Treinadoras ganham respeito aliando competência e profissionalismo à sensibilidade feminina. Confira.
EXCLUSIVO, Os Jogos Olímpicos da era moderna existem desde 1896, mas as mulheres puderam participar somente a partir da segunda edição, em 1900. Desde então, a luta do sexo feminino para conquistar espaço no universo esportivo tem sido repleta de vitórias. As atletas, cada dia mais, têm o valor reconhecido e os méritos recompensados. No atletismo, ganham terreno. Não querem tomar o espaço dos homens, mas estar lado a lado, com deveres e direitos iguais. E não é só na linha de chegada ou no pódio que os triunfos das mulheres são registrados. Nos bastidores, as treinadoras mostram competência, dedicação, profissionalismo e resultados. O diferencial é o charme e a sensibilidade característicos do chamado sexo frágil.
A hegemonia no comando do atletismo ainda é masculina. Mas, aos poucos, as mulheres quebram barreiras. As técnicas garantem que não se trata de nenhuma Guerra dos Sexos. É uma conquista de espaço no mercado de trabalho, igual a que acontece em outros setores profissionais. No esporte em geral, as conquistas dentro daspistas, quadras e piscinas salta aos olhos e um termômetro é a presença nos Jogos Olímpicos. Elas representavam 1,4% dos atletas em Paris/1900. Em Atlanta/96 eram 35% do total, porcentagem que chegou a 37% em Sydney/2000.
A treinadora Camila Hirsch, do Grupo Esportivo Personal Life, que também corre maratonas, lembra como a presença feminina em competições ainda era uma surpresa, mesmo nos anos 90. Faz 10 anos desde que comecei a praticar corrida e triathlon. Nesta fase, lembro-me de que nas provas em que participava, principalmente corridas, não havia muitas mulheres. Inclusive, os homens, além de motivarem a gente durante as provas, ficavam, muitas vezes, surpresos com a nossa participação. O problema era quando nosso desempenho era melhor do que o deles. Alguns não se conformavam. As pessoas, de um modo em geral, sempre acharam que esporte era quase que exclusivamente masculino. Continua
Postura profissional. Não levar em conta a maior concorrência masculina. Estar sempre atualizada e bem preparada para a função. Estas são as dicas que guiam o trabalho das mais conceituadas técnicas de corrida do país. Elas já enfrentaram momentos difíceis e souberam driblar o preconceito com determinação. Provando, em cada treino e competição, que podem obter resultados. A técnica Silvana Cole, há 18 anos atuando no mercado, lembra que quebrar barreiras não é simples. O meio do atletismo era totalmente masculino, acho que sou uma das poucas mulheres que tiveram coragem de encarar o desafio nos anos 80. Lembro que uma vez que, no Campeonato Brasileiro, quase fui impedida de colocar uma atleta na competição. Eu estava começando como treinadora, estávamos em transição de clube e ninguém me conhecia. Mas a CBAt enviou um telex autorizando-a a participar pela Confederação e ficou tudo bem. Se eu fosse conhecida, esse tipo de coisa seria resolvida politicamente, lá mesmo, na competição.
Atualmente, a situação é mais amena. Mas ainda não se pode dizer que idéias pré-concebidas estejam extintas. Pelo olhar e pelas costas algumas vezes já aconteceu de eu sentir o preconceito, mas verbalmente, não. Isso pode ocorrer na primeira impressão, em um primeiro contato, logo após esse tipo de atitude é dissolvida, afirma a técnica Yara Coltro, que comanda a equipe Ironman e está envolvida com corrida há 22 anos.
A concorrência entre os profissionais na luta por fatias de mercado é acirrada, e não leva em conta o sexo, como conta Adriana Bentim de Argila, técnica da equipe VO2-Belgo. Como em todas as profissões a competição é grande, o preconceito existe mais com relação aos mais antigos, que não aceitam muito os mais novos, mas competência não tem sexo, ganhar espaço é difícil, mas é possível.
Muitas foram para os bastidores após encerrar a carreira de esportista, outras transformaram a paixão pela modalidade em profissão. Atualmente, elas ainda são minoria à frente de atletas. No entanto, a tendência ao longo dos anos é de que o número de homens e mulheres no esporte se equilibre. Segundo a Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC), das 60 equipes cadastradas, 11 são comandadas por mulheres e há pelo menos mais duas com profissionais atuando nestes grupos. A hegemonia masculina pode até existir, mas não estamos preocupadas com isso. O número de profissionais é maior, mas o contingente de corredores masculinos também. Portanto, gradativamente os espaços vão se ampliando. A minha perspectiva é de que as treinadoras consigam se colocar com trabalho diferenciado, demostrando seriedade profissional, comenta a treinadora Eliana Reinert, com 25 anos de experiência no atletismo.
A coordenadora técnica do Pão de Açúcar Club, Mônica Peralta, completa que a atuação dos dois sexos é o ideal para o sucesso da modalidade. Em todo trabalho a ser desenvolvido com crescimento, evolução e equilíbrio se faz importante a presença e participação da energia de ambas as partes. Para o consultor comercial Rodrigo Santa Rosa, que treina com a técnica Ana Paula Dutra, da Ação Total, a invasão das mulheres no treinamento de corrida só traz benefícios para os alunos.
Acredito exista espaço para todos, com certeza já existe um aumento de mulheres nessa modalidade e acaba sendo bom para os alunos, que terão mais opções para escolher. Continua
Entre as diferenças de treinadores para treinadoras, elas se definem como mais compreensivas e intuitivas, tendo capacidade de encarar as solicitações do aluno com mais naturalidade e paciência para situações que envolvem dores, frustração, adaptação e ansiedade. Tudo isso, além de serem mais sensíveis, o que a favorece na captação das sensações do atleta. As mulheres têm mais sensibilidade que os homens, por isso, geralmente captam os pequenos detalhes que fazem a grande diferença, explica Miriam Caldasso, atleta de corridas de fundo, meio fundo e cross country há 15 anos e que atua como técnica desde 2000.
O corredor Rodrigo comenta que encontrou no comando feminino a atenção que necessitava. No meu caso, devido ao excesso de peso, precisava de um acompanhamento constante e muita atenção. A Ana soube fazer isso com muita dedicação. Isso eu não tinha com o professor antigo. A mulher ouve mais do que o homem e consegue te passar confiança.
Qualidade para alguns. Defeito para outros. Se ajuda na relação treinadora-aluno, a sensibilidade pode transmitir uma imagem de fragilidade. Analisada por este ângulo, pode-se alegar que a mulher não é capaz de impor critérios ou exigir o cumprimento do treino. As treinadoras respondem a esse tipo de argumentação garantindo que podem ser uma mãe nos momentos difíceis, mas assumem o papel de general para cobrar disciplina e empenho, se necessário. Acho que uma das vantagens é que a mulher é mais delicada, sempre consegue dar um jeitinho nas coisas. A desvantagem, talvez, seja o fato de sermos vistas como seres mais frágeis. Mas nada que, com o tempo e muito profissionalismo, não se supere, confirma a técnica Ana Paula Dutra, da Ação Total Assessoria Esportiva.
Como minoria, as treinadores sentem a cobrança constante para mostrar a qualidade do trabalho. Somos muito mais sensíveis para perceber como e quando podemos tirar de nosso atleta aquele algo mais. Somos mais observadoras e pacientes. A desvantagem é que temos de estar provando constantemente que somos tão capazes quanto os homens. Não é o fato de não ter tamanho, músculos e falar mais fino que vai interferir em nossa capacidade, alfineta Silvana Cole. A técnica da equipe Básica Treinamento e Saúde complementa com um conselho às mulheres que querem abraçar a profissão. Só uma palavra tem a força para conquistar um lugar neste universo, ainda masculino, sem contestação: resultados.
Para o corredor Victor Domite Nicolau, aluno da técnica Camila Hirsch, as mulheres precisam ser mais ousadas para combater o preconceito. Falta atitude das mulheres como treinadoras. Existe preconceito porque poucas são ousadas e se colocam como treinadoras. A grande maioria das assessorias esportivas é comandada por homens, assim, como se ouve muito mais nomes de treinadores acredita-se naturalmente que os homens são mais competentes. No entanto já treinei com ambos os sexos e não há diferença quanto a qualidade profissional, o que há são tratamentos diferenciados. A mulher deixa a relação mais próxima, de amiga, o homem já é mais distante.
A maioria das treinadoras comanda mais homens que mulheres. Eles também são maioria enquanto corredores, apesar do aumento da participação feminina. De acordo com registro da Corredores Paulista Reunidos (Corpore), que conta com 5 mil associados, 23% são mulheres. Como as técnicas encaram a diferença entre os sexos na hora do trabalho? Mônica Peralta dá a receita: As mulheres são mais calmas. Boa parte delas não deixa transparecer a vontade de evoluir tecnicamente. Porém, são as que mais se preocupam com a perda de algum dia de treino. São mais preocupadas com a estética e também mais organizadas. No entanto, falam muito e o tempo todo. mas não deixam de ser competitivas nas provas. Já os homens se cobram mais quanto a resultados e melhoras técnicas e são mais sérios no desenvolvimento dos treinos específicos. Eles ou elas. No comando ou comandados. Consenso entre homens e mulheres é que fundamental é o comprometimento com o trabalho e a competência profissional.
Este texto foi escrito por: Renata Rondine – Revista Super Ação