Por que a corrida em grupo pode ser o remédio invisível para ansiedade e depressão?

Elizama Modesto | Bem Estar · 15 out, 2025

Tem dias que você acorda sem vontade de nada, com aquele peso no peito, a cabeça cheia, a ansiedade batendo na porta. E aí alguém te chama para correr junto. Parece bobagem, mas não é. Correr acompanhado pode ser exatamente o que você precisa para sair do lugar. 

“O fato é que a atividade física é um importante agente de impacto no humor e na redução de ansiedade, que é uma das coisas que mais influencia no estado emocional como um todo, já é bastante claro sobre diversos estudos e metanálise”, explica o Dr. Henrique Bottura, psiquiatra e presidente do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP).

Foto: Adobe Stock

A atividade física realizada em grupo pode trazer ainda mais bem-estar do que a prática individual. “A questão da atividade em grupo tem alguns outros componentes que complementam o impacto que a atividade física por si já traz. Por exemplo, o apoio social. As pessoas se sentem motivadas de estarem com outras pessoas juntas, conversando, interagindo, criando uma espécie de atividade de um grupo”, diz o médico.

O desafio de dar o primeiro passo

É aquela história de sozinho você desiste fácil; acompanhado, você continua.”Nós, seres humanos, somos seres sociais, nós precisamos de interação social e isso também contribui para não só o bem-estar, mas também para o engajamento, para a manutenção do engajamento na atividade física”.

Se você tem ansiedade ou depressão, começar qualquer coisa parece impossível. “Normalmente, as pessoas que têm depressão e ansiedade têm uma barreira inicial do movimento maior para vencer. Tendo em vista que na depressão a vontade, o ânimo, a energia estão diminuídos, a gente precisa de um start para começar a fazer algum movimento”, ressalta Bottura.

Sabe aquela sensação de estar preso? Ele explica: “Assim como a pessoa ansiosa, ela acaba supervalorizando os motivos, as preocupações que a distanciam de iniciar uma atividade física. Às vezes a gente fica esperando que a vontade venha, que a disposição venha, que esteja pronto para começar a fazer algo. Mas a verdade é que a gente precisa iniciar primeiro”. 

Primeiro você age. Depois a vontade aparece. Não o contrário. “De maneira lenta e gradual, com pequenas atividades, não sendo atividades muito intensas logo de início, mas com constância”, orienta o psiquiatra. 

Segundo o Dr. Henrique, a sequência é a chave, conforme o corpo vai fazendo dia após dia, criando sequências de repetições, um circuito interno vai sendo criado, e assim o caminho para repetir no próximo dia, tende a ser mais fácil. Cada vez que você faz, torna a tarefa mais simples para sua mente. “Então, é importante ter uma mentalidade mais preparada para iniciar. É necessário começar e não dar muito crédito para as barreiras que impedem de começar”. 

O recado é claro: não negocie com a preguiça. Vá. Mesmo para quem sofre de ansiedade ou depressão, o conselho do médico é: “Saiba que no início é difícil, dá vontade de desistir, dá vontade de parar. No entanto, depois de algum tempo, isso varia de pessoa para pessoa, acaba-se que o comportamento novo, o hábito novo se sedimenta e é hora de colher todos os benefícios do comportamento”. 

O poder da companhia

Por isso, correr sozinho já é ótimo, mas correr com alguém ou em grupo é melhor ainda. “O correr acompanhado tem esse perfil de criar uma conexão, aumentar a assiduidade, estabelecer uma espécie de competição, que é uma competição positiva, em que um puxa o outro”, explica o Dr. Henrique. “Cria-se uma responsabilidade. Um tem que correr porque o outro vai correr e o outro vai por causa do um. As pessoas juntas também trocam informações e experiências, uma motiva a outra”.

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Além disso, cria-se uma sinergia de bem-estar e pertencimento. “A questão de formação de grupo, de fazer parte de um time, um grupo de pessoas que estão focadas em atividades que melhoram a saúde como um todo”.

Comece devagar, mas comece

Comece com 10 minutos, com uma volta no quarteirão, com uma caminhada rápida. Chame alguém, um amigo, um vizinho, entre em um grupo de corrida da sua cidade. No início vai ser chato, vai dar preguiça, pode ser que você queira desistir, mas vá assim mesmo. Depois de algumas semanas, você vai perceber que ficou mais leve. Que dormiu melhor. Que a ansiedade diminuiu e vai querer ir de novo, porque, no fundo, a gente não precisa só de endorfina, a gente precisa de gente também.

Elizama Modesto

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Jornalista por formação e apaixonada por contar boas histórias.