
Cordeiro carrega a bandeira do Brasil após a vitória do Mundial (foto: Divulgação)
O brasileiro Sérgio Cordeiro chegou nessa terça-feira no Brasil após ter conquistado o título Mundial de Ultratiathlon. Com a vitória ele se tornou o primeiro latino-americano a vencer o campeonato da modalidade. Aos 51 anos, Cordeiro quer mais e pretende buscar o bicampeonato em 2006.
A etapa que lhe garantiu a vitória foi um quíntuplo Ironman que aconteceu no México entre os dias seis e nove de novembro. O brasileiro cruzou a linha de chegada com três dias e nove horas de prova. Com o resultado ele garantiu o segundo lugar da etapa mexicana e o título do Mundial. Confira a entrevista exclusiva com o ultraman Sérgio Cordeiro.
Webrun: Como foi a prova?
Sérgio Cordeiro: Foram três dias e nove horas de prova. Eu acho que estava mais assustado e apavorado do que realmente foi a prova. No final achei que não foi difícil. Mas tive que trabalhar contra o relógio porque ganhava aquele que fizesse o menor tempo. Trabalhei muito a resistência e também a velocidade.
WR: Esse foi o seu primeiro quíntuplo Ironman?
SC: Foi a primeira vez que eu fiz essas distâncias (19km de natação, 900km de bicicleta e 211km de corrida) tudo junto. Eu já corri o Vale da Morte que tem mais de 200 quilômetros, mas sem nadar e pedalar. Eu pensei: Meu Deus! Lá no Vale foi um terror, imagina nadar e pedalar antes? Só que depois que eu larguei eu entrei no clima de adrenalina e parei de pensar nisso.
WR: Como estava o seu estado psicológico antes da prova?
SC: Eu sai para a prova pensando apenas em completar, porque com isso eu já seria o campeão mundial. Ao mesmo tempo em que me dava tranqüilidade eu ficava pensando que eu teria que completar de qualquer jeito. Depois de um ano inteiro de tanta luta, sacrifício, tempestade na cabeça e frio precisava no mínimo completar. Não iria deixar de ser campeão mundial na última etapa.
WR: O que passou na sua cabeça depois que você cruzou a linha de chegada?
SC: Foi uma adrenalina e uma emoção muito forte que para ser sincero ainda não acabou. Comecei a prova num domingo e terminei na quarta. Muita coisa passa pela sua cabeça. Parece ainda que estou sonhando. Agora que a minha ficha começou a cair.
WR: Você tem a fama de correr descalço. Nessa etapa mexicana você tirou o tênis?
SC: Para variar tirei. Não consigo me livrar disso. Chegou uma hora na prova que o tênis começou a pesar e eu falei: caramba seu eu continuar assim eu vou parar. Vi que ainda faltava muita prova pela frente, então resolvi tirar a porcaria do tênis, dei uma recuperada descalço e calcei o tênis de novo nos últimos 50 quilômetros de prova. Na verdade eu só coloquei o tênis quando a segunda colocação já estava garantida.
WR: Como estava o clima da etapa mexicana?
SC: Estava muito bom. Nem muito frio nem muito calor. Também não enfrentei chuva. Pelas condições de provas que eu já enfrentei durante a minha carreira, posso dizer que foi ótimo. Na Virginia, por exemplo, eu enfrentei uma tempestade tropical, isso sim é terrível.
WR: E o percurso?
SC: Os 19 quilômetros de natação foram numa piscina de 50 metros. Chega uma hora que dá uma tontura. Você se perde e não sabe o quanto nadou. Você tem a sensação de que está rodando. Depois eu sai e fui para o percurso de bike. Tive que pedalar 900k num circuito com dois quilômetros. A corrida também foi nesse mesmo percurso. Foram três dias e nove horas no mesmo lugar. Depois disso eu acho que eu sou maluco e não sabia.
WR: Como foi a premiação?
SC: Nada paga o troféu que é maravilhoso. É uma estatueta de pedra-sabão com o mapa Asteca e o emblema do México.
WR: Você vai descansar no fim do ano?
SC: Agora começa o processo de recuperação do meu treino. Oficialmente esse ano não irei competir mais. O meu objetivo agora e voltar em 2006 para buscar o bicampeonato do Mundial. Até porque logo no início do no já terá uma etapa sul-americana do Mundial. A surpresa é que essa etapa pode ser no Brasil. Imagina aqueles europeus passando um pouco de perrengue aqui no Brasil? Só Deus sabe a dificuldade que eu passei enfrentando as provas deles.
WR: E você recebeu a premiação da etapa da Áustria que aconteceu no início do ano?
SC: Acredita que eu recebi há duas semana atrás! Eles pensaram que dava para enrolar um brasileiro. Eles vão ter que vir aqui sentir o gostinho do nosso calor para ver o quanto é bom. Assim vão nos valorizar um pouco.
Este texto foi escrito por: Donata Lustosa