O álcool pode estar destruindo seus resultados na corrida

Elizama Modesto | Saúde · 31 mar, 2026

Você tem a sensação de alívio quando o treino termina? Você descansa, mas o seu corpo não. Assim que o esforço para, começa um trabalho interno: controlar inflamações, repor o glicogênio que foi todo embora e recuperar os líquidos perdidos. É por isso que a janela pós-treino é tão importante e que o que entra no seu corpo nesse momento faz diferença real.

O álcool basicamente entra nesse mecanismo e atrapalha tudo. “O álcool interfere prejudicando praticamente todos esses processos. Ele reduz a síntese de proteína muscular, especialmente em doses moderadas a altas, o que atrasa o reparo daquelas microlesões que o treino causa. Tem efeito diurético também, então você perde mais líquido do que deveria justo quando mais precisa se reidratar.” Explica Eleonora Galvão, nutricionista do Instituto Nutrindo Ideais.

Foto: Adobe Stock

Eleonara reforça que o álcool pode bagunçar a reposição de glicogênio, tanto pelo metabolismo quanto porque ele mexe com o apetite e com a qualidade do que você come depois. O resultado prático? Recuperação mais lenta. E aquela sensação de estar destruído no dia seguinte? Faz todo sentido.

A performance não cai de uma hora pra outra. Mas a evolução fica mais lenta. Segundo a nutricionista, “o consumo de álcool leva a uma maior inflamação do organismo, pior qualidade do sono e menor consistência nos treinos.” Ou seja, o problema não é só bioquímico, é comportamental também. Sono ruim, treinos irregulares, recuperação incompleta. Tudo se acumula.

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“Tem o lado hormonal também. Em homens, o álcool pode reduzir os níveis de testosterona. Em mulheres, altera o equilíbrio hormonal. Nos dois casos, o impacto aparece na composição corporal, com menos músculo e mais gordura, e na capacidade de se recuperar entre os treinos.”

Existe uma “dose segura” de álcool para corredores?

A resposta direta: não existe. “Cada organismo se comporta de uma forma e terá uma resposta específica no metabolismo do álcool”, aponta a nutricionista. Tem gente que tem intolerância e já sente efeito com doses mínimas. Tem atleta recreativo que, com consumo esporádico e longe de treinos intensos, vai sentir pouca diferença. Mas se o seu objetivo é evoluir, seja em tempo, composição corporal ou rendimento, o álcool vira um competidor direto. Ele não te impede de chegar lá, mas torna o caminho bem mais longo.

Como o álcool interfere no sono?

Esse talvez seja o ponto mais subestimado da história toda. Pode até parecer que um drinque ajuda a relaxar e dormir. E de fato, a sonolência inicial aparece. Mas o que acontece depois é o problema. “Ele reduz o tempo em sono REM, nosso sono reparador, e fragmenta as fases mais profundas”, explica Eleonora. É justamente no sono profundo que o corpo libera hormônio do crescimento, aquele responsável por reparar músculo, regenerar tecido e consolidar as adaptações do treino. É durante a noite que ele age com mais força. Quando o sono é interrompido ou superficial, essa liberação cai.

O álcool ainda aumenta os despertares noturnos, altera a frequência cardíaca e prejudica a variabilidade cardíaca, um dos marcadores mais usados para medir qualidade de recuperação.

“Para o atleta, o sono é parte ativa do treinamento e recuperação. Comprometer o sono é comprometer a evolução nos treinos”, reforça a nutricionista. Não é exagero. É fisiologia.

Elizama Modesto

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Jornalista por formação e apaixonada por contar boas histórias.