A Nova Fronteira do Trail Running e a Sombra do Doping

Blog do Harry | Trail Running · 12 set, 2025

Por um tempo, celebramos a crescente presença de corredores da raça negra, em especial atletas de origem africana, nas provas de trail running de classe mundial. Não estamos falando dos afro-americanos, que dominam as pistas de velocidade, mas sim dos talentos que emergem do Quênia e da Etiópia, potências do atletismo de resistência.

É claro que o trail já teve grandes estrelas africanas, mas tradicionalmente do norte do continente, como os lendários marroquinos que fizeram história. A novidade tem sido a ascensão de atletas do leste africano, que começaram a disputar e vencer com frequência no exigente circuito Golden Trail World Series (GTWS).

Entre esses nomes, destacava-se a queniana Joyline Chepngero. Ela vinha impressionando o mundo do trail, com uma vitória contundente nos 50K da OCC, uma das provas emblemáticas da UTMB. Seu ápice, porém, parece ter sido a conquista da lendária e dura prova suíça Sierre-Zinal, em sua 52ª edição.

Foto: Adobe Stock

No entanto, a vitória na Suíça foi ofuscada por uma realidade triste e recorrente no atletismo. Após a prova, Chepngero foi selecionada para o teste antidoping. O resultado, divulgado pela Agência Mundial Antidoping (WADA), foi adverso, levando à suspensão da atleta por dois anos, a partir de 9 de setembro. Todos os seus resultados a partir de 8 de agosto de 2025 foram anulados.

A reação da organização da Sierre-Zinal, porém, foi o que mais chocou o meio esportivo. Indo muito além da suspensão, a organização foi implacável: baniu a atleta, seu treinador e toda a sua equipe vitaliciamente da prova. Além disso, exigiu a devolução de todos os custos referentes a cache, hospedagem e alimentação durante o evento. Uma medida dura, que pode marcar um novo e rigoroso capítulo no combate ao doping no trail.

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Com a desclassificação, a vice-campeã, sua compatriota Caroline Kimutai, herdou a vitória. Infelizmente, este caso joga um holofote sobre um problema profundo. De acordo com a Athletics Integrity Unit (AIU), há atualmente 82 atletas quenianos banidos por violações de doping. O número é alarmante: desde 2015, aproximadamente 270 quenianos foram suspensos. A lista inclui até grandes estrelas, como a maratonista mundial Ruth Chepngetich, recordista mundial da maratona, atualmente suspensa de forma provisória por uso de uma substância mascarante.

Este caso vai muito além de uma única atleta. Ele nos faz refletir sobre a pressão por resultados, a estrutura por trás dos atletas e a importância vital da limpeza no esporte para preservar a essência do trail running: a superação honesta e o respeito pela montanha.

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Harry Thomas Jr. participa de competições desde 1994 e é jornalista especializado em running desde 1999. Co-fundador do Webrun deixou o portal em 2010 e retornou em 2024 com o "Blog do Harry". Apresentador do canal Grit Run (www.youtube.com/@gritrunning) onde entrevista os principais personagens do mundo da corrida de rua do Brasil, é autor dos livros de corrida: "Book do Harry: 25 Anos de Histórias de Running. Do Espeto ao Algoritmo" e "Dicas & Macetes que Todo Corredor Precisa Saber". É finisher de 33x42k (2h58) 56x21k (1h26) 9XUltratrail, disputadas em países como Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos e Japão.