Ultramaratonista Elisete Pereira relata prova de 100 km

Redação Webrun | Ultra Maratona · 03 nov, 2006

Emoção na chegada após completar a prova (foto: Arquivo Pessoal/ Elisete Pereira)
Emoção na chegada após completar a prova (foto: Arquivo Pessoal/ Elisete Pereira)

A ultramaratonista Elisete Pereira participou de uma competição de 100 km em San Miguel del Monte, Argentina, em setembro desse ano e conta como foi o desafio. Aos 44 anos de idade, ela não se cansa de correr e já está planejando a próxima competição. Confira.

São Paulo – Embarquei em Curitiba em 31 de agosto às 23h50, com um pouco de atraso no vôo, com destino a Buenos Aires. Levei minha filha para me apoiar durante a competição e também para ser minha tradutora.

Desembarcamos em Buenos Aires por volta das 2h40 e lá estava à nossa espera o Sr. Daniel, o motorista, para nos levar a San Miguel del Monte, local da competição, que fica a 120 km do aeroporto de Ezeiz.

O Sr. Daniel conduzia o táxi numa velocidade razoável, pois não havia quase tráfego naquele horário e passamos por quatro praças de pedágios em 120 quilômetros, nada muito diferente do Brasil. No caminho ficava imaginando que teria que correr quase aquela distância, mas não seria a primeira vez que enfrentaria 100 km e com certeza eu daria conta!

Levamos 1h15m para chegar ao Hotel Águas del Monte, construído de frente para a Laguna del Monte, por onde teríamos que percorrer as nove voltas de 11 km. Às 4h e alguns minutos deitamos para descansar, sem antes pagar alguns “micos”. As torneiras do chuveiro não funcionavam e, como já havia solicitado a presença de um funcionário e não havia resolvido, optamos por simplesmente escovar os dentes e deixar o banho para mais tarde.

A água da escovação ficou boiando dentro da pia e pensei comigo mesmo: “que coisa esquisita”, mas não falei isso ao funcionário, pois segundo minha filha, “esquisito” quer dizer “gostoso” em espanhol. Dormimos até as 9h40 e, mais uma vez, começamos a “peleia”, pois a água não descia da pia e as torneiras quente e fria do chuveiro não funcionavam.

Problemas resolvidos – Um dos rapazes do hotel colocou a mão na pia e tirou o tampo e uma outra funcionária abriu o registro e resolveu o problema das torneiras. Fiquei sem graça, mas também, tapar a pia foi uma idéia de girico. Na verdade, tudo funcionava muito bem, nós é que não estávamos acostumadas com aquele conforto.

O bacio dava um show, a água que saía da descarga era quente e subia um vapor fenomenal, que dava vontade de sentar e ficar lá de poupança quente. Nesta cidade todos têm seu sistema de calefação devido ao frio intenso, gostaria que aqui em Curitiba e outras cidades mais frias do Brasil tivesse o mesmo sistema de aquecimento.

Por volta das 10h30 fomos tomar café e encontramos com alguns atletas argentinos e dois brasileiros, Antônio José de Souza e Júlio C. Latini, este último havia corrido também na edição de 2005. Às 11h30 fomos passear na área central de San Miguel del Monte, onde tiramos fotos antes de voltar para o hotel e descansar.

Lá fora começara um vento frio e barulhento e muita chuva. Às 21h foi servido o jantar aos participantes, logo após uma reunião técnica, na qual foram passadas todas as informações sobre as competições de 50km e 100km.

Deitei tarde e fiquei imaginando como seria o dia da competição, já que o temporal continuava e o vento até cantava lá fora. Separei algumas prováveis roupas para usar e aprontei a mochila com o que usaria durante a competição.

Esta noite foi curta, pois quase não dormi de tão preocupada com o temporal e às 5h15m tocou o despertador. Troquei de roupa e fui para o café, onde encontrei os outros atletas animados, mesmo com a chuva e o vento que continuavam.

Os organizadores estavam concentrados neste mesmo hotel e avisaram que a competição atrasaria uma hora (começaria às 7h30), devido às más condições climáticas e com o objetivo de preservar a segurança dos participantes. Pegamos uma carona até o local de concentração, o Clube de Pesca e, ao chegar, ficamos abrigados no banheiro, porque do lado de fora o frio era intenso.

A largada – A chuva adivinhou que não era bem vinda e foi embora, mas o vento continuava assobiando e trazendo o frio, que permaneceu durante todos os 100 km da prova. Às 7h38 foi dada a largada e os primeiros quilômetros quase me mataram, pois além do chão molhado, o frio e o vento contra me obrigavam a redobrar as forças para seguir em frente.

A partir da segunda volta comecei a me acostumar, na terceira nos misturamos com os corredores dos 50km que largaram mais tarde e na quarta e quintas voltas ia numa passada curta e continua. Um amigo brasileiro que corria com mais dois compatriotas passou por mim e perguntou brincando:

“É nessa passada que você corre em Curitiba Elisete?” Eu respondi que sim e disse a ele para seguir seu ritmo, eu continuei devagar, sempre naquela passada, pois sabia do meu limite. Já na sexta volta comecei a trabalhar as pernas, a respiração e muita mentalização, pois o cansaço já estava se instalando no corpo. Parei para fazer massagem com Daniel Lopes e continuei.

Fadiga – Na sétima volta, nada diferente, fiz massagem novamente e segui correndo e durante todas as voltas me servia de sopa instantânea para equilibrar o sal e o açúcar do organismo. Na oitava volta eu estava sozinha no caminho, já estava escurecendo e eu tinha que cruzar com o tempo limite de 12h57 para poder seguir na nova volta.

Nessa hora o bicho pegou! Nos primeiros quilômetros dessa volta apareceu o atleta Júlio C. Latini, que pegou uma bicicleta no hotel e resolveu me acompanhar para oferecer maior segurança, já que não havia ninguém da organização para me auxiliar. Júlio me passava as coordenadas e monitorava meu tempo para garantir o limite de 12h57.

Não sei de onde achei forças, mas consegui fechar com quatro minutos antes do limite e parti muito feliz para a nona volta. Julio foi autorizado pelos organizadores a me acompanhar por motivo de segurança, o que me deixou aliviada, pois ainda tinha duas horas para fechar a última volta de 11km. Entre os quilômetros 95 e 96 eu estava fazendo uns cinco a seis metros por km e seguia firme correndo. Júlio tirou a sua Jaqueta e me passou, porque o frio seria fatal a partir daquele momento e eu poderia não completar.

A partir do quilômetro 96 surgiram alguns carros iluminando o meu caminho e mais à frente outros carros iluminando o caminho dos outros atletas. Estes conseguiram abrir alguns quilômetros, mas eu soube depois que um deles estava atrás de mim, pegou carona e chegou antes. A organização nem ficou sabendo do acontecido, mas acho que tudo é uma questão de consciência e atitude de cada atleta.

Imaginem que, além de ter que correr nove vezes ao redor da linda lagoa, naquelas condições, ainda tinha que passar nove vezes em frente ao hotel onde estava hospedada. A vontade era grande,de me enveredar para lá e desistir.

Porém, continuei, dessa vez nem olhei para o hotel e segui. Enfim cheguei no marco zero, que marcava os 99 km e um dos organizadores estava me esperando para indicar o derradeiro último quilômetro. Na entrada da rua que dava para o pórtico ouvi a torcida organizada: Elisete, fuerza! Brasilie! Na chegada vi o meu amigo Júlio mais emocionado que eu e chorando de alegria.

Enfim consegui completar os 100 km, mas se eu não tivesse acabado penso que seria linchada pela torcida e pelo Júlio que fez um enorme esforço para que eu chegasse. Tenho que agradecer à Luciana, minha filha e o incentivo da minha amiga Ana Maria Queiroz, corredora dos 50 km, que abandonou a prova devido às más condições climáticas e optou por dar apoio aos corredores brasileiros.

Estávamos em oito representantes do Brasil nessa prova, dos quais cinco conseguiram completar, dois abandonaram a prova e uma desistiu na corrida paralela de 50 km. Deu dobradinha brasileira na chegada, pois o vencedor foi Antônio José de Souza no masculino e eu fechei a prova com muito orgulho, afinal, foi dureza completar os 100 km naquelas condições.

Pós-prova – Após receber minha medalha no pórtico de chegada, de ser fotografada, juntei meus pertences e pegamos uma carona de volta ao hotel, onde tomei um banho demorado, pois minhas pernas estavam bastante doloridas. Jantamos, assistimos ao vídeo das competições de 50km e 100 km e a premiação.

Meia noite e meia: subi para o quarto com muita dificuldade, pois não havia elevador, arrumei as malas e dormi das 2h ás 03h15, quando tocou o despertador. Acertei as contas do hotel e às 3h30 o motorista chegou para nos levar até ao aeroporto. O embarque foi às 7h e chegamos em Curitiba às 13h15.

Já estou planejando minha próxima prova de ultra, se Deus quiser será na Corrida de 24 Horas de Puerto Madryn, em dezembro desse ano.

Este texto foi escrito por: Webrun

 

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