir Nunes espera poder desenvolver um trabalho com jovens na cidade de Santos. Além de promover melhor qualidade de vida, pretende trabalhar “duro” com o atletismo, procurando, assim, incentivar a prática do esporte. “Temos bons jogadores de futebol porque temos muitos praticantes. Não temos tantos corredores, porque são poucos os que praticam. No exterior existem muitas escolinhas de atletismo e aqui de futebol”, analisa o atleta.
A falta de memória e exposição dos atletas contribui para que o atletismo não seja tão praticado no País. Segundo Valmir, os corredores do passado têm muito o que passar aos mais jovens, só que eles sumiram. “Falta memória, mais exposição. Poucos que são reconhecidos. Se um atleta se destaca, é bom para todos.” Mesmo assim, Valmir está otimista quanto ao futuro do atletismo nacional. “O Brasil tem tudo de bom. As coisas estão mudando.”

Reprodução autorizada da edição #7 da Revista SuperAção - Setembro 2003.

Marílson Gomes o Mister Regularidade

Marílson Gomes dos Santos é uma máquina de vitórias que pretende brilhar no Pan e ensaia a estréia em maratonas.

Otimismo e regularidade em prol da realização. Após 10 anos de atletismo, Marílson Gomes do Santos vai viver um dos maiores sonhos no esporte: disputar os Jogos Pan-Americanos. O atleta da equipe Pão de Açúcar/BM&F promete não decepcionar nos 10 000 metros. Quer estar no pódio em Santo Domingo, de preferência no degrau mais alto. Aos 25 anos, o corredor atravessa grande fase. Encerrou a temporada passada com o vice na São Silvestre e o primeiro lugar nos rankings brasileiros dos 10.000m em pista, da meia maratona, dos 15 km e das 10 milhas. Além d a liderança do ranking sul-americano dos 10.000, com 28m34s59. A temporada deve trazer ainda uma novidade, a estréia em maratonas.

O brasiliense carimbou o passaporte para a República Dominicana ao vencer a prova de 10.000 metros rasos no 1º Torneio FPA de Meio Fundo e Fundo, na pista do Centro Cívico de Americana, em São Paulo, no final de março. O atleta fez o tempo de 28min22s58 (o índice é 28min23s68). Os resultados do primeiro semestre de 2003 dão sinais claros de que o atleta manterá a regularidade na temporada. Além da vaga para o Pan, Marílson conquistou o primeiro lugar na Corrida de Cornélio Procópio, foi vencedor dos 5.000 metros rasos do IX Torneio da Federação Paulista de Atletismo (FPA), em São Caetano do Sul, com o tempo de 14min04s32, e faturou os 10km da Tribuna FM de Santos. Completou o percurso em 28min18 e ficou a 17 segundos do recorde da prova, que pertence ao companheiro de equipe Vanderlei Cordeiro de Lima (28min01). Chega? Não, ele também faturou a medalha de ouro nos 5.000 e 10.000 metros do Troféu Brasil de Atletismo, em junho.

Com tantas visitas ao pódio, Marílson acredita que está no melhor momento da carreira. “Estou melhorando minhas marcas pessoais. Em 2002 tinha o tempo de 28min32 para os 10 mil, agora já estou fazendo em 28min22. E também sinto que estou realizando meus melhores treinamentos.” A programação do atleta inclui treinos diários em dois períodos, além de sessões de musculação para fortalecimento, duas vezes por semana.

Considerado um dos principais fundistas brasileiros, Marílson Gomes dos Santos começou no atletismo aos 14 anos, em Brasília, seguindo os passos do irmão que era corredor de rua. Os resultados vieram rápido e um ano depois, mudou-se para São Paulo para integrar a equipe do Sesi. Desde então, se dedica exclusivamente ao esporte. Ter o atletismo como profissão provocou mudanças na vida do atleta, mas ele afirma que valeu a pena. “Fiquei mais reservado, pois quando você encara o atletismo como profissão tem que mudar seu estilo de vida. Por exemplo: eu adorava jogar futebol, mas tive que abrir mão para me manter bem para os treinos e provas. No entanto, o esporte é a minha renda, tudo que tenho é graças ao atletismo.” Por intermédio das passadas velozes e ritmadas, conseguiu comprar duas casas - a sua e uma para mãe -, além de ajudar a família.

Marílson não foge a regra. Como todo atleta, vislumbra a medalha olímpica. No entanto, é cauteloso. Quer participar de Atenas/2004. Se possível ficando entre os oito melhores resultados para brigar pelo pódio, mas acredita que estará em plenas condições de ser medalhista em 2008, em Pequim. Tranqüilidade e paciência são traços marcantes da personalidade do corredor. E é justamente a estas qualidades que o atleta credita a boa performance. “Meu ponto forte é a regularidade. Ela ajuda a manter a minha motivação e também vou tendo um aumento de performance gradativo, sem frustrações. Tenho paciência para chegar ao topo, o que vale atropelar fases e não atingir a meta? Para quem quer ser um bom fundista tem que ter paciência, não esperar por resultados precoces, o certo é treinar muito e corretamente.”

E com essa mesma serenidade, Marílson encara os maiores fantasmas dos esportistas: as lesões. “Já enfrentei várias, quem é atleta de alto rendimento tem que saber conviver com estes problemas. Acredito que a pior lesão foi em 1997, um desgaste na articulação do joelho. Foi difícil porque a recuperação é lenta e ver os outros competindo e você não, é frustrante. Mas isso faz parte da profissão e é preciso saber superar mais este obstáculo.” Em casa, encontra apoio e compreensão que só outro atleta pode dar. Afinal, é casado com Juliana Santos, medalha de bronze nos 800 metros no mundial Juvenil, disputado em Kingston, em 2002 e que foi a campeão dos 1.500 metros rasos do Troféu Brasil.

Maratona - Melhor brasileiro classificado na São Silvestre em 1999, 2001 (4º lugar) e 2002 (2º lugar), o brasiliense pode ficar de fora da mais tradicional prova nacional este ano. Não é desprezo pela competição. Considera os pódios da ‘SS’ os momentos mais marcantes da carreira. Mas novos desafios estão pela frente. Ele e seu técnico, Adauto Domingues, que o acompanha desde o início da carreira, estudam a estréia em maratonas. “A expectativa é grande”, revela o fundista, que foi bicampeão mundial universitário da meia maratona. “Se eu começar na maratona, nem irei para a São Silvestre este ano”, comenta o corredor, que já participou cinco vezes da competição. A definição dos planos para 2004 só acontecerá após os Jogos de Santo Domingo.

Quando o assunto é o futuro do atletismo brasileiro, o corredor, que mora em Santo André, na Grande São Paulo, arrisca um palpite. “Acredito bastante no Franck Caldeira. Por ser seu primeiro ano como adulto vem tendo resultados expressivos e apresenta uma característica muito importante, força de vontade para vencer, sem desanimar nunca.” Elogios somente para os atletas, pois há ressentimento em relação à organização de provas no Brasil. “Os corredores do Brasil estão disputando de igual pra igual com os estrangeiros, no entanto, quando as provas acontecem aqui, há um fenômeno muito estranho: a diferença de tratamento. Enquanto em qualquer país se valoriza os atletas da casa, no Brasil os privilégios são para os estrangeiros.” Apesar de estar insatisfeito com este comportamento, Marílson reconhece a habilidade dos competidores internacionais, principalmente os africanos. “Admiro os atletas africanos pela facilidade que eles têm de correr e a força de vontade de vencer. É uma inspiração para qualquer corredor.” Inspiração que tem se revertido em vitórias.

Perfil
Nome: Marílson Gomes dos Santos
Idade: 25 anos
Peso: 58kg
Altura: 1,74m
Provas: Provas: 5.000m, 10.000m e meia maratona

Conquistas


  • Bicampeão Mundial Universitário na Itália/97 e Espanha/99 Meia Maratona
  • 4ºlugar na Corrida Internacional de São Silvestre/99
  • 1ºlugar na Copa Brasil de Cross Country/00 - 12km
  • 2ºlugar na Meia Maratona do Rio de Janeiro/00
  • 2ºlugar nas Dez Milhas Garoto/00
  • 2º lugar no Troféu Brasil de Atletismo/01 - 5.000m e 10.000m
  • 3º lugar no Ekiden de Chiba - Japão/01
  • 4º lugar na Corrida Internacional de São Silvestre/01
  • 1º lugar na Corrida de Cornélio Procópio/02
  • 1º lugar na Meia Maratona de Santo André - SP/02
  • 2º lugar na Meia Maratona Corpore/02
  • 1º lugar na Corrida dos Carteiro de Brasilia/02
  • 1º lugar na 120 Corrida do Fogo de Brasilia/02
  • 2º lugar na Meia Maratona do Rio de Janeiro/02
  • 1º lugar nas Dez Milhas Garoto/02
  • 1º lugar na São Paulo Classic/02
  • 1º lugar na Corrida de São Silveira em Barueri/02
  • 2º lugar na Corrida Internacional de São Silvestre/02
  • 4º lugar na Corrida de São Fernando - Uruguai/03
  • 1º lugar na Corrida de Cornélio Procópio/03
  • 1º lugar nos 10km da Tribuna FM de Santos/03
  • 1º lugar no Troféu Brasil de Atletismo/03 - 5.000m e 10.000m


Marílson Gomes o Mister Regularidade

Corridas de Rua · 08 ago, 2003

Marílson Gomes dos Santos é uma máquina de vitórias que pretende brilhar no Pan e ensaia a estréia em maratonas.

Otimismo e regularidade em prol da realização. Após 10 anos de atletismo, Marílson Gomes do Santos vai viver um dos maiores sonhos no esporte: disputar os Jogos Pan-Americanos. O atleta da equipe Pão de Açúcar/BM&F promete não decepcionar nos 10 000 metros. Quer estar no pódio em Santo Domingo, de preferência no degrau mais alto. Aos 25 anos, o corredor atravessa grande fase. Encerrou a temporada passada com o vice na São Silvestre e o primeiro lugar nos rankings brasileiros dos 10.000m em pista, da meia maratona, dos 15 km e das 10 milhas. Além d a liderança do ranking sul-americano dos 10.000, com 28m34s59. A temporada deve trazer ainda uma novidade, a estréia em maratonas.

O brasiliense carimbou o passaporte para a República Dominicana ao vencer a prova de 10.000 metros rasos no 1º Torneio FPA de Meio Fundo e Fundo, na pista do Centro Cívico de Americana, em São Paulo, no final de março. O atleta fez o tempo de 28min22s58 (o índice é 28min23s68). Os resultados do primeiro semestre de 2003 dão sinais claros de que o atleta manterá a regularidade na temporada. Além da vaga para o Pan, Marílson conquistou o primeiro lugar na Corrida de Cornélio Procópio, foi vencedor dos 5.000 metros rasos do IX Torneio da Federação Paulista de Atletismo (FPA), em São Caetano do Sul, com o tempo de 14min04s32, e faturou os 10km da Tribuna FM de Santos. Completou o percurso em 28min18 e ficou a 17 segundos do recorde da prova, que pertence ao companheiro de equipe Vanderlei Cordeiro de Lima (28min01). Chega? Não, ele também faturou a medalha de ouro nos 5.000 e 10.000 metros do Troféu Brasil de Atletismo, em junho.

Com tantas visitas ao pódio, Marílson acredita que está no melhor momento da carreira. “Estou melhorando minhas marcas pessoais. Em 2002 tinha o tempo de 28min32 para os 10 mil, agora já estou fazendo em 28min22. E também sinto que estou realizando meus melhores treinamentos.” A programação do atleta inclui treinos diários em dois períodos, além de sessões de musculação para fortalecimento, duas vezes por semana.

Considerado um dos principais fundistas brasileiros, Marílson Gomes dos Santos começou no atletismo aos 14 anos, em Brasília, seguindo os passos do irmão que era corredor de rua. Os resultados vieram rápido e um ano depois, mudou-se para São Paulo para integrar a equipe do Sesi. Desde então, se dedica exclusivamente ao esporte. Ter o atletismo como profissão provocou mudanças na vida do atleta, mas ele afirma que valeu a pena. “Fiquei mais reservado, pois quando você encara o atletismo como profissão tem que mudar seu estilo de vida. Por exemplo: eu adorava jogar futebol, mas tive que abrir mão para me manter bem para os treinos e provas. No entanto, o esporte é a minha renda, tudo que tenho é graças ao atletismo.” Por intermédio das passadas velozes e ritmadas, conseguiu comprar duas casas - a sua e uma para mãe -, além de ajudar a família.

Marílson não foge a regra. Como todo atleta, vislumbra a medalha olímpica. No entanto, é cauteloso. Quer participar de Atenas/2004. Se possível ficando entre os oito melhores resultados para brigar pelo pódio, mas acredita que estará em plenas condições de ser medalhista em 2008, em Pequim. Tranqüilidade e paciência são traços marcantes da personalidade do corredor. E é justamente a estas qualidades que o atleta credita a boa performance. “Meu ponto forte é a regularidade. Ela ajuda a manter a minha motivação e também vou tendo um aumento de performance gradativo, sem frustrações. Tenho paciência para chegar ao topo, o que vale atropelar fases e não atingir a meta? Para quem quer ser um bom fundista tem que ter paciência, não esperar por resultados precoces, o certo é treinar muito e corretamente.”

E com essa mesma serenidade, Marílson encara os maiores fantasmas dos esportistas: as lesões. “Já enfrentei várias, quem é atleta de alto rendimento tem que saber conviver com estes problemas. Acredito que a pior lesão foi em 1997, um desgaste na articulação do joelho. Foi difícil porque a recuperação é lenta e ver os outros competindo e você não, é frustrante. Mas isso faz parte da profissão e é preciso saber superar mais este obstáculo.” Em casa, encontra apoio e compreensão que só outro atleta pode dar. Afinal, é casado com Juliana Santos, medalha de bronze nos 800 metros no mundial Juvenil, disputado em Kingston, em 2002 e que foi a campeão dos 1.500 metros rasos do Troféu Brasil.

Maratona - Melhor brasileiro classificado na São Silvestre em 1999, 2001 (4º lugar) e 2002 (2º lugar), o brasiliense pode ficar de fora da mais tradicional prova nacional este ano. Não é desprezo pela competição. Considera os pódios da ‘SS’ os momentos mais marcantes da carreira. Mas novos desafios estão pela frente. Ele e seu técnico, Adauto Domingues, que o acompanha desde o início da carreira, estudam a estréia em maratonas. “A expectativa é grande”, revela o fundista, que foi bicampeão mundial universitário da meia maratona. “Se eu começar na maratona, nem irei para a São Silvestre este ano”, comenta o corredor, que já participou cinco vezes da competição. A definição dos planos para 2004 só acontecerá após os Jogos de Santo Domingo.

Quando o assunto é o futuro do atletismo brasileiro, o corredor, que mora em Santo André, na Grande São Paulo, arrisca um palpite. “Acredito bastante no Franck Caldeira. Por ser seu primeiro ano como adulto vem tendo resultados expressivos e apresenta uma característica muito importante, força de vontade para vencer, sem desanimar nunca.” Elogios somente para os atletas, pois há ressentimento em relação à organização de provas no Brasil. “Os corredores do Brasil estão disputando de igual pra igual com os estrangeiros, no entanto, quando as provas acontecem aqui, há um fenômeno muito estranho: a diferença de tratamento. Enquanto em qualquer país se valoriza os atletas da casa, no Brasil os privilégios são para os estrangeiros.” Apesar de estar insatisfeito com este comportamento, Marílson reconhece a habilidade dos competidores internacionais, principalmente os africanos. “Admiro os atletas africanos pela facilidade que eles têm de correr e a força de vontade de vencer. É uma inspiração para qualquer corredor.” Inspiração que tem se revertido em vitórias.

Perfil
Nome: Marílson Gomes dos Santos
Idade: 25 anos
Peso: 58kg
Altura: 1,74m
Provas: Provas: 5.000m, 10.000m e meia maratona

Conquistas


  • Bicampeão Mundial Universitário na Itália/97 e Espanha/99 Meia Maratona
  • 4ºlugar na Corrida Internacional de São Silvestre/99
  • 1ºlugar na Copa Brasil de Cross Country/00 - 12km
  • 2ºlugar na Meia Maratona do Rio de Janeiro/00
  • 2ºlugar nas Dez Milhas Garoto/00
  • 2º lugar no Troféu Brasil de Atletismo/01 - 5.000m e 10.000m
  • 3º lugar no Ekiden de Chiba - Japão/01
  • 4º lugar na Corrida Internacional de São Silvestre/01
  • 1º lugar na Corrida de Cornélio Procópio/02
  • 1º lugar na Meia Maratona de Santo André - SP/02
  • 2º lugar na Meia Maratona Corpore/02
  • 1º lugar na Corrida dos Carteiro de Brasilia/02
  • 1º lugar na 120 Corrida do Fogo de Brasilia/02
  • 2º lugar na Meia Maratona do Rio de Janeiro/02
  • 1º lugar nas Dez Milhas Garoto/02
  • 1º lugar na São Paulo Classic/02
  • 1º lugar na Corrida de São Silveira em Barueri/02
  • 2º lugar na Corrida Internacional de São Silvestre/02
  • 4º lugar na Corrida de São Fernando - Uruguai/03
  • 1º lugar na Corrida de Cornélio Procópio/03
  • 1º lugar nos 10km da Tribuna FM de Santos/03
  • 1º lugar no Troféu Brasil de Atletismo/03 - 5.000m e 10.000m

Leandro Macedo: o triathleta mais velho do mundo

Leandro Macedo corre, nada e pedala em busca de vitórias. Cuidando do corpo, mente e espírito, pretende chegar aos 120 anos. Melhor triatleta sul-americano nos Jogos Olímpicos de Sydney/2000, com a 14ª colocação, Leandro Macedo acumula títulos e resultados de um verdadeiro campeão. No ano passado, garantiu um dos únicos títulos internacionais que faltava na carreira, o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Aos 34 anos, segue a incansável rotina em busca de vitórias. Pretende ganhar medalha no Pan-Americano da República Dominicana, de preferência a de ouro para carimbar o passaporte para Atenas/2004. Para quem pensa que está velho para o esporte de alto nível, além dos resultados, tem como resposta o estilo de vida. Pretende chegar aos 120, cuidando do corpo, mente e espírito. Confira a entrevista exclusiva de Leandro Macedo a SuperAção.


Como você analisa sua participação no Ironman do Havaí e quais as maiores dificuldades da prova?
Em 17 anos de triathlon disputei quatro Ironman, sendo dois no Havaí e minha melhor posição foi 19º lugar. Na primeira vez não consegui terminar a prova, pois não soube dosar a energia. A dificuldade é você encontrar seu ritmo. A primeira vez você não se pode querer buscar resultado. É para você conhecer a competição, ver como se comporta. A cada disputa, você vai adquirindo mais experiência e conhecendo o comportamento do seu corpo, e é preciso ter paciência para saber dosar a energia durante a prova. Apesar do tempo que tenho no triathlon (17 anos), ainda não encontrei o ponto de equilíbrio no Ironman. Falta achar o ritmo no ciclismo.

Quais são seus planos para a carreira e como será a temporada 2003?
Estou voltado para a Olimpíada. Então, nesta preparação tem os Jogos Pan-Americanos para o qual estou classificado e no final do ano tem o Campeonato Mundial, além de disputar outras provas para somar mais pontos para o ranking. É claro que vou tentar uma medalha no Pan, se der ouro, melhor ainda. Assim garanto mais uma vaga para o Brasil no triathlon em Atenas.

Qual meta pretende atingir este ano em termos de ranking?
Sou número 53 do ranking mundial e quero terminar 2003 abaixo dos 40. Para conseguir, escolhi as melhores provas para o meu estilo. Quero disputar dentro de um planejamento de treino para chegar nas competições na melhor forma.

Quem é o seu ídolo?
Os atletas brasileiros, principalmente aqueles que têm uma origem humilde, sem estrutura nenhuma, que chegam ao topo com muita raça.

Como é a sua rotina, o que gosta de fazer nas horas livres?
No período da manhã treino corrida e ciclismo. Depois do almoço gosto de descansar, fazendo meditação, acupuntura ou lendo, e no fim da tarde treino natação. Três vezes por semana faço musculação para fortalecimento e evitar lesões. Quanto estou livre gosto de cinema, teatro, futvôlei, cachoeiras e brincar com o meu filho (5 anos). Meu treino tem, por dia, de 40 minutos a uma hora e quarenta de corrida, mais uma hora e meia a quatro horas de ciclismo e duas horas de natação, de segunda a sábado. Descanso no domingo.

Como entrou para o triathlon?
Comecei aos 18 anos. Sempre gostei de fazer esporte: tênis, natação, basquete, atletismo, entre outros. Tinha um amigo que praticava triathlon e me chamou. Mas eu ia começar o curso de engenharia florestal e não teria tempo. No entanto, no início das aulas houve uma greve na faculdade e combinei que enquanto não tivesse aula, iria treinar. Quando as aulas voltaram apareceu uma prova. Participei, gostei e senti que queria fazer aquilo. E podia ir além. Fui primeiro colocado na minha categoria e sexto no geral. Fiz 3 anos e meio de engenharia e parei por causa do esporte, voltei aos estudos em 94 para fazer Educação Física, na qual me formei. Na época em que comecei, entre 85 e 86, era o auge do triathlon no Brasil, mas havia pouco conhecimento do que realmente era o esporte, achava-se que era coisa de maluco, um desafio, esporte radical. Mas com o tempo a modalidade foi se organizando, a estrutura melhorou com a inclusão do esporte na Olimpíada. As novas regras, desde 95, que permitiram vácuo nas provas olímpicas, deixaram a competição mais estratégica e disputada, valorizando a natação e a corrida.

Qual é o seu ponto forte no triathlon e no que ainda tem que melhorar?
A corrida é uma facilidade natural e descobri até que tarde, mesmo na época que praticava atletismo não era tão bom. Sinto que tenho que melhorar a natação. Praticamente comecei a nadar aos 18 anos, para o triathlon. Apesar de treinar natação há 17 anos, ainda tenho que melhorar.

Como é composta sua equipe de trabalho?
Monto meu programa de treino, já que tenho a formação em Educação Física e a experiência no esporte. Antes, tive técnico. Atualmente tenho um orientador de natação e duas vezes por semana corro com o pessoal da Ceilândia e recebo algumas orientações.

Você nasceu em Porto Alegre, mas vive em Brasília...
Aos 6 anos mudei para Brasília por causa da transferência do trabalho do meu pai. As condições do clima da cidade (chove pouco e é seco) e altitude ajudam na preparação. E as ruas largas facilitam para os treinos de corrida e ciclismo, além de haver muitas piscinas para treinar.

Quais cuidados toma com a alimentação?
Tenho o costume de dizer que faço uma refeição ao dia, das 7 às 23h. Como pouco e muitas vezes ao dia, então, na soma dá umas seis refeições diárias. Gosto de alimentos naturais (arroz e farinha integral, leite de soja, etc.), mas não sou radical. Evito gordura, doces (principalmente na semana de prova).

Qual é a sua estratégia durante as provas?
Devido à competitividade atual, você tem que se preocupar com todos os detalhes, até mesmo com as trocas, que antes eram mais lentas. Durante a prova pondero todos os elementos, desde as qualidades dos adversários até saber a melhor atitude em determinada situação, como se é hora de atacar, puxar o ritmo ou se manter no pelotão, por exemplo, no ciclismo.

Você disputa mais provas olímpicas, no entanto encarou o Ironman. É possível ser campeão nas duas?
Hoje é muito difícil querer ser o melhor nos dois tipos de prova, mas não é impossível. No entanto, as regras diferem, a preparação é específica para o estilo e a tendência é os atletas se especializarem num tipo. Fazer um bom Ironman e disputar provas curtas, no fim de ano, com bons resultados é possível se tudo correr dentro do planejado. Agora, ser campeão nos dois fica complicado.

Está em seus planos se dedicar ao Ironman?
Quero aproveitar ao máximo a minha carreira. Enquanto estiver competitivo quero ficar nas provas olímpicas. Quando sentir que meu rendimento caiu, inicio a preparação para o Ironman e vou buscar melhores resultados nesta prova.

Como você avalia sua performance no ano passado?
Foi um bom ano, conquistei pela terceira vez o Pan-Americano e pela primeira vez levei o título do Sul-Americano. No primeiro semestre disputei várias provas internacionais, mas acabei tendo pouca sorte. Fui bem nas competições, mas tive problemas com o pneu (furado) na Flórida e no Japão a roda saiu do eixo. No geral o saldo foi positivo, mesmo com os eventuais problemas, saí da faixa os 70 no ranking e baixei para 50.

E como está a briga no ranking mundial para chegar a Atenas 2004?
Na minha opinião, se tivermos três brasileiros entre os 50 primeiros colocados no ranking, os três irão para Atenas. Estou fazendo a minha parte de tentar abrir mais uma vaga buscando o ouro do Pan.

Comente a sua participação em Sydney (14º colocado).
Minha expectativa foi tão grande para aquele momento. Me cobrei muito para estar naquela prova. Minha preparação foi excelente. Por 10 segundos não consegui ficar no segundo pelotão da natação (no qual geralmente ficam os atletas que buscam o título), depois puxei no ciclismo para diminuir a diferença e quando cheguei na corrida, estava cansado por causa do esforço. Então, levei 5 km para poder soltar as pernas, mas aí não dava mais. Mesmo assim ganhei algumas posições e finalizei em 14º.

Você está com 34 anos, acredita ser o auge da carreira?
Quando ganhei o circuito mundial, em 91, achei que era o auge. Depois, em 94, quando voltei a estudar (Educação Física), falaram que eu era “old generation” e estaria deixando o esporte. Mas logo em seguida, em 95, conquistei o ouro nos Jogos Pan-Americanos. Então, em média, a cada quatro anos estou tendo um auge, e aí fica difícil dizer que há um único topo na minha carreira.

Até quando acredita ser possível competir em alto nível?
A princípio, enquanto você estiver motivado pode competir. Mas a média é até 25, 27 anos. Já estou fora da normalidade.

Aposentadoria é um assunto no qual você já pensou?
Eu devo fazer uma retirada simbólica das provas olímpicas e, assim, não ter mais a pressão de defender o País, buscar vagas e tudo mais. A princípio isso deve ocorrer após Atenas. Então, vou me dedicar às provas promocionais, não é uma aposentadoria total das competições. Sempre pensei e dividi a minha vida em três fases. Até os 40 anos me dedicar ao físico, dos 40 aos 80 ao intelectual e dos 80 aos 120 ao espiritual. Tem gente que acha loucura. Querer viver até os 120 anos, mas até agora está dando certo e estas partes são prioridades, pois você tem que combinar as três o tempo todo para ter uma vida saudável.

Qual o segredo para prolongar a vida útil de um atleta?
Meu segredo, acho, foi começar tarde. Tem muito adolescente que treina e é exigido como adulto e, às vezes, se perde um atleta muito cedo por causa da grande exigência no início. Aconselho a aprender ao longo do treinamento, ouvir seu corpo e respeitá-lo. Sempre uso a frase: “Sou aluno do meu corpo e mestre da minha mente”. Ou seja, aprendo com o corpo e ensino a mente a conduzir.

Você pratica meditação desde 91, como ela ajuda no esporte?
A meditação me ajuda a controlar o nível de ansiedade, cobrança, expectativa antes e durante a prova. O esporte me acelera e a meditação me traz o repouso e o equilíbrio.

O que falta para os brasileiros conseguirem maiores resultados internacionais?
Já melhorou muito, principalmente no triathlon feminino. No masculino também tem um número maior de atletas aparecendo e se destacando no ranking. Falta realmente reforçar o trabalho de base para se descobrir mais talentos para defender o País e dar meios para que estes atletas desenvolvam seus potenciais.

O que os australianos e americanos têm que o brasileiros não têm?
Eles não têm nada de diferente, além de uma boa estrutura, condições para se dedicar à modalidade e apoio do governo. O que espero é que aumente o apoio ao esporte no Brasil.

Que dicas você daria para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Tem que ralar, acordar do sonho e cair na estrada, treinar para buscar a meta. Eu não acredito muito nesta história de ver um garoto e estimar que daqui a X anos ele será um campeão. Sou mais de fazer e ir buscando um objetivo de cada vez.

Qual o momento mais importante da sua carreira?
Toda conquista foi especial, mas há duas que marcaram. Em 91 ser campeão do circuito mundial. Ninguém esperava que um brasileiro conquistasse e aquele ano sai viajando o mundo, falando pouco inglês e me virei até chegar ao título. E em 95, ganhar a medalha de ouro no Pan-Americano. Tive uma lesão no joelho no final de 94, cheguei curado na competição, mas inseguro. Corri na raça e conquistei.

Em 2002 você conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Qual título internacional falta na sua carreira?
Falta uma medalha olímpica e um título Mundial, já que minha melhor colocação neste torneio foi o terceiro lugar em 96, quando foi disputado em Cleveland (EUA). Ainda é o melhor resultado de um brasileiro na competição.

Qual a sua avaliação sobre o triathlon no Brasil?
Voltaram a organizar o triathlon no Brasil, realizando mais provas e trazendo competições internacionais para cá. E isso acontecendo num bom momento, já que o Pan 2007 será realizado no Rio, aumentando, assim, o nível técnico dos atletas nacionais.

Leandro Macedo
34 anos
Triatleta há 17 anos
Peso: 68 kg
Altura: 1,74m


  • Nº 1 do Ranking Mundial em 1991
  • Medalha de Ouro - Jogos Pan Americanos (Mar Del Plata/95)
  • Medalha de Ouro - Jogos Sul-Americanos (individual/2002)
  • Medalha de Ouro - Jogos Sul-Americanos (equipe/2002)
  • Tetracampeão Pan-Americano (93, 99 e 2002)
  • Bicampeão Sul-Americano (91 e 93)
  • Heptacampeão do ranking brasileiro
  • Olimpíadas de Sydney – Melhor Sul-Americano e 2ª melhor das Américas (42 países)
  • Campeão do Mundialito de Fast Triathlon


Leandro Macedo: o triathleta mais velho do mundo

Triathlon · 10 abr, 2003

Leandro Macedo corre, nada e pedala em busca de vitórias. Cuidando do corpo, mente e espírito, pretende chegar aos 120 anos. Melhor triatleta sul-americano nos Jogos Olímpicos de Sydney/2000, com a 14ª colocação, Leandro Macedo acumula títulos e resultados de um verdadeiro campeão. No ano passado, garantiu um dos únicos títulos internacionais que faltava na carreira, o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Aos 34 anos, segue a incansável rotina em busca de vitórias. Pretende ganhar medalha no Pan-Americano da República Dominicana, de preferência a de ouro para carimbar o passaporte para Atenas/2004. Para quem pensa que está velho para o esporte de alto nível, além dos resultados, tem como resposta o estilo de vida. Pretende chegar aos 120, cuidando do corpo, mente e espírito. Confira a entrevista exclusiva de Leandro Macedo a SuperAção.


Como você analisa sua participação no Ironman do Havaí e quais as maiores dificuldades da prova?
Em 17 anos de triathlon disputei quatro Ironman, sendo dois no Havaí e minha melhor posição foi 19º lugar. Na primeira vez não consegui terminar a prova, pois não soube dosar a energia. A dificuldade é você encontrar seu ritmo. A primeira vez você não se pode querer buscar resultado. É para você conhecer a competição, ver como se comporta. A cada disputa, você vai adquirindo mais experiência e conhecendo o comportamento do seu corpo, e é preciso ter paciência para saber dosar a energia durante a prova. Apesar do tempo que tenho no triathlon (17 anos), ainda não encontrei o ponto de equilíbrio no Ironman. Falta achar o ritmo no ciclismo.

Quais são seus planos para a carreira e como será a temporada 2003?
Estou voltado para a Olimpíada. Então, nesta preparação tem os Jogos Pan-Americanos para o qual estou classificado e no final do ano tem o Campeonato Mundial, além de disputar outras provas para somar mais pontos para o ranking. É claro que vou tentar uma medalha no Pan, se der ouro, melhor ainda. Assim garanto mais uma vaga para o Brasil no triathlon em Atenas.

Qual meta pretende atingir este ano em termos de ranking?
Sou número 53 do ranking mundial e quero terminar 2003 abaixo dos 40. Para conseguir, escolhi as melhores provas para o meu estilo. Quero disputar dentro de um planejamento de treino para chegar nas competições na melhor forma.

Quem é o seu ídolo?
Os atletas brasileiros, principalmente aqueles que têm uma origem humilde, sem estrutura nenhuma, que chegam ao topo com muita raça.

Como é a sua rotina, o que gosta de fazer nas horas livres?
No período da manhã treino corrida e ciclismo. Depois do almoço gosto de descansar, fazendo meditação, acupuntura ou lendo, e no fim da tarde treino natação. Três vezes por semana faço musculação para fortalecimento e evitar lesões. Quanto estou livre gosto de cinema, teatro, futvôlei, cachoeiras e brincar com o meu filho (5 anos). Meu treino tem, por dia, de 40 minutos a uma hora e quarenta de corrida, mais uma hora e meia a quatro horas de ciclismo e duas horas de natação, de segunda a sábado. Descanso no domingo.

Como entrou para o triathlon?
Comecei aos 18 anos. Sempre gostei de fazer esporte: tênis, natação, basquete, atletismo, entre outros. Tinha um amigo que praticava triathlon e me chamou. Mas eu ia começar o curso de engenharia florestal e não teria tempo. No entanto, no início das aulas houve uma greve na faculdade e combinei que enquanto não tivesse aula, iria treinar. Quando as aulas voltaram apareceu uma prova. Participei, gostei e senti que queria fazer aquilo. E podia ir além. Fui primeiro colocado na minha categoria e sexto no geral. Fiz 3 anos e meio de engenharia e parei por causa do esporte, voltei aos estudos em 94 para fazer Educação Física, na qual me formei. Na época em que comecei, entre 85 e 86, era o auge do triathlon no Brasil, mas havia pouco conhecimento do que realmente era o esporte, achava-se que era coisa de maluco, um desafio, esporte radical. Mas com o tempo a modalidade foi se organizando, a estrutura melhorou com a inclusão do esporte na Olimpíada. As novas regras, desde 95, que permitiram vácuo nas provas olímpicas, deixaram a competição mais estratégica e disputada, valorizando a natação e a corrida.

Qual é o seu ponto forte no triathlon e no que ainda tem que melhorar?
A corrida é uma facilidade natural e descobri até que tarde, mesmo na época que praticava atletismo não era tão bom. Sinto que tenho que melhorar a natação. Praticamente comecei a nadar aos 18 anos, para o triathlon. Apesar de treinar natação há 17 anos, ainda tenho que melhorar.

Como é composta sua equipe de trabalho?
Monto meu programa de treino, já que tenho a formação em Educação Física e a experiência no esporte. Antes, tive técnico. Atualmente tenho um orientador de natação e duas vezes por semana corro com o pessoal da Ceilândia e recebo algumas orientações.

Você nasceu em Porto Alegre, mas vive em Brasília...
Aos 6 anos mudei para Brasília por causa da transferência do trabalho do meu pai. As condições do clima da cidade (chove pouco e é seco) e altitude ajudam na preparação. E as ruas largas facilitam para os treinos de corrida e ciclismo, além de haver muitas piscinas para treinar.

Quais cuidados toma com a alimentação?
Tenho o costume de dizer que faço uma refeição ao dia, das 7 às 23h. Como pouco e muitas vezes ao dia, então, na soma dá umas seis refeições diárias. Gosto de alimentos naturais (arroz e farinha integral, leite de soja, etc.), mas não sou radical. Evito gordura, doces (principalmente na semana de prova).

Qual é a sua estratégia durante as provas?
Devido à competitividade atual, você tem que se preocupar com todos os detalhes, até mesmo com as trocas, que antes eram mais lentas. Durante a prova pondero todos os elementos, desde as qualidades dos adversários até saber a melhor atitude em determinada situação, como se é hora de atacar, puxar o ritmo ou se manter no pelotão, por exemplo, no ciclismo.

Você disputa mais provas olímpicas, no entanto encarou o Ironman. É possível ser campeão nas duas?
Hoje é muito difícil querer ser o melhor nos dois tipos de prova, mas não é impossível. No entanto, as regras diferem, a preparação é específica para o estilo e a tendência é os atletas se especializarem num tipo. Fazer um bom Ironman e disputar provas curtas, no fim de ano, com bons resultados é possível se tudo correr dentro do planejado. Agora, ser campeão nos dois fica complicado.

Está em seus planos se dedicar ao Ironman?
Quero aproveitar ao máximo a minha carreira. Enquanto estiver competitivo quero ficar nas provas olímpicas. Quando sentir que meu rendimento caiu, inicio a preparação para o Ironman e vou buscar melhores resultados nesta prova.

Como você avalia sua performance no ano passado?
Foi um bom ano, conquistei pela terceira vez o Pan-Americano e pela primeira vez levei o título do Sul-Americano. No primeiro semestre disputei várias provas internacionais, mas acabei tendo pouca sorte. Fui bem nas competições, mas tive problemas com o pneu (furado) na Flórida e no Japão a roda saiu do eixo. No geral o saldo foi positivo, mesmo com os eventuais problemas, saí da faixa os 70 no ranking e baixei para 50.

E como está a briga no ranking mundial para chegar a Atenas 2004?
Na minha opinião, se tivermos três brasileiros entre os 50 primeiros colocados no ranking, os três irão para Atenas. Estou fazendo a minha parte de tentar abrir mais uma vaga buscando o ouro do Pan.

Comente a sua participação em Sydney (14º colocado).
Minha expectativa foi tão grande para aquele momento. Me cobrei muito para estar naquela prova. Minha preparação foi excelente. Por 10 segundos não consegui ficar no segundo pelotão da natação (no qual geralmente ficam os atletas que buscam o título), depois puxei no ciclismo para diminuir a diferença e quando cheguei na corrida, estava cansado por causa do esforço. Então, levei 5 km para poder soltar as pernas, mas aí não dava mais. Mesmo assim ganhei algumas posições e finalizei em 14º.

Você está com 34 anos, acredita ser o auge da carreira?
Quando ganhei o circuito mundial, em 91, achei que era o auge. Depois, em 94, quando voltei a estudar (Educação Física), falaram que eu era “old generation” e estaria deixando o esporte. Mas logo em seguida, em 95, conquistei o ouro nos Jogos Pan-Americanos. Então, em média, a cada quatro anos estou tendo um auge, e aí fica difícil dizer que há um único topo na minha carreira.

Até quando acredita ser possível competir em alto nível?
A princípio, enquanto você estiver motivado pode competir. Mas a média é até 25, 27 anos. Já estou fora da normalidade.

Aposentadoria é um assunto no qual você já pensou?
Eu devo fazer uma retirada simbólica das provas olímpicas e, assim, não ter mais a pressão de defender o País, buscar vagas e tudo mais. A princípio isso deve ocorrer após Atenas. Então, vou me dedicar às provas promocionais, não é uma aposentadoria total das competições. Sempre pensei e dividi a minha vida em três fases. Até os 40 anos me dedicar ao físico, dos 40 aos 80 ao intelectual e dos 80 aos 120 ao espiritual. Tem gente que acha loucura. Querer viver até os 120 anos, mas até agora está dando certo e estas partes são prioridades, pois você tem que combinar as três o tempo todo para ter uma vida saudável.

Qual o segredo para prolongar a vida útil de um atleta?
Meu segredo, acho, foi começar tarde. Tem muito adolescente que treina e é exigido como adulto e, às vezes, se perde um atleta muito cedo por causa da grande exigência no início. Aconselho a aprender ao longo do treinamento, ouvir seu corpo e respeitá-lo. Sempre uso a frase: “Sou aluno do meu corpo e mestre da minha mente”. Ou seja, aprendo com o corpo e ensino a mente a conduzir.

Você pratica meditação desde 91, como ela ajuda no esporte?
A meditação me ajuda a controlar o nível de ansiedade, cobrança, expectativa antes e durante a prova. O esporte me acelera e a meditação me traz o repouso e o equilíbrio.

O que falta para os brasileiros conseguirem maiores resultados internacionais?
Já melhorou muito, principalmente no triathlon feminino. No masculino também tem um número maior de atletas aparecendo e se destacando no ranking. Falta realmente reforçar o trabalho de base para se descobrir mais talentos para defender o País e dar meios para que estes atletas desenvolvam seus potenciais.

O que os australianos e americanos têm que o brasileiros não têm?
Eles não têm nada de diferente, além de uma boa estrutura, condições para se dedicar à modalidade e apoio do governo. O que espero é que aumente o apoio ao esporte no Brasil.

Que dicas você daria para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Tem que ralar, acordar do sonho e cair na estrada, treinar para buscar a meta. Eu não acredito muito nesta história de ver um garoto e estimar que daqui a X anos ele será um campeão. Sou mais de fazer e ir buscando um objetivo de cada vez.

Qual o momento mais importante da sua carreira?
Toda conquista foi especial, mas há duas que marcaram. Em 91 ser campeão do circuito mundial. Ninguém esperava que um brasileiro conquistasse e aquele ano sai viajando o mundo, falando pouco inglês e me virei até chegar ao título. E em 95, ganhar a medalha de ouro no Pan-Americano. Tive uma lesão no joelho no final de 94, cheguei curado na competição, mas inseguro. Corri na raça e conquistei.

Em 2002 você conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Qual título internacional falta na sua carreira?
Falta uma medalha olímpica e um título Mundial, já que minha melhor colocação neste torneio foi o terceiro lugar em 96, quando foi disputado em Cleveland (EUA). Ainda é o melhor resultado de um brasileiro na competição.

Qual a sua avaliação sobre o triathlon no Brasil?
Voltaram a organizar o triathlon no Brasil, realizando mais provas e trazendo competições internacionais para cá. E isso acontecendo num bom momento, já que o Pan 2007 será realizado no Rio, aumentando, assim, o nível técnico dos atletas nacionais.

Leandro Macedo
34 anos
Triatleta há 17 anos
Peso: 68 kg
Altura: 1,74m


  • Nº 1 do Ranking Mundial em 1991
  • Medalha de Ouro - Jogos Pan Americanos (Mar Del Plata/95)
  • Medalha de Ouro - Jogos Sul-Americanos (individual/2002)
  • Medalha de Ouro - Jogos Sul-Americanos (equipe/2002)
  • Tetracampeão Pan-Americano (93, 99 e 2002)
  • Bicampeão Sul-Americano (91 e 93)
  • Heptacampeão do ranking brasileiro
  • Olimpíadas de Sydney – Melhor Sul-Americano e 2ª melhor das Américas (42 países)
  • Campeão do Mundialito de Fast Triathlon

Ciraldo Reis da Abradecar

Em virtude das constantes matérias publicadas em jornais de São Paulo, sobre mau gerenciamento de recursos da Lei Piva, o site cadeirantes.com.br tentou manter contato com o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), através do Sr. Leonardo Carpes dos Santos, da Assessoria de Comunicação do CPB, inclusive colocando o site à disposição para esclarecimentos, mas infelizmente, ficamos sem resposta.

Procuramos então, o Presidente da ABRADECAR, Ciraldo Reis, que respondeu algumas das perguntas isentando-se de algumas por julgar que não é de sua competência, indicando os Srs. Sr. José Amaury Russo, Sr. Flávio Arns Sr. Adilson Ramos Sr. Ivaldo Brandão, por entender que são de competência do Conselho Fiscal do CPB, Presidente do Conselho Deliberativo do CPB, que serão consultados oportunamente.

Cadeirantes.com.br No seu entendimento, porque os funcionários do CPB recebem esses salários altíssimos (levando-se em consideração a realidade brasileira e a média salarial brasileira)?
Ciraldo Reis - Devido a decisão unilateral do presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Sr. Vital Severino Neto.

Cadeirantes.com.br - Diante de tal realidade qual é o próximo passo das Associações Nacionais, uma vez que já foi comprovado pelo TCU essas irregularidades?
CR - A ABRADECAR tem buscado judicialmente seus direitos e de todos os atletas cadeirantes, técnicos e clubes filiados.

Cadeirantes.com.br - Quando o Sr. Vital Neto fala: "Não vamos desguarnecer nossas Associações nem os projetos sociais, mas a vocação do CPB é preparar atletas para competir em eventos de grande porte. Em 2003 essa será nossa prioridade". Será que os cadeirantes terão a sua oportunidade desta vez?
CR - No que depender da ABRADECAR, vamos lutar para isso e repassar tais reivindicações ao presidente do Conselho Deliberativo do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Sr. Flávio Arns.

Cadeirantes.com.br - O Sr. poderia relatar alguns projetos da ABRADECAR, já apresentados, que contemplem os atletas corredores em cadeira de rodas e que foram "vetados" ou tiveram alguma sanção do CPB? Quais projetos estão para a aprovação e que contemplem esta modalidade esportiva?
CR - No ano passado, foi travado um impasse entre o CPB e a ABRADECAR com relação à ida da delegação brasileira que iria representar o país na Maratona Internacional de Oita, evento realizado no mês de outubro/2002 no Japão. A ABRADECAR tentou de todas as formas e trabalhou intensamente para enviar os atletas corredores em cadeira de rodas para esta competição e insistiu, sistematicamente, que o CPB liberasse os recursos necessários à ida da equipe brasileira. Entretanto, o CPB alegou não disponibilizar da verba e vetou o projeto apresentado pela ABRADECAR mesmo após a aprovação do mesmo no Conselho Deliberativo da entidade. Para este ano estamos bastante esperançosos e temos o intuito de enviar nossos corredores a Maratona de Oesingen, na Suíça, e a Maratona Internacional de Oita, no Japão. Além disso, estamos tentando viabilizar um projeto de patrocínio da modalidade maratona junto à algumas empresas para compra de cadeiras de corrida e custeio dos atletas para competições internacionais.

Cadeirantes.com.br - A seleção de futebol de amputados (que não é esporte paraolímpico) viajou em 2002, para disputar torneio internacional, com o apoio do CPB. A delegação de cadeirantes maratonistas deixou de cumprir compromisso esportivo extremamente, por falta de recursos (alegação do CPB), o do Diretor Técnico do CPB Sr. Kléber ponderou de a viagem da delegação brasileira era em apoio a uma equipe vencedora, mas ora os atletas cadeirantes tiveram excelentes resultados no ano de 2001 e 2002, inclusive na Maratona de Oita, será que, sendo desporto paraolímpico não mereceriam e deveriam, por ser esporte paraolímpico, serem agraciados com incentivo também, uma vez que o Comitê nunca prestigiou a modalidade em provas internacionais? Comente por favor.
CR - É claro que merecem o mesmo apoio e incentivo e é por isso que a ABRADECAR está trabalhando arduamente, buscando patrocínio junto às empresas, e entrou na justiça para garantir os recursos que, por direito, devem ser direcionados ao fomento e desenvolvimento do esporte em cadeira de rodas.

Cadeirantes.com.br - Sr. Ciraldo, atualmente temos parcos atletas nas provas de pista (cadeirantes) exatamente pelo distanciamento dos organismos que deveriam fomentá-los. De uma lado vemos a sua (ABRADECAR) boa vontade e de outro o CPB criando "impecílios" para que os projetos da ABRADECAR DESTINADOS aos corredores cadeirantes decolem, é essa mesmo a realidade?
CR Infelizmente, a diretoria que está à frente do CPB, por motivos políticos, vem prejudicando sistematicamente a ABRADECAR. Digo motivos políticos porque eu, enquanto presidente da ABRADECAR, não coaduno com a forma que estão sendo aplicados os recursos oriundos da Lei Piva e busco a seriedade, probidade e transparência no movimento paraolímpico brasileiro. Para isso, não me calo e denuncio às autoridades e pessoas ligadas ao paradesporto as irregularidades que vem ocorrendo no gerenciamento de tais recursos. Essa postura incomoda a diretoria do CPB e, na tentativa de dar um basta nisso, a entidade passou a perseguir a ABRADECAR, vetando seus projetos e suspendendo todos os repasses à nossa associação que tem o dever de fomentar o esporte em cadeira de rodas no Brasil. Ao fazer isso, o CPB não só tentou fechar as portas da nossa entidade, mas também prejudicou nossos atletas, técnicos e clubes filiados.

Cadeirantes.com.br - Na qualidade de presidente da ABRADECAR o que o Sr. poderia adiantar aos corredores cadeirantes????? Será que em um futuro próximo nós brasileiros poderemos ter uma equipe permanente de "corredores em cadeira de rodas"?
CR - Este é o objetivo da ABRADECAR e todos os atletas praticantes de maratona em cadeira de rodas podem ter a certeza de que nossa associação está trabalhando incansavelmente para que isto se torne uma realidade.

Outras notícias - O Presidente também dá boas notícias ao paradesporto nacional. “A partir do dia 10 de abril estarão sendo contemplados com bolsa auxílio (remuneração mensal) 13 atletas da modalidade de halterofilismo, sendo que os iniciantes, categoria em formação receberão em média R$ 800 e atletas com recorde mundial R$ 1.200,00. “Repassaremos o dinheiro direto para os Clubes, pois entendemos que o Clube saberá como utilizar essa verba. Diferentemente de outros organismos, somos cientes que os Clubes fazem o seu investimento, por isso desta nossa decisão”.

Muito em breve, continua Ciraldo, outras modalidades do paradesporto serão contempladas com esse auxílio financeiro tão precioso para quem ainda se atreve a praticar esporte adaptado no Brasil. Felizmente os recursos estão sendo utilizados com visibilidade e veremos se há a possibilidade de publicarmos aqui no site as prestações de contas da ABRADECAR e outras Entidades Nacionais do Paradesporto Brasileiro para dar mais credibilidade às Administrações, tão contestadas pela gerência financeira de recursos, que são nada mais nada menos que dos atletas.

Como atleta e consultor deste site, fico muito contente e feliz e certamente esta é o mesmo sentimento de todos os corredores em cadeira de rodas do país. Quando as Entidades buscam recursos é a nossa cara, os nossos tempos, as nossas marcas que eles utilizam para comprovar o pedido destes recursos, nada mais justo que eles voltem para nós.


Ciraldo Reis da Abradecar

Esporte Adaptado · 01 abr, 2003

Em virtude das constantes matérias publicadas em jornais de São Paulo, sobre mau gerenciamento de recursos da Lei Piva, o site cadeirantes.com.br tentou manter contato com o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), através do Sr. Leonardo Carpes dos Santos, da Assessoria de Comunicação do CPB, inclusive colocando o site à disposição para esclarecimentos, mas infelizmente, ficamos sem resposta.

Procuramos então, o Presidente da ABRADECAR, Ciraldo Reis, que respondeu algumas das perguntas isentando-se de algumas por julgar que não é de sua competência, indicando os Srs. Sr. José Amaury Russo, Sr. Flávio Arns Sr. Adilson Ramos Sr. Ivaldo Brandão, por entender que são de competência do Conselho Fiscal do CPB, Presidente do Conselho Deliberativo do CPB, que serão consultados oportunamente.

Cadeirantes.com.br No seu entendimento, porque os funcionários do CPB recebem esses salários altíssimos (levando-se em consideração a realidade brasileira e a média salarial brasileira)?
Ciraldo Reis - Devido a decisão unilateral do presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Sr. Vital Severino Neto.

Cadeirantes.com.br - Diante de tal realidade qual é o próximo passo das Associações Nacionais, uma vez que já foi comprovado pelo TCU essas irregularidades?
CR - A ABRADECAR tem buscado judicialmente seus direitos e de todos os atletas cadeirantes, técnicos e clubes filiados.

Cadeirantes.com.br - Quando o Sr. Vital Neto fala: "Não vamos desguarnecer nossas Associações nem os projetos sociais, mas a vocação do CPB é preparar atletas para competir em eventos de grande porte. Em 2003 essa será nossa prioridade". Será que os cadeirantes terão a sua oportunidade desta vez?
CR - No que depender da ABRADECAR, vamos lutar para isso e repassar tais reivindicações ao presidente do Conselho Deliberativo do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Sr. Flávio Arns.

Cadeirantes.com.br - O Sr. poderia relatar alguns projetos da ABRADECAR, já apresentados, que contemplem os atletas corredores em cadeira de rodas e que foram "vetados" ou tiveram alguma sanção do CPB? Quais projetos estão para a aprovação e que contemplem esta modalidade esportiva?
CR - No ano passado, foi travado um impasse entre o CPB e a ABRADECAR com relação à ida da delegação brasileira que iria representar o país na Maratona Internacional de Oita, evento realizado no mês de outubro/2002 no Japão. A ABRADECAR tentou de todas as formas e trabalhou intensamente para enviar os atletas corredores em cadeira de rodas para esta competição e insistiu, sistematicamente, que o CPB liberasse os recursos necessários à ida da equipe brasileira. Entretanto, o CPB alegou não disponibilizar da verba e vetou o projeto apresentado pela ABRADECAR mesmo após a aprovação do mesmo no Conselho Deliberativo da entidade. Para este ano estamos bastante esperançosos e temos o intuito de enviar nossos corredores a Maratona de Oesingen, na Suíça, e a Maratona Internacional de Oita, no Japão. Além disso, estamos tentando viabilizar um projeto de patrocínio da modalidade maratona junto à algumas empresas para compra de cadeiras de corrida e custeio dos atletas para competições internacionais.

Cadeirantes.com.br - A seleção de futebol de amputados (que não é esporte paraolímpico) viajou em 2002, para disputar torneio internacional, com o apoio do CPB. A delegação de cadeirantes maratonistas deixou de cumprir compromisso esportivo extremamente, por falta de recursos (alegação do CPB), o do Diretor Técnico do CPB Sr. Kléber ponderou de a viagem da delegação brasileira era em apoio a uma equipe vencedora, mas ora os atletas cadeirantes tiveram excelentes resultados no ano de 2001 e 2002, inclusive na Maratona de Oita, será que, sendo desporto paraolímpico não mereceriam e deveriam, por ser esporte paraolímpico, serem agraciados com incentivo também, uma vez que o Comitê nunca prestigiou a modalidade em provas internacionais? Comente por favor.
CR - É claro que merecem o mesmo apoio e incentivo e é por isso que a ABRADECAR está trabalhando arduamente, buscando patrocínio junto às empresas, e entrou na justiça para garantir os recursos que, por direito, devem ser direcionados ao fomento e desenvolvimento do esporte em cadeira de rodas.

Cadeirantes.com.br - Sr. Ciraldo, atualmente temos parcos atletas nas provas de pista (cadeirantes) exatamente pelo distanciamento dos organismos que deveriam fomentá-los. De uma lado vemos a sua (ABRADECAR) boa vontade e de outro o CPB criando "impecílios" para que os projetos da ABRADECAR DESTINADOS aos corredores cadeirantes decolem, é essa mesmo a realidade?
CR Infelizmente, a diretoria que está à frente do CPB, por motivos políticos, vem prejudicando sistematicamente a ABRADECAR. Digo motivos políticos porque eu, enquanto presidente da ABRADECAR, não coaduno com a forma que estão sendo aplicados os recursos oriundos da Lei Piva e busco a seriedade, probidade e transparência no movimento paraolímpico brasileiro. Para isso, não me calo e denuncio às autoridades e pessoas ligadas ao paradesporto as irregularidades que vem ocorrendo no gerenciamento de tais recursos. Essa postura incomoda a diretoria do CPB e, na tentativa de dar um basta nisso, a entidade passou a perseguir a ABRADECAR, vetando seus projetos e suspendendo todos os repasses à nossa associação que tem o dever de fomentar o esporte em cadeira de rodas no Brasil. Ao fazer isso, o CPB não só tentou fechar as portas da nossa entidade, mas também prejudicou nossos atletas, técnicos e clubes filiados.

Cadeirantes.com.br - Na qualidade de presidente da ABRADECAR o que o Sr. poderia adiantar aos corredores cadeirantes????? Será que em um futuro próximo nós brasileiros poderemos ter uma equipe permanente de "corredores em cadeira de rodas"?
CR - Este é o objetivo da ABRADECAR e todos os atletas praticantes de maratona em cadeira de rodas podem ter a certeza de que nossa associação está trabalhando incansavelmente para que isto se torne uma realidade.

Outras notícias - O Presidente também dá boas notícias ao paradesporto nacional. “A partir do dia 10 de abril estarão sendo contemplados com bolsa auxílio (remuneração mensal) 13 atletas da modalidade de halterofilismo, sendo que os iniciantes, categoria em formação receberão em média R$ 800 e atletas com recorde mundial R$ 1.200,00. “Repassaremos o dinheiro direto para os Clubes, pois entendemos que o Clube saberá como utilizar essa verba. Diferentemente de outros organismos, somos cientes que os Clubes fazem o seu investimento, por isso desta nossa decisão”.

Muito em breve, continua Ciraldo, outras modalidades do paradesporto serão contempladas com esse auxílio financeiro tão precioso para quem ainda se atreve a praticar esporte adaptado no Brasil. Felizmente os recursos estão sendo utilizados com visibilidade e veremos se há a possibilidade de publicarmos aqui no site as prestações de contas da ABRADECAR e outras Entidades Nacionais do Paradesporto Brasileiro para dar mais credibilidade às Administrações, tão contestadas pela gerência financeira de recursos, que são nada mais nada menos que dos atletas.

Como atleta e consultor deste site, fico muito contente e feliz e certamente esta é o mesmo sentimento de todos os corredores em cadeira de rodas do país. Quando as Entidades buscam recursos é a nossa cara, os nossos tempos, as nossas marcas que eles utilizam para comprovar o pedido destes recursos, nada mais justo que eles voltem para nós.

Altemir Oliveira: a grande promessa

As vezes pequenos gestos transformam-se em grande acontecimentos, quando tem o endereço certo, a hora certa e principalmente a pessoa certa. Altemir Luís de Oliveira, 3º colocado na Maratona de São Paulo, um dos melhores corredores em atividade no Brasil, corre como um dos favoritos na Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, Dez Milhas Garoto e ainda na Maratona de Florianópolis.

Treina forte para a Meia Maratona de Oita e fala sobre alguns acontecimentos de sua vida, sobre atletismo, drogas e superação. De quando alguém, com força de vontade e oportunidades pode vencer obstáculos muito maiores que o preconceito e as barreiras arquitetônicas.

O site CADEIRANTES.COM.BR teve um bate-papo com uma das maiores promessas do atletismo brasileiro nas provas de fundo, foi também vencedor da Volta da Pampulha 2001 e Troféu de Melhor Índice Técnico dos Jogos Paradesportivos da Região Sul, realizados na cidade de Itajaí/SC no útimo mês de julho.

Todos que o conhecem ou já ouviram falar, sabem que é o Gringo. Poucos, porém, sabem de suas alegrias, agruras, dificuldades e idéias. O papo foi bem legal, acompanhem.

Cadeirantes.com.br - Qual o Clube que você representa?
Resposta: Altemir Luís de Oliveira – Gringo: Clube Gaúcho de Desporto em Cadeira de Rodas, da cidade de Porto Alegre - RS

Cadeirantes.com.br - Qual a sua deficiência e qual foi a causa?
Gringo - A minha deficiência é trauma medular, causado por disparo de arma de fogo, bala perdida.

Cadeirantes.com.br - Como você conheceu o esporte adaptado, Quando começou a competir e porque começou a competir?
Gringo – Eu conheci o esporte adaptado em meados de 1990 em um Centro de Reabilitação Profissional na Avenida Bento Gonçalves, na cidade de Porto Alegre, RS, através do professor Heraldo que me deu as primeiras dicas e posteriormente o Professor Aldo Carlitos Potrich, o maior incentivador do esporte para PPD’s (pessoas portadoras de deficiência) e comecei a praticar a modalidade de basquete em cadeira de rodas. E em 1999 eu migrei para o atletismo. Eu comecei no esporte, em princípio, por curtição, pois antes de ser PPD eu praticava o esporte tradicional do Brasil o futebol. Eu tinha uma vida ativa. No início, do esporte adaptado, era realmente só passatempo, pois eu conheci muitas pessoas novas com na mesma condição física que a minha.. Depois eu comecei a levar mais a sério o esporte até chegar a minha condição atual de profissional.

Cadeirantes.com.br - O que você acha de falarmos um pouco de drogas?
Gringo – Olha cara, droga na minha vida já fez parte por um bom tempo, no mínimo uns dez anos. Hoje eu tenho 29 anos. O cigarro, álcool e até droga pesada como cocaína. Eu fiquei um bom tempo nesta vida, isso por opção própria. O local onde você mora, as companhias e sem a opção de ter o que fazer. Eu fiquei paraplégico e fui começar a praticar esporte 06 anos depois do ocorrido. Na época eu tinha 17 anos era adolescente não pensei muito e a curtição era drogas, quando me dei por conta estava quase no fundo do poço. Eu reconheço que em certas ocasiões eu atrapalhava a vida da família pois eu usava drogas na frente de todos, mãe, irmão, vizinhos, perdi o controle usando droga direto e de uma ora para outra, sem o auxílio de ninguém eu resolvi parar, largar tudo.

Cadeirantes.com.br - Você acha que largar, qualquer tipo de droga, lícitas (cigarro álcool) ou ilícitas depende única e exclusivamente do usuário ou precisa de ajuda. Essas pessoas que dizem que não conseguem, o que você acha disso, pois você já esteve do outro lado?
Gringo – No mínimo 50% é vontade própria, pois caso contrário não adianta ninguém tentar ajudar. A ajuda de colegas, família (fala na mãe) amigos que não curtem a droga dando conselhos é muito importante neste processo. Não foi o meu caso, pois a iniciativa partiu de mim mesmo, pois eu encontrei ocupação para suprir a lacuna da droga e após algum tempo não houve como conciliar os dois eu, felizmente, não precisei de ajuda psicológica e outros métodos para isso.

Cadeirantes.com.br -E hoje como você avalia esta troca da droga pelo esporte?
Gringo – Foi a melhor troca da minha vida eu não quero essa situação de dependência para ninguém, pois existem casos que são muito dolorosos para que o dependente consiga se afastar da droga, pois a droga é alguma coisa que a gente vai gostando e vai se afundando. Quando a gente se dá conta a droga já faz parte da vida do dependente. Assim como o esporte faz parte da minha vida. Eu acordo todos os dias e sei que tenho treino, se não saio pela manhã à tarde eu vou para a academia malhar, sempre estou com ele. É como a droga na vida do dependente, o cara não tem nada para fazer, pensa o quê? Vou me drogar. Falta a opção de fazer alguma coisa produtiva.

Cadeirantes.com.br - E porquê você escolheu o atletismo? Você era um atleta sem expressão no basquete em cadeira de rodas, o seu primeiro esporte e agora você é um atleta de ponta, que está bem no ranking?
Gringo - O atletismo não foi uma escolha direta minha, foi um amigo meu, o Carlão, que desde a primeira vez que me viu em 1985 me convidou para correr e eu fui começar em 1989. Com todo este tempo a idéia ficou bem amadurecida na minha cabeça. Antes eu não fui porque não tinha material (cadeira, luva, etc) e eu não tinha muita vontade de praticar, mas em 1989 ele adquiriu uma cadeira nova e sobrou a cadeira usada e foi a deixa que eu precisava, pois eu já estava enchendo o saco de basquete, não sei se é era eu quem não me relacionava bem com o grupo, pois constantemente eu estava arrumando conflitos e inimizades. Na época que fui para o atletismo eu já estava largando o esporte, largando o basquete, pois no Brasil não tem expressão nenhuma e no Rio Grande do Sul muito menos. Aqui no Rio Grande do Sul o basquete é de 3ª Divisão para baixo.

Cadeirantes.com.br - Na sua visão, porque o basquete gaúcho está nesta situação? Falta incentivo, profissionalismo o quê?
Gringo - No meu ponto de vista está faltando tudo, pois não temos equipes com espírito profissional, mas falta principalmente material humano (jogadores), pois as cadeiras fabricadas no Brasil até que tem um bom nível de qualidade frente as fabricadas nos EUA e Europa. Tá faltando quem sirva de espelho para despertar a vontade de praticar esporte. A galera que tá jogando basquete tá só afim de fazer lazer e hoje isso não se encaixa no meu cotidiano. Eu não me vejo jogando basquete somente pelo lazer, logicamente que eu gosto de bater uma bolina nos finais de semana, mas daí é lazer mesmo eu bato a minha bolinha mato a vontade mas depois eu fico uns três meses sem jogar.

Cadeirantes.com.br - Esse “material humano” que você fala, são profissionais especializados em basquete em cadeira de rodas ou são portadores de deficiência?
Gringo – Sim são profissionais na área, não só no basquete, mas no esporte adaptado, pois no país temos poucos e no RS muito menos. Mas como já disse, faltam PPD’s que queiram praticar esporte com o objetivo de vencer, sem aquela idéia de ocupar o tempo e passear pelo Brasil. Bem ou mal, mesmo na terceira divisão, sempre aparece alguma competição para viajar e passear, mas como já disse, sempre no intuito de se divertir e não com o objetivo de competir.

Cadeirantes.com.br - Você tem algum ídolo no esporte?
Gringo - Sim tenho eu admiro muito a Hortência e o Zico.

Cadeirantes.com.br - Por quê?
Gringo - A garra e a vontade de vencer da Hortência me emocionava. Eu assisti muito basquete por causa dela, hoje eu já nem assisto muito pois não tem alguém que tenha estas características. Ela passava força e confiança a todos em quadra. Essas qualidades me inspiram nos meus treinos e competições. O momento que mais me chamava a atenção era o do chute, quando fechava os olhos e concentra-se. Dava para ver no olho dela que aquele ponto era para uma nação e não pelo dinheiro que ganhava, pois eu acredito que ela não tenha ganhado muita grana com o basquete.
O Zico eu admiro ele como atleta. Ele foi ídolo do time de futebol da maior torcida do Brasil e sempre foi humilde. Eu traço um paralelo com o Romário que é um grande craque, mas está sempre enrolado com suas declarações na imprensa fazendo críticas ora para um ora para outro. O Zico você nunca viu ele fazendo isso. Teve problemas graves de lesão, deu a volta por cima, consegui superar, foi para o Japão onde hoje ele depois de tantos anos ainda é ídolo por lá. Sempre humilde, acho que é o que está faltando para o Romário e o Pelé que toda a hora estão trocando farpas.

Cadeirantes.com.br - Sei que treina muito sério, vc sonha algum dia ser ídolo de alguém?
Gringo – Lógico que sonho em deixar uma história. Eu estou a quatro anos no atletismo. Poucos dias atrás eu participei dos Jogos Regionais Paradesportivos na cidade de Itajaí (SC) e agora o pessoal já está me conhecendo, antes eu chegava lá corria e nem era notado, mas agora é diferente, antes eles me conheciam apenas como Altemir quando os locutores chamavam para a prova, mas agora não, é diferente eles me chamam pelo nome de guerra que é Gringo e sabem que eu estou no meu Estado treinando forte e se eles não fizerem o mesmo vão se danar, pois eu não estou de brincadeira. Eu gostaria de ser ídolo de algum PPD ou não, pois eu quero demonstrar as potencialidades de uma PPD. Quero demonstrar que quando se sofre algum acidente e fica com seqüela de trauma medular, a vida continua normal, você não vira super homem porque está praticando esporte e muito menos coitadinho por que está em cadeira de rodas. Eu posso ser ídolo de alguém tranqüilamente da família, da sobrinha, da afilhada, sei lá, mas esse alguém vai estar com alguma foto sua daqui a 40 60 anos guardada como recordação e eu vou ter a certeza de que representei alguma coisa para aquela pessoa pois caso contrário não teria guardado uma foto tanto tempo assim.

Cadeirantes.com.br - E a sua primeira corrida, você lembra ainda?
Gringo - Sim lembro, foi em março de 2000, na Rústica Semana de Porto Alegre, uma prova de 10km, onde participaram uns 10 atletas e eu cheguei em 2º (segundo) lugar a partir disso eu tive a certeza de que daria certo, pois como era a minha primeira corrida eu estava apenas começando, mas não imaginava em chegar no estágio que estou. É claro que tem muita coisa ainda para ser feita, mas eu notei que tinha muito potencial e um bom pedaço do caminho já estava vencido, uma vez que os competidores que estavam ali já estavam correndo a bem mais tempo que eu e consegui vencê-los com uma certa vantagem. Depois da prova eu tive um momento só meu de reflexão e decidi apostar em mim daqui para frente. É uma prova inesquecível, naquele dia eu me senti no paraíso. Pois entrei na prova sem pretensão e cheguei ao pódium. Hoje não, eu corro com mais responsabilidade, não de vencer a prova, mas de chegar bem colocado em virtude dos patrocinadores. Essa sem dúvida foi a minha melhor corrida até hoje e minha próxima melhor será no dia em que eu me aposentar, quando eu vou sair pelas provas do mundo só para passear e me divertir.

Cadeirantes.com.br - Como foi a emoção da primeira vitória o primeiro troféu?
Gringo – Foi nos 16 quilômetros na Volta Internacional da Pampulha no mês de novembro de 2001. Eu cheguei e estavam todos me esperando para fotografar e entrevistar. Foi muito emocionante, apesar da televisão, em especial, que transmite a prova ao vivo para o Brasil e sequer dar atenção aos corredores em cadeira de rodas eu apareci na chegada e após três dias no bairro onde moro as pessoas me falavam que haviam me visto na televisão. Entrevistas, fotos, sala vip, pódium, homenagem do locutor oficial da prova, pedido de telefone para contato, isso tudo é maravilhoso, inesquecível.

Cadeirantes.com.br - Uma prova que você não vai esquecer, por ser boa ou ruim?
Gringo - Uma boa: Maratona Internacional de São Paulo 2002. É uma prova muito técnica com muitas subidas e descidas, com um asfalto ruim e esburacado. Eu fiz uma comparação com a Maratona de Porto Alegre que foi a minha primeira maratona e o meu tempo foi fantástico, diante de tantas dificuldades. Foi a primeira vez que eu corri toda a prova no pelotão da frente com os ponteiros mantendo o mesmo ritmo até o final e não amarelei

Uma ruim: Meia Maratona de Oita, no Japão, onde eu corri com febre (tive uma crise renal) e por um erro da nossa confederação (ABRADECAR) nós largamos na última fila, pois eles não mandaram os nossos melhores tempos. Essas são as duas provas inesquecíveis até hoje.

Cadeirantes.com.br - Planos para o futuro?
Gringo - Meia Maratona do Japão, em novembro deste ano, para qual estou treinando muito e depois quero correr a Maratona de Boston em 2003, são as provas que estou dando prioridade. Também tem a paraolimpíada em Atenas para a qual eu vou me aprimorar na prova dos 5.000. Os meus planos é chegar na final, pois se eu receber incentivo eu tenho condições de fazer uma boa prova lá.

Cadeirantes.com.br -O que mudou na sua vida depois que a RCM Informática começou a patrociná-lo?
Gringo - Patrocinador é o ar que eu preciso para respirar. Fora a vontade, a determinação a gente tem que ter alguma empresa que dê o suporte financeiro, pois o atleta tem que somente treinar e não ficar pensando em como vai pagar a água a luz. Depois da chegada da RCM estão aí os meus resultados onde eu evoluí mais de 60% do meu desempenho.

Eu acredito que represente bem a marca da empresa que me patrocina, pois sou determinado em tudo que eu faço. E o dinheiro eu uso para pagar material, técnico, academia, viagem. Não fosse o patrocinador eu já haveria abandonado, pois não teria condições de continuar. Se mais empresas apostassem nos atletas, mais gente poderia sair da marginalidade e transformar-se em um atleta de renome como eu. O esporte é comprovadamente um resocializador. Vários PPD’s que conheço, por não terem opção, comprar balas e vão para os sinais de trânsito vender. Estamos desperdiçando muitos talentos por aí.

Cadeirantes.com.br - Como a sua família vê a sua participação no esporte?
Gringo - Eu venho de família pobre com mais quatro irmãos, órfãos de pai desde os 4 anos (eu). Nós nunca tivemos muito entusiasmo no esporte uma vez que não havia ninguém que nos mostrasse o caminho. Na minha família jamais se sonhou com alguém indo para outros países, aparecendo na mídia. Eles demoraram um pouco para assimilar essa minha condição de atleta. O esporte da família era o futebol, mas de 2 anos para cá todas me incentivam e me ajudam de uma maneira ou outra. Até grana para eu comer já me deram. Tem aqueles que eu veja apenas uma vez por mês, mas mesmo assim eles acompanham os meus resultados. Eu tenho uma obrigação moral com todos eles, pois eles sempre querem informações sobre mim e ainda buscam mais nos jornais, televisão, etc. Eu fiquei PPD aos 17 anos, para qualquer mãe isso é um incômodo, mas agora ela também me olha com outros olhos. Eu a entendo, pois uma mãe coloca um filho no mundo andando em cima das pernas e depois ela tem que ver o mesmo em cima de uma cadeira de rodas. Se fosse somente a cadeira até que não era nada, mas tem todo o processo onde se corre risco de vida em hospital, tem que fazer muitas adaptações, principalmente na casa, é bastante complicado, pois a intenção dela é salvar a vida do filho. Eu vi nos olhos da minha mãe que ela ficou muitos anos tristes, mas hoje eu sou o mesmo de antes do acidente, sou motivo de alegria, passou o trauma. Eu consegui recuperar todas as esperanças que ela tinha em mim. Ela é a que mais vibra com os meus feitos, sempre me pede uma lembrança das cidades por onde passo.

Cadeirantes.com.br - O que seria um grande passo para podermos potencializar a corrida em cadeira de rodas aqui no Sul e no Brasil?
Gringo - É meio complicado falar nisso. De repente eu tenho uma idéia muito boa, que são parecidas com as de outras pessoas, mas as autoridades que deveriam fazer alguma coisa, não tem vontade política de fazer com que as coisas aconteçam. Nós devemos muito disso a nossa cultura. Somos uma minoria de 10% da população, e infelizmente não existem políticas e nem cultura é voltada para isso. Nas próprias competições, os organizadores nos deixam participar por uma razão política, a gente vê na cara deles que se pudesse não deixava correr. Nós somos vistos como incômodo para os organizadores, temos que esperar uma nova geração para mudar tudo isso, talvez eu nem esteja mais aí para ver isso, mas vou continuar lutando contra essas idéias preconceituosas. Não existe uma política para a participação de todos nas principais provas do país. Eles dão muita importância para os corredores estrangeiros não se importando com as demais categorias. A ABRADECAR e o COMITÊ PARAOLÍMPICO também tem muita culpa disso pois são os organismos que deveriam ser responsáveis por nossas lutas. Fazemos tempos que deveriam serem respeitados, pois se estivéssemos fora do Brasil seríamos muito apoiados.

Cadeirantes.com.br - ABRADECAR e Comitê Paraolímpico são entidades que servem de elo entre o atleta e as Organizações Governamentais. Como você vê essas entidades nos dias de hoje?
Gringo - Hoje eu enxergo a Abradecar e o Comitê Paraolímpico, com uma visão muito contrária com o discurso de objetivos que são pregados por eles. No início, quando eles consolidaram essas Entidades foi com o objetivo de solidificar os direitos que temos hoje, busca de verbas públicas em âmbito federal, estadual e municipal, loterias, bingos e verbas privadas.
O início foi bom, pois fizeram o que pregavam, mas hoje em dia mudaram totalmente a visão. Hoje as verbas existem e eles estão recebendo sem muito esforço, pois a luta foi extenuante para alguns companheiros no passado, quando era uma tarefa árdua, era as trevas no esporte adaptado. Hoje em dia é uma guerra de belezas, pois a Abradecar e o Comitê preocupam-se somente com aquilo que dá mídia, eles vivem em conflito e quem sai perdendo somos nós atletas. São esses órgãos que tem a incumbência de levar as delegações para as competições internacionais e tem sérias divergências. Deveriam retroceder um pouco e voltar aos velhos tempos onde o atleta e o esporte era a razão principal. Nos últimos Jogos Regionais eu treinei feito doido para dar índice para ir ao mundial, fiz o tempo necessário e não fui convocado, em contrapartida houve uma lavação de roupa sobre desvio de verbas, verbas mal empregadas, gastos indevidos e outras coisas. Essa lavação de roupa deveria ter outro fórum, enquanto isso eu deixo de participar de uma competição importante como o Campeonato Mundial. Após a minha rotina de treinos, muitas vezes eu e meus colegas nos pegamos falando sobre a parte organizacional de Abradecar e Comitê Paraolímpico ao invés de ficarmos traçando planos para futuras competições. E quase sempre ao final destas conversas alguém comenta que não tem jeito, que não tem solução. Isso é triste, pois eu ralo com convicção de tempos melhores, mas o dia a dia me trás perspectivas sinistras. Fazemos muitos planos, traçamos metas e as coisa não mudam. O que resta a fazer é treinar, pagar a passagem do próprio bolso e ir correr fora do país, pois lá somos reconhecidos. Aqui no Brasil nem a minha modalidade onde tenho um dos melhores tempos do mundo na minha categoria o Comitê ou a Abradecar reconhece isso, nem sabem que eu existo.

Cadeirantes.com.br - Faltando em reconhecimento, esse tempo que você fez em Itajaí nos Jogos Regionais é um tempo muito bom, que deveria habilitar você para competições internacionais, tipo Campeonato Mundial de Atletismo na França, alguém lhe deu alguma explicação convincente para a sua não convocação?
Gringo - Pois é, mais uma vez, eu tenho que repetir. Eles não têm informações para fornecer, não dão explicações quanto a tomadas de tempo, quando serão, qual é o índice que devo alcança, essas coisas. O Comitê que deveria me fornecer esse tipo de informações, como já disse, nem sabe que eu existo. Não cumprem 1/3 do que reza no estatuto. Uma das finalidades é fomentar o esporte. Eu tenho tempos para estar no ranking mundial e a “eles” não interessa isso, apesar de o meu Clube mantê-los informados. Incentivar atletas, descobrir novos talentos, com objetivo de formar uma equipe boa para mundiais e paraolimpíada. Eu não recebi convite o mundial está acontecendo e eu estou aqui em Porto Alegre, com tempo, para no mínimo fazer uma final. Para que serve então todo o meu empenho e dedicação no esporte, sem falar no investimento financeiro que já fiz antes de ter patrocinador. Dá desânimo, pois eu poderia estar em um dia bom e fazer um tempo fantástico e estou aqui, sem explicações. Essa minha ida até a França me daria, também, curriculum. Com um bom curriculum é difícil conseguir apoio financeiro imagine sem. Este tipo de competições são uma boa oportunidade para se conseguir curriculum. Levam os atletas que “eles” escolheram, não informaram os critérios nem a forma de convocação. De repente, quantos atletas na minha condição ficaram no Brasil?

Cadeirantes.com.br - Preconceito. Fala um pouquinho sobre isso, pois você é uma pessoa politizada e esclarecida e já viajou para fora do país em competição.
Gringo - Olha a PPD que não tiver um pouco de conhecimento, aquilo básico, aquele que se imagina “normal” ao lado dos “normais” que não se assume como PPD pode se complicar, pois ele entende que é uma pessoa “andante” vai a certos lugares e nem percebe que está sendo discriminado. Ter que subir no elevador de cargas, com a desculpa de que pode sujar as paredes e tapete do elevador social com as rodas da cadeira é uma das muitas maneiras de discriminação. Entrar pela porta traseira dos prédios por não haver adaptação em prédios públicos. Eu sei que o preconceito existe, ele está ali, mas eu consigo driblar estas situações conversando, principalmente com porteiros e explicando a situação. Na maioria das vezes eu consigo o resultado esperado. Muito se deve pela falta de informação, pois a partir do momento em que o cidadão recebe informações ele começa a reivindicar e fazer valer os seus direitos. Isso, no meu caso, já não acontece nos dias de hoje, pois eu tenho informações sobre os meus direitos. Mas nos dias de hoje eu ainda tenho problema com a localização de camelôs, carrinhos de cachorro-quente nos rebaixamentos de meio-fio, calçadas ocupadas com material de construção, cadeiras de bares, calçadas mal conservadas, os banheiros adaptados são poucos, os locais de lazer quase nunca têm acesso para cadeira de rodas, o que acontece então o cara acaba não saindo para lugar nenhum, ficando em casa e assistindo uma fita com a namorada. Ficando assim cada vez mais difícil a reintegração à sociedade. Fica faltando assim a liberdade do ir e vir. Em vários lugares querem me ajudar a subir e descer escadas, mas eu não gosto disso, não por orgulho, mas porque quero ter a minha liberdade de ir e vir e porque é muito importante num contesto maior. Esses lugares não tem que contratarem ninguém para me ajudar, eles têm sim que adaptar esses locais às minhas necessidades. Já o transporte coletivo está um pouquinho melhor. Eu por exemplo já fiquei mais ou menos 1 hora 1 ½ no ponto esperando o ônibus, mas as empresas estão se rendendo e colocando mais veículos adaptados nas suas linhas. A relutância em colocar esses veículos é o custo mais elevado. Mas se depender do transporte público para fazer toda a rotina de treino que faço hoje, a pessoa vai penar para treinar.


Altemir Oliveira: a grande promessa

Esporte Adaptado · 17 ago, 2002

As vezes pequenos gestos transformam-se em grande acontecimentos, quando tem o endereço certo, a hora certa e principalmente a pessoa certa. Altemir Luís de Oliveira, 3º colocado na Maratona de São Paulo, um dos melhores corredores em atividade no Brasil, corre como um dos favoritos na Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, Dez Milhas Garoto e ainda na Maratona de Florianópolis.

Treina forte para a Meia Maratona de Oita e fala sobre alguns acontecimentos de sua vida, sobre atletismo, drogas e superação. De quando alguém, com força de vontade e oportunidades pode vencer obstáculos muito maiores que o preconceito e as barreiras arquitetônicas.

O site CADEIRANTES.COM.BR teve um bate-papo com uma das maiores promessas do atletismo brasileiro nas provas de fundo, foi também vencedor da Volta da Pampulha 2001 e Troféu de Melhor Índice Técnico dos Jogos Paradesportivos da Região Sul, realizados na cidade de Itajaí/SC no útimo mês de julho.

Todos que o conhecem ou já ouviram falar, sabem que é o Gringo. Poucos, porém, sabem de suas alegrias, agruras, dificuldades e idéias. O papo foi bem legal, acompanhem.

Cadeirantes.com.br - Qual o Clube que você representa?
Resposta: Altemir Luís de Oliveira – Gringo: Clube Gaúcho de Desporto em Cadeira de Rodas, da cidade de Porto Alegre - RS

Cadeirantes.com.br - Qual a sua deficiência e qual foi a causa?
Gringo - A minha deficiência é trauma medular, causado por disparo de arma de fogo, bala perdida.

Cadeirantes.com.br - Como você conheceu o esporte adaptado, Quando começou a competir e porque começou a competir?
Gringo – Eu conheci o esporte adaptado em meados de 1990 em um Centro de Reabilitação Profissional na Avenida Bento Gonçalves, na cidade de Porto Alegre, RS, através do professor Heraldo que me deu as primeiras dicas e posteriormente o Professor Aldo Carlitos Potrich, o maior incentivador do esporte para PPD’s (pessoas portadoras de deficiência) e comecei a praticar a modalidade de basquete em cadeira de rodas. E em 1999 eu migrei para o atletismo. Eu comecei no esporte, em princípio, por curtição, pois antes de ser PPD eu praticava o esporte tradicional do Brasil o futebol. Eu tinha uma vida ativa. No início, do esporte adaptado, era realmente só passatempo, pois eu conheci muitas pessoas novas com na mesma condição física que a minha.. Depois eu comecei a levar mais a sério o esporte até chegar a minha condição atual de profissional.

Cadeirantes.com.br - O que você acha de falarmos um pouco de drogas?
Gringo – Olha cara, droga na minha vida já fez parte por um bom tempo, no mínimo uns dez anos. Hoje eu tenho 29 anos. O cigarro, álcool e até droga pesada como cocaína. Eu fiquei um bom tempo nesta vida, isso por opção própria. O local onde você mora, as companhias e sem a opção de ter o que fazer. Eu fiquei paraplégico e fui começar a praticar esporte 06 anos depois do ocorrido. Na época eu tinha 17 anos era adolescente não pensei muito e a curtição era drogas, quando me dei por conta estava quase no fundo do poço. Eu reconheço que em certas ocasiões eu atrapalhava a vida da família pois eu usava drogas na frente de todos, mãe, irmão, vizinhos, perdi o controle usando droga direto e de uma ora para outra, sem o auxílio de ninguém eu resolvi parar, largar tudo.

Cadeirantes.com.br - Você acha que largar, qualquer tipo de droga, lícitas (cigarro álcool) ou ilícitas depende única e exclusivamente do usuário ou precisa de ajuda. Essas pessoas que dizem que não conseguem, o que você acha disso, pois você já esteve do outro lado?
Gringo – No mínimo 50% é vontade própria, pois caso contrário não adianta ninguém tentar ajudar. A ajuda de colegas, família (fala na mãe) amigos que não curtem a droga dando conselhos é muito importante neste processo. Não foi o meu caso, pois a iniciativa partiu de mim mesmo, pois eu encontrei ocupação para suprir a lacuna da droga e após algum tempo não houve como conciliar os dois eu, felizmente, não precisei de ajuda psicológica e outros métodos para isso.

Cadeirantes.com.br -E hoje como você avalia esta troca da droga pelo esporte?
Gringo – Foi a melhor troca da minha vida eu não quero essa situação de dependência para ninguém, pois existem casos que são muito dolorosos para que o dependente consiga se afastar da droga, pois a droga é alguma coisa que a gente vai gostando e vai se afundando. Quando a gente se dá conta a droga já faz parte da vida do dependente. Assim como o esporte faz parte da minha vida. Eu acordo todos os dias e sei que tenho treino, se não saio pela manhã à tarde eu vou para a academia malhar, sempre estou com ele. É como a droga na vida do dependente, o cara não tem nada para fazer, pensa o quê? Vou me drogar. Falta a opção de fazer alguma coisa produtiva.

Cadeirantes.com.br - E porquê você escolheu o atletismo? Você era um atleta sem expressão no basquete em cadeira de rodas, o seu primeiro esporte e agora você é um atleta de ponta, que está bem no ranking?
Gringo - O atletismo não foi uma escolha direta minha, foi um amigo meu, o Carlão, que desde a primeira vez que me viu em 1985 me convidou para correr e eu fui começar em 1989. Com todo este tempo a idéia ficou bem amadurecida na minha cabeça. Antes eu não fui porque não tinha material (cadeira, luva, etc) e eu não tinha muita vontade de praticar, mas em 1989 ele adquiriu uma cadeira nova e sobrou a cadeira usada e foi a deixa que eu precisava, pois eu já estava enchendo o saco de basquete, não sei se é era eu quem não me relacionava bem com o grupo, pois constantemente eu estava arrumando conflitos e inimizades. Na época que fui para o atletismo eu já estava largando o esporte, largando o basquete, pois no Brasil não tem expressão nenhuma e no Rio Grande do Sul muito menos. Aqui no Rio Grande do Sul o basquete é de 3ª Divisão para baixo.

Cadeirantes.com.br - Na sua visão, porque o basquete gaúcho está nesta situação? Falta incentivo, profissionalismo o quê?
Gringo - No meu ponto de vista está faltando tudo, pois não temos equipes com espírito profissional, mas falta principalmente material humano (jogadores), pois as cadeiras fabricadas no Brasil até que tem um bom nível de qualidade frente as fabricadas nos EUA e Europa. Tá faltando quem sirva de espelho para despertar a vontade de praticar esporte. A galera que tá jogando basquete tá só afim de fazer lazer e hoje isso não se encaixa no meu cotidiano. Eu não me vejo jogando basquete somente pelo lazer, logicamente que eu gosto de bater uma bolina nos finais de semana, mas daí é lazer mesmo eu bato a minha bolinha mato a vontade mas depois eu fico uns três meses sem jogar.

Cadeirantes.com.br - Esse “material humano” que você fala, são profissionais especializados em basquete em cadeira de rodas ou são portadores de deficiência?
Gringo – Sim são profissionais na área, não só no basquete, mas no esporte adaptado, pois no país temos poucos e no RS muito menos. Mas como já disse, faltam PPD’s que queiram praticar esporte com o objetivo de vencer, sem aquela idéia de ocupar o tempo e passear pelo Brasil. Bem ou mal, mesmo na terceira divisão, sempre aparece alguma competição para viajar e passear, mas como já disse, sempre no intuito de se divertir e não com o objetivo de competir.

Cadeirantes.com.br - Você tem algum ídolo no esporte?
Gringo - Sim tenho eu admiro muito a Hortência e o Zico.

Cadeirantes.com.br - Por quê?
Gringo - A garra e a vontade de vencer da Hortência me emocionava. Eu assisti muito basquete por causa dela, hoje eu já nem assisto muito pois não tem alguém que tenha estas características. Ela passava força e confiança a todos em quadra. Essas qualidades me inspiram nos meus treinos e competições. O momento que mais me chamava a atenção era o do chute, quando fechava os olhos e concentra-se. Dava para ver no olho dela que aquele ponto era para uma nação e não pelo dinheiro que ganhava, pois eu acredito que ela não tenha ganhado muita grana com o basquete.
O Zico eu admiro ele como atleta. Ele foi ídolo do time de futebol da maior torcida do Brasil e sempre foi humilde. Eu traço um paralelo com o Romário que é um grande craque, mas está sempre enrolado com suas declarações na imprensa fazendo críticas ora para um ora para outro. O Zico você nunca viu ele fazendo isso. Teve problemas graves de lesão, deu a volta por cima, consegui superar, foi para o Japão onde hoje ele depois de tantos anos ainda é ídolo por lá. Sempre humilde, acho que é o que está faltando para o Romário e o Pelé que toda a hora estão trocando farpas.

Cadeirantes.com.br - Sei que treina muito sério, vc sonha algum dia ser ídolo de alguém?
Gringo – Lógico que sonho em deixar uma história. Eu estou a quatro anos no atletismo. Poucos dias atrás eu participei dos Jogos Regionais Paradesportivos na cidade de Itajaí (SC) e agora o pessoal já está me conhecendo, antes eu chegava lá corria e nem era notado, mas agora é diferente, antes eles me conheciam apenas como Altemir quando os locutores chamavam para a prova, mas agora não, é diferente eles me chamam pelo nome de guerra que é Gringo e sabem que eu estou no meu Estado treinando forte e se eles não fizerem o mesmo vão se danar, pois eu não estou de brincadeira. Eu gostaria de ser ídolo de algum PPD ou não, pois eu quero demonstrar as potencialidades de uma PPD. Quero demonstrar que quando se sofre algum acidente e fica com seqüela de trauma medular, a vida continua normal, você não vira super homem porque está praticando esporte e muito menos coitadinho por que está em cadeira de rodas. Eu posso ser ídolo de alguém tranqüilamente da família, da sobrinha, da afilhada, sei lá, mas esse alguém vai estar com alguma foto sua daqui a 40 60 anos guardada como recordação e eu vou ter a certeza de que representei alguma coisa para aquela pessoa pois caso contrário não teria guardado uma foto tanto tempo assim.

Cadeirantes.com.br - E a sua primeira corrida, você lembra ainda?
Gringo - Sim lembro, foi em março de 2000, na Rústica Semana de Porto Alegre, uma prova de 10km, onde participaram uns 10 atletas e eu cheguei em 2º (segundo) lugar a partir disso eu tive a certeza de que daria certo, pois como era a minha primeira corrida eu estava apenas começando, mas não imaginava em chegar no estágio que estou. É claro que tem muita coisa ainda para ser feita, mas eu notei que tinha muito potencial e um bom pedaço do caminho já estava vencido, uma vez que os competidores que estavam ali já estavam correndo a bem mais tempo que eu e consegui vencê-los com uma certa vantagem. Depois da prova eu tive um momento só meu de reflexão e decidi apostar em mim daqui para frente. É uma prova inesquecível, naquele dia eu me senti no paraíso. Pois entrei na prova sem pretensão e cheguei ao pódium. Hoje não, eu corro com mais responsabilidade, não de vencer a prova, mas de chegar bem colocado em virtude dos patrocinadores. Essa sem dúvida foi a minha melhor corrida até hoje e minha próxima melhor será no dia em que eu me aposentar, quando eu vou sair pelas provas do mundo só para passear e me divertir.

Cadeirantes.com.br - Como foi a emoção da primeira vitória o primeiro troféu?
Gringo – Foi nos 16 quilômetros na Volta Internacional da Pampulha no mês de novembro de 2001. Eu cheguei e estavam todos me esperando para fotografar e entrevistar. Foi muito emocionante, apesar da televisão, em especial, que transmite a prova ao vivo para o Brasil e sequer dar atenção aos corredores em cadeira de rodas eu apareci na chegada e após três dias no bairro onde moro as pessoas me falavam que haviam me visto na televisão. Entrevistas, fotos, sala vip, pódium, homenagem do locutor oficial da prova, pedido de telefone para contato, isso tudo é maravilhoso, inesquecível.

Cadeirantes.com.br - Uma prova que você não vai esquecer, por ser boa ou ruim?
Gringo - Uma boa: Maratona Internacional de São Paulo 2002. É uma prova muito técnica com muitas subidas e descidas, com um asfalto ruim e esburacado. Eu fiz uma comparação com a Maratona de Porto Alegre que foi a minha primeira maratona e o meu tempo foi fantástico, diante de tantas dificuldades. Foi a primeira vez que eu corri toda a prova no pelotão da frente com os ponteiros mantendo o mesmo ritmo até o final e não amarelei

Uma ruim: Meia Maratona de Oita, no Japão, onde eu corri com febre (tive uma crise renal) e por um erro da nossa confederação (ABRADECAR) nós largamos na última fila, pois eles não mandaram os nossos melhores tempos. Essas são as duas provas inesquecíveis até hoje.

Cadeirantes.com.br - Planos para o futuro?
Gringo - Meia Maratona do Japão, em novembro deste ano, para qual estou treinando muito e depois quero correr a Maratona de Boston em 2003, são as provas que estou dando prioridade. Também tem a paraolimpíada em Atenas para a qual eu vou me aprimorar na prova dos 5.000. Os meus planos é chegar na final, pois se eu receber incentivo eu tenho condições de fazer uma boa prova lá.

Cadeirantes.com.br -O que mudou na sua vida depois que a RCM Informática começou a patrociná-lo?
Gringo - Patrocinador é o ar que eu preciso para respirar. Fora a vontade, a determinação a gente tem que ter alguma empresa que dê o suporte financeiro, pois o atleta tem que somente treinar e não ficar pensando em como vai pagar a água a luz. Depois da chegada da RCM estão aí os meus resultados onde eu evoluí mais de 60% do meu desempenho.

Eu acredito que represente bem a marca da empresa que me patrocina, pois sou determinado em tudo que eu faço. E o dinheiro eu uso para pagar material, técnico, academia, viagem. Não fosse o patrocinador eu já haveria abandonado, pois não teria condições de continuar. Se mais empresas apostassem nos atletas, mais gente poderia sair da marginalidade e transformar-se em um atleta de renome como eu. O esporte é comprovadamente um resocializador. Vários PPD’s que conheço, por não terem opção, comprar balas e vão para os sinais de trânsito vender. Estamos desperdiçando muitos talentos por aí.

Cadeirantes.com.br - Como a sua família vê a sua participação no esporte?
Gringo - Eu venho de família pobre com mais quatro irmãos, órfãos de pai desde os 4 anos (eu). Nós nunca tivemos muito entusiasmo no esporte uma vez que não havia ninguém que nos mostrasse o caminho. Na minha família jamais se sonhou com alguém indo para outros países, aparecendo na mídia. Eles demoraram um pouco para assimilar essa minha condição de atleta. O esporte da família era o futebol, mas de 2 anos para cá todas me incentivam e me ajudam de uma maneira ou outra. Até grana para eu comer já me deram. Tem aqueles que eu veja apenas uma vez por mês, mas mesmo assim eles acompanham os meus resultados. Eu tenho uma obrigação moral com todos eles, pois eles sempre querem informações sobre mim e ainda buscam mais nos jornais, televisão, etc. Eu fiquei PPD aos 17 anos, para qualquer mãe isso é um incômodo, mas agora ela também me olha com outros olhos. Eu a entendo, pois uma mãe coloca um filho no mundo andando em cima das pernas e depois ela tem que ver o mesmo em cima de uma cadeira de rodas. Se fosse somente a cadeira até que não era nada, mas tem todo o processo onde se corre risco de vida em hospital, tem que fazer muitas adaptações, principalmente na casa, é bastante complicado, pois a intenção dela é salvar a vida do filho. Eu vi nos olhos da minha mãe que ela ficou muitos anos tristes, mas hoje eu sou o mesmo de antes do acidente, sou motivo de alegria, passou o trauma. Eu consegui recuperar todas as esperanças que ela tinha em mim. Ela é a que mais vibra com os meus feitos, sempre me pede uma lembrança das cidades por onde passo.

Cadeirantes.com.br - O que seria um grande passo para podermos potencializar a corrida em cadeira de rodas aqui no Sul e no Brasil?
Gringo - É meio complicado falar nisso. De repente eu tenho uma idéia muito boa, que são parecidas com as de outras pessoas, mas as autoridades que deveriam fazer alguma coisa, não tem vontade política de fazer com que as coisas aconteçam. Nós devemos muito disso a nossa cultura. Somos uma minoria de 10% da população, e infelizmente não existem políticas e nem cultura é voltada para isso. Nas próprias competições, os organizadores nos deixam participar por uma razão política, a gente vê na cara deles que se pudesse não deixava correr. Nós somos vistos como incômodo para os organizadores, temos que esperar uma nova geração para mudar tudo isso, talvez eu nem esteja mais aí para ver isso, mas vou continuar lutando contra essas idéias preconceituosas. Não existe uma política para a participação de todos nas principais provas do país. Eles dão muita importância para os corredores estrangeiros não se importando com as demais categorias. A ABRADECAR e o COMITÊ PARAOLÍMPICO também tem muita culpa disso pois são os organismos que deveriam ser responsáveis por nossas lutas. Fazemos tempos que deveriam serem respeitados, pois se estivéssemos fora do Brasil seríamos muito apoiados.

Cadeirantes.com.br - ABRADECAR e Comitê Paraolímpico são entidades que servem de elo entre o atleta e as Organizações Governamentais. Como você vê essas entidades nos dias de hoje?
Gringo - Hoje eu enxergo a Abradecar e o Comitê Paraolímpico, com uma visão muito contrária com o discurso de objetivos que são pregados por eles. No início, quando eles consolidaram essas Entidades foi com o objetivo de solidificar os direitos que temos hoje, busca de verbas públicas em âmbito federal, estadual e municipal, loterias, bingos e verbas privadas.
O início foi bom, pois fizeram o que pregavam, mas hoje em dia mudaram totalmente a visão. Hoje as verbas existem e eles estão recebendo sem muito esforço, pois a luta foi extenuante para alguns companheiros no passado, quando era uma tarefa árdua, era as trevas no esporte adaptado. Hoje em dia é uma guerra de belezas, pois a Abradecar e o Comitê preocupam-se somente com aquilo que dá mídia, eles vivem em conflito e quem sai perdendo somos nós atletas. São esses órgãos que tem a incumbência de levar as delegações para as competições internacionais e tem sérias divergências. Deveriam retroceder um pouco e voltar aos velhos tempos onde o atleta e o esporte era a razão principal. Nos últimos Jogos Regionais eu treinei feito doido para dar índice para ir ao mundial, fiz o tempo necessário e não fui convocado, em contrapartida houve uma lavação de roupa sobre desvio de verbas, verbas mal empregadas, gastos indevidos e outras coisas. Essa lavação de roupa deveria ter outro fórum, enquanto isso eu deixo de participar de uma competição importante como o Campeonato Mundial. Após a minha rotina de treinos, muitas vezes eu e meus colegas nos pegamos falando sobre a parte organizacional de Abradecar e Comitê Paraolímpico ao invés de ficarmos traçando planos para futuras competições. E quase sempre ao final destas conversas alguém comenta que não tem jeito, que não tem solução. Isso é triste, pois eu ralo com convicção de tempos melhores, mas o dia a dia me trás perspectivas sinistras. Fazemos muitos planos, traçamos metas e as coisa não mudam. O que resta a fazer é treinar, pagar a passagem do próprio bolso e ir correr fora do país, pois lá somos reconhecidos. Aqui no Brasil nem a minha modalidade onde tenho um dos melhores tempos do mundo na minha categoria o Comitê ou a Abradecar reconhece isso, nem sabem que eu existo.

Cadeirantes.com.br - Faltando em reconhecimento, esse tempo que você fez em Itajaí nos Jogos Regionais é um tempo muito bom, que deveria habilitar você para competições internacionais, tipo Campeonato Mundial de Atletismo na França, alguém lhe deu alguma explicação convincente para a sua não convocação?
Gringo - Pois é, mais uma vez, eu tenho que repetir. Eles não têm informações para fornecer, não dão explicações quanto a tomadas de tempo, quando serão, qual é o índice que devo alcança, essas coisas. O Comitê que deveria me fornecer esse tipo de informações, como já disse, nem sabe que eu existo. Não cumprem 1/3 do que reza no estatuto. Uma das finalidades é fomentar o esporte. Eu tenho tempos para estar no ranking mundial e a “eles” não interessa isso, apesar de o meu Clube mantê-los informados. Incentivar atletas, descobrir novos talentos, com objetivo de formar uma equipe boa para mundiais e paraolimpíada. Eu não recebi convite o mundial está acontecendo e eu estou aqui em Porto Alegre, com tempo, para no mínimo fazer uma final. Para que serve então todo o meu empenho e dedicação no esporte, sem falar no investimento financeiro que já fiz antes de ter patrocinador. Dá desânimo, pois eu poderia estar em um dia bom e fazer um tempo fantástico e estou aqui, sem explicações. Essa minha ida até a França me daria, também, curriculum. Com um bom curriculum é difícil conseguir apoio financeiro imagine sem. Este tipo de competições são uma boa oportunidade para se conseguir curriculum. Levam os atletas que “eles” escolheram, não informaram os critérios nem a forma de convocação. De repente, quantos atletas na minha condição ficaram no Brasil?

Cadeirantes.com.br - Preconceito. Fala um pouquinho sobre isso, pois você é uma pessoa politizada e esclarecida e já viajou para fora do país em competição.
Gringo - Olha a PPD que não tiver um pouco de conhecimento, aquilo básico, aquele que se imagina “normal” ao lado dos “normais” que não se assume como PPD pode se complicar, pois ele entende que é uma pessoa “andante” vai a certos lugares e nem percebe que está sendo discriminado. Ter que subir no elevador de cargas, com a desculpa de que pode sujar as paredes e tapete do elevador social com as rodas da cadeira é uma das muitas maneiras de discriminação. Entrar pela porta traseira dos prédios por não haver adaptação em prédios públicos. Eu sei que o preconceito existe, ele está ali, mas eu consigo driblar estas situações conversando, principalmente com porteiros e explicando a situação. Na maioria das vezes eu consigo o resultado esperado. Muito se deve pela falta de informação, pois a partir do momento em que o cidadão recebe informações ele começa a reivindicar e fazer valer os seus direitos. Isso, no meu caso, já não acontece nos dias de hoje, pois eu tenho informações sobre os meus direitos. Mas nos dias de hoje eu ainda tenho problema com a localização de camelôs, carrinhos de cachorro-quente nos rebaixamentos de meio-fio, calçadas ocupadas com material de construção, cadeiras de bares, calçadas mal conservadas, os banheiros adaptados são poucos, os locais de lazer quase nunca têm acesso para cadeira de rodas, o que acontece então o cara acaba não saindo para lugar nenhum, ficando em casa e assistindo uma fita com a namorada. Ficando assim cada vez mais difícil a reintegração à sociedade. Fica faltando assim a liberdade do ir e vir. Em vários lugares querem me ajudar a subir e descer escadas, mas eu não gosto disso, não por orgulho, mas porque quero ter a minha liberdade de ir e vir e porque é muito importante num contesto maior. Esses lugares não tem que contratarem ninguém para me ajudar, eles têm sim que adaptar esses locais às minhas necessidades. Já o transporte coletivo está um pouquinho melhor. Eu por exemplo já fiquei mais ou menos 1 hora 1 ½ no ponto esperando o ônibus, mas as empresas estão se rendendo e colocando mais veículos adaptados nas suas linhas. A relutância em colocar esses veículos é o custo mais elevado. Mas se depender do transporte público para fazer toda a rotina de treino que faço hoje, a pessoa vai penar para treinar.