
Cordeiro recebe medalha de prata no Canadá (foto: Divulgação)
Sergio Cordeiro está perto da vitória do Circuito Mundial de Ultratriathlon. Se vencer mais algumas etapas ele será o primeiro latino a conquistar o mundial. Aos 51 anos, ele já participou de provas como a Maratona do Everest e a Ultramaratona do Vale da Morte. Conheça esse brasileiro que treina mais de 10 horas por dia.
São Paulo – No meio da multidão Sérgio Cordeiro não se destaca dos demais. Moreno com 1,65 de altura e 62 quilos, ele é apenas um cidadão brasileiro. Mas basta vestir uma roupa esportiva e Cordeiro se transforma num super atleta, ou melhor, num ultraman.
Com 51 anos, ele é o atual líder do International Ultra Triathlon Association e para se tornar campeão do Circuito Mundial de Ultratriathlon restam apenas três etapas. Se Cordeiro conseguir o feito será o primeiro atleta latino-americano a vencer o mundial. Um excelente título para quem não tem limite.
Eu gosto de competir provas de longa distância porque sempre encontro novos desafios. Claro que na busca da superação a gente tem que fazer a coisa consciente e respeitar o corpo. Mas o meu limite por enquanto é Deus, conta Cordeiro.
O Início – Cordeiro começou a correr aos 29 anos incentivado pela empresa que trabalhava. A sua primeira vitória aconteceu em uma prova de bairro no Rio de Janeiro, na qual ele não lembra a distância.
Na primeira prova que eu ganhei aconteceu um fato curioso. Quando cheguei em primeiro lugar as pessoas vieram me perguntar se eu era corredor profissional. Eu disse que não e todos afirmaram que eu poderia ser um atleta profissional. Aquilo me motivou muito, revela o atleta.
A motivação foi tanta que ele não parou mais. Hoje Cordeiro é dono de títulos como o bicampeonato da Volta de Florianópolis, medalha de prata e bronze do Ultraman do Canadá, além de campeão de duas etapas do Double Iron Triathlon, uma nos Estados Unidos e outra no Equador.
Os Extremos – Acostumado a percorrer longas distâncias em lugares inóspitos, ele já participou de duas prova que diz ser os extremos do mundo. A primeira foi a Maratona do Monte Everest. Como o próprio nome diz a prova acontece no Himalaia, próximo ao Everest em meio à neve e temperaturas baixas.
Numa caminhada de 22 dias para aclimatação, os participantes da maratona sobem até o acampamento base, que fica a mais de cinco mil metros de altitude. Lá acontece a largada que não tem uma distância exata.
Essa prova marcou muito a minha vida. Foi uma corrida de risco por causa da altitude, além do frio. A gente subiu até o acampamento base e de lá passaram o nome da cidadezinha que era a chegada. Não tinha marcação de percurso. Cada corredor tinha que achar o seu próprio caminho, conta o brasileiro que completou a Maratona do Everest em sétimo lugar no tempo de 5h50min.
No ano de 2003 Cordeiro resolveu participar de uma prova um pouco mais quente, a Ultramaratona do Vale da Morte. Essa corrida acontece nos Estados Unidos a baixo do nível do mar. São 216km de prova numa temperatura média de 60 graus celsius.
Nessa prova eu pensei que ia morrer seco. O calor era muito intenso. Lembro de um episódio no Vale da Morte em que o meu staff demorou alguns minutos para chegar e me dar água. Esses minutos, que eu não sei se foram 30 segundos ou cinco minutos, pareceram uma eternidade. Essa prova foi difícil para controlar o meu emocional. Cordeiro garantiu a 11ª posição da prova e se tornou o primeiro latino a completar a Ultramaratona do Vale da Morte.
Treino – Como treinar para uma prova com condição tão adversa como o calor e o frio? Indagado, ele respondeu que no Brasil isso não é possível. Para Cordeiro o treinamento é uma pré-preparação. O ultramaratonista só descobre as condições de clima e percurso quando chega no local da prova, conta. Por isso ele se preocupa com as distâncias e busca sempre fazer simulados.
No dia da entrevista para o Webrun, Cordeiro havia feito um treino em que pedalou 270km e correu mais 30km. Em média ele treina de 10 a 15 horas por dia sempre exercitando as três modalidades: natação, bicicleta e corrida.
Alimentação na Prova – Durante treinos e provas de longa distância o atleta precisa ter uma alimentação balanceada e adequada. Cordeiro participa de competições que demoram 24 horas para acabar e nessas provas o corpo requer muita energia.
Por isso ele não dispensa água e isotônico durante as competições. Além disso, ele consome carboidrato em pó e barra energética. Mas para Cordeiro tem horas que é necessário ter a sensação de comer e mastigar. Em provas que duram um dia, por exemplo, tem hora que eu não agüento mais comer barra energética. Dá vontade de jogar aquilo longe. Nesses momentos em que preciso comer algo, prefiro as bisnaguinhas com pasta natural ou banana passa, revela.
Uma dica de alimentação para provas longas é o macarrão instantâneo de copo. Imagina correr um dia inteiro sem parar. Chega de madrugada o seu rendimento cai. Dá um desanimo e você fica fraco. Quando isso acontece comigo, eu como o famoso sopão da madrugada. Aquele macarrão é bom para comer porque desmancha na boca. Além disso, tem um caldinho quente que revigora o atleta.
Calçado – Depois de 24 horas numa prova os acessórios, como o tênis, ficam desconfortáveis. Por isso, em algumas competições, ele prefere correr descalço. Segundo Cordeiro, o seu treinador fica louco quando isso acontece.
Se no meio da prova o tênis começar a me machucar eu tiro e vou a luta. Essa é a minha profissão. Para quem começou a correr com um Conga que dava bolha, correr descalço não é ruim. O seu pé acaba se acostumando. Quando eu tiro o tênis me sinto livre, fala.
Próximas provas – A próxima competição de Cordeiro é o Double Iron Triathlon nos dias 27 e 28 de agosto. A prova é uma das etapas do Mundial e acontecerá em Panevezys, Lituânia. O brasileiro enfrentará 7,6km de natação, 360km de bike e para finalizar 84km de corrida.
Em novembro ele disputa a última etapa do Mundial no México. A competição será um quíntuplo iron triathlon, ou seja, 19km de natação, 900km de ciclismo e 211km de corrida. Se vencer essa etapa Cordeiro será o primeiro latino a conquistar o mundial.
Os organizadores da prova estão loucos porque eu sou o líder do ranking. Até agora só europeu vencia. Imagina a cara dos gringos quando ver um brasileiro campeão?, se diverte o brasileiro. Cordeiro acredita que por causa de um certo preconceito dos organizadores eles ainda não enviaram o prêmio da última etapa do mundial na qual venceu.
Currículo de um campeão –
– Campeão do Double Triathlon etapas Virginia e Quito (95 e 98)
– Prata (94), bronze (95 e 98), 4º lugar (2002) e 5º lugar (97) do Mundial Ultraman do Havaí
– 11º na Ultramaratona do Vale da Morte (2003)
– Bicampeão da Volta da Ilha de Florianópolis (2000 e 2003)
– Prata (99), bronze (95) no Mundial de Ultramaratona do Canadá
Este texto foi escrito por: Donata Lustosa