
Acima brasileiros que concluíram a prova e abaixo Paulo Souza nos metros finais da competição (foto: Arquivo Pessoal)
Ela é a maior e mais tradicional ultramaratona do mundo, e uma das mais difíceis também.A prova existe desde 1921 e sempre é feita entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, todo o ano invertendo o percurso.Em um ano é down run, quando chega em Durban, que está no nível do mar, e no outro ano é up run, quando chega em Pietermartzburg, que está a 630 metros de altitude. O trajeto é todo cheio de subidas e decidas, sendo que as maiores e mais famosas montanhas por onde passa a prova são em número de 5 e são chamadas de The big five, uma alusão aos famosos The big five da África do Sul: Leão, Leopardo, Elefante, Rinoceronte e Búfalo.
Já a marcação de quilometragem, diferente de qualquer outra prova, é em contagem regressiva, o que traz um efeito psicológico positivo ou negativo dependendo do enfoque que você assume no seu intímo, no meu caso levei para o lado positivo, pois a minha primeira meta era concluir a meia Ultramaratona em 4h15m.
No dia 16/06/2003 deu-se a largada às 5h30min. da manhã ainda escuro, o que para mim era uma novidade; corri aguardando o dia clarear desejando que nesse momento já estivesse percorrido 21km .A cada 10km eu tomei um Power Gel e um BCAA , e desta forma conclui com muita determinação a meia Ultramaratona em 3h5915.( 44,5km). Daí para frente dei início a uma experiência nova, pois nunca havia percorrido nenhuma distância superior a uma maratona.
Porém havia um fato que poderia ser positivo ou negativo ao meu favor, pois a vinte dias havia feito o Ironman Brasil Telecom, tenho certeza agora que este fato foi positivo. No quilômetro 60 percebi em meu tênis uma enorme mancha de sangue a qual me obrigou a parar, e utilizar um Compeed ( pele artificial) , o que tornou possível dar continuidade.
No quilômetro 80 eu comecei a vislumbrar a possibilidade obter a cobiçada medalha de prata/bronze,continuando a corrida superando todas as dores que sentia em meu corpo com exceção dos olhos e cabelos. Faltando 4km para o final da prova voltei a correr como no início, a 5min/km, pois estava avistando o Estádio da gloriosa chegada.
Em vários momentos no decorrer da prova a emoção tomava conta do meu ser, pela vibração e incentivo dos expectadores, ao me ver passar com as cores da bandeira brasileira, sempre expressando aos gritos Brasil, Brasil, Ronaldinho, Pelé, o que me dava a certeza do bem que fazem a todos nós brasileiros os verdadeiros Embaixadores da nossa Pátria.
A entrada no estádio com os trinta mil expectadores foi a uma das maiores emoções que já senti ao terminar uma prova; mesmo porque Terminar COMRADES já é VENCER. Mais feliz ainda por tê-la concluído em 8h 4228 o que me dava direito a BILL ROWAN MEDAL, sendo o 1º brasileiro a entrar no Estádio
Aguardei a chegada do atleta Paulo Renato Amaral (Nato) com 8h5433,o qual havia me transmitido a certeza que seria possível terminar Comrades, pois o mesmo concluiu em 2001a prova em 8h3357. Já no hotel assisti pela televisão a chegada dos demais brasileiros, em especial a vibração do público,quando adentrou ao estádio um verdadeiro herói brasileiro,Gustavo Busch, de 74 anos de idade, com o tempo de 11h5314 à alguns minutos do tempo limite da prova.
Comrades Marathon: É mais que uma competição…É um desafio pessoal!
Este texto foi escrito por: Paulo Souza