Campeão em pele de Cordeiro

Redação Webrun | Maratona · 22 nov, 2002

Vanderlei Cordeiro de Lima no pódio ao vencer a Maratona de São Paulo 2002 (foto: Fernanda Paradizo)
Vanderlei Cordeiro de Lima no pódio ao vencer a Maratona de São Paulo 2002 (foto: Fernanda Paradizo)

Campeão da Maratona de São Paulo, Vanderlei Cordeiro de Lima se prepara para buscar o título da São Silvestre em 2002, o bi pan-americano em 2003 e a medalha olímpica em 2004

Acidental. Assim pode ser definida a entrada de Vanderlei Cordeiro de Lima no mundo das maratonas. E, apesar do acaso, foi uma estréia com o pé direito. Disputando a temporada de provas de 10 mil metros e meia maratona na França, em 1994, o brasileiro foi convidado para ser coelho na maratona de Reims. O combinado era que puxasse o ritmo até o 22º quilômetro. Quando chegou ao trecho determinado, sentia-se tão bem que tomou uma decisão que mudaria sua vida. Resolveu seguir correndo para ver até onde chegaria. Resultado: venceu com o tempo de 2h11min06, sem nunca ter se preparado para competir nessa distância O surpreendente resultado o colocou em 46º lugar no ranking mundial daquele ano. Nascia um dos maiores maratonistas do mundo.

O que veio depois daquele tarde, em Reims, é uma sucessão de vitórias e resultados expressivos. O mais recente, o título da Maratona Internacional de São Paulo, em julho, foi especial por várias razões. Entre as mais expressivas, estão o fato de vencer sua primeira prova da modalidade disputada em solo brasileiro (calendário e premiações melhores no exterior adiaram essa estréia), fazendo o recorde da prova e melhor marca do ano no País, 2h11min19, e a superação de duas contusões na fase de preparação.

A história da conquista da Maratona de São Paulo começou com uma decepção. A decisão de correr na capital paulista veio dia 17 de março, depois da Maratona de Dong-A, em Seul, na qual Vanderlei abandonou no km 30 por cansaço generalizado. Após a recuperação, o técnico Ricardo D’Angelo fez as contas e programou o treinamento para 15 semanas, começando em 1º de abril. Tempo mais que suficiente para a preparação, normalmente planejada pelo treinador para 14 semanas, subdivididos em ciclos menores (introdutório, preparatório, específico e competição). Os problemas começaram na segunda semana. No dia 8 de abril, o atleta sofreu uma profunda perfuração no terço superior do músculo gastrocnêmio direito, em um acidente doméstico. Foram necessários 20 dias de inatividade para a recuperação.

Era preciso mudar o cronograma de treinamento. Assim, Vanderlei retomou a preparação dia 28 de abril trabalhando em menor intensidade e com maior volume. Tudo correu bem até 12 de maio, quando uma contratura no posterior da coxa direita passou a impedir que o atleta treinasse no ritmo necessário. Em uma verdadeira corrida contra o tempo, o treinador reavaliou a situação e concluiu que poderia deixar Vanderlei apto para disputar a Maratona de São Paulo com chances de vitória desde que tivesse oito semanas de treino ininterrupto. Livre de lesões e com o novo programa, ele iniciou novo ciclo, que durou de 20 de maio a 14 de julho. “Retornei com rodagem de 40 minutos a uma hora. O que ajuda é que meu organismo se recupera rápido. Em 45 dias de treino me recupero de 70% a 80% da performance. Normalmente, rodo de 180 a 200 quilômetros por semana, com média de 30 a 35 km por dia, em dois períodos”, explicou o atleta.

Todo o esforço, tanto do atleta como de sua equipe, foi recompensado com a bela vitória na capital paulista. Entre a largada e a linha de chegada, Vanderlei teve mais que uma preparação cuidadosamente planejada, talento e condicionamento. Contou ainda com uma estratégia de prova perfeita.

Figura mais que conhecida em corridas de rua, especialmente nas maratonas, o coelho foi imprescindível para o plano de corrida de Vanderlei. Habituado a correr sem marcar tempo “porque o relógio prende o atleta ao tempo”, Vanderlei contou com as passadas firmes de Daniel Lopes Ferreira, contratado especialmente para completar a meia maratona em 1h05min40, deixando o caminho livre para Vanderlei seguir no ritmo estabelecido nos treinamentos para fechar a prova entre os líderes.

Quem explica é D’Angelo. “Pelo histórico da Maratona de São Paulo, sabíamos que sempre a segunda metade do percurso era cumprida pelo menos 3 a 4 minutos mais lenta que a primeira. Assim, o objetivo foi minimizar essa diferença por meio de um ritmo mais uniforme para todo o percurso, pois o Vanderlei apresentava indicadores positivos nos treinos para esta estratégia. Com isso, a tarefa do coelho era garantir sua concentração nessa primeira metade para que ele pudesse sustentar a segunda praticamente no mesmo ritmo. Planejamos com o Daniel, e seu técnico Marcão, a passagem da meia maratona em 1h05min40, pois projetávamos um tempo final próximo de 2h12min. O resultado foi excelente: o Daniel foi perfeito passando em 1h05min45, com o Vanderlei fechando a segunda parte em 1h05min34, tempo final de 2h11min19.”

Passada a euforia pela conquista inédita, Vanderlei prepara-se para vencer novos desafios. A curto prazo, o objetivo é outra façanha, o título da São Silvestre. “Quero muito vencer esta prova, pois é a de maior visibilidade na mídia nacional e a melhor oportunidade para ser reconhecido no País”, garante o atleta que tem como melhor colocação na tradicional prova de 31 de dezembro um terceiro lugar, em 1996.

Antes, vai em busca do índice para os Jogos Pan-Americanos de 2003 e Campeonato Mundial. Para isso, vai correr nova maratona em outubro, provavelmente em Chicago, nos Estados Unidos, ou Amsterdã, na Holanda. Se conseguir, deve estar entre os 20 primeiros do ranking mundial de 2002. O planejamento para a carreira do atleta é mais abrangente. A médio prazo, vai lutar pelo bi no Pan de 2003, o índice para os Jogos Olímpicos de Atenas/2004 e se manter entre os 20 primeiros do mundo. A longo prazo, Vanderlei quer concretizar o sonho de uma medalha olímpica na Grécia. “Se conseguir, terei a satisfação total em minha carreira.”

A luta pelo bicampeonato Pan-Americano promete um sabor especial. Para o atleta, a medalha de ouro conquistada em 1999, em Winnipeg, no Canadá, é a conquista que mais marcou na carreira. “Com certeza essa conquista repercutiu bastante no Brasil. Conquistar uma medalha representando diretamente o Brasil é uma honra, ainda mais a de ouro”.

Disciplina e concentração são dois poderosos alicerces para as conquistas do maratonista. “O Vanderlei possui uma capacidade enorme para não se deixar influenciar por problemas extra pista. Eu diria que sua concentração nas sessões de treino são próximas de 100%, gerando possibilidades de alcançarmos níveis altíssimos de exigência de esforço. Evidentemente, este comportamento foi desenvolvido e trabalhado ao longo de sua carreira, já que ele é considerado um atleta bastante experiente”, explica o técnico. A “experiência” a que se refere o treinador são os 33 anos de idade e os 14 de atletismo de alto rendimento, fato que não pesa sobre os ombros do corredor. “Acredito que ainda terei vida longa no esporte. Vejo o exemplo de alguns atletas que têm conquistado bons resultados com mais idade, mais experientes, como o Carlos Lopes, campeão olímpico aos 38 anos, na Olimpíada de 1984”, explica Vanderlei, que conta com os avanços tecnológicos e científicos nas áreas de treinamento, nutrição e equipamento para atingir a longevidade esperada.

Construir uma carreira de sucesso exige dedicação e talento. Despende ainda uma fonte de energia diferente da usada para impulsionar passadas ritmadas e velozes, mas quase tão importante quanto. É o dinheiro da equipe e patrocinadores que permite montar uma equipe de tão alto nível quanto o atleta. No caso de Vanderlei, o apoio sempre veio da Funilense e seus investidores. Atualmente, o patrocínio vem do Pão de Açúcar, BM&F, Olympikus e Prefeitura de São Caetano do Sul. O investimento dessas empresas permite a manutenção de um time multidisciplinar composta pelo médico Paulo Zogaib, o fisioterapeuta Wilson Pereira Bueno e o agente Jos Hermens, além do técnico Ricardo D’Angelo, que está ao lado do atleta há 10 anos.

A rotina de treinos de Vanderlei se divide entre duas cidades. Em Campinas, no interior paulista, são feitas as avaliações iniciais do ciclo de treinamento planejado, bem como o controle e verificação dos indicadores funcionais. Os ciclos específicos de suas preparações são em Maringá, no Paraná, que atualmente conta com recursos materiais (pista sintética, principalmente) de primeira qualidade. Os dois municípios são locais de trabalho e convivência familiar. No Paraná está a maioria dos parentes. “Considero muito importante sua proximidade com os familiares. Temos informações de estudos científicos dizendo que grande parte do resultado final do atleta se deve ao seu estado mental. Para se obter o máximo, seja no treinamento ou na competição, precisamos de perfeito equilíbrio entre seu estado mental e físico. É importante que sua vida fora da pista esteja em harmonia de maneira a não interferir em seu desempenho atlético. Família, trabalho, amigos, vitória e derrota são aspectos que devem ser bem trabalhados pelo treinador e atleta”, explica D’Angelo. “Sempre tive o apoio da família”, completa o corredor.

Apesar do tempo no atletismo e dos resultados expressivos, Vanderlei Cordeiro de Lima não passa nem perto de ser um recordista em número de participações. Até hoje, correu apenas 17 maratonas. Se não opta pela quantidade, faz da qualidade seu cartão de visitas. Terminou entre os três primeiros colocados em nove corridas. “Faço, no máximo, duas maratonas por ano. No meio da preparação, disputo, em média, três provas, podendo ser de 10 mil, 15 mil ou meia maratona. No total, não chego a fazer 20 corridas por ano. Prefiro optar pela qualidade, as que ajudarão minha preparação”, analisa o atleta.

Respeitar os limites do corpo maximiza os resultados em corridas e ajuda no combate a um dos maiores monstros na carreira de qualquer esportista. As lesões obrigam a inatividade e podem causar danos ainda mais profundos na auto-estima, muitas vezes mais perigosos que a própria contusão. Depois dos problemas mais recentes, especialmente no tendão, Vanderlei passou a fazer trabalho de fortalecimento muscular nas áreas mais exigidas. Alternar o treinamento com pista e trabalhar com musculação são outras ações que aliam rendimento e prevenção de “acidentes de trabalho”.

Para Vanderlei, as piores lesões na carreira vieram antes dos Jogos de Sydney e na Maratona do Japão, em 2001. “Antes da Olimpíada sofri uma lesão na articulação do pé esquerdo. Corri no sacrifício porque já estava inscrito e não podia ser substituído (terminou em 75º lugar e foi criticado por quem nem sabia do problema).

No ano seguinte, tive um estiramento na coxa esquerda durante a Maratona do Japão quando faltavam apenas 3 mil metros para terminar. Ainda cheguei em segundo lugar”, conta. Classificando esses momentos como os piores na vida de qualquer atleta, ele ensina como superar a pressão. “É preciso paciência para se recuperar com tranqüilidade e contar com a compreensão do técnico e dos patrocinadores. Eu prefiro me isolar um pouco na fase de recuperação.”

Modelo para quem sonha vencer distâncias, o campeão da Maratona de São Paulo ensina que não existe segredos ou fórmula mágica para o sucesso no atletismo. Tem que gastar muita sola de tênis. “O mais importante é gostar do que está fazendo, assim, haverá mais chance do atleta ter uma performance melhor. O esporte não é feito só de vitórias, por isso tem que gostar para enfrentar as derrotas e não se abater com os maus momentos. Procurar um centro de treinamento e ter o apoio de profissionais especializados para ter a orientação correta é fundamental para obter bons resultados.”

Vanderlei Cordeiro de Lima
Nascimento: 11/08/1969.
Peso: 53kg.
Altura: 1,64m.
Provas: 10.000m, Meia Maratona e Maratona.
Treinador: Ricardo Antonio D’Angelo (há 10 anos)
Equipe Multidisciplinar:
Médico: Paulo Zogaib.
Fisioterapeuta: Wilson Pereira Bueno.
Agente: Jos Hermens (GSC).

Melhores Marcas Pessoais
Pista
1.500m 3min47s32, Curitiba, 1993
3.000m 8min02s65, Rio, 1998
3.000m c/obstáculos 9min03s29, SP, 1993
5.000m 13min55s43, SP, 1997
10.000m 28min08s03, Hengelo (HOL), 1997

Rua
10km 28min01, Santos, 1997 (recorde do percurso e melhor resultado em solo brasileiro)
15km 43min15, Tóquio (JAP), 1994
10 Milhas 47min21, Vitória, 1995
Meia Maratona 61min24, Lisboa (POR), 1995
25km 1h15min12, Tóquio (JAP), 1996
30km 1h30min08, Tóquio (JAP), 1996
Maratona 2h08min31, Tóquio (JAP), 1998

São Silvestre:
1992 – 4º lugar
1993 – 13º lugar
1994 – 4º lugar
1995 – 5º lugar
1996 – 3º lugar
1997 – 6º lugar
1999 – 7º lugar
2000 – 4º lugar
2001 – 5º lugar

  • Único atleta sul-americana a correr a maratona por quatro vezes abaixo de 2h09.
  • Fez 6min10s para os últimos 2,195m na Maratona de Dong-A, Coréia, 1997.
  • Melhor tempo de um sul-americano em Nova Iorque, 2h10min42, 1998.
  • Melhor tempo em solo sul-americano, 2h11min19, São Paulo, 2002.

Principais Títulos:

  • Medalha de ouro na maratona nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg/99
  • Medalha de prata no Campeonato Mundial de Revezamento em Maratona/Kopenhagem/96
  • Medalha de bronze na Copa do Mundo de Maratona/Atenas/97
  • 1º lugar na Maratona de Tóquio/96
  • 1º lugar na Maratona de Reims/94
  • 1º lugar na Maratona de São Paulo/2002
  • 2º lugar na Maratona de Tóquio/98, Dong-A/97(Coréia) e Beppu-Oita/00 (Japão)
  • 3º lugar na Maratona de Fukuoka/99
  • 3º lugar na Maratona de Rotterdam/00
  • 5º lugar na Maratona de Nova Iorque/98
  • 7º lugar na Maratona de Rotterdam/95
  • 9º lugar na Maratona de Berlin/95
  • 3º lugar na Meia Maratona de Tóquio/94
  • 4º lugar na Meia Maratona de Lisboa/95
  • 1º lugar no Campeonato Sul-Americano de Cross-Country/Cali/95
  • Integrante da Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Atlanta/96 e Sydney/00

Patrocinadores:

  • Pão de Açúcar
  • BM&F Atletismo
  • Olympikus
  • São Caetano do Sul
  • Organização Funilense de Atletismo

Todas as Maratonas:
AnoProvaPosição Tempo

  • 1994 Maratona de Reims campeão 2h11min06
  • 1995 Maratona de Rotterdam 7º 2h12min12
  • 1995 Maratona de Berlin 9º 2h13min47
  • 1996 Maratona de Tóquio campeão 2h08min38
  • 1996 Maratona de Atlanta 40º 2h23min01
  • 1997 Maratona de Dong-A 2º 2h12min41
  • 1997 Maratona de Atenas23º 2h21min48
  • 1998 Maratona de Tóquio 2º 2h08min31 (recorde pessoal)
  • 1998 Maratona de Nova Iorque 5º 2h10min42
  • 1999 Maratona de Bostonnão completou
  • 1999 Maratona de Winnipeg campeão 2h17min21
  • 1999 Maratona de Fukuoka 3º 2h08min40
  • 2000 Maratona de Rotterdam 3º 2h08min34
  • 2000 Maratona de Sydney 75º 2h37min01
  • 2001 Maratona de Beppu-Oita 2º 2h10min02
  • 2002 Maratona de Dong-A não completou
  • 2002 Maratona de São Paulo campeão 2h11min19

Este texto foi escrito por: Rafael de Marco – SuperAção

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