Corra maratona com saúde

Redação Webrun | Maratona · 20 fev, 2007

Algumas publicações geraram polêmica sobre alguns riscos da maratona. A revista Circulation, por exemplo, especializada em cardiologia, cujo estudo feito por especialistas do Hospital Geral de Massachussettes (EUA), constatou o aumento nos níveis de troponina em 40% dos atletas pesquisados após a maratona de Boston. A troponina é uma proteína indicadora de dano às células cardíacas.

É sabido que, diferente das provas de até 21km, onde a recuperação é relativamente rápida, após uma maratona normalmente ocorre um prejuízo das células musculares, devido ao longo tempo de atividade repetitiva (contrações e descontrações), que são submetidos os músculos e ao impacto de milhares de passadas. Mas com um bom programa de recuperação, que inclui repouso, alimentação e retorno gradativo, tudo volta ao normal após duas ou três semanas, estando o corredor apto para reiniciar seu programa de treinos, podendo considerar a possibilidade em uma outra prova longa dali a quatro ou cinco meses.

O aumento da troponina e seus danos cardiológicos, segundo um dos mais conceituados cardiologistas de esportes do Brasil, Dr. Nabil Ghorayeb, tem o significado incerto, por não significar obrigatoriamente uma lesão cardíaca irreversível. Além disso, atualmente, não há maior quantidade de doenças cardíacas em maratonistas do que na população em geral. Pelo contrário, os maratonistas têm menos risco de infarto do que os sedentários.

Também foi alertado pelo artigo da revista que seis pessoas morreram de infarto nos Estados Unidos em maratonas, que ocorreram no ano de 2006. Mas, convém citar que, estatisticamente, nos Estados Unidos acontece maratonas em quase todos os 52 finais de semana. No ano passado completaram a prova cerca de 382 mil corredores, contra seis ou sete maratonas anuais no Brasil que tiveram cerca de oito mil concluintes.

As americanos são na maioria pessoas obesas e de péssimos hábitos alimentares, que terminam maratonas com tempos altos, provavelmente resultado destes fatores, somando-se ao despreparo físico ou treinamento por conta própria.

É natural que, após anos de treino com participações em várias provas de 10km, 15km e meia maratona, o corredor desperte seu interesse pela nobre prova de 42.195 metros.

Trabalhando há 12 anos com a modalidade, me deparo com diversos casos de corredores que foram evoluindo nas distâncias até chegar na maratona. Foram muitas histórias, muitas horas estudos e planejamento, muitos treinos acompanhados lado a lado e muitos quilômetros percorridos pelos alunos. Tudo isso com a finalidade de preparar adequadamente o corredor, isto é, sem o comprometimento de sua saúde; muito pelo contrário, provocando muitas mudanças positivas em seu cotidiano e, conseqüentemente, melhorando a sua qualidade de vida.

Trabalhar com maratonistas amadores é uma de nossas grandes paixões, pois é sempre algo muito gratificante e inesquecível, poder servir de ponte entre o ser humano e seu grande sonho. Como diz uma bem sucedida campanha publicitária: “há coisas que o dinheiro não compra”.

Entretanto, para tornar este treinamento algo seguro e saudável, é necessário que o acompanhamento sempre seja feito o mais próximo possível por um profissional de Educação Física especializado na modalidade, sem se esquecer de um bom acompanhamento médico, antes, durante e depois dos treinamentos e da prova, e que diversos cuidados sejam tomados.

É preciso que sejam respeitados os intervalos corretos entre cada tipo de treino e prova, que sejam dosadas as distâncias, e que haja um planejamento muito minucioso sempre sujeito às respostas do corpo do corredor.

Outra coisa fundamental a ser considerada, é que nos esportes de longa distância, o organismo só consegue atingir dois ápices no condicionamento físico durante o ano (Weineck 2003), e que este ápice normalmente tem a duração de 15 a 45 dias (Dantas 1995), caindo a forma física após este período, sendo indispensável umas belas férias. É impossível estar 100% o tempo todo, o ideal é fazer no máximo duas maratonas por ano, dando um bom intervalo entre a recuperação, o reinicio dos treinos e a próxima prova.

Recentemente foi publicada uma outra matéria sobre maratona, desta vez em uma revista de corrida brasileira, onde o autor, que não é profissional da saúde, baseado em uma experiência pessoal, recomenda seus leitores a participar de duas maratonas, com intervalo de apenas uma semana. Segundo ele, isso vai contra os livros, revistas, sites e o que recomendam treinadores, fisiologistas e corredores experientes, citados por ele como “entendidos no assunto”, mas que são variáveis que mudam de pessoa para pessoa.

O autor baseou-se também, no fato do “super atleta” etíope Haile Gebreselassie, ter corrido três maratonas em 2006, sendo que da segunda para a terceira, teve um intervalo de 10 semanas. Ora, em primeiro lugar é necessário lembrar que o Haile, um dos melhores atletas de provas de fundo de todos os tempos, possui mais de 20 anos integralmente dedicados ao atletismo. Segundo a fisiologia do exercício, quanto mais treinado for o atleta, melhor e mais rápido é seu tempo de recuperação, mas isso não quer dizer que o fato dele ter corrido 2 maratonas com intervalo de 10 semanas entre elas, sirva de argumento par que nós, mortais, possamos fazer duas maratonas com intervalo de apenas 1 semana, sem colocar nossa saúde em risco.

Temos poucos maratonistas no país, se não tomarmos cuidado com este tipo de informação distorcida então…

Finalizando, gostaria de reforçar que se deve ficar muito crítico a inúmeras publicações a que somos submetidos pelos meios de comunicação. Deve-se alertar para os riscos e benefícios no treinamento para a maratona. Ingressar na distância por modismo, sem ter um bom lastro de provas mais curtas e não dar a devida importância ao tempo de recuperação entre uma prova e a outra, pode colocar em risco o seu maior patrimônio: sua saúde!

Bibliografia

– Weineck, J; Biologia do Esporte; Manole; 1991
– Weineck, J; Treinamento Ideal; Manole; 2003
– Dantas, Estélio H.M; A prática da Preparação Física; Shape; 1995
– Zakharov, Andrei; Ciência do Treinamento Desportivo; Palestra Sport 1992
– Moreira B. Sergio; Equacionando o Treinamento – A matemática das provas longas; Shape; 1996

Este texto foi escrito por: Prof. Nelson Evêncio

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