
Iazaldir do Rio de Janeiro adotou estratégia conservadora e chegou em quinto (foto: Arquivo Pessoal)
O ultramaratonista Iazaldir Feitoza foi o melhor colocado do Brasil entre os homens na maratona de montanha K42, disputada em Villa La Angostura, na Patagônia argentina, em 12 de novembro. O desempenho surpreendeu todos os que acompanhavam o circuito K42 e até o próprio Iazaldir.
Queria chegar entre os top ten, mas não esperava que pudesse ganhar do Giliard [Pinheiro, catarinense vencedor do K42 de Bombinhas e um dos favoritos], afirma o atleta do Rio de Janeiro. Iazaldir conta que apesar da surpresa está acostumado a correr provas com essas características.
Vim de cinco provas com distâncias de mais de 50 quilômetros, diz o ultramaratonista. O atleta foi o vencedor dos 50 quilômetros do XTerra de Ilhabela (SP) em setembro e do North Face Endurance Challenge em Salta, em maio, na Argentina.
Expectativa sobre as cinzas do vulcão – O corredor relata que chegou à Villa La Angostura na terça-feira, 08 de novembro, depois de 15 horas de viagem. A cidade ainda sofre com as cinzas expelidas pelo vulcão Puyehue desde a erupção no início de junho.
Fomos dar uma volta na quarta-feira de manhã e vimos as montanhas de cinzas nos canteiros. Não acreditávamos que tudo aquilo eram cinzas. Iazaldir acrescenta que a movimentação de caminhões recolhendo os resíduos vulcânicos era grande.
O clima, segundo o corredor acreditava, era nublado. Mas descobri que as nuvens na verdade eram as cinzas. Com isso, os atletas ficaram inseguros e na expectativa de correr sob tais condições.
Nunca corremos com cinzas, não sabíamos o quanto poderia ser prejudicial, afirma.
A população local, abalada pelos dejetos do Puyehue, via no K42 a oportunidade de reaver o potencial turístico da cidade. O público estava muito receptivo, para eles era o evento do ano porque não tiveram a [tradicional] temporada de inverno, explica o ultramaratonista.
Na véspera da prova, o tempo pareceu melhorar. Na sexta-feira o dia amanheceu lindo, relembra. O vento estava jogando as cinzas para o outro lado, o sol estava maravilhoso, ilustra o atleta, que estava esperançoso de um clima bom no dia da maratona.
Mas a esperança durou pouco. À tarde o vento mudou. A tarde virou noite e no sábado estava a mesma coisa. Iazaldir teve então que enfrentar as cinzas no ar argentino. É como se você estivesse comendo areia. Dá uma secura na boca, o pó arranha a garganta, explica.
Estratégia na prova – O ultramaratonista estava receoso não apenas com os efeitos das cinzas vulcânicas em seu desempenho, mas também sobre o percurso da corrida. É o terceiro ano que muda o percurso e desta vez tinha uma montanha a mais, então adotei uma estratégia mais conservadora, comenta.
A tática de Iazaldir consistiu em não forçar o ritmo no início para mensurar como se sentiria frente às tantas dificuldades impostas pelo percurso. Não sabia como ia me sentir. Só fui me sentir bem lá para o quilômetro 15, quando entramos em um bosque. As árvores, conta o corredor, bloqueavam a entrada das cinzas e permitiam um ar puro.
A partir de então, Iazaldir acelerou e puxou o ritmo do segundo pelotão, seguido pelo argentino Israel Escudero e o português Antônio Custódio. Nesse momento o Cláudio [Schilindwein, outro brasileiro na prova] não conseguiu mais nos acompanhar, relata o atleta.
A entrada no bosque foi o ponto chave da maratona para Iazaldir, que se sentiu bem e fez uma prova crescente, como ele mesmo classifica, até o topo do monte Cerro Bayo, a 1.500 metros de altitude. Passei o campeão francês [Yanick Gourdon] na subida, foi o meu melhor momento.
Depois disso, os quilômetros finais da maratona eram em descida. Foi uma descida muito técnica, eu e o Custódio viemos num ritmo muito forte. No final, ultrapassado pelo português, Iazaldir duelou com Israel Escudero e triunfou.
Vitória pessoal – O atleta celebrou a experiência de chegar em quinto na final do circuito mundial do K42. A prova teve um nível muito forte por contar com os campeões de cada etapa, falaram que foi o K42 de maior nível técnico e o mais duro por conta do percurso, conta.
Ao comentar sobre o ritmo forte que os favoritos imprimiram no começo da prova muitos deles ultrapassados por Iazaldir depois, como Giliard Pinheiro e Yanick Gourdon o ultramaratonista foi direto. Não basta só correr. Tem que ter estratégia e preparo psicológico para uma prova desta, conclui.
Este texto foi escrito por: Paulo Gomes