Corpo cansado, mente esgotada: O risco invisível do overtraining 

Wania Rennó | Corrida · 13 nov, 2025

Para um corredor, treinar é parte do seu dia a dia, seguir planilhas, cuidar do seu pace. Mas o excesso de treino pode ir além do físico levando ao esgotamento mental. O  que afeta a motivação e o prazer de correr. 

Mas por que isso acontece? Vivemos hoje numa cultura onde a superação precisa  ser constante, e descansar parece fraqueza, e o silêncio parece perda de tempo.  Mas o corredor deve ter em mente que descanso é parte da performance. Para  consolidar o aprendizado, processar emoções e restaurar energia, a mente precisa de pausas. Sem isso a fadiga emocional surge e consequentemente o prazer de correr  enfraquece. 

Foto: Adobe Stock

A origem da fadiga emocional começa na exigência excessiva e busca da  perfeição. Quando o comprometimento se torna autocobrança. A mente erroneamente  passa a acreditar que descansar é regredir. A exigência constante ativa o sistema do  estresse o que eleva os níveis do cortisol e reduz a capacidade de recuperação emocional.  E o treino passa a ser uma obrigação. 

Depois temos a falta de pausas mentais. Mesmo quando o corpo descansa, a mente  do atleta pode não desligar. Pois seus pensamentos estão constantemente ligados aos  fatores dos treinos, seus resultados. Como se a mente continuasse no modo desempenho  sempre. A ausência de descanso impede a reposição dos neurotransmissores ligados ao  bem-estar, serotonina e dopamina, o que leva ao cansaço mental e a desmotivação. 

A comparação e validação externa também é um outro fator da fadiga emocional.  As redes sociais e os apps de corrida cercam o atleta de estímulos comparativos o tempo  todo. A dopamina se torna dependente de curtidas e comentários. E aos poucos o prazer  intrínseco, a corrida por si, dá lugar ao prazer extrínseco, correr para mostrar. Essa  dependência afasta a motivação aumentando o risco de frustração. 

 Podemos perceber também a fadiga emocional acumulada, que diz respeito a todo  o estresse que temos no nosso dia a dia, nosso trabalho,  relacionamentos, sono, preocupações, ações que já consomem parte da nossa energia  emocional, e aí falta energia para o sistema nervoso lidar também com o estresse do  treino e das competições. E o resultado é a fadiga sistêmica, física, emocional e mental. 

 A desconexão com o propósito acontece quando o foco sai do prazer para o  desempenho, o sentido inicial se perde. A desconexão entre o que faz e por que faz é um  dos gatilhos mais silenciosos do esgotamento mental. 

 Preste atenção aos sinais que antecedem a fadiga emocional: 

1. falta de entusiasmo 
2. irritabilidade 
3. impaciência 
4. sensação de vazio 
5. dificuldade de concentração 
6. alterações do sono 
7. vontade de desistir mesmo amando a corrida 

Quando o atleta perde o equilíbrio entre esforço e pausa, exigência e prazer, foco e  presença, o overtraining aparece. 

O problema não é treinar demais, é recuperar menos, físico e  emocionalmente. Lembre-se a mente exausta rouba do corpo a energia necessária para a  corrida.

Wania Rennó

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Wania Rennó é psicóloga clínica do esporte, atuando como diretora Núcleo de Integralização Humana (Nihumana) e mais de 35 anos atendendo praticantes de diferentes modalidades desportivas.