
Em 2006 SP registrou 450 mil correrdores (foto: Donata Lustosa/ www.webrun.com.br)
Segundo os dados da Federação Paulista de Atletismo (FPA), que analisa o número de provas oficiais de corridas de rua na cidade de São Paulo, nos últimos cinco anos a corrida cresceu da seguinte forma: 17 corridas realizadas em 2002, 34 em 2003, 107 em 2004, 166 em 2005, e 187 em 2006. O número de corredores inscritos saltou de 11 mil em 2002 para 450 mil em 2006.
Além disso, o número de assessorias esportivas e equipes de corrida também cresceu bastante. Só no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, temos mais de 60 durante a semana, cada uma contando com os serviços de vários treinadores e outros profissionais da área.
Com o crescimento tão expressivo deste esporte, surgiram, naturalmente, novas organizações de prova, cada uma buscando seu diferencial em qualidade. Continuam sendo explorados novos espaços para provas na cidade, fugindo um pouco do velho eixo Ibirapuera-USP. Oferecem-se atrativos cada vez melhores, como um kit mais bacana, uma camiseta de melhor qualidade, bandas de músicas durante as provas, direito a um show, etc. É a lei do mercado.
Com isso, o público também passou a ser mais crítico, podendo traçar comparativos e optar pelo tipo de competição de sua preferência, ou seja, aquela com muitos inscritos e mais festiva, ou outra com o número limitado de participantes, ou ainda uma terceira que tenha um percurso mais confortável, e assim por diante.
É óbvio que esta concorrência entre as organizações é muito salutar, principalmente para aqueles corredores com mais experiência, já que algumas provas estavam apresentando certa monotonia, tanto pelos percursos repetitivos, quanto pelo grande número de participantes.
Problemas – Infelizmente, há também problemas. No final do ano passado estivemos reunidos com os diretores do setor de corridas de Rua da FPA para tratarmos do calendário de 2008. Para nossa grande surpresa, naquele mesmo final de semana de dezembro havia, simplesmente 10 provas onde a FPA faria sua indispensável supervisão!
Isso mesmo! 10 corridas de rua num mesmo final de semana, incluindo uma festiva com quatro mil inscritos no sábado e mais outras três importantes com mais de três mil inscritos no domingo!
Para os técnicos, seu trabalho ficou um pouco mais complicado. Além de ter que se desdobrar para acompanhar seus alunos nas mais variadas provas, a preocupação em evitar lesões por excesso de competições tem se tornado uma constante. Está cada vez mais difícil gerenciar o treino daqueles corredores inflamados pelas emoções e empurrados pelos e-mails das organizações e da facilidade das inscrições on-line.
Se for ruim para os treinadores, também o é para os corredores, que acabam não melhorando seus tempos, por não treinarem direito, ou se lesionam e ficam impossibilitados de fazer aquilo que mais gostam!
Organizadores – Para os organizadores as coisas também estão se modificando bastante, pois o fato de vários eventos coincidirem para um mesmo final de semana, está dificultando atingir um número almejado de inscritos, conforme prometido aos patrocinadores. Como conseqüência financeira, há que transpor inúmeros obstáculos para se conseguir um resultado positivo.
Ao contrário do que a maioria pensa, o valor arrecadado com as inscrições não cobre os custos, tais como a elevadíssima taxa para a liberação das ruas pela CET, impostos, camisetas, medalhas, água, kit de lanches, ambulâncias e equipe médica, banheiros químicos, aluguel de grades, montagem de arena e palco, manutenção de site, staffs, sistema de som, supervisão da FPA, cronometragem eletrônica, despesas com telefone, e assim por diante.
Com o nível de qualidade que atingimos, só se consegue atingir o saldo zero ou obter algum lucro, quando se dispõem de bons patrocinadores. Estes, além de não serem fáceis, com a realização constante de duas ou três grandes provas concorrentes no mesmo final de semana, certamente estarão reavaliando o foco de seus investimentos.
O maior desafio, porém, é manter o interesse da mídia e do público. Até onde irá a paciência do pessoal cujas ruas em torno de suas residências são interditadas rotineiramente? Como disse o Sr. Renato Elias, Diretor da JJS Eventos Esportivos: será que se tivéssemos várias etapas da F1 em São Paulo teríamos 60 mil pessoas de público como acontece com apenas uma etapa?.
Por tudo isso que apresentamos, e para evitar outros problemas que possam ocorrer no futuro:
1- cabe aos organizadores entrar em acordo para evitar este prejudicial acúmulo de eventos no mesmo dia
2- cabe ao Departamento de Esportes da Cidade de São Paulo não permitir que dois eventos de grande porte sejam agendados para mesmo final de semana.
Queremos, sim, cada vez mais a massificação deste tão divertido, democrático e saudável esporte que é a corrida de rua, mas este crescimento deve ocorrer sempre de forma sustentável.
A ATC (Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo), que representa a maioria dos treinadores que orientam milhares de corredores desta cidade, tem conversado com diversos organizadores de provas e está disposta e aberta a ajudar, no que for possível, para a solução destes problemas.
Este texto foi escrito por: Prof. Nelson Evêncio