Você se lembra de quando começou a correr? Pode ter sido levado a escolher a corrida buscando aliviar o seu estresse, perder peso fazer novos amigos ou até por outras questões pessoais.
No começo era você, um tênis, uma roupa confortável e a rua que você buscava para treinar. Por certo havia uma sensação de Liberdade, de pertencimento e até uma sensação de poder. O desafio era diário. Em algum momento o relógio chegou e passou a fazer parte diariamente dos seus treinos, se juntando as roupas e ao tênis. Mas junto com ele, os números começaram a mandar. Ritmo, pace, tempo por Km, frequência cardíaca, segmentos do Strava, comparações, resultados em números. Aparentemente era ter um controle maior na sua corrida.
O relógio trouxe uma evolução na sua corrida, porém pode ter trazido uma prisão junto.
É indiscutível o grande auxílio do relógio, já que ele traz informações importantes para o desenvolvimento do atleta.

Nos meus atendimentos como psicóloga do esporte, vejo cada vez mais atletas amadores desconectados do seu próprio corpo e do prazer da corrida. Presos há cobranças do relógio. Sentem-se mal mesmo quando eles correm bem. Cruzam a linha de chegada, mas muitas vezes sentem-se frustrados. E não conseguem viver o “aqui e agora” da sua conquista. Cada linha de chegada é sem dúvida uma nova conquista.
Mas por quê? Sem perceber são levados por ondas de autocobrança. Como se o relógio fosse seu juiz. A corrida deixou de ser movimento e virou cobrança. O corpo corre e a mente sofre. Aquele prazer da mente que antes era buscado e esperado não está mais presente.
Buscar melhorar a sua performance não é um problema. Ela cria um movimento do buscar, nos desafia e nos faz crescer.
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Mas quando a mente do atleta só foca na performance, o risco é grande: o atleta começa a ignorar sinais do corpo e da sua mente. E seu treino é um eterno teste de validação.
A corrida que antes era um espaço de saúde mental, vira mais uma fonte de estresse. A lembrança dos motivos que o levaram a correr não aparece. E a cobrança é tão forte quanto de um atleta profissional mesmo convivendo diariamente com as demandas fora do esporte.
O relógio pode ajudar, mas não mandar. Se você se identificou com isso tente se reconectar.
Corra com seu corpo e não contra ele. Volte a escutar a sua respiração, perceber as suas emoções, ajustar a sua passada e até respeitar o dia em que está mais cansado, sem culpas.
Isso é correr com inteligência emocional e não correr “fraco”.
Se quiser viver uma experiência interessante deixe o relógio em casa de vez em quando. Corra um dia sem pace, sem meta. Apenas corra. Sinto o corpo, suas passadas no chão, o vento no seu rosto. Reencontre o prazer da corrida por ela mesmo. Isso também é treino, treino de presença, de escuta, de amor pela sua trajetória na corrida.
O tempo é só a medida, não é o seu valor e muito menos a sua motivação.
Volte a ser feliz nas suas corridas.