
Ádria no Planalto Central após ser recebida pelo presidente Lula (foto: Divulgação/ CPB)
A reportagem do especial Mulher conta um pouco da história da velocista paraolímpica Ádria dos Santos. Uma Ádria que consegue correr, quebrar recordes e também cuidar da casa. Confira!
São Paulo – A velocista Ádria dos Santos é uma mulher realizada. Aos 31 anos, ela tem uma filha, carreira impecável e um currículo com 34 medalhas só de competições internacionais. Quem não conhece a brasileira, que nasceu no norte de Minas Gerais, pode até pensar que é mais uma atleta bem sucedida. Sim ela é bem sucedida. Mas Ádria também é uma mulher de muita garra.
Ela nasceu com deficiência visual e até os 18 anos tinha dez por cento da sua visão. Hoje ela enxerga apenas um clarão. Mas as adversidades da vida nunca foram um empecilho para Ádria.
Ela começou no atletismo em 1987 quando fez um teste numa associação em Minas e passou. No mesmo ano participou de uma prova de 400m e venceu. Essa é a especialidade da atleta, apesar de ter medalhas nos 100m e também nos 200m.
Eu sempre gostei de atletismo. Fiz natação, mas não me adaptei muito. Foi no atletismo que me dei bem, conta. E se deu muito bem. Só no ano passado ela garantiu o tricampeonato do Mundial da IAAF, além de ser eleita pela a segunda vez consecutiva como melhor atleta do ano.
Sempre gostei de correr. Minha mãe me chamava a atenção quando eu era criança, porque tudo eu fazia correndo. Às vezes até me machucava, mas eu não conseguia fazer as coisas com calma. Acredito que é um dom mesmo, diz a velocista.
Trabalho e família – Atualmente Ádria treina de segunda a sábado. Ela faz exercícios de pista e também musculação. Mas como tem uma filha de 15 anos, a Bárbara, ela tem que se desdobrar para cuidar da casa.
Eu tenho que arrumar tempo para tudo, treino e família. Quando chega próximo às competições fica mais complicado e cansativo. Tem dias que treino bastante e chego cansada. Mas como a Bárbara estuda e também faz cursos, a gente se encontra mais de noite e de fim de semana, conta. Ela não reclama da minha rotina. Ela é uma fã e torce muito para mim. Ela só sente mais quando viajo, mas entende, acrescenta.
Para ela ser bem sucedida é resultado de um trabalho feito com dedicação e paixão. Quando a gente faz o que a gente gosta acaba conseguindo conciliar as coisas. Eu sempre sonhei com isso, em ser uma atleta conhecida. Batalhei para isso e me sinto bem fazendo o que eu gosto. Quando a gente faz o que gosta tudo dá certo.
Por enquanto, Ádria não pensa em se aposentar e se conseguir o índice, ela irá disputar as Paraolimpíadas de Pequim em 2008. Atualmente o seu maior problema é conseguir um patrocínio. O contrato do seu antigo patrocinador venceu no ano passado e segundo Ádria, isso é a única coisa que a desanima.
Esse ano eu tenho o Mundial Paraolímpico, já estou pensado em treinar bastante para me sair bem. Eu fico muito feliz quando eu me saio bem e tenho bons resultados. Eu consigo superar meus objetivos. No ano passado eu recebi várias premiações e destaques pelos meus resultados. Eu fico muito contente quando recebo esse tipo de reconhecimento. É isso que me dá força e me dá mais vontade de treinar, diz.
Com o meu reconhecimento eu posso mostrar para as mulheres, principalmente aquelas portadoras de deficiências visais, que a gente tem capacidade e condições de se superar, não só no esporte, mas também no trabalho. A mulher pode alcançar um espaço muito grande. Antes ela vivia dentro de casa. Hoje muitas mulheres deficientes praticam esporte e tem seus empregos, acrescenta a velocista.
O deficiente – Atualmente existem algumas associações esportivas para portadores de necessidades especiais. Os interessados devem procurar esse tipo de associação e conhecerem as modalidades existentes. Ádria aconselha as pessoas testarem as diferentes modalidades para ver em qual delas se identificam.
No nosso país existem muitas pessoas com preconceito. O trabalho de divulgação do esporte paraolímpico tem ajudado bastante. Mostra para as pessoas que o deficiente é capaz de fazer as coisas. Mesmo com algumas limitações são poucas as coisas que não conseguimos fazer. Tem pessoas que não sabem conviver com a diferença. Se você não tem um dedo, os outros já vão te olhar de uma maneira diferente. Essa é nossa cultura, desabafa. Mas se depender de Ádria dos Santos essa situação não existiria. São pessoas como ela que devem ser exemplos de determinação e realização no Brasil.
Este texto foi escrito por: Donata Lustosa