Os últimos serão os primeiros

Redação Webrun | Corridas de Rua · 08 out, 2007

A pior corrida que participei em minha vida foi a Meia Maratona de Ribeirão Pires, que aconteceu no ano de 1997. A simples menção da palavra Ribeirão Pires já me assustava, pois foi lá que completei a minha segunda e mais difícil maratona (42,195 metros) no ano anterior.

Essa prova era uma das mais tradicionais do calendário brasileiro e seu bom abastecimento não compensava o péssimo controle de trânsito do seletivo percurso, marcado por inúmeros aclives e declives.

No entanto, a meia maratona não tinha nenhum vínculo com a maratona, exceto serem disputadas na mesma cidade. Localizada na Grande São Paulo e próxima a Serra do Mar, a prova ganhava algumas características peculiares como terreno acidentado, tempo sempre sob névoa e um forte sol quando ele resolve aparecer.

Minha epopéia na Meia Maratona começou quando chegamos para receber o kit de corredor. Para nossa surpresa e espanto, os kits não estavam prontos e organizador pediu uma “ajuda” para os atletas separar os números de peitos, senhas sim senhas não existia chips no Brasil na época – e distribuí-los.

Por esse fato a largada marcada para acontecer às oito horas, atrasou no mínimo uma hora, além disso, o calendário daquela já distante época não era marcado pela enorme profusão de provas como acontece atualmente, era muito mais enxuto com menos opções o que fez com que a Meia de Ribeirão Pires tivesse um número expressivo de atletas de outras cidades.

Lembro-me que somente a delegação do Pão de Açúcar Club tinha dezenas de integrantes inscritos na “competição” que seria a último teste de treinamento, já que no domingo seguinte formariam uma das maiores equipes brasileiras que já disputou a charmosa Maratona de Paris, na França. No meu caso em particular vinha treinando com afinco para correr pela primeira vez uma maratona sub três horas e lembro da recomendação do meu técnico Vanderlei “Branca” Severiano, para “dar o máximo” e assim poder testar minha capacidade atlética, que vinha buscando em vários treinos de 30 quilômetros realizados na USP e com três subidas da temida Biologia.

Distribuídos os kits nos dirigimos para uma praça que tinha um minguado pórtico e por onde largamos para os 21,097 metros. Eu corria em um ritmo forte de acordo com a determinação de meu técnico. Lembro-me que no início da corrida eu desci uma ladeira, atravessei a linha de trem e entramos em uma pista de terra batida. Até esse momento eu já havia corrido uns dois quilômetros e seguia normalmente até que escutei: “volta, volta, volta!”. O fato que se desdobrava era surreal. O batedor havia errado o caminho e fez com que literalmente os últimos fossem os primeiros!

Pensei em parar, mas continuei, até o momento em que entramos em uma estrada e foi quando me toquei: se neste curto espaço de tempo houve tantos erros graves, quem me garante que vai haver água, condição indispensável em uma corrida. Pensei mais e olhei a estrada que se desdobrava na minha frente. A decisão no quarto quilômetro foi rápida. Abandonar a prova.

Muitos continuaram, outros retornaram ao local da largada (que era o mesmo da chegada). Alguns atletas indignados com o organizador iniciaram um protesto assim que a prova terminou aos brados. “Queremos nosso dinheiro de volta!”, alguns mais exaltados quase foram às vias de fato com o tal “organizador” e conseguiram ter o valor da inscrição reembolsado, mas, a maioria ficou no prejuízo.

Hilário foi o organizador tentando explicar o inexplicável. “Gente desculpe, foi o primeiro evento que eu organizei”. “Falhas acontecem blá, blá…blá.”

Por isso caro corredor, fique atento aos organizadores caça níqueis e siga sempre seu “feeling” e bom-senso na hora de falar:

– Desisto!

Este texto foi escrito por: Harry Thomas Jr.

Redação Webrun

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