Celso Ficagna: superando obstáculos

Especialista nos 3.000 com obstáculos, Celso Ficagna planeja mudar de prova depois dos Jogos Olímpicos

Das vigas e ferragens da construção civil, para as ruas e pistas do Brasil e do mundo. Os ‘tijolos’ que construíram a carreira de Celso Ficagna, da infância até os dias de hoje, são resultado de uma incrível obra do acaso. Tudo começou a mudar na vida do paranaense quando tinha 17 anos de idade. Resolveu participar de uma prova de rua na cidade de Concórdia, em Santa Catarina, para ver no que daria. Não treinava, não conhecia direito à modalidade e muito menos se recorda de algum motivo que o tenha feito participar. Sequer possuía ligação direta com algum esporte na infância, a não ser nas peladas com os amigos aos finais de semana. “Nem sei porque eu fui. Deu a louca”, lembra. Para sua surpresa, ao final dos 5 quilômetros da prova, foi abordado por um professor de Educação Física que o convidou para integrar a equipe de atletismo do Clube Concórdia. Em poucos minutos, começava a mudar seu futuro.

Com muitas dificuldades financeiras, teve que se sacrificar para conseguir praticar o atletismo. De família pobre, começou a trabalhar na construção civil quando ainda tinha 12 anos, mesmo período que deixou a cidade natal, São Jorge D'Oeste, no Paraná, para viver em Santa Catarina. Como precisava do dinheiro, não poderia largar o emprego para se dedicar aos treinamentos. Nessa época, era treino de manhã, trabalho à tarde e estudos à noite. “Nos primeiros dois meses, achei que não iria aguentar”, recorda Ficagna. Como os resultados logo começaram a aparecer, a motivação superou todos os problemas.

Suas primeiras provas foram de 1.500 e 5.000 metros, mas logo mudou para os 3.000 metros com obstáculos. Foi nessa distância que teve o primeiro desafio na carreira: conseguir o índice para os Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata, na Argentina (1995). Mas não foi feliz na seletiva, em 1994. Ao invés de marcar os 9min05 necessários para garantir a vaga no Pan, correu em 9min11. O desempenho abaixo do esperado foi fruto de ter ficado três meses sem treinar em função de estar n o exército.

A prova de que tinha condições de alcançar o índice veio logo depois, quando conseguiu marcar 8min56, no final de 94. A decepção por não garantir a vaga no Pan-Americano foi enorme. Pouco tempo depois parou de correr as provas de obstáculos. Até o ano de 1999, competiu nos 800 e 1.500 metros.O desempenho nas distâncias valeu convite para integrar a equipe do Vasco da Gama. No mesmo ano deixava Santa Catarina para morar no Rio de Janeiro. Mais uma vez, o acaso tratou de interferir em sua vida. Durante os treinos, resolveu simular uma prova de obstáculos e agradou os treinadores. Resultado: acabou retomando o trabalho nessa distância. Meses depois conquistava um título de campeão brasileiro pela primeira vez, justamente nos 3.000 metros com obstáculos.

Hoje, aos 28 anos, Celso Ficagna é tricampeão brasileiro e campeão sul-americano da modalidade e se prepara para superar o maior obstáculo da carreira: fazer o índice para os Jogos Olímpicos de Atenas. A competição na Grécia, no próximo ano, pode marcar a despedida de Celso das provas dessa distância. Uma decisão previamente tomada juntamente com o técnico Ricardo D’Angelo. “Há um ano conversei com o Ricardo para fazermos um trabalho até 2004. A partir do ano que vem em diante, devo competir provas mais longas.”

O motivo da mudança é puramente estratégico. Apesar de ter conquistado as maiores glórias nos 3.000 com obstáculos, entende que é hora de buscar provas mais compatíveis com a idade.
Celso sabe que a partir dos 30 o rendimento começa a cair e logo não deverá ter o mesmo desempenho que possui hoje, em seu melhor momento. Competir em provas de 10 quilômetros até meia maratona parece o próximo passo do atleta, que já iniciou um progressivo processo de adaptação às novas distância para partir em busca de resultados.

Rumo à Olimpíada - Sem competições importantes no calendário, Celso Ficagna tem treinado forte para provas de rua. Com isso, a carga de quilometragem tem aumentado bastante durante seus treinos. São até 150 quilômetros semanais, que permitem que o atleta corra provas de 10 quilômetros sem dificuldades. Alguns frutos começam a ser colhidos agora, como a vitória na 8º Corrida do Centro Histórico de São Paulo.

Toda essa preparação serve também de base para que o atleta chegue bem na busca do índice para a Olimpíada de Atenas, no ano que vem. São sete dias por semana, sendo que entre segunda, terça, quinta e sexta-feira, faz os treinos em dois períodos. Exigente com seu desempenho, sempre está querendo fazer o melhor. “Não sou um fenômeno da natureza, mais me dedico bastante no que faço.”

Como se não bastasse os compromisso com os treinos, à noite ele vai à faculdade, onde está cursando Educação Física na PUC Campinas. Consciente do futuro, sabe que não é possível sobreviver do atletismo para sempre. Com formação universitária, poderá continuar trabalhando no atletismo, aliando a experiência pessoal aos fundamentos acadêmicos.

Celso Ficagna:

Natural de São Jorge D'Oeste - Paraná
Idade: 28 anos
Altura:1,73m
Peso: 63 kg
Equipe: Pão de Açúcar BM&F

Principais conquistas:
Tricampeão brasileiro dos 3.000m com obstáculos (1999, 2001 e 2002)
Bicampeão paulista dos 3.000m com obstáculos (2001 e 2002)
Campeão paulista dos 1.500m
3º lugar no Campeonato Sul-americano de Milha de Rua, em Belém, PA
4º lugar na Volta Pedestre Cidade de Itú
8º lugar nos 1.500 m do Grand Prix de Belém, PA
3º colocado nos 5.000 m no Campeonato Paulista
Campeão Sul-Americano dos 3.000m com obstáculos (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Milha de Rua,·
Campeão da Corrida de Natal Corpore/Pão de Açúcar (2001)
3º colocado no Sul-Americano de Cross Country, 4km (2000)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua (2000 e 2001)
Integrante da Seleção Brasileira no Mundial de Cross Country, Vilamoura, Portugal (2000)
Integrante da Seleção Brasileira no Ekiden Internacional de Chiba, Japão (1999)
3º colocado no Sul-americano de Milha de Rua, 2000 e 2001
Integrante da Seleção Brasileira medalha de bronze no Revezamento Ekiden Internacional de Chiba, no Japão, 2001


Corridas de Rua · 31 jan, 2004


Treinamento integral para o atleta de Fundo e Maratona

O treinamento desportivo vem se desenvolvendo paulatinamente ao longo das décadas e somente depois do aparecimento do computador, as informações passaram a ser difundidas com rapidez.

Antigamente as chamadas escolas de treinamento, só trocavam informações durante as competições quando os treinadores tinham a oportunidade de se encontrarem. Hoje em dia não ha mais treinador ou treinamento escondido, já que todos têm acesso a tudo que se esta fazendo no mundo com uma rapidez fenomenal. A internet colocou a informação dentro da nossa casa e temos que nos adaptar a isto.

O treinamento de fundo e maratona, evoluíram de uma forma impressionante e considero que a corrida do atleta Ronaldo da Costa em Berlim em 98 contribuiu para esta modificação de comportamento.

Ate então recorde era 2h06.50 batido em Rotterdam. ( dez anos antes), Ronaldo pela primeira vez realizou a segunda meia maratona mais rápida do que a primeira, mostrando com um resultado excepcional 2h06.05 que era possível correr a maratona desta forma, sendo o primeiro atleta a percorrer a maratona abaixo de 3 minutos por quilômetro durante todo o percurso.

Até então se pensava que a melhor forma seria corre-la de forma continua e constante, onde a diferença entre de ritmo no inicio e no final da prova quase não se modificava para não termos um desgaste físico desnecessário ate alcançarmos a barreira dos 32km. Hoje sabemos que a maratona se inicia aos 32km, e que além do trabalho cardio-pulmonar (aeróbico) devemos levar em consideração também o trabalho muscular (anaeróbico).

O resultado somente é alcançado quando conseguimos a medida exata na mescla destes dois tipos de trabalho distintos. Na época desenvolvi um programa de treinamento onde aproveitei o que estudei nos livros sobre resistência e o que conhecia na pratica como treinador de velocidade.

Procurei trazer para o trabalho do fundista alguns conceitos de fisiologia muscular, bioquímica e biomecânica que utilizava na velocidade e considero que os objetivos foram alcançados.

Este programa o chamei de treinamento integral onde utilizamos todas as qualidades (valências) físicas dentro de uma única sessão de treinamento. As qualidades físicas são as seguintes:

Coordenação + Técnica / Velocidade / Força e Resistência:.

.Cada uma delas se subdivide e sao utilizadas no dia a dia de acordo com o planejamento e a periodização do treinamento do atleta.
.Devemos utiliza-la na sequencia como coloquei acima pois ela deve seguir uma coerencia fisiológica. Exemplo: Podemos utilizar a combinação de Forca e Resistencia nesta ordem entretanto não devemos fazer Resistência e Coordenação + Técnica nesta ordem, e assim por diante.

Hoje no treinamento moderno procuramos nao perder tempo, pois sabemos que todos os atletas treinam de uma forma muito parecida, o que vai importar e fazer a diferença será que forma este atleta vai se adaptar a carga e de que forma ele vai se recuperar a esta carga o mais rápido possível.

Porisso o atleta que realizar o trabalho de volume e intensidade no treinamento com uma recuperação mais rápida estará sempre em vantagem em relação aos outros.

Resistência Geral / Resistência Especial / Resistência de Velocidade / Resistência de Força:

Iniciaremos este mês falando sobre a resistência geral:

Resistência Geral:

Capacidade do atleta executar por um longo período de tempo qualquer trabalho físico contraindo numerosos grupos musculares e influindo favoravelmente para a sua especialização esportiva. >

- adaptação do sistema respiratório entre 10 a 20 minutos
- longo tempo de duração
- adequada e de baixa a média intensidade
- continuidade de trabalho
- participação ativa de numerosos grupos musculares
- grande exigência para as funções do sistema cardiovascular e respiratório
-troca de ritmo (adaptação de 1 a 3 segundos)100m –100% intensidade – 60”0 / 300m – 80% intensidade – 3’00
- adaptação do sistema pulmonar 30”0 a 60”0 de prova
- adaptação ao sistema lático (nível lático)

Obs: o trabalho aeróbico é efetuado em condições onde a necessidade de oxigênio (O2) não supera a capacidade máxima de consumo.

O vigor orgânico é a qualidade que permite o homem resistir o mais possível as condições aeróbicas.

Contínuo – capacidade individual de realizar durante num período a repetição de um determinado movimento num mesmo ritmo e com a mesma freqüência.

Utilizado principalmente no periodo de preparacao de base onde utilizamos o teste de Cooper, o teste de Conconi, o teste de Leger Boucher ou outra forma qualquer para avaliacao da capacidade do atleta:

a) de baixa intensidade <140 batimentos < 2 milimoles de lactato
b) de media intensidade >140 <160 batimentos > 2 < 4 milimoles de lactato
c) de alta intensidade > 160 batimentos > 4 milimoles de lactato
Ex: 10 -12km ( ritmo medio ) > 140<160 batimentos

Fracionado e/ ou intervalado:

a) corrida de duração
- curta duração – 45”0 a 2’00 de duração / >160 batimentos FC
- média duração – 2’00 a 8’00 de duração / > 140 < 160 batimentos FC
- longa duração - > 8’00 de duração / < 140 batimentos FC

b) corrida de tempo / estabelecido em teste inicial

c) corrida de tempo por quilometro

d) corrida de variação de ritmo e percurso
- fartlek (jogos de velocidade) Pode ser por tempo e por distância preferencialmente com variação no terreno do percurso
Ex: Tempo – 10 x 2 minutos de corrida com 30 segundos de trote

Distancia – 10 x 600 metros de corrida com 30 segundos de trote
- cross country
- cross com obstáculo

e)intervalado extensivo com repetições de distâncias maiores de 1000 metros e menores de 6000 metros com intensidade progressiva de acordo com o periodo de preparacao do atleta e recuperacao com batimentos abaixo de 140 por minuto
Ex: 12 x 1000 para 85% de intensidade com 1’00 de recuperacao ativa ou batimento de 140 por minuto
f)intervalado intensivo com repetições de distâncias maiores de 400 metros e menores de 1000 metros. Intensidade de esforço entre 80% a 110% e recuperacao < 140 batimentos por minuto

- curta duração - Periodo competitivo Ex: 10 x 400m p/ 110% com 60”0 a 90”0 de recuperação
- média duração / PPE Ex: 10 x 800m p/ 90% com 45”0 a 60”0 de recuperação
- longa duração / PPB Ex: 10 x 1000m p/ 80% com 30”0 a 45”0 de recuperação

Piscina utilizando o colete , podemos realizar todo o trabalho de corrida dentro da piscina sem estresse muscular isto e sem impacto. Podemos realizar este trabalho para desenvolvimento, manutencao ou recuperacao do atleta em todo o seu planejamento.

Rampa curta (50 metros )e longa ( ate 1000 metros) com inclinacao variavel entre 2% a no maximo 7% , intensidade de esforco de medio a alto e FC <140 por minuto de recuperacao
Ex: 10 x 200 metros / intensidade > 75% / recuperacao 1’30 ou FC < 140bat

No próximo mês seguiremos com outra forma de resisteêcia utilizado para o desenvolvimento do treinamento integral de um atleta de fundo e maratona.

Atletismo · 30 jan, 2004