Triathlon · 22 fev, 2004
Missão: Olimpíada de Atenas 2004. Estratégia: boa performance nas etapas da Copa do Mundo para somar maior número de pontos no ranking. Estímulo: medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. O triatleta carioca Virgílio de Castilho se baseia nesse tripé para encarar uma maratona de provas para carimbar seu passaporte para a Grécia. O Brasil levará três representantes para os Jogos Olímpicos e há quatro atletas nacionais entre os 75 primeiros do ranking da ITU (International Triathlon Union), sendo que o melhor brasileiro classificado terá lugar garantido na seleção, já os outros dois serão definidos em seletiva.
Antes de concretizar a primeira etapa do grande sonho e garantir vaga em Atenas, Virgílio lutará para estar entre os 20 melhores triatletas do planeta, no Campeonato Mundial, em dezembro, na Nova Zelândia. Na edição de 2003, em Cancún, no México, o brasileiro foi 43º. O bom desempenho dessa temporada, com medalha de prata em Santo Domingo, títulos de campeão brasileiro, sul-americano de triathlon e duathlon, indicam que o carioca tem atributos para concluir mais essa missão com êxito. Nesta entrevista exclusiva, Virgílio de Castilho, atleta da equipe Brasil Telecom, comenta como está sendo a temporada e seu planejamento para chegar a Olimpíada.
Qual a meta para o ranking da ITU este ano?
Estou atualmente entre os 70 primeiros colocados e quero terminar entre os 20.
Você sempre se dedicou as provas olímpicas e está lutando por uma vaga em Atenas. Ironman está nos seus planos?
Até 2008, não. Meu plano é a Olimpíada. Vou estar treinando muito. O ouro em casa, no Pan do Rio de Janeiro, em 2007, é a meta a longo prazo. A participação em Atenas é objetivo a curto prazo. No ano que vem pretendo ganhar experiência, é claro que se vier uma medalha será maravilhoso, mas a meta é brigar por medalha em 2008. Esse batalhão de World Cup que venho disputando é pensando em somar pontos para assegurar a vaga na Olimpíada.
Você já treinou nos Estados Unidos, na Espanha, e pensa em treinar na Austrália futuramente. Como foi este tempo fora do Brasil?
Fiquei oito meses nos Estados Unidos e um mês na Espanha, junto com o Leandro Macedo. Ele é muito disciplinado, me ensina muita coisa e nos damos superbem. Por isso gosto de treinar com ele. A motivação do treino está na cabeça de cada um, e o atleta tem que fazer. Quando estamos fora, a tranqüilidade é maior. Não temos a preocupação do dia-a-dia, a rotina atribulada. Fora você só tem a preocupação de treinar. E, às vezes, bate a monotonia de treinar sempre no mesmo local e, então, só de ir para outro lugar ajuda no lado motivacional. Austrália vai depender do calendário. Meus planos seriam ir após o Mundial, no entanto isso vai depender de quando volto a competir em 2004.
E quais são as expectativas para o Mundial da Nova Zelândia?
Ano passado fiquei em 43º lugar e minha meta nesta temporada é estar entre os 20. Tive problemas de intoxicação alimentar no México. Não é desculpa para o resultado, mas acabou interferindo na performance. Acredito que vou chegar bem preparado para a disputa e tentar fazer o melhor.
Antes do Pan, você comentou que o clima quente seria um grande adversário, mas te favoreceria em relação a norte-americanos e canadenses. A medalha prova que sua previsão se confirmou.
Errei somente quanto ao norte-americano (Hunter Kemper), ele realmente surpreendeu na disputa. O calor e a umidade foram bastante intensos, e ele atacou nos primeiros quilômetros da corrida e se manteve na liderança, decidindo a prova bem cedo. Ele era o grande favorito, mas o que surpreendeu foi a rapidez com que definiu a prova.
E a sua rotina em Santo Domingo?
Cheguei quatro dias antes da prova, fiquei bem descontraído e brincando com todo mundo, como faço sempre. Treinei todos os dias e tentei manter o máximo de concentração. Na manhã da prova preferi ficar mais isolado e intensificar a concentração.
Como foi até a linha de chegada?
Todo mundo tentou ameaçar o americano e eu fui o último a arriscar, quando ele me quebrou também. Fiquei num grupo junto com Argentina e Estados Unidos até o quilômetro seis de corrida, depois imprimi um ritmo forte e assegurei a minha prata. Toda linha de chegada é um momento especial e individual de cada atleta. Este momento é só meu, não dá para expressar para as outras pessoas.
Qual a sensação de voltar ao País com uma conquista anunciada em mídia nacional?
Tem um gosto especial. Jogos Pan-Americanos, Olímpicos, geram um reconhecimento maior. Tem muita gente que nem sabia o que era triathlon antes do Pan. Uma conquista de medalha faz com que a população passe a conhecer o esporte e ver que triatletas não são vagabundos que querem apenas nadar, correr e andar de bike. Uma conquista como a minha faz com que aumente o respeito pela minha profissão.
O Pan é o momento mais importante da sua carreira até agora?
É um objetivo conquistado, e só daqui a quatro anos alguém vai poder me tirar este título. Sou o segundo melhor das Américas até lá.
Como está sua rotina de treino?
Treino normalmente 20km de natação por semana, 350km de ciclismo e 100km de corrida. Pratico as três modalidades todos os dias, em três períodos: às 6h, 11h30 e, para fechar o dia, às 17h. Isso não é sempre, a intensidade varia e às vezes faço até quatro sessões de treino por dia. Todos os dias têm trabalho. Sou meio Caxias. Tanto, que no dia seguinte da prova em Santo Domingo, corri uma hora na vila pan-americana.
E com tanto treino sobra tempo livre?
Dá para ter uns momentos de lazer. Gosto de curtir a família. Sou bem caseiro. Prefiro ficar em casa e assistir um DVD, ficar com a minha esposa e o cachorro. A vida de triatleta é chata para quem não está no esporte. Para mim é ótima.
O técnico Luiz Fernando Catta Preta faz o acompanhamento à distância, pois você mora no Rio de Janeiro e ele em Curitiba. Como é essa relação de trabalho?
Treino monitorado. Sempre faço testes para que ele possa estar acompanhando minha evolução e nosso esquema é todo informatizado. Praticamente nos falamos todos os dias para que ele possa ter o feeling do meu treino. A cada semana vem uma nova programação e nos reunimos para definir o planejamento de preparação e as metas. O atleta tem que ser disciplinado, não tem essa de treinar só porque o técnico está ao lado. É minha profissão e depende de mim. Por isso o sucesso do treinamento depende da disciplina e maturidade do atleta.
A natação é apontada como seu ponto forte, devido a experiência como nadador. Como foi essa época da sua vida?
Pratiquei 10 anos de natação como amador. Sempre levei a sério. Sou bom na natação, mas com a experiência melhorei na corrida. O triatleta tem que ser como o fundista, por isso planejo fazer 10 mil de pista em 30 minutos. Atualmente meu tempo é de 32 minutos.
Você acredita que o triathlon ainda é um esporte da elite?
Ainda não houve uma massificação porque é um esporte caro. Sempre tive que lutar, pois não tinha dinheiro para investir no equipamento. Pedia emprestado acessórios para amigos até conseguir um patrocínio e me firmar. Ainda é um esporte de classe média alta para cima.
E como você estreou na modalidade?
Quando o triathlon chegou no Brasil, há 21 anos, meu pai corria maratona. Como sempre foi ligado em esporte, começou a disputar a nova modalidade. Eu era criança e sempre o acompanhava nas provas. Ele sempre foi um amador, já que começou o triathlon com uma idade avançada. Então, quando cheguei aos 20 anos, meu pai começou a fazer uma certa pressão para eu experimentar. Como já gostava do esporte e me dei bem, comecei a disputar.
Qual a sua avaliação sobre o triathlon no Brasil?
Ainda falta um pouco de reconhecimento e apoio no País. As mulheres estão em alto nível internacional e não têm mais nada para provar. Os homens estão treinando duro, e está na hora de colher os frutos nos próximos anos. O Pan já foi expressivo com o segundo, sexto e nono lugares. O triathlon nacional está em crescimento.
Que dicas você daria para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Treinar muito, disciplina e correr atrás. Tem que saber que vai abdicar da vida normal de qualquer pessoa.
E como é o Virgílio de Castilho?
Meu grande objetivo é encontrar a minha verdade, o encontro do meu eu, ter paz e tranqüilidade. Não sou de guardar mágoas, tristezas e valorizo a amizade. E torço para haver a renovação do triathlon para que eu possa passar a minha experiência para os novos triatletas, assim como fizeram comigo e depois que atingir todas as minhas metas no esporte, continuar envolvido com a área, talvez na organização de provas.
Nome: Virgílio de Castilho Barbosa Filho
Idade: 28 anos
Local nascimento: Rio de Janeiro- RJ
Triatleta há 7 anos
Peso: 63kg
Altura: 1,75m
Vice-campeão Pan-Americano em Santo Domingo, República Dominicana (2003)
Campeão brasileiro em Vitória (ES) 2003
Campeão sul-americano de triathlon na Venezuela 2003
Campeão pan-americano de duathlon na Venezuela 2003
2º colocado no Pré-Olímpico de Triathlon em La Paz, Argentina 2003
4º colocado no Triathlon Internacional de Santos 2002
4º colocado no Triathlon Internacional Pré-Olímpico - La Paz, Argentina 2002
4º colocado no Triathlon Internacional Pré-Olímpico - Puerto Vallarta, México 2002
Vice-campeão brasileiro de Triathlon- 2001
Campeão estadual de triathlon -1999
Campeão 1ª etapa Troféu Brasil em Santos 1998
Atletismo · 08 fev, 2004
Hudson de Souza curte o bom momento após a conquista histórica no Pan-Americano, mas trabalha muito para brigar por medalhas em Atenas.
As distâncias percorridas por Hudson Santos de Souza, do início da carreira na pista de concreto, em Brasília, até os dias de hoje, foram bem maiores e mais difíceis que enfrentar incansáveis africanos nos 1.500 metros, prova que é sua especialidade. Dono de duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, na República Dominicana, se tornou o primeiro atleta da história a chegar ao lugar mais alto do pódio nos 1.500 e 5.000 metros na competição continental. Feliz, sim. Satisfeito, não. Força de vontade é o que não falta ao atleta de 26 anos, que espera não só marcar presença, como fazer bonito na próxima Olimpíada, na Grécia em 2004. Tenho determinação desde pequeno. Quando quero fazer uma coisa, vou até o fim. E é com esse pensamento que o atleta se prepara para uma verdadeira bateria de treinamentos e viagens na busca da tão sonhada medalha olímpica.
Em novembro, Hudson desembarca em Cochabamba, na Bolívia, para mais de um mês de treinamento na altitude. Em 2004, vai participar do Mundial Indoor, na Europa, em fevereiro, e logo depois segue para uma temporada de treinos nos Estados Unidos. Serão mais de 25 provas antes da Olimpíada. Meu objetivo maior agora é correr atrás do índice. Para carimbar o passaporte para Atenas, o brasiliense precisa correr os 1.500m abaixo de 3min35, tempo do índice A da IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo). Neste ano, ele vem correndo na faixa de 3min36, fato que não o assusta, uma vez que tem como melhor marca 3min33.
Com os pés no chão, Hudson sabe que não vai ter moleza na temporada 2004. Com o destaque pela dupla conquista na República Dominicana, as cobranças por resultados tendem a aumentar. O pessoal acha que o Pan-Americano é uma Olimpíada, mas não se lembram que faltam quatro continentes, e são esses que atrapalham. Os atletas da Europa e o África são os que mais dificultam no atletismo, explica. Os africanos são um calo no pé de quem faz atletismo, brinca.
Mas nem sempre a briga de Hudson foi por tempo nos 1.500 metros. Ele começou no salto em altura, quando tinha 14 anos. Mas o grande diferencial na carreira ocorreu pelo incentivo dos pais. Já competindo, sentia na pele as dificuldades da falta de dinheiro para comprar tênis e bancar viagens. Não tinha dinheiro para nada. Pensou em trabalhar, mas os pais impediram, dizendo que deveria continuar no atletismo, pois seria um grande atleta para o Brasil. Meus pais acreditaram mais em mim do que eu mesmo. Ainda falei que queria trabalhar, e eles disseram: não, não e não. Fique fazendo o esporte que é bem melhor pra você. Pô, eu até chorei. Chorei pra caramba, conta, emocionado. Com quase 16 anos, ele iria pegar a vaga de boy que era do irmão na Caixa Econômica Federal, empresa que hoje é sua patrocinadora.
Motivado a continuar no atletismo, permaneceu no salto em altura por um ano e meio até passar a treinar com João Sena. Com Sena, mudou de prova. Começou a correr os 800m e 1.500m. Nessa época, quando o atleta é juvenil, o cara vai mais pela distância, quer correr bem menos, lembra ele, referindo-se as provas de fundo. Suas primeiras importantes conquistas vieram aos 17 anos, quando o treinador já era outro: Adauto Domingues. Morando em São Paulo, longe da família, Hudson foi incorporando os 1.500 metros e começou a obter as conquistas que hoje o consagram. Logo estabeleceu o recorde juvenil sul-americano para a distância e ficou com o terceiro lugar no Pan-Americano da categoria. Após dois anos treinando com Domingues, foi para as mãos de Luiz Alberto de Oliveira, ex-técnico do campeão olímpico Joaquim Cruz, com quem está até hoje.
A fama nacional após os Jogos Pan-Americanos ainda é novidade na vida do atleta. Tanto, que tenta se acostumar com o assédio, a curiosidades das pessoas e a rotina de autógrafos em qualquer lugar que vá. Está muito recente, mas é uma coisa muito gostosa. Receber o carinho do público desse jeito é bem legal, explica.
Família - Muito apegado a família, Hudson lembra do carinho da mãe, que procurava sempre acompanhar os passos do filho. Minha mãe era minha fã número um. Tinha as gravações, fotos, tudinho, lembre o atleta, com saudades.
Protetor, recentemente trouxe o irmão mais novo para morar com ele, em Presidente Prudente. Meu pai e meu outro irmão trabalham e minha irmã fica um bom tempo na escola. Ele ficava sozinho em casa e tinha alguns amigos que não eram boa pinta. Poderiam acabar influenciando na vida dele, relata. Diego, hoje com 17 anos, também treina e, segundo o irmão coruja, promete muito. Ele está treinando 400m com barreiras. Daqui há três anos vai ser um grande atleta. O moleque é mais talento que eu.
Corre bem mais fácil e tem a passada mais larga, completa.
Influenciado pelos treinos cansativos são dois perídos por dia, sendo que descança apenas uma vez por mês Hudson não tem uma vida muito agitada fora das pistas. Ele se define como um cara tranquilo, que gosta muito do aconchego do lar. Não gosto muito de balada. Curto mais ir ao shopping, sair para jantar, ir ao cinema. Também gosto de ir nos parques, detalha.
Consciente de que o atletismo não é para sempre, planeja completar os estudos. Estou querendo cursar Educação Física ano que vem, mas não sei se vai dar. Vou me dedicar mais à Olímpiada e deixar para o outro ano, mas é bem importante terminar os estudos, completa.
Triathlon · 04 fev, 2004
Juraci Moreira luta contra contusões e má fase para reencontrar o caminho das vitórias rumo a Olimpíada
O esporte de alto rendimento é implacável. Se os resultados não aparecem, o atleta descobre rapidamente o que é cair do céu para o inferno. Os motivos para perda de rendimento, normalmente, começam com contusões. Os problemas físicos limitam o desempenho e a falta de confiança completa o quadro de má fase e jejum de vitórias O ano de 2003 tem sido marcado pela luta de Juraci Moreira Júnior para interromper esse círculo vicioso.
O triatleta de 24 anos sofre com contusões desde o início do ano, o que prejudicou seu desempenho no ranking mundial. Depois de terminar 2002 na 18º colocação, sendo o melhor brasileiro na lista, chega ao segundo semestre na 41º colocação (Leandro Macedo, em 20º, é o atleta nacional mais bem ranqueado). Não bastasse a insatisfação pela distância que se forma à sua frente no ranking, Juraci teme que os problemas atrapalhem seu principal objetivo: a Olimpíada de 2004. Isso porque o primeiro brasileiro na classificação da ITU garante vaga para Atenas sem necessidade de seletiva.
Juraci luta para dar a volta por cima e repetir o feito de Sydney, em 2000, quando foi o atleta mais jovem a disputar uma prova olímpica de triathlon. Paciência, perseverança e muito treino são algumas das armas necessárias para atingir o objetivo.
Uma das grandes decepções deste ano foi perder a vaga para os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. Além de sofrer com uma lesão na panturrilha do início do ano, o triatleta foi alvo da falta de sorte durante a seletiva. No trecho de ciclismo, o pneu estourou e ele acabou ficando de fora da briga pela vaga. É o segundo Pan que fico de fora. Em 99 (Winnipeg), não tive tempo para me classificar. Agora que tinha condições, aconteceu tudo isso, conta.
Para fugir do Pan, partiu para duas etapas da Copa do Mundo, mas não as completou. Buscando uma maneira de melhorar os resultados, foi treinar em San Diego (EUA), considerada o berço e capital do triathlon. Logo no primeiro dia, uma torção no tornozelo causou pequenas rupturas nos ligamentos, o que o deixou sem correr por 25 dias.
Mesmo com os inúmeros problemas, não desanimou e foi disputar a etapa de Nova Iorque. Precisava completar uma prova para ganhar mais confiança. E seguindo na linha que desgraça pouca é bobagem, o mau tempo no Rio Hudson fez com que a organização substituísse o trecho de natação por mais um trecho de 5km de corrida. Nessa, o meu técnico fala: Vamos na igreja nos benzer, brinca Moreira. Mas o fato de ter que correr mais que o previsto, mesmo após a lesão, não desanimou Juraci, que finalmente pode completar uma etapa, chegando na 29º colocação entre 37 inscritos na categoria elite.
Se os resultados de 2003 são para se esquecer, a rápida ascensão no esporte não pode ser deixada de lado. Poucos sabem que em 1998, quando foi campeão brasileiro juvenil, Juraci cruzou a linha de chega à frente dos profissionais. Deveria ter sido o atleta mais jovem a ganhar o título. Deveria. Ganhou, mas não levou em função da idade. O fato é que depois do feito do então garoto, a regra foi alterada, sendo possível que um juvenil seja campeão nacional adulto.
Natural de Curitiba, no Paraná, Juraci deu seus primeiros passos, ou melhor, braçadas no esporte aos 9 anos, incentivado pelo pai, praticante da modalidade. Empolgado, aos 11 anos queria treinar mais forte, já motivado pelo espírito de competição. No clube onde nadava, teve contato com alguns triatletas, entre eles Luís Catta Preta. Convidado a praticar a nova modalidade, participou de um Biathlon, quando estava prestes a completar 14 anos, e venceu na categoria.
O primeiro triathlon foi no ano de 1994, no Troféu Brasil, em Santos, onde terminou na 5º colocação Na categoria. O resultado o motivou ainda mais, uma vez que estava preparado para completar a prova em 1h10 e conseguiu fazer um tempo cinco minutos melhor. Agora, não poderia parar mais. Mas surgiu um pequeno problema: não tinha bicicleta. Como o primeiro incentivo normalmente vem de casa, recebeu da mãe US$ 400 para adquirir o equipamento. Para conseguir o objeto, Juraci foi ao Paraguai, junto com um colega muambeiro de seu irmão para trazer a tão aguardada bicicleta.
Aquilo era uma coisa que eu queria. Meus pais me incentivaram na medida certa. Tudo ocorreu no meu tempo, lembra. Na verdade, o triatleta reclama da superexigência de alguns pais, que querem ver seus filhos campeões, mas na verdade acabam atrapalhando. É tanta pressão, que o filho acaba fazendo aquilo por obrigação. Não pode ser assim. Cada um tem o seu tempo, analisa.
Tempo que hoje é escasso. Para manter o fôlego durante as inúmeras competições, o triatleta treina todos os dias, em dois períodos, com uma média diária de cinco horas. Por semana, são de 20km a 25km de natação, 50km a 70km de corrida e nada menos que 300km pedalando. Isso sem contar os alongamentos e as sessões de fisioterapia, que vem se submetendo devido a uma lesão no tornozelo.
Tudo é acompanhado de perto por seu segundo pai, o técnico Homero Cachel. Treinando Juraci desde os tempos de natação, sabe, só de olhar, quando o pupilo não está bem. Ele sabe tudo sobre mim. Fico muito tempo com ele. Às vezes chego meio triste, com alguma coisa. Ele percebe na hora, relata o triatleta.
Para suportar o volume de treino, faz cinco refeições diárias. Gosta de produtos à base de mel e entre os treinos ingere barra energética ou cereais com iogurte. A nutricionista Lili Purin vem acompanhando a evolução física de Juraci e, com base no que está ocorrendo no circuito mundial, têm a missão de parar o crescimento do atleta. O Simon Whitfield, que é campeão olímpico, está cada vez mais magro. Eu era bem magrinho quando comecei e fui ficando mais forte. No circuito mundial, todo mundo está mais magro. Do ano passado para cá, engordei 2kg, sendo que 1,8kg de músculos, revelou.
Com tanta dedicação ao esporte, quase não sobra tempo para a família e até para o sono. Às vezes tiro o domingo de folga só para dormir até mais tarde, diz. Sobre a família, o fato de estar sempre treinando ou viajando, o afasta das coisas mais comuns, como o almoço em família ou aniversário de parentes. Sempre atarefado, procura reservar um tempo para a namorada, além de fazer coisas que gosta. Gosto de sair para jantar, ir ao cinema, ficar na cama dormindo ou assistindo tevê. Na verdade quero ficar descansando, pois os treinos são bem desgastantes, completa. Na verdade, descansa para treinar mais, competir melhor e voltar a vencer.
Perfil (até 2003):
Nome: Juraci Moreira Júnior
Idade: 24 anos
Natural de: Curitiba Paraná
Peso: 76kg
Altura: 1,89m
Tempo de triathlon: 10 anos
Patrocínio: Pão de Açúcar, Brasil Telecom e Sesi Paraná
Principais resultados:
Campeão brasileiro amador 1996 e 1997
Campeão brasileiro de 1998
Campeão sul-Americano 1998
Campeão do Pré-Olímpico do México 1999
8º Colocado na Copa do Mundo da Austrália 1999
10º Colocado na Copa do Mundo do México 1999
Vice-campeão brasileiro em 1999
Bicampeão do SESC Triathlon de Caiobá/PR 1999/2000
2º colocado no Pré-Olímpico do Brasil 2000
22º colocado nos Jogos Olímpicos de Sydney (atleta mais jovem da modalidade)
Bicampeão brasileiro de 2000/2001
2º colocado no Triathlon Internacional de Portugal 2001
5º colocado no Triathlon Internacional da Itália 2001
1º Brasileiro no Ranking Mundial de Triathlon 2001
3º lugar Mundial de Fast Triathlon - Equipe Brasil 2002
Vice-campeão Triathlon Internacional Uruguai 2002
Campeão do Triathlon Internacional da Guatemala 2002
7º Colocado na Copa do Mundo do Japão 2002
Campeão brasileiro de 2002.(quarto título de campeão brasileiro elite)
Medalha de ouro por equipe Jogos Sul-Americano Rio de Janeiro
3º lugar na Copa do Mundo do Japão 2002 (melhor resultado de um brasileiro desde 1998 em etapas da Copa do Mundo)
23º lugar no Ranking Mundial - dezembro 2002 (1º brasileiro)
Campeão Mundial de Fast Triathlon 2003 - por equipe
3º Colocado no Pré-Olímpico de Brasília-DF Brasil junho 2003.
Corridas de Rua · 03 fev, 2004
Uma das principais corredoras do Nordeste, Marily dos Santos começa a buscar espaço na elite nacional
Correr para trabalhar. Correr para dar recados. Correr para fugir. Correr para mudar de vida. Correr para ser campeã. Desde de muito cedo, uma das principais atletas do nordeste brasileiro tinha a corrida incorporada à rotina e não tinha idéia de que estava desenvolvendo cada vez mais o potencial para o esporte. Marily dos Santos, 25 anos, vem se destacando no cenário nacional e com muita simplicidade sonha chegar a uma Olimpíada. Em 2004? Não. Na infância, nunca sonhou em ser corredora, não teve pressa para cruzar as primeira linhas de chegada na frente e, portanto, com muita tranqüilidade quer estar presente no principal evento esportivo do planeta em 2008 ou 2012. Como ela mesmo afirma: Quando estiver pronta para encarar o desafio.
Trabalhadora rural, Marily começou a correr aos 12 anos, quando, juntamente com as quatro irmãs e os pais, plantava abacaxi na área rural de Joaquim Gomes, pequeno município localizado à 70km de Maceió e vendia a colheita numa cidade vizinha. No retorno do trabalho, ao invés de voltar a cavalo, preferia ir correndo. Era uns quatro quilômetros de ida e mais quatro na volta para negociar a venda dos abacaxis. Nem sempre sobrava cavalos sem carga, então, ia correndo. E ganhava dos animais. Sempre que tinha que levar um recado do meu pai também ia correndo. Nunca esperava pelas caronas, pois meu pai sempre falava: vou cuspir no chão e você tem que voltar antes dele secar, senão apanha. Era mais para colocar medo, mas eu não arriscava, relembra.
Aos 18 anos, incentivada pelo primo e corredor José Carlos Santana, disputou sua primeira prova, a Corrida da Mãe Lagoa (em Maceió) e uma semana depois participou da Corrida do Trabalhador. Em ambas foi quarta colocada. Com a mudança do primo para a Bahia, Marily ficou um ano sem competir, pois o pai não permitia que ela fosse sozinha. Com 19 anos, a corredora pôde participar da Corrida dos Carteiros (10km), na capital alagoana, em função da presença do primo, e ficou em segundo lugar, recebendo como prêmio R$ 600,00. Pensei que tivesse ficado rica, porque com uma nota de R$ 50,00 fazíamos as compras para a semana e eu tinha tantas nas mãos. Apesar da vida muito simples no sítio, nunca passei necessidade, pois plantávamos muitos produtos e também trabalhávamos bastante.
Desencorajada pelo pai, que não apoiava a idéia de ser atleta, fugiu de casa e se mudou para Bahia, onde contou com o apoio do primo e conheceu o atual treinador e marido, Gilmário Mendes. Marily mora em Salvador há 5 anos. Mas a saída de Alagoas não foi a única fuga de sua vida.
Em 98, ganhou uma passagem para disputar a São Silvestre e seu tio a proibiu de viajar sozinha com o técnico. A corredora, que se define como uma pessoa bastante reservada, simples e determinada, que não mede sacrifícios pelos desejos, foi para Vitória da Conquista (Bahia) disputar a Corrida de Natal, na qual foi segunda colocada e, na seqüência, desembarcou em São Paulo, sem a família saber. Naquele ano largou no meio da multidão na mais tradicional corrida de rua do País e terminou em 26º lugar na categoria feminino, que reunia mais de mil mulheres. Liguei para o meu tio, que achava que eu estava no sítio para passar as festas de fim de ano e contei o meu bom resultado. Então, decidi morar em definitivo em Salvador, deixar Juazeiro, local onde meu primo e tio moravam, para treinar e me tornar uma atleta de elite.
Muita gente duvida, mas meu relacionamento com o Gilmário só começou em 99. Antes, éramos apenas técnico e corredora, e não foi ele o motivo da minha decisão de vir para Salvador, mas, sim, o meu objetivo de ser uma atleta profissional.
A corredora de Alagoas confessa que o atletismo mudou sua vida. Não pensava em ser atleta, também não via condições para isso, porém, desde que meu primo me incentivou e me ajudou a traçar esse caminho, não desisti mais. Com o esporte posso viajar para onde quero, aprendi muita coisa que nem sabia como era, tipo um check in no aeroporto, e já comprei uma casa para os meus pais, próximo à Salvador, em Pojuca, além de outros dois imóveis. Sempre que junto um dinheiro invisto em imóveis.
Marily disputará sua sexta São Silvestre este ano. Tem como melhor resultado o sétimo lugar em 2002 e planeja, a curto prazo, estar no pódio. Em 2003 quero estar entre as dez melhores, mas minha verdadeira expectativa é segredo. Só eu sei. Segundo a modesta atleta, os Jogos Olímpicos ainda são um sonho distante. Olimpíada é para quem pode e tenho muito tempo para me preparar para estar no nível dessa competição. Tenho muito o que aprender com outras corredoras mais experientes como a Selma Reis, a Narloch. Estou crescendo, pois antes conseguia ir até um trecho ao lado delas nas provas, hoje já consigo acompanhar o tempo todo.
A temporada 2004 promete ser de muitas novidades e novas conquistas. Já está definido que ela irá participar do Troféu da Cidade São Paulo e da Corrida de São Sebastião. Em fevereiro começamos a preparação para a primeira maratona da carreira dela, que será a de São Paulo, em maio. Bem treinada, tem chances de ter um bom resultado. Ela é muito determinada, disso resulta a disciplina e obediência em busca dos objetivos. A infância é que foi a base dela no esporte, eu acabei pegando uma atleta já preparada, então, ela encara os treinos como algo normal, sem ser nada sacrificante, comenta o técnico Gilmário. A rotina de Marily inclui cerca de 100km de corrida por semana, treinos de tiros de velocidade e, a cada três meses, treinos de musculação e força específicos. Atualmente, a corredora conta, além do treinador, com um médico e um fisioterapeuta.
Treinar com o marido é uma tarefa que precisa ser bem administrada e Marily aprendeu com a experiência a conviver com essa realidade. No começo foi mais complicado, pois misturávamos um pouco as relações. Hoje sabemos separar bem. Pista é uma coisa e casa é outra. Nos treinamentos a relação é bastante profissional e ele me dá bronca e dicas como para as outras atletas. Nos gostamos muito e não enjoamos de estar juntos. Às vezes temos uma briguinhas, mas não dura mais que cinco minutos.
A atleta da equipe Belgo/Mizuno/Pojuca, que prefere passear na feira do que no shopping center, tem um ídolo no atletismo: Vanderlei Cordeiro de Lima. Ele é uma pessoa muito simples, que está sempre brincando com a gente, e tem muita disciplina. Simpatizo com ele. O grande sonho extra-pista é ter uma roça à beira-mar. Quero poder comprar uma terra lá em Galeão, próximo a Morro de São Paulo (BA) para cultivar verduras, frutas, ter criações e estar à beira-mar.
Até 2002, a corredora disputava principalmente as competições no nordeste por falta de patrocínio. Com o apoio que recebeu este ano, pôde aparecer mais no cenário nacional e aconselha as meninas que como ela são de origem humilde a nunca desistir dos objetivos. Se estiverem em locais como eu estava, saiam. Dá saudades, mas tem que ir em busca, procurar alguém com experiência no esporte para orientá-las e nunca desistir.
Marily dos Santos:
Idade: 25 anos.
Altura: 1,52.
Peso: 47kg.
Natural de: Joaquim Gomes, Alagoas.
Principais Conquistas:
Campeã ibero-americana no Uruguai (2001)
Campeã nos 3.000m com obstáculos no Troféu Brasil de 2002
Bicampeã da Corrida de Círio (Belém do Pará-2002/2003)
Campeã da Corrida de Aniversário de Goiânia (2003)
7ª na Corrida Internacional de São Silvestre (2002)
2ª colocada na Prova do Macuco no Rio de Janeiro (2003)
Melhor tempo nos 10km - 3410
Recordista na equipe de sete atletas na 4ª Maratona BR de Revezamento
3ª colocada da Corrida e Caminhada Contra o Câncer de Mama Circuito 2003/Rio de Janeiro
5ª colocada na VII Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro (2203)
Vice-campeã da 1ª Meia Maratona da Bahia
Tetracampeã Baiana de Corridas de Rua (98/99/00/01)
Tricampeã e recordista Norte Nordeste de 3000 m c/ obstaculos
Vice-campeã Brasileira de Cross Country
6ª colocada no mundial Avon Running de 10 Km (Tailândia) 2002
3º lugar do ranking sul-americano de Corrida de Rua 2000
Bicampeã da Meia maratona de João Pessoa (02/03)
Hexa Campeã da Corrida da Águia (Salvador-Ba)
Campeã da Corrida Cidade de S. Luis (Maranhão) 2003
Campeã da Meia maratona de Juazeiro 2003
Corridas de Rua · 31 jan, 2004
Especialista nos 3.000 com obstáculos, Celso Ficagna planeja mudar de prova depois dos Jogos Olímpicos
Das vigas e ferragens da construção civil, para as ruas e pistas do Brasil e do mundo. Os tijolos que construíram a carreira de Celso Ficagna, da infância até os dias de hoje, são resultado de uma incrível obra do acaso. Tudo começou a mudar na vida do paranaense quando tinha 17 anos de idade. Resolveu participar de uma prova de rua na cidade de Concórdia, em Santa Catarina, para ver no que daria. Não treinava, não conhecia direito à modalidade e muito menos se recorda de algum motivo que o tenha feito participar. Sequer possuía ligação direta com algum esporte na infância, a não ser nas peladas com os amigos aos finais de semana. Nem sei porque eu fui. Deu a louca, lembra. Para sua surpresa, ao final dos 5 quilômetros da prova, foi abordado por um professor de Educação Física que o convidou para integrar a equipe de atletismo do Clube Concórdia. Em poucos minutos, começava a mudar seu futuro.
Com muitas dificuldades financeiras, teve que se sacrificar para conseguir praticar o atletismo. De família pobre, começou a trabalhar na construção civil quando ainda tinha 12 anos, mesmo período que deixou a cidade natal, São Jorge D'Oeste, no Paraná, para viver em Santa Catarina. Como precisava do dinheiro, não poderia largar o emprego para se dedicar aos treinamentos. Nessa época, era treino de manhã, trabalho à tarde e estudos à noite. Nos primeiros dois meses, achei que não iria aguentar, recorda Ficagna. Como os resultados logo começaram a aparecer, a motivação superou todos os problemas.
Suas primeiras provas foram de 1.500 e 5.000 metros, mas logo mudou para os 3.000 metros com obstáculos. Foi nessa distância que teve o primeiro desafio na carreira: conseguir o índice para os Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata, na Argentina (1995). Mas não foi feliz na seletiva, em 1994. Ao invés de marcar os 9min05 necessários para garantir a vaga no Pan, correu em 9min11. O desempenho abaixo do esperado foi fruto de ter ficado três meses sem treinar em função de estar n o exército.
A prova de que tinha condições de alcançar o índice veio logo depois, quando conseguiu marcar 8min56, no final de 94. A decepção por não garantir a vaga no Pan-Americano foi enorme. Pouco tempo depois parou de correr as provas de obstáculos. Até o ano de 1999, competiu nos 800 e 1.500 metros.O desempenho nas distâncias valeu convite para integrar a equipe do Vasco da Gama. No mesmo ano deixava Santa Catarina para morar no Rio de Janeiro. Mais uma vez, o acaso tratou de interferir em sua vida. Durante os treinos, resolveu simular uma prova de obstáculos e agradou os treinadores. Resultado: acabou retomando o trabalho nessa distância. Meses depois conquistava um título de campeão brasileiro pela primeira vez, justamente nos 3.000 metros com obstáculos.
Hoje, aos 28 anos, Celso Ficagna é tricampeão brasileiro e campeão sul-americano da modalidade e se prepara para superar o maior obstáculo da carreira: fazer o índice para os Jogos Olímpicos de Atenas. A competição na Grécia, no próximo ano, pode marcar a despedida de Celso das provas dessa distância. Uma decisão previamente tomada juntamente com o técnico Ricardo DAngelo. Há um ano conversei com o Ricardo para fazermos um trabalho até 2004. A partir do ano que vem em diante, devo competir provas mais longas.
O motivo da mudança é puramente estratégico. Apesar de ter conquistado as maiores glórias nos 3.000 com obstáculos, entende que é hora de buscar provas mais compatíveis com a idade.
Celso sabe que a partir dos 30 o rendimento começa a cair e logo não deverá ter o mesmo desempenho que possui hoje, em seu melhor momento. Competir em provas de 10 quilômetros até meia maratona parece o próximo passo do atleta, que já iniciou um progressivo processo de adaptação às novas distância para partir em busca de resultados.
Rumo à Olimpíada - Sem competições importantes no calendário, Celso Ficagna tem treinado forte para provas de rua. Com isso, a carga de quilometragem tem aumentado bastante durante seus treinos. São até 150 quilômetros semanais, que permitem que o atleta corra provas de 10 quilômetros sem dificuldades. Alguns frutos começam a ser colhidos agora, como a vitória na 8º Corrida do Centro Histórico de São Paulo.
Toda essa preparação serve também de base para que o atleta chegue bem na busca do índice para a Olimpíada de Atenas, no ano que vem. São sete dias por semana, sendo que entre segunda, terça, quinta e sexta-feira, faz os treinos em dois períodos. Exigente com seu desempenho, sempre está querendo fazer o melhor. Não sou um fenômeno da natureza, mais me dedico bastante no que faço.
Como se não bastasse os compromisso com os treinos, à noite ele vai à faculdade, onde está cursando Educação Física na PUC Campinas. Consciente do futuro, sabe que não é possível sobreviver do atletismo para sempre. Com formação universitária, poderá continuar trabalhando no atletismo, aliando a experiência pessoal aos fundamentos acadêmicos.
Celso Ficagna:
Natural de São Jorge D'Oeste - Paraná
Idade: 28 anos
Altura:1,73m
Peso: 63 kg
Equipe: Pão de Açúcar BM&F
Principais conquistas:
Tricampeão brasileiro dos 3.000m com obstáculos (1999, 2001 e 2002)
Bicampeão paulista dos 3.000m com obstáculos (2001 e 2002)
Campeão paulista dos 1.500m
3º lugar no Campeonato Sul-americano de Milha de Rua, em Belém, PA
4º lugar na Volta Pedestre Cidade de Itú
8º lugar nos 1.500 m do Grand Prix de Belém, PA
3º colocado nos 5.000 m no Campeonato Paulista
Campeão Sul-Americano dos 3.000m com obstáculos (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Milha de Rua,·
Campeão da Corrida de Natal Corpore/Pão de Açúcar (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Cross Country, 4km (2000)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua (2000 e 2001)
Integrante da Seleção Brasileira no Mundial de Cross Country, Vilamoura, Portugal (2000)
Integrante da Seleção Brasileira no Ekiden Internacional de Chiba, Japão (1999)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua, 2000 e 2001
Integrante da Seleção Brasileira medalha de bronze no Revezamento Ekiden Internacional de Chiba, no Japão, 2001
Triathlon · 10 abr, 2003
Leandro Macedo corre, nada e pedala em busca de vitórias. Cuidando do corpo, mente e espírito, pretende chegar aos 120 anos. Melhor triatleta sul-americano nos Jogos Olímpicos de Sydney/2000, com a 14ª colocação, Leandro Macedo acumula títulos e resultados de um verdadeiro campeão. No ano passado, garantiu um dos únicos títulos internacionais que faltava na carreira, o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Aos 34 anos, segue a incansável rotina em busca de vitórias. Pretende ganhar medalha no Pan-Americano da República Dominicana, de preferência a de ouro para carimbar o passaporte para Atenas/2004. Para quem pensa que está velho para o esporte de alto nível, além dos resultados, tem como resposta o estilo de vida. Pretende chegar aos 120, cuidando do corpo, mente e espírito. Confira a entrevista exclusiva de Leandro Macedo a SuperAção.
Como você analisa sua participação no Ironman do Havaí e quais as maiores dificuldades da prova?
Em 17 anos de triathlon disputei quatro Ironman, sendo dois no Havaí e minha melhor posição foi 19º lugar. Na primeira vez não consegui terminar a prova, pois não soube dosar a energia. A dificuldade é você encontrar seu ritmo. A primeira vez você não se pode querer buscar resultado. É para você conhecer a competição, ver como se comporta. A cada disputa, você vai adquirindo mais experiência e conhecendo o comportamento do seu corpo, e é preciso ter paciência para saber dosar a energia durante a prova. Apesar do tempo que tenho no triathlon (17 anos), ainda não encontrei o ponto de equilíbrio no Ironman. Falta achar o ritmo no ciclismo.
Quais são seus planos para a carreira e como será a temporada 2003?
Estou voltado para a Olimpíada. Então, nesta preparação tem os Jogos Pan-Americanos para o qual estou classificado e no final do ano tem o Campeonato Mundial, além de disputar outras provas para somar mais pontos para o ranking. É claro que vou tentar uma medalha no Pan, se der ouro, melhor ainda. Assim garanto mais uma vaga para o Brasil no triathlon em Atenas.
Qual meta pretende atingir este ano em termos de ranking?
Sou número 53 do ranking mundial e quero terminar 2003 abaixo dos 40. Para conseguir, escolhi as melhores provas para o meu estilo. Quero disputar dentro de um planejamento de treino para chegar nas competições na melhor forma.
Quem é o seu ídolo?
Os atletas brasileiros, principalmente aqueles que têm uma origem humilde, sem estrutura nenhuma, que chegam ao topo com muita raça.
Como é a sua rotina, o que gosta de fazer nas horas livres?
No período da manhã treino corrida e ciclismo. Depois do almoço gosto de descansar, fazendo meditação, acupuntura ou lendo, e no fim da tarde treino natação. Três vezes por semana faço musculação para fortalecimento e evitar lesões. Quanto estou livre gosto de cinema, teatro, futvôlei, cachoeiras e brincar com o meu filho (5 anos). Meu treino tem, por dia, de 40 minutos a uma hora e quarenta de corrida, mais uma hora e meia a quatro horas de ciclismo e duas horas de natação, de segunda a sábado. Descanso no domingo.
Como entrou para o triathlon?
Comecei aos 18 anos. Sempre gostei de fazer esporte: tênis, natação, basquete, atletismo, entre outros. Tinha um amigo que praticava triathlon e me chamou. Mas eu ia começar o curso de engenharia florestal e não teria tempo. No entanto, no início das aulas houve uma greve na faculdade e combinei que enquanto não tivesse aula, iria treinar. Quando as aulas voltaram apareceu uma prova. Participei, gostei e senti que queria fazer aquilo. E podia ir além. Fui primeiro colocado na minha categoria e sexto no geral. Fiz 3 anos e meio de engenharia e parei por causa do esporte, voltei aos estudos em 94 para fazer Educação Física, na qual me formei. Na época em que comecei, entre 85 e 86, era o auge do triathlon no Brasil, mas havia pouco conhecimento do que realmente era o esporte, achava-se que era coisa de maluco, um desafio, esporte radical. Mas com o tempo a modalidade foi se organizando, a estrutura melhorou com a inclusão do esporte na Olimpíada. As novas regras, desde 95, que permitiram vácuo nas provas olímpicas, deixaram a competição mais estratégica e disputada, valorizando a natação e a corrida.
Qual é o seu ponto forte no triathlon e no que ainda tem que melhorar?
A corrida é uma facilidade natural e descobri até que tarde, mesmo na época que praticava atletismo não era tão bom. Sinto que tenho que melhorar a natação. Praticamente comecei a nadar aos 18 anos, para o triathlon. Apesar de treinar natação há 17 anos, ainda tenho que melhorar.
Como é composta sua equipe de trabalho?
Monto meu programa de treino, já que tenho a formação em Educação Física e a experiência no esporte. Antes, tive técnico. Atualmente tenho um orientador de natação e duas vezes por semana corro com o pessoal da Ceilândia e recebo algumas orientações.
Você nasceu em Porto Alegre, mas vive em Brasília...
Aos 6 anos mudei para Brasília por causa da transferência do trabalho do meu pai. As condições do clima da cidade (chove pouco e é seco) e altitude ajudam na preparação. E as ruas largas facilitam para os treinos de corrida e ciclismo, além de haver muitas piscinas para treinar.
Quais cuidados toma com a alimentação?
Tenho o costume de dizer que faço uma refeição ao dia, das 7 às 23h. Como pouco e muitas vezes ao dia, então, na soma dá umas seis refeições diárias. Gosto de alimentos naturais (arroz e farinha integral, leite de soja, etc.), mas não sou radical. Evito gordura, doces (principalmente na semana de prova).
Qual é a sua estratégia durante as provas?
Devido à competitividade atual, você tem que se preocupar com todos os detalhes, até mesmo com as trocas, que antes eram mais lentas. Durante a prova pondero todos os elementos, desde as qualidades dos adversários até saber a melhor atitude em determinada situação, como se é hora de atacar, puxar o ritmo ou se manter no pelotão, por exemplo, no ciclismo.
Você disputa mais provas olímpicas, no entanto encarou o Ironman. É possível ser campeão nas duas?
Hoje é muito difícil querer ser o melhor nos dois tipos de prova, mas não é impossível. No entanto, as regras diferem, a preparação é específica para o estilo e a tendência é os atletas se especializarem num tipo. Fazer um bom Ironman e disputar provas curtas, no fim de ano, com bons resultados é possível se tudo correr dentro do planejado. Agora, ser campeão nos dois fica complicado.
Está em seus planos se dedicar ao Ironman?
Quero aproveitar ao máximo a minha carreira. Enquanto estiver competitivo quero ficar nas provas olímpicas. Quando sentir que meu rendimento caiu, inicio a preparação para o Ironman e vou buscar melhores resultados nesta prova.
Como você avalia sua performance no ano passado?
Foi um bom ano, conquistei pela terceira vez o Pan-Americano e pela primeira vez levei o título do Sul-Americano. No primeiro semestre disputei várias provas internacionais, mas acabei tendo pouca sorte. Fui bem nas competições, mas tive problemas com o pneu (furado) na Flórida e no Japão a roda saiu do eixo. No geral o saldo foi positivo, mesmo com os eventuais problemas, saí da faixa os 70 no ranking e baixei para 50.
E como está a briga no ranking mundial para chegar a Atenas 2004?
Na minha opinião, se tivermos três brasileiros entre os 50 primeiros colocados no ranking, os três irão para Atenas. Estou fazendo a minha parte de tentar abrir mais uma vaga buscando o ouro do Pan.
Comente a sua participação em Sydney (14º colocado).
Minha expectativa foi tão grande para aquele momento. Me cobrei muito para estar naquela prova. Minha preparação foi excelente. Por 10 segundos não consegui ficar no segundo pelotão da natação (no qual geralmente ficam os atletas que buscam o título), depois puxei no ciclismo para diminuir a diferença e quando cheguei na corrida, estava cansado por causa do esforço. Então, levei 5 km para poder soltar as pernas, mas aí não dava mais. Mesmo assim ganhei algumas posições e finalizei em 14º.
Você está com 34 anos, acredita ser o auge da carreira?
Quando ganhei o circuito mundial, em 91, achei que era o auge. Depois, em 94, quando voltei a estudar (Educação Física), falaram que eu era old generation e estaria deixando o esporte. Mas logo em seguida, em 95, conquistei o ouro nos Jogos Pan-Americanos. Então, em média, a cada quatro anos estou tendo um auge, e aí fica difícil dizer que há um único topo na minha carreira.
Até quando acredita ser possível competir em alto nível?
A princípio, enquanto você estiver motivado pode competir. Mas a média é até 25, 27 anos. Já estou fora da normalidade.
Aposentadoria é um assunto no qual você já pensou?
Eu devo fazer uma retirada simbólica das provas olímpicas e, assim, não ter mais a pressão de defender o País, buscar vagas e tudo mais. A princípio isso deve ocorrer após Atenas. Então, vou me dedicar às provas promocionais, não é uma aposentadoria total das competições. Sempre pensei e dividi a minha vida em três fases. Até os 40 anos me dedicar ao físico, dos 40 aos 80 ao intelectual e dos 80 aos 120 ao espiritual. Tem gente que acha loucura. Querer viver até os 120 anos, mas até agora está dando certo e estas partes são prioridades, pois você tem que combinar as três o tempo todo para ter uma vida saudável.
Qual o segredo para prolongar a vida útil de um atleta?
Meu segredo, acho, foi começar tarde. Tem muito adolescente que treina e é exigido como adulto e, às vezes, se perde um atleta muito cedo por causa da grande exigência no início. Aconselho a aprender ao longo do treinamento, ouvir seu corpo e respeitá-lo. Sempre uso a frase: Sou aluno do meu corpo e mestre da minha mente. Ou seja, aprendo com o corpo e ensino a mente a conduzir.
Você pratica meditação desde 91, como ela ajuda no esporte?
A meditação me ajuda a controlar o nível de ansiedade, cobrança, expectativa antes e durante a prova. O esporte me acelera e a meditação me traz o repouso e o equilíbrio.
O que falta para os brasileiros conseguirem maiores resultados internacionais?
Já melhorou muito, principalmente no triathlon feminino. No masculino também tem um número maior de atletas aparecendo e se destacando no ranking. Falta realmente reforçar o trabalho de base para se descobrir mais talentos para defender o País e dar meios para que estes atletas desenvolvam seus potenciais.
O que os australianos e americanos têm que o brasileiros não têm?
Eles não têm nada de diferente, além de uma boa estrutura, condições para se dedicar à modalidade e apoio do governo. O que espero é que aumente o apoio ao esporte no Brasil.
Que dicas você daria para quem sonha em ser um campeão de triathlon?
Tem que ralar, acordar do sonho e cair na estrada, treinar para buscar a meta. Eu não acredito muito nesta história de ver um garoto e estimar que daqui a X anos ele será um campeão. Sou mais de fazer e ir buscando um objetivo de cada vez.
Qual o momento mais importante da sua carreira?
Toda conquista foi especial, mas há duas que marcaram. Em 91 ser campeão do circuito mundial. Ninguém esperava que um brasileiro conquistasse e aquele ano sai viajando o mundo, falando pouco inglês e me virei até chegar ao título. E em 95, ganhar a medalha de ouro no Pan-Americano. Tive uma lesão no joelho no final de 94, cheguei curado na competição, mas inseguro. Corri na raça e conquistei.
Em 2002 você conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos. Qual título internacional falta na sua carreira?
Falta uma medalha olímpica e um título Mundial, já que minha melhor colocação neste torneio foi o terceiro lugar em 96, quando foi disputado em Cleveland (EUA). Ainda é o melhor resultado de um brasileiro na competição.
Qual a sua avaliação sobre o triathlon no Brasil?
Voltaram a organizar o triathlon no Brasil, realizando mais provas e trazendo competições internacionais para cá. E isso acontecendo num bom momento, já que o Pan 2007 será realizado no Rio, aumentando, assim, o nível técnico dos atletas nacionais.
Leandro Macedo
34 anos
Triatleta há 17 anos
Peso: 68 kg
Altura: 1,74m
Alimentação · 17 jun, 2026
Saúde · 17 jun, 2026
Atletismo · 17 jun, 2026