Uma das principais corredoras do Nordeste, Marily dos Santos começa a buscar espaço na elite nacional
Correr para trabalhar. Correr para dar recados. Correr para fugir. Correr para mudar de vida. Correr para ser campeã. Desde de muito cedo, uma das principais atletas do nordeste brasileiro tinha a corrida incorporada à rotina e não tinha idéia de que estava desenvolvendo cada vez mais o potencial para o esporte. Marily dos Santos, 25 anos, vem se destacando no cenário nacional e com muita simplicidade sonha chegar a uma Olimpíada. Em 2004? Não. Na infância, nunca sonhou em ser corredora, não teve pressa para cruzar as primeira linhas de chegada na frente e, portanto, com muita tranqüilidade quer estar presente no principal evento esportivo do planeta em 2008 ou 2012. Como ela mesmo afirma: Quando estiver pronta para encarar o desafio.
Trabalhadora rural, Marily começou a correr aos 12 anos, quando, juntamente com as quatro irmãs e os pais, plantava abacaxi na área rural de Joaquim Gomes, pequeno município localizado à 70km de Maceió e vendia a colheita numa cidade vizinha. No retorno do trabalho, ao invés de voltar a cavalo, preferia ir correndo. Era uns quatro quilômetros de ida e mais quatro na volta para negociar a venda dos abacaxis. Nem sempre sobrava cavalos sem carga, então, ia correndo. E ganhava dos animais. Sempre que tinha que levar um recado do meu pai também ia correndo. Nunca esperava pelas caronas, pois meu pai sempre falava: vou cuspir no chão e você tem que voltar antes dele secar, senão apanha. Era mais para colocar medo, mas eu não arriscava, relembra.
Aos 18 anos, incentivada pelo primo e corredor José Carlos Santana, disputou sua primeira prova, a Corrida da Mãe Lagoa (em Maceió) e uma semana depois participou da Corrida do Trabalhador. Em ambas foi quarta colocada. Com a mudança do primo para a Bahia, Marily ficou um ano sem competir, pois o pai não permitia que ela fosse sozinha. Com 19 anos, a corredora pôde participar da Corrida dos Carteiros (10km), na capital alagoana, em função da presença do primo, e ficou em segundo lugar, recebendo como prêmio R$ 600,00. Pensei que tivesse ficado rica, porque com uma nota de R$ 50,00 fazíamos as compras para a semana e eu tinha tantas nas mãos. Apesar da vida muito simples no sítio, nunca passei necessidade, pois plantávamos muitos produtos e também trabalhávamos bastante.
Desencorajada pelo pai, que não apoiava a idéia de ser atleta, fugiu de casa e se mudou para Bahia, onde contou com o apoio do primo e conheceu o atual treinador e marido, Gilmário Mendes. Marily mora em Salvador há 5 anos. Mas a saída de Alagoas não foi a única fuga de sua vida.
Em 98, ganhou uma passagem para disputar a São Silvestre e seu tio a proibiu de viajar sozinha com o técnico. A corredora, que se define como uma pessoa bastante reservada, simples e determinada, que não mede sacrifícios pelos desejos, foi para Vitória da Conquista (Bahia) disputar a Corrida de Natal, na qual foi segunda colocada e, na seqüência, desembarcou em São Paulo, sem a família saber. Naquele ano largou no meio da multidão na mais tradicional corrida de rua do País e terminou em 26º lugar na categoria feminino, que reunia mais de mil mulheres. Liguei para o meu tio, que achava que eu estava no sítio para passar as festas de fim de ano e contei o meu bom resultado. Então, decidi morar em definitivo em Salvador, deixar Juazeiro, local onde meu primo e tio moravam, para treinar e me tornar uma atleta de elite.
Muita gente duvida, mas meu relacionamento com o Gilmário só começou em 99. Antes, éramos apenas técnico e corredora, e não foi ele o motivo da minha decisão de vir para Salvador, mas, sim, o meu objetivo de ser uma atleta profissional.
A corredora de Alagoas confessa que o atletismo mudou sua vida. Não pensava em ser atleta, também não via condições para isso, porém, desde que meu primo me incentivou e me ajudou a traçar esse caminho, não desisti mais. Com o esporte posso viajar para onde quero, aprendi muita coisa que nem sabia como era, tipo um check in no aeroporto, e já comprei uma casa para os meus pais, próximo à Salvador, em Pojuca, além de outros dois imóveis. Sempre que junto um dinheiro invisto em imóveis.
Marily disputará sua sexta São Silvestre este ano. Tem como melhor resultado o sétimo lugar em 2002 e planeja, a curto prazo, estar no pódio. Em 2003 quero estar entre as dez melhores, mas minha verdadeira expectativa é segredo. Só eu sei. Segundo a modesta atleta, os Jogos Olímpicos ainda são um sonho distante. Olimpíada é para quem pode e tenho muito tempo para me preparar para estar no nível dessa competição. Tenho muito o que aprender com outras corredoras mais experientes como a Selma Reis, a Narloch. Estou crescendo, pois antes conseguia ir até um trecho ao lado delas nas provas, hoje já consigo acompanhar o tempo todo.
A temporada 2004 promete ser de muitas novidades e novas conquistas. Já está definido que ela irá participar do Troféu da Cidade São Paulo e da Corrida de São Sebastião. Em fevereiro começamos a preparação para a primeira maratona da carreira dela, que será a de São Paulo, em maio. Bem treinada, tem chances de ter um bom resultado. Ela é muito determinada, disso resulta a disciplina e obediência em busca dos objetivos. A infância é que foi a base dela no esporte, eu acabei pegando uma atleta já preparada, então, ela encara os treinos como algo normal, sem ser nada sacrificante, comenta o técnico Gilmário. A rotina de Marily inclui cerca de 100km de corrida por semana, treinos de tiros de velocidade e, a cada três meses, treinos de musculação e força específicos. Atualmente, a corredora conta, além do treinador, com um médico e um fisioterapeuta.
Treinar com o marido é uma tarefa que precisa ser bem administrada e Marily aprendeu com a experiência a conviver com essa realidade. No começo foi mais complicado, pois misturávamos um pouco as relações. Hoje sabemos separar bem. Pista é uma coisa e casa é outra. Nos treinamentos a relação é bastante profissional e ele me dá bronca e dicas como para as outras atletas. Nos gostamos muito e não enjoamos de estar juntos. Às vezes temos uma briguinhas, mas não dura mais que cinco minutos.
A atleta da equipe Belgo/Mizuno/Pojuca, que prefere passear na feira do que no shopping center, tem um ídolo no atletismo: Vanderlei Cordeiro de Lima. Ele é uma pessoa muito simples, que está sempre brincando com a gente, e tem muita disciplina. Simpatizo com ele. O grande sonho extra-pista é ter uma roça à beira-mar. Quero poder comprar uma terra lá em Galeão, próximo a Morro de São Paulo (BA) para cultivar verduras, frutas, ter criações e estar à beira-mar.
Até 2002, a corredora disputava principalmente as competições no nordeste por falta de patrocínio. Com o apoio que recebeu este ano, pôde aparecer mais no cenário nacional e aconselha as meninas que como ela são de origem humilde a nunca desistir dos objetivos. Se estiverem em locais como eu estava, saiam. Dá saudades, mas tem que ir em busca, procurar alguém com experiência no esporte para orientá-las e nunca desistir.
Marily dos Santos:
Idade: 25 anos.
Altura: 1,52.
Peso: 47kg.
Natural de: Joaquim Gomes, Alagoas.
Principais Conquistas:
Campeã ibero-americana no Uruguai (2001)
Campeã nos 3.000m com obstáculos no Troféu Brasil de 2002
Bicampeã da Corrida de Círio (Belém do Pará-2002/2003)
Campeã da Corrida de Aniversário de Goiânia (2003)
7ª na Corrida Internacional de São Silvestre (2002)
2ª colocada na Prova do Macuco no Rio de Janeiro (2003)
Melhor tempo nos 10km – 3410
Recordista na equipe de sete atletas na 4ª Maratona BR de Revezamento
3ª colocada da Corrida e Caminhada Contra o Câncer de Mama Circuito 2003/Rio de Janeiro
5ª colocada na VII Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro (2203)
Vice-campeã da 1ª Meia Maratona da Bahia
Tetracampeã Baiana de Corridas de Rua (98/99/00/01)
Tricampeã e recordista Norte Nordeste de 3000 m c/ obstaculos
Vice-campeã Brasileira de Cross Country
6ª colocada no mundial Avon Running de 10 Km (Tailândia) 2002
3º lugar do ranking sul-americano de Corrida de Rua 2000
Bicampeã da Meia maratona de João Pessoa (02/03)
Hexa Campeã da Corrida da Águia (Salvador-Ba)
Campeã da Corrida Cidade de S. Luis (Maranhão) 2003
Campeã da Meia maratona de Juazeiro 2003
Este texto foi escrito por: Renata Rondini – Revista SuperAção