A corrida na era das redes sociais: Quando os treinos e competições viram comparações 

Wania Rennó | Corrida · 24 mar, 2026

Hoje em dia é muito comum a troca que os corredores fazem do valor da corrida, dos quilômetros percorridos, pelas reações que ela gera nas pessoas que os acompanham. 

Se olharmos para trás, correr era um gesto quase íntimo. O corredor saía de casa, percorria alguns quilômetros e voltava apenas com a própria experiência, o cansaço, a respiração alterada e a sensação silenciosa de superação. 

Foto: Adobe Stock

Mas, a corrida mudou. Além de acontecer nas ruas, nos parques ou nas trilhas, ela também acontece nas redes sociais. 

Atualmente, temos aplicativos que registram o percurso, o ritmo e a frequência  cardíaca. Além disso, o treino pode ser compartilhado em poucos segundos com centenas de pessoas. Então chegam comentários, curtidas e comparações. Sem perceber, alguns corredores passaram a correr não apenas para si mesmos,  mas para a audiência das redes sociais. 

Claro que as redes sociais também trouxeram coisas positivas: comunidades foram criadas, atletas se aproximaram, mais pessoas tiveram acesso ao esporte e  foram inspiradas por outros corredores. 

Mas a comparação é o efeito psicológico que merece mais atenção. Para a psicologia, o fenômeno da comparação social ocorre quando alguém posta um treino com ritmo mais rápido, uma distância maior ou uma conquista impressionante. 

O nosso cérebro tende a fazer uma avaliação automática: será que estou treinando o suficiente? O que é natural do ser humano. Porém, quando ocorre constantemente, pode transformar algo que antes era prazeroso em uma fonte de pressão. 

Alguns corredores se sentem frustrados mesmo após um bom treino. Outros começam a ter baixa autoestima, achando que estão sempre aquém dos demais atletas. 

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Isso pode fazer da corrida, não mais um lugar de liberdade, mas sim um lugar de cobrança. 

Talvez o maior desafio do corredor hoje não esteja nas pernas, nem no fôlego, nem no pace. Está na sua capacidade de continuar correndo com prazer em um mundo que insiste em comparar tudo. 

No fim, a corrida mais importante não é aquela que os outros veem. É aquela que o atleta vivencia dentro de si, carregada com suas emoções. 

“Correr bem começa quando você deixa de olhar para fora e volta a escutar a si mesmo.” redes 

Wania Rennó

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Wania Rennó é psicóloga clínica do esporte, atuando como diretora Núcleo de Integralização Humana (Nihumana) e mais de 35 anos atendendo praticantes de diferentes modalidades desportivas.