
Ficagna após vencer a Prova do Centro Histórico em 2003 (foto: Harry Thomas Jr Arquivo WebRun)
Especialista nos 3.000 com obstáculos, Celso Ficagna planeja mudar de prova depois dos Jogos Olímpicos
Das vigas e ferragens da construção civil, para as ruas e pistas do Brasil e do mundo. Os tijolos que construíram a carreira de Celso Ficagna, da infância até os dias de hoje, são resultado de uma incrível obra do acaso. Tudo começou a mudar na vida do paranaense quando tinha 17 anos de idade. Resolveu participar de uma prova de rua na cidade de Concórdia, em Santa Catarina, para ver no que daria. Não treinava, não conhecia direito à modalidade e muito menos se recorda de algum motivo que o tenha feito participar. Sequer possuía ligação direta com algum esporte na infância, a não ser nas peladas com os amigos aos finais de semana. Nem sei porque eu fui. Deu a louca, lembra. Para sua surpresa, ao final dos 5 quilômetros da prova, foi abordado por um professor de Educação Física que o convidou para integrar a equipe de atletismo do Clube Concórdia. Em poucos minutos, começava a mudar seu futuro.
Com muitas dificuldades financeiras, teve que se sacrificar para conseguir praticar o atletismo. De família pobre, começou a trabalhar na construção civil quando ainda tinha 12 anos, mesmo período que deixou a cidade natal, São Jorge D’Oeste, no Paraná, para viver em Santa Catarina. Como precisava do dinheiro, não poderia largar o emprego para se dedicar aos treinamentos. Nessa época, era treino de manhã, trabalho à tarde e estudos à noite. Nos primeiros dois meses, achei que não iria aguentar, recorda Ficagna. Como os resultados logo começaram a aparecer, a motivação superou todos os problemas.
Suas primeiras provas foram de 1.500 e 5.000 metros, mas logo mudou para os 3.000 metros com obstáculos. Foi nessa distância que teve o primeiro desafio na carreira: conseguir o índice para os Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata, na Argentina (1995). Mas não foi feliz na seletiva, em 1994. Ao invés de marcar os 9min05 necessários para garantir a vaga no Pan, correu em 9min11. O desempenho abaixo do esperado foi fruto de ter ficado três meses sem treinar em função de estar n o exército.
A prova de que tinha condições de alcançar o índice veio logo depois, quando conseguiu marcar 8min56, no final de 94. A decepção por não garantir a vaga no Pan-Americano foi enorme. Pouco tempo depois parou de correr as provas de obstáculos. Até o ano de 1999, competiu nos 800 e 1.500 metros.O desempenho nas distâncias valeu convite para integrar a equipe do Vasco da Gama. No mesmo ano deixava Santa Catarina para morar no Rio de Janeiro. Mais uma vez, o acaso tratou de interferir em sua vida. Durante os treinos, resolveu simular uma prova de obstáculos e agradou os treinadores. Resultado: acabou retomando o trabalho nessa distância. Meses depois conquistava um título de campeão brasileiro pela primeira vez, justamente nos 3.000 metros com obstáculos.
Hoje, aos 28 anos, Celso Ficagna é tricampeão brasileiro e campeão sul-americano da modalidade e se prepara para superar o maior obstáculo da carreira: fazer o índice para os Jogos Olímpicos de Atenas. A competição na Grécia, no próximo ano, pode marcar a despedida de Celso das provas dessa distância. Uma decisão previamente tomada juntamente com o técnico Ricardo DAngelo. Há um ano conversei com o Ricardo para fazermos um trabalho até 2004. A partir do ano que vem em diante, devo competir provas mais longas.
O motivo da mudança é puramente estratégico. Apesar de ter conquistado as maiores glórias nos 3.000 com obstáculos, entende que é hora de buscar provas mais compatíveis com a idade.
Celso sabe que a partir dos 30 o rendimento começa a cair e logo não deverá ter o mesmo desempenho que possui hoje, em seu melhor momento. Competir em provas de 10 quilômetros até meia maratona parece o próximo passo do atleta, que já iniciou um progressivo processo de adaptação às novas distância para partir em busca de resultados.
Rumo à Olimpíada – Sem competições importantes no calendário, Celso Ficagna tem treinado forte para provas de rua. Com isso, a carga de quilometragem tem aumentado bastante durante seus treinos. São até 150 quilômetros semanais, que permitem que o atleta corra provas de 10 quilômetros sem dificuldades. Alguns frutos começam a ser colhidos agora, como a vitória na 8º Corrida do Centro Histórico de São Paulo.
Toda essa preparação serve também de base para que o atleta chegue bem na busca do índice para a Olimpíada de Atenas, no ano que vem. São sete dias por semana, sendo que entre segunda, terça, quinta e sexta-feira, faz os treinos em dois períodos. Exigente com seu desempenho, sempre está querendo fazer o melhor. Não sou um fenômeno da natureza, mais me dedico bastante no que faço.
Como se não bastasse os compromisso com os treinos, à noite ele vai à faculdade, onde está cursando Educação Física na PUC Campinas. Consciente do futuro, sabe que não é possível sobreviver do atletismo para sempre. Com formação universitária, poderá continuar trabalhando no atletismo, aliando a experiência pessoal aos fundamentos acadêmicos.
Celso Ficagna:
Natural de São Jorge D’Oeste – Paraná
Idade: 28 anos
Altura:1,73m
Peso: 63 kg
Equipe: Pão de Açúcar BM&F
Principais conquistas:
Tricampeão brasileiro dos 3.000m com obstáculos (1999, 2001 e 2002)
Bicampeão paulista dos 3.000m com obstáculos (2001 e 2002)
Campeão paulista dos 1.500m
3º lugar no Campeonato Sul-americano de Milha de Rua, em Belém, PA
4º lugar na Volta Pedestre Cidade de Itú
8º lugar nos 1.500 m do Grand Prix de Belém, PA
3º colocado nos 5.000 m no Campeonato Paulista
Campeão Sul-Americano dos 3.000m com obstáculos (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Milha de Rua,·
Campeão da Corrida de Natal Corpore/Pão de Açúcar (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Cross Country, 4km (2000)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua (2000 e 2001)
Integrante da Seleção Brasileira no Mundial de Cross Country, Vilamoura, Portugal (2000)
Integrante da Seleção Brasileira no Ekiden Internacional de Chiba, Japão (1999)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua, 2000 e 2001
Integrante da Seleção Brasileira medalha de bronze no Revezamento Ekiden Internacional de Chiba, no Japão, 2001
Este texto foi escrito por: Webrun