Conheça a cadeirante Geo, nas palavras de Carlão

Redação Webrun | Esporte Adaptado · 09 nov, 2007

Com mais incentivo  Jean pode se tornar uma promessa do paradesporto brasileiro (foto: Arquivo Pessoal)
Com mais incentivo Jean pode se tornar uma promessa do paradesporto brasileiro (foto: Arquivo Pessoal)

Confira o relato do cadeirante Carlos Oliveira, o Carlão, sobre a atleta Angelina Nascimento, a Geo, que tem muita disposição para competir, mas não consegue apoio para continuar treinando.

No sábado, 29/09, véspera da Meia Maratona Brasken de Revezamento, em Salvador (BA), fui até a sede campestre, linda por sinal, da Brasken, retirar o kit, que é uma sacola com o número, chip e brindes. Foi lá que conheci a Geo, negra de sorriso fácil, atitudes espontâneas e imediatas, que estava junto com o técnico Gilson e me deram carona de volta ao hotel, tempo suficiente para trocarmos uma longa e prazerosa conversa.

Conversamos basicamente sobre esporte e pude ouvir os seus lamentos para com a incrível luta que trava para conseguir competir. A situação deplorável do paradesporto brasileiro, isso eu sabia e quanto mais viajo para fora dos centros e até mesmo neles, ouço a mesma lamentação, de que é praticamente impossível treinar e competir sendo cadeirante.

Nos jogos Parapan-americanos do Rio de Janeiro, havia somente duas atletas cadeirantes na prova dos 5000m, representando o México e, ouvindo a Geo, não é difícil deduzir porquê o Brasil não estava representado. O jornal A Tarde de Salvador, no dia 28 de outubro, trazia matéria assinada pelo jornalista Nelson Luís, tendo como case Angelina Nascimento, a Geo, que relatava a sua luta para conseguir se manter correndo em cadeira de rodas. Essa é uma paixão que nem ela explica, face à extrema dificuldade em obter informações, equipamento ideal para a prática esportiva, fundos para viagens e acessórios, somando a isso tudo as vicissitudes diárias.

Seguindo em frente – Nenhum desses percalços tirou a alegria, o bom humor e a beleza dessa negra de 40 anos que parece ter 18 pela vitalidade, disposição e vontade de ir em frente, mesmo contrariando as condições adversas impostas pela vida. Ela segue ditando as normas para conseguir treinar e competir. A matéria relata (mais um) dos casos de abandono de atleta pelos órgãos Municipais, Estaduais e Federais, que deveriam ter o compromisso de fomentar, desenvolver e dar condições de prática desportiva.

A realidade da Geo é a mesma do paradesporto brasileiro, pois não recebem subsídio algum há no mínimo quatro anos, com a implosão da Abradecar (Associação Brasileira de Deporto em Cadeira de Rodas) e a falta de recurso que os atletas cadeirantes sofrem. As verbas da Lei Piva, recursos da arrecadação das loterias que deveria propiciar aos atletas ppd’s a oportunidade da prática esportiva, não chega à base. Nenhum atleta cadeirante em formação recebe qualquer tipo de subsídio para compra e manutenção de equipamentos.

É uma bola de neve, os clubes não têm dinheiro para financiar equipamentos, viagens, etc, os competidores muito menos e os patrocinadores só aparecem quando o atleta já tem algum resultado expressivo. É bastante difícil praticar esporte no Brasil, estando em uma cadeira de rodas.

Existem alguns atletas beneficiados por incentivos do Ministério dos Esportes, porém não se sabe qual é o critério para esse benefício, caso soubesse, certamente a Geo já teria se candidatado para essa verba e, quem sabe, conseguiria a tão sonhada cadeira de rodas de competição.

O esporte vive de espelhos, de imagens, de exemplos e certamente a Geo, apesar de não ter um nível técnico de primeira linha, mas sim por falta de oportunidades, pela distância dos grandes centros, por apadrinhamento e outros detalhes que lhe fogem ao controle, é um dos exemplos a serem seguidos. Contrária a tudo, ela ainda continua a sua luta para conseguir competir, sempre com um sorriso no rosto, com palavras amigas e com vontade de ajudar os menos afortunados que ela.

Aqui vale aquele jargão: “sou brasileiro e não desisto nunca”. No Brasil, diariamente aparecem Geos para nos mostrar que a luta nem sequer começou, está longe de terminar.
É inadmissível que em um país tão grande estejam rodando hoje não mais de 10 cadeiras de competição de primeira linha. Ninguém me convence que os brasileiros não tenham capacidade, aliás, entendo que os únicos brasileiros incapazes são os que estão à frente de órgãos que deveriam fazer o esporte acontecer.

Futuro – Nenhum, repito, nenhum dos atletas cadeirantes que fazem parte da elite nacional saiu de algum projeto de formação de atletas. Em Santos tem o Jean (foto), que está em idade tenra e quem nem sabe a luta e as desilusões que o esperam, mas está aí, cheio de vontade de praticar esporte. Assim como a Geo, ele não tem nenhum apoio de qualquer órgão que seja, mas cheio de esperança e em qualquer país sério ambos já teriam o seu equipamento para poder praticar esporte e quem sabe competir em alto nível.

Enquanto isso não acontece, a Geo continua lá em Salvador, trabalhando de guardadora de carro, dependendo da generosidade de amigos e conhecidos para fazer uma das coisas que mais gosta que é praticar esporte. E o Jean? Bom, o Jean está lá em Santos, esperando a sua oportunidade, felizmente esses dois são cercados de pessoas dispostas a ajudá-los.

Oxalá e outros orixás e santos da Bahia de Todos os Santos nos ajudem e que a realidade vindoura seja de acessibilidade à todos os portadores de deficiência que desejem praticar esporte. Por fim, tomara que a luta da Geo não seja em vão e que o Jean possa desfrutar de alguma conquista.

Por hoje é isso.

Este texto foi escrito por: Carlos Oliveira

Redação Webrun

Ver todos os posts

Releases, matérias elaboradas em equipe e inspirações coletivas na produção de conteúdo!