
Brasileiro realizou três meses de preparação (foto: Divulgação)
O triatleta brasileiro Alexandre Ribeiro conquistou em 27 de novembro o Ultraman, no Havaí (EUA), pela quinta vez. Foram três dias de prova, totalizando dez quilômetros de natação, 420 de ciclismo e 84 de corrida equivalente a duas maratonas. Além desta vez, Alexandre conquistou a prova em 2003, 2005, 2008 e 2009.
Preparação – A caminhada para o Ultraman é muito dura, conta o pentacampeão mundial, referindo-se ao período de treinos. O atleta do Rio de Janeiro afirma que os treinos na cidade estão cada vez mais complicados por conta das obras para os Jogos Olímpicos de 2016.
Às vezes perco cinco horas por dia no trânsito. Tenho que ir treinar na região serrana do Estado, em Petrópolis ou Teresópolis, conta o competidor. Lá você tem um cenário mais próximo ao do Havaí. Na prova em Kona não tem parte plana, é subida ou descida, explica.
Em 2011, Alexandre reduziu o período de treinos de seis para três meses, para não desgastar muito o corpo. Estudar como lidar com eventuais dificuldades ao longo do percurso também fez parte de sua preparação. Sabia a estratégia toda para encarar dificuldades na prova, para enfrentar surpresas, afirma.
Primeiro dia– No dia 25, os triatletas começaram a nadar no mar de Kona às 6h30, e ainda enfrentaram 145 quilômetros de bike. Nadei bem. São dez quilômetros em linha reta de Kona à Keauhou. Depois de mais ou menos uma hora de prova começa a entrar correnteza contrária. Neste ano ela estava média,não muito forte, então foi tranquilo, relembra.
Depois de 2h47min na água, Alexandre foi para a disputa da bike brigando pela sexta colocação. Segundo o triatleta, a primeira parte, no dia 25, foi atípica. Não ventou nada. Você vai até o Parque dos Vulcões, é muita subida e descida. Nos últimos 80 quilômetros é só subida, vamos de zero a 1.600 metros de altitude. Ali é normal pegar vento contra, mas desta vez foi perfeito, analisa o campeão.
Ele revela que passou mal com a ingestão de um gel de carboidrato, mas conseguiu ir bem. Vomitei logo no começo, então comecei devagar para me recuperar. Cheguei pouco antes das 14h e fui direto para a massagem das pernas. Após um jantar às 18h, os atletas foram dormir por volta das 19h30, para levantar às 4h no sábado.
Segundo dia – Às 6h30, Alexandre já estava pedalando novamente. No segundo dia, teve muito vento contra na descida e a chuva foi muito forte. O competidor explica que os primeiros trinta quilômetros eram de descida, único trecho do ciclismo em que a utilização do vácuo foi permitida.
Quando passa essa primeira parte é que começa mesmo. Terminei em segundo, larguei o Jonas Colting [sueco que liderava a prova] no quilômetro 100, mas no final o canadense [Michael Coughlin] me alcançou na subida de Waimea, conta Alexandre.
O dia teve uma condição climática inédita na história da prova. Um vento lateral de 80km/h empurrava os ciclistas para o abismo. Nunca nos 27 anos de Ultraman foi registrado um vento assim, muita gente teve de descer e empurrar a bike para não cair.
Confira como foi o terceiro dia e a dica de autocontrole psicológico do pentacampeão de Ultraman na próxima página
O brasileiro chegou ao último dia de competição em terceiro, cerca de 26 minutos atrás do líder Jonas Colting e oito atrás de Michael Coughlin. Alexandre estava confiante porque o histórico de melhores tempos de seus adversários na dupla maratona do Ultraman era bem pior do que o seu.
O meu melhor é 6h15min. O do Jonas, 7h10min e do Michael, 7h40min. A prova tem uma característica boa para mim no ciclismo e na corrida porque eu rendo melhor quando não é plano, analisa o atleta. Então, para desanimar o Jonas, eu e o Miro Kregar [esloveno] corremos bem forte nos primeiros 21 quilômetros.
Nas bases a cada 21 quilômetros Alexandre conferia os tempos dos adversários e descobriu que o sueco abandonara a prova com dores na perna. Achei que tinha ganhado e relaxei. Mas o canadense [Michael Coughlin] começou a render e a diferença de tempo, que era de 21 minutos, chegou a dez. Fiz muita força no final para garantir a vitória, comemora.
Trabalho psicológico – Para vencer os mais de 510 quilômetros de triathlon em três dias, Alexandre Ribeiro concorda que a mente tem de estar bem trabalhada. Isso é algo trabalhado ao longo dos anos, com a experiência. Tudo o que você imagina que pode acontecer de dificuldade ao longo da prova já aconteceu comigo. Cãibras, vômito, pneu furado, queda… Foram várias situações difíceis que consegui reverter.
O segredo, segundo o pentacampeão, é a força de vontade aliada à tranquilidade. Eu tinha mil situações pra desistir, mas consegui dominar meu corpo e parar um pouquinho, pensar, me alimentar. Tive a maturidade de ter calma e corrigir na hora o problema que aconteceu, deu certo. A maioria das pessoas não corrige e se apavora, joga a toalha, não raciocina. Isso é essencial.
Paisagem de Kona – Apesar de todos os percalços, quem compete em Kona é privilegiado com uma paisagem deslumbrante, de praias paradisíacas às florestas de mata costeira, passando por montanhas nevadas e desertos de lava ressecada. A variedade natural da ilha é fantástica, afirma.
Mas vou ser sincero, você fica tão concentrado no que tem que fazer durante a prova, com sua estratégia, que isso passa meio batido. A gente vê as paisagens depois, em fotografia ou nos dias seguintes a passeio, conclui Alexandre.
Este texto foi escrito por: Paulo Gomes