
Elisete com os troféus da prova argentina (foto: Arquivo pessoal)
A brasileira Elisete Pereira não tem medo quando o assunto é distância. Fã e corredora de ultramaratonas, ela e mais onze atletas foram as primeiras mulheres a participarem do Revezamento dos Andes. Hoje aos 44 anos, ela afirma que a vida começa aos 40 anos, idade que retornou para a corrida. Confira!
São Paulo – Elisete Pereira tem 44 anos e não se cansa de correr. Aliás, a corrida é algo que a brasileira pretende praticar até quando virar uma velhinha de bengala. Desejo muito normal para uma Elisete que entrou na história mundial das provas de longa distância. No início desse ano ela e mais onze mulheres participaram do Revezamento da Cordilheira dos Andes. Foi a primeira vez, que um grupo composto apenas por pessoas do sexo feminino, participou da prova.
A competição é uma corrida de revezamento que acontece há mais de 10 anos na Argentina. Os participantes criam grupos de 12 pessoas e cada integrante corre uma maratona. No final cada grupo percorre o total de 506,340km.
Além de ter sido o primeiro grupo de mulheres na competição, a equipe de Elisete, a Kurufmawida, conquistou o segundo lugar da prova. Participaram do time das superpoderosas nove argentinas, uma chilena, uma uruguaia e a brasileira. Suas companhieras eram: María de las Mercedes Acuña, Luz Celeiro, Stella del Papa, Silvia Díaz, Marina Echeverría, Vanesa Gonzalez, Sonia Huayquilaf, Patricia Jelenek, Margarita Monzón, Cecilia Morales e Marcela Pensa.
Decisão – A sua participação na corrida aconteceu quase que por acaso, ou melhor, aconteceu por causa da internet. No ano passado eu corri os 100km da Argentina e fiz algumas amizades. Comecei a participar de um fórum de corrida das pessoas de lá e vi que o pessoal estava se agitando para fazer essa prova dos Andes. Então eu sugeri que se criasse um grupo só de mulheres. Parece que foi transmissão de pensamento, porque uma argentina já havia pensado nessa possibilidade, conta Elisete. Mostrei meu interesse em participar na prova no grupo delas. E deu certo. Elas mandaram um e-mail falando que eu seria bem recebida, acrescenta.
A largada da prova foi dada no dia dez de fevereiro na cidade de San Juan, na Argentina e a chegada foi realizada dois dias depois em La Serena, no Chile. Elisete foi a 11ª pessoa que correu na sua equipe.
Eu não corri na Cordilheira dos Andes. As participantes que estavam nas etapas intermediárias pegaram os trechos mais altos das provas. O ponto mais alto era 4.722m de altitude. Uma das integrantes teve que ir dez dias antes para se aclimatar. A minha etapa já era mais simples. As cidades eram mais agrícolas e já tinha uma certa civilização. Mas mesmo assim tive dificuldade. Eu corri o tempo todo com o vento contrário. Foi uma aventura total, revela.
Elisete completou a sua etapa em 4h48min e sua equipe, a Kurufmawida, levou dois dias e duas noites para finalizar o revezamento. Nunca pensei que fosse participar dessa competição, diz Elisete com gostinho de quero mais.
Agora a brasileira pretende participar de provas de 48 e 72 horas de corrida individual.
Ao analisar as aventuras de Elisete pelas Cordilheiras, muitos pensam que ela treina há muitos anos. Na verdade a ultramaratonista voltou aos treinos de corrida em 2003. Na década de 80 ela corria forte, mas abandonou tudo para constituir família e poder estudar. Hoje ela é funcionária pública, mora em Curitiba e suas filhas já estão grandes.
O curioso é que esse seu retorno ao esporte aconteceu diante de um provador de roupa. Um dia fui experimentar uma roupa. Era um vestido meio rodado e aquilo no espelho rodou. Eu olhei e disse: não isso não pode ficar assim. Resolvi então correr. Peguei um tênis e fui correr com meu marido. No começo eu corria de um poste até o outro e a minha língua saltava pela boca, conta.
Segundo a ultramaratonista, em quatro meses ela perdeu seis quilos e em oito meses de treino participou da Maratona de Florianópolis. De lá para cá Elisete não parou mais. Mesmo com um marido treinador, Antonio França, a atleta prefere treinar sozinha.
Eu não corro com ele. Ele faz no máximo 50km. Eu sou o contrário. Gosto de correr 50km para cima, um dia inteiro. Vou tentar até os 80 anos de idade correr 48 ou 72 horas, brinca.
Na primeira prova de ultra em que participou, Elisete ficou uma semana sem falar com o seu marido. Ele dizia que era uma loucura eu participar da prova. Eu chamei um táxi, levei um monte de tênis e fui para a prova com a minha filha de apoio. De tarde ele apareceu na prova sem graça e viu que eu estava firme. Depois foi de manhã cedinho e viu que eu continuava firme. De lá para cá ele não ligou mais, revela.
Elisete aconselha as mulheres praticarem atividade física o quanto antes. A primeira dica para isso é ter boa vontade. Você tem que se animar independente se estiver chuva, sol ou se estiver sozinha. Se pesar durante esse processo também é importante. Quando a gente vê que diminui o peso na balança a gente fica mais animada. Eu, por exemplo, usava roupas de uma senhora de 50 anos. Hoje eu divido a minha roupa com as minhas filhas, conta.
A vida realmente começa aos 40. Eu não tenho mais que correr para cuidar das minhas filhas entre outros. Posso simplesmente correr tranqüila, finaliza.
Este texto foi escrito por: Donata Lustosa