
Edanalva foi campeã este ano do Troféu São Paulo (foto: Donata Lustosa/ WebRun)
Participação feminina em corridas de rua cresce a cada ano, mas ainda faltam resultados expressivos.
EXCLUSIVO, Pretinha da Paraíba, como gosta de ser chamada Ednalva Laureano da Silva, de 26 anos, é o melhor exemplo do crescimento da participação feminina que o Brasil vem assistindo no atletismo e nas corridas de rua. Não faz tanto tempo assim que essa pequena paraibana de Campina Grande, de 1,51m e 45 quilos, que ocupa lugar no pódio de várias competições nacionais, começou a correr. Isso ocorreu há apenas cinco anos.
O estímulo veio da premiação em dinheiro oferecida pelas provas de rua, após uma vitória na gincana da escola eu nem estudava lá, mas corri como representante e ganhei os dois quilômetros, comenta. O sucesso nas corridas fez Ednalva largar a atividade agrícola que exercia no sítio Geraldo, de Lagoa Nova, onde plantava batata e outros legumes.
A veterana Márcia Narloch, uma das mais experientes corredoras de rua do Brasil, não tem dúvida que a participação feminina nessas provas cresceu, embora isso não signifique melhoria de resultados. Aos 32 anos, a atleta da Mizuno, de 1,53m e 42 quilos, tem Ednalva e outras corredoras do mesmo nível capazes de brigar por um lugar no pódio. Hoje são verdadeiras ameaças nas provas de rua. De uns cinco anos para cá o nível do atletismo brasileiro nas provas de rua cresceu. Os prêmios para as mulheres ficaram mais próximos dos oferecidos nas competições masculinas e isso ajudou. As mulheres passaram a enxergar no atletismo uma possibilidade de profissionalização, avalia Márcia.
A atleta observa que há pouco menos de uma década eram apenas três ou quatro as garotas que largavam como favoritas. Hoje, temos dez ou mais meninas que podem brigar. Eu sei que posso ser a primeira ou a oitava.
Ednalva venceu, no fim de março, a 10ª edição da Corrida e Caminhada Contra o Câncer de Mama, em São Paulo, com largada e chegada no Parque do Ibirapuera. Correu os 10 quilômetros em 34min42, seguida por Márcia Narloch (35min05) e Adriana de Souza (35min47). Pela conquista, a atleta da Mizuno/São Paulo (que também correu com o apoio da Belgo) recebeu o prêmio de R$ 10 mil. A paraibana dedicou o título à mãe, Maria do Carmo, dizendo que era uma honra correr em defesa de uma causa feminina, a prevenção contra o câncer de mama.
O evento, organizado pela Yescom, marcou a abertura da série de provas da temporada, do ano passado, que terão o mesmo objetivo de divulgar a prevenção ao câncer de mama. O Câncer de Mama no Alvo da Moda (que tem como desenho o alvo azul) é o slogan do circuito. O montante arrecadado com inscrições, de R$ 110 mil em São Paulo, foi destinado ao IBCC, Instituto Brasileiro de Controle de Câncer. Continua
Ednalva acha que um dos marcos para o aumento da participação feminina nas corridas de ruas também foi o desempenho de Maria Zeferina Baldaia, com grande repercussão, na Corrida Internacional de São Silvestre em 2001. Mas ainda merecemos conquistar mais um pouco de espaço. A premiação, por exemplo, que na maioria das provas é para cinco corredoras poderia ser para as dez primeiras colocadas, ressalta Pretinha.
Zeferina, de 30 anos, 1,58m e 47 quilos, também atleta da Mizuno/São Paulo, concorda que houve um incremento na participação das mulheres, tanto na elite quanto de pessoas anônimas que adotam a corrida como recurso de qualidade de vida. Quando comecei a competir eram poucas as corredoras. Os prêmios para as provas feminina e masculina ficaram mais iguais e cresceu a participação das mulheres. Disse que sente orgulho por colaborar com isso ao vencer a São Silvestre. As mulheres vem me dizer que seguem meu exemplo. Na minha região, de Sertãozinho, tenho certeza que a procura de jovens pelo atletismo aumentou. Acha ainda que isso também está ligado à própria condição da mulher brasileira, mais independente.
Estatísticas precisas e globais sobre o crescimento da participação feminina em provas de rua não existem. Mas muitos números, além da observação das próprias atletas, confirmam isso. Na própria Corrida e Caminhada contra o Câncer de Mama, de público exclusivamente feminino, isso fica nítido. Na primeira edição, há dez anos, segundo dados da organização, foram 600 as inscritas. Este ano a prova recebeu 5 mil inscrições, 1 mil na corrida, 4 mil na caminhada, e mais cerca de 5 mil pessoas que se incorporaram ao longo do percurso. Na própria São Silvestre, uma participação que há alguns anos beirava as 500 inscrições já foi de 2.000 mulheres na última edição.
Estatísticas elaboradas pela Corredores Paulistas Reunidos (Corpore), criada há 21 anos, mostram que a participação feminina aumentou porque também cresceu, numa velocidade grande, os adeptos da corrida em ambos os sexos. Em 1997 eram 800 os associados da Corpore e 9.430 os participantes nas suas corridas. Fechou a temporada de 2002 com 5.000 associados e registrou uma presença de 41.373 pessoas nas provas.
Os últimos Jogos Olímpicos do milênio, em Sydney, em 2000, foram das mulheres, pelo menos para o Brasil. Em 19 esportes olímpicos, o Brasil levou 77 mulheres, recorde de participação num time com 230 atletas. Um terço da missão brasileira na Austrália, 33%, foi formado por mulheres. A nadadora Maria Lenk é a precursora, a primeira mulher brasileira a competir em uma Olimpíada, a de Los Angeles, em 1932 (nos 100m livre, 100m costas e 200 m peito). Também foi em Los Angeles, mas na edição de 1984, que a maratona teve uma representante brasileira, Eleonora Mendonça, pioneira, apesar do resultado inexpressivo. Continua
É inegável que o atletismo feminino nacional apresentou um grande crescimento, mesmo nas provas de fundo, nos últimos 25 anos. Mas foram os anos 80 e 90, apesar da pequena quantidade de corredoras, que apresentaram os melhores resultados técnicos. O recorde sul-americano da maratona, com o tempo de 2h27min41, ainda é da brasiliense Carmem de Oliveira, obtido em Boston, em abril de 1994. Além de Carmem, apenas Janet Mayal, em 1991 (2h31min27), Viviany Anderson, em 1997 (2h31min39) todas já abandonaram o atletismo e Márcia Narloch, em 1993 (2h32min23), correram a maratona em menos de 2h33. Desde 1997, portanto há cinco anos, o ranking das melhores de todos os tempos não conhece marcas mais significativas.
A primeira colocada do ranking de 2002, Maria Zeferina Baldaia, tem o tempo de 2h36min07, da Maratona de São Paulo. Marizete de Paula Rezende, vencedora da última São Silvestre, tem como melhor tempo da carreira 2h37min29, marca obtida na Maratona de Porto Alegre, em 2001.
Isso é verdade. Embora tenha havido um enorme crescimento na participação, o empobrecimento do resultado técnico também é uma realidade, observa Ricardo DÂngelo, treinador da BM&F Atletismo e que orientou Viviany Anderson. A estagnação e até o refluxo do nível técnico, no final dos anos 90, fica evidenciado pelas marcas. Ao procurar uma justificativa, o técnico entende que pode ser o caminho inverso ao que faziam atletas como Carmem de Oliveira, o traçado pelos atuais corredores de rua que reduzem a qualidade técnica. A Carmem era uma grande atleta de pista antes de ser uma corredora de rua. Fundistas como Zeferina ou Marizete começaram nas provas de rua. O excesso de competições, em busca dos prêmios, também pode ser um perigo se não for algo bem administrado, inclusive com comprometimento na longevidade das atletas, acentua DÂngelo.
Dos 30 atletas que foram aos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999, representando o Brasil, 14 eram mulheres, mas só duas competidoras de provas de fundo, Márcia Narloch, nos 10 mil metros, e Viviany Anderson, que trouxe a medalha de bronze na maratona.
Mas é a própria Marizete que acha que ainda está muito longe o dia em que as mulheres do Brasil poderão sonhar com um pódio olímpico ou até mesmo brigar por posições no pelotão dianteiro. Apesar do crescimento, nós ainda temos de melhorar demais para atingir o melhor nível internacional. Marizete tem razão. A britânica Paula Radcliffe, detentora do recorde mundial da maratona, tem o tempo de 2h17min18, feito em 2002, em Chicago. Dominado por japonesas, com a presença de algumas chinesas e africanas, o ranking da Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf) tem pelo menos duas dúzias de atletas que correm hoje abaixo das 2h33min.
Mesmo nos 10 mil metros, o recorde sul-americano, com larga vantagem, ainda é de Carmem de Oliveira, de 1993, com o tempo de 31min47. Ednalva, a primeira de 2002, tem 33min16, seguida no ranking por Zeferina, com 33min32. As duas primeiras medalhas brasileiras ganhas por mulheres em mundiais ou olimpíadas no atletismo foram as do Mundial de Kingston, na categoria juvenil, em 2002, conquistadas por Keila da Costa, no salto triplo, e de Juliana Azevedo, nos 800 metros.Continua
O enorme crescimento da presença de mulheres nas corridas também vem de adeptas que não visam competir em Jogos Pan-Americanos ou Olímpicos. Da corredora anônima Ângela Ruiz Soares vem a confirmação sobre o incremento da presença feminina. Se não formos rápidas, as vagas nas inscrições para as corridas da Corpore acabam, de tão grande é a procura, observa. Professora aposentada, Ângela tem 54 anos e corre desde os 32, quando chegou a São Paulo vinda do Rio de Janeiro e já decidida a morar perto do Parque do Ibirapuera. Sempre gostou de esportes. Fez educação física no colégio, foi nadadora no Vasco, mas foi em uma academia, a conselho de um professor, que conheceu e se apaixonou pela corrida.
Está em São Paulo há 16 anos e recorda-se que nem mesmo os homens corriam quando começou a ir ao Ibirapuera. Mesmo assim, os primeiros grupos de corrida que se formaram no parque eram bem mais masculinos do que os que existem hoje. Sob orientação do professor Vanderlei Severiano, o Branca, Ângela pertence a uma turma da luluzinha que adotou a corrida. Fazemos amizades, ficamos bem fisicamente e melhoramos a auto-estima correndo. Por isso, acho que cresce tanto a presença das mulheres nas corridas, observa a avó, de 1,59m e 58 quilos, que tem no currículo nada menos que nove participações na Maratona de Nova York, uma das mais tradicionais do mundo.
Maria Geralda de Souza Oliveira, a Ge, de 34 anos, do mesmo grupo de Ângela, corre há sete anos. Tem de conciliar a atividade física com o seu trabalho de confeiteira para o Figueira Rubayat e para festas. Adotou a corrida em um momento ruim da vida, de separação conjugal e perda do pai. Primeiro começou a caminhar enquanto a filha fazia aulas de ginástica. Daí, a correr, foi uma mudança rápida, quando conheceu o professor Branca, no Ibirapuera. Não parei nunca mais. Fiz amigos, fiquei bem. Para mim a atividade física é uma terapia. Quando estou triste saio para dar uma corrida e fico bem, volto com sensação de prazer. A corrida deixa você com você, dá liberdade de escolha. Eu recomendo para quem precisa de terapia.
Ge acha que, mesmo tendo como parâmetro, os últimos sete anos, cresceu a presença das mulheres nas corridas, nos parques onde treina e nas competições que faz também. Antigamente, o grupo era formado por homens, mas hoje a maior parte da nossa turma é mulher. Ge, de 1,68m e 62 quilos, já correu três edições da Maratona de São Paulo e é elogiada pelas amigas de corrida por ser rápida. Confessa que, além de correr, gosta de brigar para ir ao pódio em sua categoria, dos 30 aos 35 anos. Tenho dois pódios da Corrida contra o Câncer de Mama, comenta.
Tanto Ge, quanto Ângela, observam, no entanto, que a corrida exige disciplina e cuidado contra as lesões. O exagero pode causar problemas para os tendões, os joelhos e isso é ruim.
Este texto foi escrito por: Helleni Felippe – Revista Super Ação