
Elisete costuma realizar o trabalho às vésperas de grandes provas (foto: Alexandre Koda/ www.webrun.com.br)
Na tarde desta terça-feira alguns corredores de elite que participarão da Corrida de São Silvestre neste dia 31, estiveram presentes numa oficina de Tatadrama, uma vertente da psicologia na qual o indivíduo vivencia e redimensiona a temática do universo em suas inquietações. O grande objetivo era promover uma forma de autoconhecimento e resgate da potencialidade de cada um.
Após algumas explicações teóricas sobre o projeto, que é baseado na filosofia de Platão (Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa), todos foram convidados a ficar descalços e sentar no chão.
A Psicodramatista Elisete Leite Garcia a todo o momento insistia que os atletas ali presentes se vissem como vencedores, para que chegassem na São Silvestre se sentindo como campeões. A primeira atividade proposta para o grupo foi escrever numa folha de papel os objetivos e recompensas a serem obtidos na São Silvestre. Depois de colocar o papel num envelope lacrado, os presentes escolheram uma gravura dentre várias expostas no chão, que melhor representasse o dia da prova.
Chamou a atenção a foto escolhida por Anoé Dias, melhor brasileiro em 2007 atrás apenas de dois quenianos, que mostrava um coelho encarando de frente um tigre de bengala. Ao explicar a gravura, ele disse que via o animal de grande porte como os quenianos e ele como o pequeno roedor que encarava o desafio sem medo.
Já Maria Zeferina Baldaia fez a escolha de uma pessoa correndo pela rua com bandeiras do Brasil nas mãos. Em sua explicação ela disse que é muito patriota e adora as cores da bandeira, fato ressaltado por suas unhas pintadas em verde e amarelo.
Mais atividades – Diversas atividades foram aplicadas aos presentes, entre elas a reprodução de uma antiga brincadeira de roda, muito comum em festas tradicionais de São João: a cabra cega. Com os olhos fechados, as pessoas se locomoviam pela sala sem medo de se esbarrarem umas nas outras e tendo apenas o tato e a intuição como guias.
Em mais um exercício com os sentidos, todos tiveram seus olhos vendados e ficaram sentados em círculos e começaram a ouvir diversos sons tentando identificá-los. Também foram passados objetos para serem sentidos, fragrâncias tomaram conta das narinas e, por fim, o paladar foi testado. Diversos tipos de alimentos foram oferecidos, entre doces, salgados e azedos.
As reações eram as mais diversas. Ao apalpar algum objeto alguém exclamava uma onomatopéia, ao provar certo alimento proferia uma palavra de agrado ou de desagrado. E todos foram tomando conhecimento de si próprios com um auto-abraço, seguido de um autotoque.
No ápice das atividades cada um deveria escolher uma boneca/ boneco que mais se assemelhasse consigo mesmo. Esses brinquedos de panos são confeccionados exclusivamente por habitantes do nordeste brasileiro e são chamados de Boneca Dupla Esperança de Crato CE.
O curioso é que além de escolher uma boneca de característica parecida com cada um, os atletas diversas vezes pegavam uma e logo diziam que se parecia com determinado corredor. Simone Alves da Silva e Ednalva Laurenao, a Pretinha, foram citadas.
Com o boneco em mãos, todos tiveram à disposição uma gama de acessórios para personalizá-lo da melhor forma. Neste momento Elisete disse que todos deveriam se imaginar fazendo compras na 25 de março, tradicional reduto de comércio popular em São Paulo.
Por fim, os atletas se sentaram novamente em roda e fizeram uma reflexão sobre o que foi vivenciado durante as 3h30 de trabalho. Baldaia, que participou pela quinta vez, lembrou que numa competição quase não tinha forças para terminar, mas lembrou-se do workshop e das palavras de incentivo e se revigorou para continuar em frente.
Para Anoé as atividades certamente o ajudarão no dia a dia e não somente na São Silvestre. Já Adriana de Souza relatou que muitas vezes sabe que precisa acreditar em seu potencial, mas que acaba não aplicando no trabalho. Às vezes é bom bater na mesma tecla, confessa.
Como atividade final, foi simulada a largada e a chegada da prova em câmera lenta. Com a voz do locutor oficial de fundo, todos saíram calmamente em direção ao tão desejado troféu de primeiro lugar e, ao final, todos tiveram a oportunidade de tocá-lo. Utilizando a espontaneidade do ato de brincar, associada à técnicas do Psicodrama e Sociodrama, certamente todos saíram de lá com seus corpos e mentes mais bem preparados para enfrentar o desafio da São Silvestre e da maior das corridas: a vida.
Este texto foi escrito por: Alexandre Koda