
Agora o ciclista quer mais tempo para seus filhos (foto: Harry Thomas Jr./ WebRun)
Não foram poucos os rivais de Lance Armstrong que criaram ilusões para esta edição da Volta da França. Um aparente momento de baixa na forma física do hexacampeão norte-americano criou esperanças. Muitos pensaram que os anos começavam a cobrar seu preço para Lance. Após um inverno repleto de eventos sociais, imaginaram que o hexacampeão finalmente havia baixado a guarda e após se entregar aos prazeres da vida não conseguiria alcançar sua típica e perfeita forma física.
Mas nada esteve mais longe da realidade do que esta ilusão: Lance brilhou no Dauphiné Liberé e no prólogo, que marcou a primeira etapa da Volta da França, no sábado. O atleta deu uma demonstração de seu estado físico e mental, ficando com o segundo tempo. Lance mais uma vez larga na Volta da França, sua décima primeira participação, como o grande favorito ao título.
Com seis vitórias absolutas e consecutivas em grande estilo, Lance não teria nenhuma necessidade de seguir em atividade e, muito menos, de colocar em jogo sua coroa. Porém ao decidir lutar pelo sétimo título, deu aos seus rivais uma nova e última oportunidade de derrotá-lo. Ganhando ou perdendo, o recorde de títulos na França não poderá mais ser superado. Todos os demais pentacampeões já estão aposentados. Não há herdeiros de Lance Armstrong no horizonte.
Em janeiro Lance ainda não havia confirmado sua presença na Volta da França. Tudo indicava que iria deixar de lado a última participação na prova que lhe deu fama. Mas compromissos com o novo patrocinador de sua equipe, o Discovery Channel, obrigaram-no a confirmar em fevereiro sua presença nas estradas francesas. A sua preparação foi feita de última hora e diziam que sua motivação também não era a mesma.
Os rumores sobre sua nova vida social cresceram ainda mais após seu abandono da Paris-Nice, sua primeira prova no ano, em parte devido ao mau tempo e parte por uma gripe persistente. Mas muito também por sua ainda inconsistente forma física. Poucos dias antes, haviam sido publicadas fotos suas em companhia de sua namorada, a cantora norte-americana Sheryl Crow, na entrega do Oscar.
“Nunca o vimos tão desmotivado”, confessaram alguns de seus companheiros na nova equipe. É fato que na Paris-Nice sua forma física deixou muito a desejar, principalmente quando se tem em mente que em sua vida profissional sempre esteve próximo ao estado de perfeição, e em outras temporadas sempre brilhou da primeira a última corrida do ano.
Críticas e rumores após sua participação na Paris-Nice e Armstrong decidiu refugiar-se em Tenerife, nas Ilhas Canárias, onde acertou sua forma subindo e baixando o Vulcão Teide, ponto culminante da ilha. Nas clássicas provas de Flecha-Brabancona, Paris-Camenbert e no Tour de Flandes, Armstrong já apresentou uma nova forma e novo ânimo.
Depois voltou aos EUA para passar alguns dias com seus filhos antes de disputar o Tour da Georgia, onde convocou os jornalistas porque tinha algo importante a dizer. “Tenho vontade de dizer chega”, afirmou ao L’Équipe. “Este pode ser meu último Tour”, deixou no ar.
Quando no dia 18 de abril anunciou que largaria as provas após a Volta da França 2005, ninguém se surpreendeu. “Não quero mais perder nem um só minuto da vida dos meus filhos”, explicou. “O último Tour será minha última competição. No dia 24 de julho me aposento nas pistas, mas antes disso quero ganhar de novo”.
Apesar de tudo não foi bem no Tour da Georgia, pelo menos como desejava. Seu companheiro de equipe Tom Danielson foi o campeão e Armstrong ficou com o quinto lugar.
Após 12 temporadas como profissional, sem contar o ano em que esteve parado por causa do câncer, Lance Armstrong está a 22 dias de sua dourada aposentadoria. E não será em vão: segundo a revista Forbes, Lance fatura mais de 28 milhões de dólares por temporada.
Sem competir desde abril, Lance largou na Dauphiné-Liberé mergulhado em um mar de dúvidas sobre sua real condição física. Ele dizia que não queria lutar pela vitória, apenas testar a si própria. Na prova contra o relógio, foi terceiro atrás de Santiago Botero e Levi Leipheimer. Mas tanto no Monte Ventoux, como depois nos Alpes, esteve sempre entre os melhores e até se deu ao luxo de ajudar um pouco seu amigo Leipheimer.
Lance terminou em quarto lugar o Dauphiné-Liberé, porém mais que sua colocação o que convenceu a todos, companheiros e adversários, foi sua facilidade na pedalada, sua progressão na prova. Terminou a prova francesa muito melhor do que havia começado.
Como se não bastasse, sua equipe Discovery não deixou passar a oportunidade de no último dia mostrar seu verdadeiro potencial. Foi como um aviso, uma prévia do que pode acontecer na Volta da França. Apesar dos grandes ciclistas que pedalam pelas equipes Phonak, T-Mobile e CSC, a Discovery, com Lance, largou na Volta da França com um ar de imbatível. Como em 2003 e 2004, parece ser só uma questão de tempo até ver o norte-americano vestir a camisa amarela até a chegada no Champs Elise.
A Volta da França já começou. Lance ainda não é o líder e nem planeja vestir a camisa amarela nesta semana. Seus planos de ataque são para a segunda semana na França.
Ainda dá tempo de ligar a televisão alguns dias pela manhã e acompanhar o lento ataque de Armstrong rumo a seu sétimo título. Tempo de ver ao vivo e a cores uma lenda do esporte em ação, destes que o século XXI ainda não deu sinais de que vá fabricar. Aproveite.
Este texto foi escrito por: Gustavo Mansur especial para o WebRun