Corrida de rua: o desafio de garantir mais inclusão

Leonardo Selvaggio | Corrida · 29 nov, 2023

A história de Marili Sato, atleta com deficiência intelectual, que participou da última edição da Disney Magic Run é um testemunho inspirador sobre como a corrida pode transformar vidas. Inicialmente como espectadora, Marili foi introduzida ao mundo das corridas pela irmã, Cássia Sato, que futuramente se tornou não apenas uma guia, mas também uma fonte de apoio e tutoria.

Foto: Reprodução Achilles International

 

A entrada no mundo da corrida não apenas proporcionou a Marili uma jornada física, mas também impactou positivamente sua autoestima e confiança pessoal, estimulando-a a superar obstáculos pessoais. 

“A Marili é um pouco inibida, mas consegue se ambientar rapidamente. Ela adora interagir e o ambiente das corridas é muito positivo neste aspecto, de modo que hoje, ela circula com desenvoltura no círculo das corridas, com confiança e certa autonomia. Além disso, a prática de corrida tirou pequenos ‘traumas’ dela. Saltar para desviar de um obstáculo durante uma prova era algo que ela não fazia e hoje faz com certa tranquilidade. Até mesmo o medo da cadeira do dentista diminuiu”, conta Cássia, irmã e tutora de Marili.

Contudo, enfrentar desafios durante as corridas é inevitável. Cássia destaca que muitas vezes alguns participantes não entendem muito bem a necessidade de espaço que é preciso dar aos atletas com deficiência durante as provas, especialmente quando estão acompanhados por guias.

“Às vezes falta compreensão por parte dos demais participantes das corridas de que atletas com deficiência ocupam mais espaço no ambiente, que podem precisar de um caminho livre ou que o conjunto atleta-guia não pode ser separado, não se deve tentar passar entre eles, inclusive porque pode haver uma corda-guia os unindo. Muitas vezes, ao pedir prioridade, ao pedir passagem, somos hostilizados pelos demais corredores.​” conta.

Tornar o ambiente de eventos esportivos mais inclusivo ainda é um grande desafio e é preciso usar o feedback de atletas com deficiência e seus acompanhantes e guias nas provas como uma ferramenta de melhoria. Para Cássia, alguns dos pontos mais importantes neste processo são a definição dos percursos e a preparação de staff. 

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“É preciso ter muito cuidado ao definir os percursos. Já participamos de provas com trechos que nem dava para correr porque o percurso se tornou um funil, muito apertado. E, principalmente para pessoas com deficiência visual, fica bastante difícil”, ressalta.

Além disso, ela destaca a necessidade de treinamento para funcionários, parceiros e patrocinadores, para garantir um ambiente inclusivo e disponibilizar banheiros químicos adaptados, principalmente para cadeirantes, é fundamental. 

Cláudio Okano, porta-voz da Achilles International Brazil, organização global dedicada ao atendimento aos atletas com deficiencia , destaca a importância de uma padronização de boas práticas nos eventos. Ou seja, independentemente do organizador, as medidas básicas para que atletas com deficiência participem devem ser garantidas. Afinal, a inclusão é benéfica para toda a comunidade e traz diversos impactos sociais.

“Incluir atletas com deficiência nas corridas ajuda a ver que a inclusão pode e deve ocorrer em todos os setores da sociedade. Ao vê-los se se superando no esporte fica um pouco mais fácil entender que elas também podem ter capacidade de ocupar um posto de trabalho, uma sala de aula, uma cadeira em um parlamento, etc. Pessoas com deficiência não buscam privilégios, mas oportunidades e provocar essa reflexão na comunidade é sem dúvida uma grande contribuição.” afirma Cláudio.

A missão da Achilles International Brazil é transformar vidas através do esporte e conexão social, proporcionando esperança e inspiração para pessoas com deficiência. No entanto, a promoção da inclusão não é apenas uma responsabilidade das organizações esportivas ou da Achilles, mas sim de toda a comunidade da corrida, visando criar um ambiente onde todos possam participar, competir e celebrar as conquistas, independentemente de suas habilidades ou limitações físicas e intelectuais.

Para atletas com deficiência que buscam começar a participar de corridas, Marili aconselha: “Apenas comece, porque só tem a ganhar! Tanto no aspecto de saúde, quanto de socialização. Estar inscrito em uma prova estimula a treinar com um propósito! E é o que faz sair de casa para treinar num dia chuvoso e frio, ou num dia de muito calor. Enfim, motiva a praticar uma atividade física e fazer novos, e muitos, amigos!”

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Leonardo Selvaggio

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Um jornalista em formação apaixonado por esportes. Até o momento, aluno da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).