
Maratona de Curitiba: incentiva com bônus a quebra de recordes (foto: Harry Thomas Jr – WebRun)
A Maratona de Porto Alegre, possui um dos melhores e mais lindos percursos brasileiros da modalidade maratona, infelizmente, reuniu um número bastante reduzido de maratonistas em cadeira de rodas, os cadeirantes.
Esse fato tem uma explicação. Para variar o valor de premiação pago aos primeiros colocados, cadeirantes, não dá “nem para abater as despesas (hospedagem, transporte, alimentação) dos atletas que vem de outras cidades.
Teríamos uma excelente prova se a elite dos cadeirantes pudesse estar por aqui, pois a prova reúne quase todos os ingredientes para uma grande disputa. Beleza natural, poucas subidas (duas pequenas), asfalto em bom estado de conservação, percurso totalmente fechado, fiscalizado e policiado, povo hospitaleiro, condições climáticas, etc. Daí certamente se a premiação fosse um pouco mais digna, teria um grande contingente de corredores e uma disputa bastante interessante.
A mim, quer parecer que os organizadores de maratonas no Brasil tem a presença dos cadeirantes como um incoviniente, há algum tempo atrás eu acreditava que era por desinformação, mas depois de mais ou menos uns 20 anos de participação dos cadeirantes em provas pelo Brasil afora, tenho convicção de que somos rejeitados, também em algumas maratonas.
Vamos raciocinar seguindo os fatos.
- Existe apenas uma prova no Brasil que iguala a premiação entre cadeirantes e andantes? Sim apenas uma, em Porto Alegre, a Prova Rústica de 10km.
- Os vencedores cadeirantes em todas as maratonas do Brasil não usam número “01” de vencedor do ano anterior, que qualquer corredor sabe o peso que tem.
- É raro as provas nas quais recebem a coroa de louros.
- Em raríssimas provas recebem a premiação no pódium, uma vez que poucas provas existem rampas de acesso ao pódio, como se fossem somente os cadeirantes que necessitassem não subir escadas. Somente quem corre uma maratona – “andante” – sabe o quanto é importante não precisar subir uma escada no final da prova.
- As premiações são ridículas e não tem critério algum. Quando nos
inscrevemos nas provas nos classificam em “uma categoria” da maratona, mas quando chegamos, em virtude dos tempos, não somos mais parte das categorias da maratona e sim de uma prova a parte. Ora, se não somos parte da prova, que nos tratem assim também na premiação. - Posso estar enganado, mas não existe nenhuma prova no Brasil que pague um prêmio significativo, na casa de apenas, digamos, R$1.500,00.
- Somente a Maratona Ecológica de Curitiba incentiva a quebra de recorde. Raríssimas provas têm os resultados de cadeirantes de anos anteriores.
- Custo de equipamento: cadeira de rodas de corrida U$ 5.000 (cinco mil dólares). Camiseta, calção e tênis especial para corrida, no máximo R$ 400,00 (quatrocentos reais).
Eu poderia ficar a citar inúmeros outros “senãos” para acreditar que está aí um claro caso de discriminação, mas é melhor ficarmos por aqui.
A Maratona de Porto Alegre que aconteceu no último domingo, dia 30, tem uma receita, de patrocinadores de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) e o prêmio pago para cadeirantes é de R$ 400,00.
Olha, vai precisar descer Jesus Cristo na terra para me fazer crer que eles não poderiam melhorar o prêmio para os primeiros colocados e assim é em várias outras provas.
Uma mostra de como é ser grande é a Maratona de Boston, que pagou quase U$ 100.000 (cem mil dólares) para o Ernest Van Dick pela vitória e quebra do recorde nesse ano. Pergunto. Quem de vocês sabe de alguma prova onde a organização “convida” algum atleta por ele ser de elite como acontece com corredores “andantes” ?!
Eu gostaria de saber se o Poder Público, mais especificamente, as Prefeituras, qual o posicionamento sobre isso, pois as maratonas são eventos das cidades e na esmagadora maioria, criadas por leis orgânicas. As pessoas se apropriam das provas e ganham muito dinheiro e prestígio com elas, está na hora de começarmos a conhecer a opinião das Secretarias de Esportes locais.
Na semana que passou, me reuni com o Paulo Silva, Diretor Geral da Maratona de Porto Alegre, com o Secretário Municipal de Esportes de Porto Alegre, Gilmar Tondim, Professor Luiz Borher e o Sr. Luis Fernando Jardim pres. do Clube Gaúcho de Desportos em Cadeira de Rodas, para firmarmos um acordo de que para o ano de 2005 os cadeirantes sejam chamados à mesa de negociação e convidados para as reuniões de trabalho, no intuito de construir uma política de inclusão, também para os cadeirantes.
Bom exemplo a ser seguido pelos organizadores de maratonas no Brasil, principalmente por aqueles que ainda tem o pensamento retrogrado de que os cadeirantes são um estorvo.
Ainda há de aparecerem mentes abertas e brilhantes que entendam que os cadeirantes correm em cadeiras de rodas, tão e somente, porque não tem condições de usarem as pernas para esse fim e que já superaram inúmeros obstáculos impostos pelas barreiras arquitetônicas, falta de ônibus adaptados pare freqüentarem escolas, escadarias em teatros, escadarias em prédios públicos etc. a discriminação em algumas provas de maratona e ainda assim treinam e têm vibração suficiente para tentar passar por cima de tudo isso, tão e somente em detrimento do esporte.
Não vamos nem falar em valores estratosféricos, para nós brasileiros das cadeiras e equipamentos necessários para a prática do desporto adaptado.
A propósito, por quê será que o Comitê Paraolímpico Brasileiro não estará levando nenhum maratonista para a Paraolimpíada de Atenas na Grécia em 2004. Será que o Comitê pode responder?
Este texto foi escrito por: Carlos Roberto Oliveira