Paulo de Almeida se impressiona com a Comrades

Redação Webrun | Ultra Maratona · 02 jul, 2007

Paulo finalizou a prova pulando de um pé só (foto: Arquivo Pessoal)
Paulo finalizou a prova pulando de um pé só (foto: Arquivo Pessoal)

Paulo de Almeida, atleta amputado de uma perna, participou da Comrades, tradicional competição de 90 quilômetros pelas montanhas da África do Sul e diz que ficou impressionado com o nível de dificuldade. “É uma prova que eu não aconselho ninguém a fazer, pois abusa muito do corpo”, ressalta. Ele competiu de igual para igual com os atletas não deficientes, já que o evento não possui categoria especial e se tornou o primeiro atleta deficiente a completar a prova.

São Paulo – Os problemas começaram já no dia anterior à prova, pois a ansiedade era tanta que ele e seu colega de quarto não conseguiam pregar o olho, apenas ficavam pensando no desafio do dia seguinte. “Nós ficávamos rindo e dizendo que ‘o bicho ia pegar’. Tomamos chá de erva cidreira, dramin (medicamento contra enjôo que provoca sonolência), mas não conseguíamos dormir”.

Mesmo após ter passado a noite em claro e acordado à 1h para tomar o café da manhã do hotel e se dirigir para o local da prova, ele competiu relativamente descansado. Isso porque ele chegou à África com cinco dias de antecedência, os quais aproveitou para dormir quase o dia inteiro.

A prova – A largada da prova foi às 5h30 (hora local) sob uma temperatura de 3ºC, clima que segundo Paulo engana muitos corredores, que imaginavam que o sol já estaria quente e não se agasalhavam direito. Em anos pares a prova acontece com predominância de descidas, em anos ímpares de subidas, mas não foi bem isso que o paraatleta enfrentou.

“Tive muita dificuldade nas subidas longas, onde tive que caminhar. A cada 30 quilômetros, quando a prótese começava a machucar o toco do meu joelho, eu trocava por uma de sistema diferente”. Porém, durante uma dessas trocas o carro de apoio não conseguiu chegar até onde ele estava e, preocupado, ele começou a perguntar para os outros brasileiros se sabiam do paradeiro de seu staff de apoio. “De repente uma pessoa da organização disse que o carro estava a uns oito quilômetros à frente e eu tive que agüentar um pouco mais”, conta.

Depois do susto com a prótese o corredor que tem o apoio da ADD (Associação Desportiva para Deficientes) se deparou com mais um obstáculo: os saquinhos de água no chão. “A organização distribui a água em saquinhos plásticos e eu escorreguei em um desses, caí e meu joelho começou a sangrar”, lembra. “Eu não conseguia entender o que os médicos diziam e depois que fui atendido saí correndo e as pessoas me mandavam esperar”. Com essa parada ele perdeu cerca de 30 minutos e, de acordo com o regulamento os atletas tem no máximo 12 horas para completar o percurso.

Paulo já correu 28 maratonas e participou de diversas ultramaratonas fora do país, mas a competição africana ficará para sempre na memória dele. “É fácil fazer uma ultra de 24 horas, pois podemos parar, comer, fazer massagem e ganha quem fizer mais quilometragem. Na Comrades corre-se contra o relógio e a organização é bem rigorosa”. A chegada da competição acontece dentro de um estádio, mas segundo ele, entrar no local não significa completar.

“É necessário passar embaixo do relógio que fica a uns 300 metros da entrada do estádio. Acho que ficam com a mão na tomada e desligam na hora em que marca 12 horas”, brinca. Para ele foi muito triste ver as pessoas dentro do estádio não conseguirem a medalha. “Teve um brasileiro que desistiu faltando cinco minutos”.

Paulo de Almeida já havia competido a Comrades em 2001, ocasião em que ele tinha como objetivo fazer um bom tempo, ao contrário desse ano em que ele pretendia apenas terminar dentro das 12 horas. “Quando cheguei no quilômetro 82, que foi onde parei da outra vez, vi que ainda faltavam duas horas e me deu uma felicidade muito grande. Eu sabia que ia terminar e comecei a chorar muito”.

Treinamento – Para conseguir o feito de completar a prova com a prótese, ele se dedicou seis meses ao treinamento, fez longões na Rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo, competiu nas montanhas da Califórnia, mas mesmo assim sofreu muito. “Competi, pois eu estava devendo para mim mesmo, eu estava preparado para parar caso meu corpo não agüentasse, mas não sei se todos tem essa consciência. Eu vi muitas cenas que me abalaram. Fazer só por fazer, só para dizer que correu 90 km, não aconselho”, ressalta emocionado.

Como dessa vez ele se concentrou em competir segurando o ritmo, pôde acompanhar melhor as cenas ao seu redor, muitas das quais o deixaram um tanto quanto surpreso. “Vi pessoas caírem na minha frente, levantarem e correrem de novo e outros que estavam passando mal, mas continuavam a correr. Eu não sabia que o esporte tinha isso”, comenta. “Fora isso a prova é bem organizada, com boa estrutura de médicos, água e massagens. Já fiz várias provas internacionais, como Chicago e Nova York, mas a Comrades ganha em organização”.

Apesar de todos os choques e problemas, ele teve a felicidade de completar e cruzou a linha de chegada após 10h57min03 com a prótese na mão e pulando com um pé só. “Antes da prova brinquei com um amigo que ia correr num pé só, então tirei a prótese perto da chegada e ficava mostrando para a torcida”. Para ressaltar ainda mais a conquista, ele já mandou fazer um quadro com a medalha. “Ela é do tamanho de uma moeda de 50 centavos e representa para mim o ouro na paraolimpíada”.

Um dos fatores que o ajudou a enfrentar as adversidades e chegar inteiro ao final foi a torcida, que durante todo o trajeto o incentivou. “Para eles corrida é igual a futebol para nós, eles adoram. Quando viam que eu era brasileiro eles vibravam ainda mais”, lembra.

Apesar de ficar contente por ter completado sem grandes incidentes, ele se diz triste pelo que viu acontecer com alguns amigos. “Ainda estou abalado pelo que aconteceu com algumas pessoas”. Esse ano os organizadores anunciaram duas mortes durante a competição, uma do estreante sul africano de 34 anos Michael Gordon e outra do americano Willem Malapi, que já havia completado 14 Comrades.

“Essa é uma prova desumana, é colocar a vida em risco. Acho que fazer maratonas já é o máximo para o corpo do Homem”, alerta o paraatleta treinado pelo professor Branca. “Acho que não sou um bom marketing para essa prova”, brinca. “As pessoas devem competir sabendo dos riscos”, completa.

Após um período de descanso ele fará uma meia maratona em San Diego, Califórnia (EUA), depois fará o Meio Ironman da cidade em 28 de outubro, além da maratona de Nova York dia quatro de novembro. “Ano que vem quero fazer o Ironman de Florianópolis (SC), que é um sonho que tenho e é uma prova que falta no meu currículo”.

Este texto foi escrito por: Alexandre Koda

Redação Webrun

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