
Carlão em treino nos Estados Unidos (foto: Arquivo pessoal)
A mais antiga maratona do mundo, Boston, completou sua 110ª edição na última semana. A prova, que reuniu atletas de diversas nacionalidades, tem algumas peculiaridades. O maratonista brasileiro, Carlos Oliveira, participou da prova em 2003. Ele representou o país na categoria cadeirantes. Sim. Carlão, como é conhecido, correu os 42,195km de prova numa cadeira de rodas.
Para relembrar esse momento, que ficou na memória do atleta e também na história, já que ele foi o primeiro cadeirante brasileiro de Boston, Carlão conta como foi essa experiência única. No local destinado à preparação dos cadeirantes estavam mitos. Só feras. É bom estar no meio da elite”. Confira a experiência de Carlão em Boston.
Porto Alegre – No último dia 17 de abril foi realizada nos Estados Unidos a Maratona de Boston 2006, prova fantástica com a maior premiação em dinheiro para corredores cadeirantes. Eu tive a oportunidade de participar dessa prova em 2003 como o primeiro atleta brasileiro em cadeira de rodas. Fiz a projeção de finalizar entre os 20 primeiros colocados e consegui. Terminei a prova na 19ª colocação. Foi também naquele ano que a barreira de 1h20min da modalidade cadeirante caiu. O sul-africano Ernst Van Dyk fechou a prova em 01h19min.
O dia da prova amanheceu com presságio de sol e ameno, clima atípico naquela época do ano na região. Na verdade estava quente para a estação. Cheguei cedo, bem antes dos demais corredores, que vão de Boston para a largada em ônibus especial, visto que a prova larga da cidade de Hopkinton, uma cidadezinha com ares rurais. A main street, local da largada, fica abarrotada de gente, atletas, técnicos, políticos, personalidades, estandes de patrocinadores, que dão desde protetor labial, até tênis e camisetas. Em um furgão de uma operadora de telefonia móvel, liguei, de graça, ou como eles falam free, para o Brasil, coisas de patrocinadores.
No local destinado à preparação dos cadeirantes, o ginásio de uma escola High School, bastante espaçoso, tinha água, lanche, frutas, tudo que era necessário para a pré-largada dos atletas. Lá estavam mitos como Franz Nietsplach, Ernst Van Dyk e outros. Só feras. É bom estar no meio da elite!
Na linha de largada os corredores se alinham conforme os tempos de qualifying, que são checados rigorosamente pela direção geral da prova. Eu larguei na segunda fila com o número 16. Os primeiros 1500m são percorridos com um carro madrinha, para evitar acidentes. O trecho inicial é um cotovelo em descida que possibilita alta velocidade, por isso o cuidado. Depois desse estágio são braços para que te quero, muitos braços. Pega-se a 154 Rote, passa-se pela cidade de Ashland e Framingham e vai embora. Lá no quilômetro 30, mais ou menos, tem uma das mais temíveis subidas que já encontrei em todas as maratonas que disputei (Boston é conhecida como a Maratona das quatro montanhas. E essa é a última).
Passa-se depois em frente ao Boston College, que é a universidade de Boston, onde o leito de rolamento da prova fica ladeado de alunos e alunas que recebem os corredores muito bem. Lá eles servem como bálsamo para os corredores extenuados. Muitas brincadeiras acontecem, como era de se esperar de jovens estudantes. As meninas da Universidade gritam e apóiam os meninos que estão correndo. Já os meninos estudantes apóiam e elogiam as meninas corredoras.
É curioso reparar nas camisetas desses alunos que tem dizeres como: se você não tem namorado(a) o meu número de telefone é tal, após a corrida me procure, sou o fulano(a), vai número XX você é lindo(a), força número Y está quase no fim. Isso é muito bacana. Acho que para os atletas que não são da elite é o momento de maior vibração na prova. É inesquecível, um diferencial fantástico, indescritível, só vendo para poder dimensionar.
Depois é a hora de passar pela Boylston street e chegar no trecho que fica entre a Exeter street e Dartmounth street. Esta rua é a tão cobiçada linha de chegada que vem também com aquela medalha maravilhosa e a recepção ensurdecedora dos assistentes. O atleta não consegue enxergar a calçada, é muita gente, parece que toda a cidade vem assistir a Maratona. É um acontecimento que faz parte do calendário local e do país.
Foi assim que eu vi a Maratona de Boston no ano de 2003. Espero que muitos corredores brasileiros possam desfrutar dessa emoção e quero voltar lá em breve.
Fui para os Estados Unidos uma semana antes da prova, para a cidade de Danbury, na casa dos Gonçalves uns amigos sensacionais que moram lá há mais de 10 anos. Vou abrir um parêntese e falar um pouco sobre Danbury. É uma cidadezinha encantadora, daquelas típicas da região da Nova Inglaterra (EUA). Aquelas do interior dos Estados Unidos com todas as suas nuances, pequena, confortável e com toda a infra-estrutura e segurança que um ser humano precisa para sobreviver. Mercadinhos onde você pode comprar o nosso tradicional arroz, feijão, óleo de soja, farinha de mandioca, cerveja e caninha para a tradicional caipirinha e acreditem, quase ao mesmo preço daqui. Também é possível encontrar em restaurantes o mais legítimo tutu mineiro e a mais deliciosa picanha gaúcha.
Para vocês terem uma idéia, a cidade é habitada por cerca de 100.000 habitantes e mais ou menos 15.000 são imigrantes, na grande maioria brasileiros. Tem até um programa na rádio local apresentado por um brasileiro, que toca música como samba, forró e sertaneja. Danbury é reduto de gente trabalhadora e honesta, difícil não encontrar alguém para se matar a saudade e falar de coisas da terrinha.
Na primeira vez que fui lá, encontrei um jornal em cima da mesa da cozinha dos Gonçalves que trazia uma matéria de capa sobre corrida. A foto que ilustrava essa matéria era de um corredor com um calção dos Estados Unidos. Mas acreditem, esse corredor era brasileiro e eu conhecia aquele sujeito. Seu nome era Antônio, ou simplesmente Toninho para os amigos. Sujeito bom, honesto, trabalhador, um corredor que anda forte. Fomos colegas de trabalho em São Paulo e corríamos pela equipe do trabalho. Éramos bons amigos, mas perdemos o contato e por coincidência fomos nos encontrar lá, nos Estados Unidos.
Depois de vê-lo no jornal, nos encontramos pessoalmente. Ele é amigo dos Gonçalves (lá quase todos os brasileiros são conhecidos). O nosso encontro foi uma festa. Depois de muita conversa ele me contou que estruturou a sua vida por lá, comprou uma casa, arranjou um emprego, que ainda corria e tinha uma família linda. A esposa do Toninho também corre e o filho, que é americano, com bastante certeza também correrá.
Inúmeros corredores, de elite aqui no Brasil, fazem base na casa do Toninho em época de preparação para grandes maratonas, como Chicago, Nova York, Boston entre outras. Os atletas vão para lá e ficam uns três meses treinando. O bom é que nos Estados Unidos há corridas todos os finais de semana. Sempre é possível pegar uma graninha nessas provas. É assim que o Toninho mata a saudade dos amigos antigos e ao mesmo tempo dá uma força danada para os corredores, que de outra forma não teriam a mínima condição de participarem dessas provas em nível competitivo, por falta de patrocínio e apoio para esses treinos específicos. Da mesma forma acontece comigo, pois sempre tenho a acolhida mais do que amigável dos Gonçalves, uma ou duas vezes por ano aporto por lá para quebrar-lhes a rotina.
Nesta mesma ocasião tive a oportunidade de reencontrar o Zé do Óleo, sujeito pacato, dos bons, daquele tipo que você vê uma vez, nunca esquece e sabe que ele nunca fará alguma coisa para prejudicar alguém. O Zé era um sujeito singular nas maratonas do Brasil. O apelido surgiu dos “óleos” milagrosos que o Zé comercializava, à base de cânfora e cheirinho agradável, que psicologicamente ajudavam o povo a andar mais rápido. Eu sinceramente nunca comprei, pois não acreditava nesse lance de que passar alguma coisa no corpo e aumentaria o meu rendimento.
Depois de Danbury fui para a cidade de Framinghan, próximo de Boston, outro reduto de brasileiros, fiquei na casa do Valdeci, ex-maratonista que vive por lá. Também tive uma acolhida sensacional na casa deles que ficava a 10 minutos de carro da largada da Maratona de Boston.
Este texto foi escrito por: Carlos Oliveira (Carlão)