
Brasileiros participantes: Décio Santos André Arruda José Ben-Hur Nato Amaral João Marcos Nunes Gabriela Jonsson e Paulo Souza (esq para dir) (foto: Arquivo Pessoal)
A principal ultramaratona mundial a Comrades Marathon foi disputada hoje (16) na África do Sul. No masculino o vencedor da prova de 89 quilômetros foi um sul-africano e, a África do Sul, colocou 7 corredores entre os 10 primeiros. No feminino as três primeiras colocadas são russas, sendo que a campeã e a segunda colocada são irmãs gêmeas!
Confira o emocionante relato de um herói, o ultramaratonista Nato Amaral que disputou hoje a competição:
Por que a Comrades Marathon é conhecida como “The Ultimate Human Race”?
Ela é de longe a maior e mais tradicional ultramaratona do mundo, e uma das mais difíceis também. A prova existe desde 1921 e sempre entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, todo ano invertendo o percurso. Em um ano e “down run” quando chega em Durban, que esta’ no nível do mar, e no outro ano é “up run”, quando chega em Pietermaritzburg, que está’ a cerca de 630 metros de altitude. O trajeto é todo cheio de subidas e descidas, sendo que as maiores e mais famosas montanhas por onde passa a prova aso em numero de 5 e são chamadas de “The Big Five”, uma alusão aos famosos The Big Five da África do Sul: Leão, Leopardo, Elefante, Rinoceronte e Búfalo.
O percurso é realmente duríssimo, incomparável e a prova tem algumas particularidades que a tornam ainda mais pitoresca: o tempo limite (que neste ano foi de 12 horas) é britanicamente respeitado, sendo que quando a prova atinge este tempo, quem passou recebe medalha e quem esta a meio metro da chegada é imediatamente barrado e desviado do percurso, não recebendo medalha. E não são poucos os que vencem a distancia mas sao penalizados por estourarem o tempo. Alem disso, é uma das poucas provas do mundo (se não for a única) que premia os atletas com medalhas diferenciadas em função do tempo de conclusão do percurso. Uma das medalhas mais cobiçadas é a Bill Rowan Medal, de prata e bronze, para os atletas que concluem em menos de 9 horas (e acima de 7:30h), em homenagem ao primeiro vencedor da prova, em 1921, chamado Bill Rowan. Já a marcação de Quilometragem, deferente de qualquer outra prova, é em contagem regressiva, o que traz um efeito psicológico na minha opinião destruidor na cabeça dos corredores, embora outros prefiram desta forma. Ha’ outras inúmeras particularidades que não vem ao caso agora.
A prova de hoje foi disparado a mais difícil de toda a minha vida, muito mais difícil que a que eu fiz aqui em 2001. Antes da prova eu tinha duas incógnitas: como se comportariam o meu joelho esquerdo (lesionado ha cerca de 15 dias) e a minha coxa direita (lesionada em um músculo auxiliar, adutor talvez, ha cerca de 4 dias). Logo nos primeiros metros após a largada (com a temperatura baixíssima, perto de 5 graus) a minha coxa direita começou a doer. E eu já me conformei que teria que conviver com a dor durante tantas horas quantas durasse a prova para mim. Já o meu joelho esquerdo não foi tão cruel. Ele só começou a apresentar dores a partir do quilometro 4; ou seja, tive que optar por suportar a dor durante 85Km. A única opção para não sentir dor nenhuma era a única que nem passava pela minha cabeça, mesmo sabendo que eu estava tão distante da chegada. E o tempo todo, desde antes ate o final da prova, sempre vinha a minha mente o meu mestre Branca técnico da Branca BR Esporte – e seus ensinamentos, e eu procurava meditar e imaginar quais seriam os seus conselhos em cada momento da prova. “Coloquei a faca nos dentes” e fui para a guerra em busca do resultado.
Muito bem, adotei a estratégia, então, de forçar o ritmo no inicio e durante maior tempo que eu pudesse, pois eu sabia que, talvez em uma cartada de sorte, eu poderia ate mesmo bater a minha melhor marca, de 8h33’57 em 2001. E foi dando certo, tanto que não me arrependo de forma alguma. Com 15 minutos de prova eu já não sentia tanto frio como antes da largada e já descartei na rua o meu moletom, mas continuei de luva. Poucos minutos depois, tirei as luvas e coloquei presas na minha cintura, sabendo do risco de poder voltar a usa-las. Com o movimento, em certo momento percebi que elas caíram e eu em uma fração de segundos optei por não voltar poucos metros para pegá-las, acreditando que não teria mais necessidade. Mas as Leis de Murphy também valem na África do Sul: a temperatura em vez de subir, abaixou, e a minhas mãos ficou congelada por vários Km. Paciência, uma hora depois o sol já estava aparecendo e as mãos voltaram ao normal.
Como as dores eram absolutamente permanentes, eu comecei a me divertir com ela, afinal em uma prova desta distancia temos que ter alguns passatempos: notei que exatamente em todas as minhas pisadas com a perna direita, a coxa doía; e em todas as pisadas com a perna esquerda, o joelho doía. Então tentei fazer uma estatística já que em 100% das pisadas alguma dor eu sentia, mas ficou muito difícil projetar quantas dezenas ou centenas de milhares de passadas eu daria nos 85Km finais da prova, a partir no momento que sentia dor nas duas pernas. E desisti. Depois disso, lembrei de uma frase que eu gritei no ouvido do Silvio…Tadinho, durante a Maratona de São Paulo, nos quilômetros finais. E foi exatamente esta frase que eu “gritei” no meu próprio ouvido: “Quer correr sem dor, vai correr no ritmo do Paxá”. Ledo engano. Cerca de 70Km depois eu estava correndo no ritmo do Paxá (será que tão lento assim?) e continuei sentindo dores. Depois disso, eu comecei a alimentar o meu subconsciente, já que tudo o que ele processa são informações que colocamos nele. Então fiz uma afirmação categórica: “Toda e qualquer dor é SEMPRE suportável. A palavra insuportável não existe no meu vocabulário”.
E a partir dai esse era o meu paradigma que não podia jamais ser quebrado. A minha dor podia ser fenomenal, como foi durante horas e horas, mas por definição era sempre suportável, caso contrario era melhor eu pegar carona atá a chegada e desistir da prova.
E continuei correndo mas não sei por que eu sempre achava que eu estava muito lento, talvez por causa das dores. E insatisfeito procurava forçar o ritmo. Tanto que fiz vários Km a 5’00”, 5’10”, 4’45” etc. Passei pela meia maratona (21.1Km) com 1h48″, pelos 30Km com 2h40″ e fechei a primeira maratona (42.2Km) com 3h50′. Neste trajeto, passei pelo primeiro posto de fisioterapia (fisioterapeutas, massagistas etc.) no Km 30, cheio de dores, e pensei comigo: “Eu vim aqui para correr, não para fazer massagem…” Bem, um pouco antes do posto seguinte, a minha frase já era: “Eu vim aqui para correr, mas fazer uma massagem talvez não seja nada mal…” E fui direto no posto, recebendo uma massagem rápida, em pe mesmo, que me deu um pouco de alivio e soltou a musculatura. No Km 34 parei novamente e comentei da dor no joelho, quando a fisioterapeuta se propôs a colocar uma tala de gaze ao redor do joelho (abaixo e acima, passando por trás) e eu aceitei, afinal eu logo pensei: “Faz de conta que estou em Judiai e tenho que ir ate São Paulo, sem carona, sem bike, só na perna”. Corri com esta tala os últimos 55Km da prova e acho que me ajudou bastante. Logo após o Halfway Point, parei para nova massagem e depois só mais uma vez.
O fato é que com o passar do tempo, cada vez mais eu me obrigava a caminhar nos trechos mais difíceis, especialmente subidas, e a minha velocidade foi caindo drasticamente, ate que eu percebi que estava fora de condições de melhorar o meu tempo. E passei a fazer contas do ritmo que eu teria que imprimir para finalizar abaixo de 9 horas e buscar a Bill Rowan Medal novamente. Não foram poucas (alias, foram inúmeras) vezes que eu pensei em desistir da Bill Rowan e correr “sem compromisso com o tempo”, já que as minhas pernas já doíam também nas coxas, nas panturrilhas… Mas imediatamente eu afastava esta possibilidade e continuava a correr, sempre suportando as dificuldades.
Em algum momento da prova eu tomei o meu Power Gel e decidi que sempre tomaria de hora em hora a partir daquele momento. Mas o enjôo era tanto para colocar aquele negocio gosmento e enjoativo para dentro que eu torcia para que esse momento não chagasse. Mas era inevitável e extremamente necessário para manter um nível elevado de açúcar no sangue. Então eu tomava.
Quanto cheguei no 69 Km, faltando 30 para a chegada, fiz novamente a conta e ali sim eu quase tomei a decisão definitiva de desistir da BIll Rowan Medal, afinal eu pensei: nossa, 30Km é muita coisa, como é que eu vou conseguir? As dores aumentam cada vez mais e em mais músculos, articulações, abdomem, costas… Mas mais uma vez eu busquei forcas, lembrei dos incontáveis meses de treinamento, dos quase 1200Km de treino só em 2003, dos 7 mil abdominais, dos mais de 50 treinos de musculação, e decidi: “Se esta com medo, por que veio?”. E novamente resolvi lutar, pois eu jamais trocaria as minhas dores com a de outro corredor. E esse trabalho psicológico, de foco, de planejamento, de determinação, garra e fé foi uma constante ate o final.
Cena pitoresca ocorreu no Km 74. Eu estava correndo quando passou por mim um grupo muito grande e coeso de corredores (umas 15 pessoas), sendo que um deles até me esbarrou. Achei estranho. Logo em seguida, comecei a escutar a platéia gritar: “Hey, Bruce!” Então, acelerei um pouco a passada e notei nas costas de um corredor loiro o lendário numero 2403: era nada mais nada menos que Bruce Fordyce, o maior ultramaratonista de todos os tempos, com quase imbatíveis 9 vitorias em Comrades, sendo 8 seguidas! Alem do que a melhor marca da prova, estabelecida por ele em 1986, resiste até hoje. Então resolvi correr “com ele” durante uns 5 a 10 minutos, quanto tive que diminuir o ritmo, pois provavelmente ele não estava sentindo as minhas dores.
No 84 Km, eu logo pensei: já fiz duas maratonas e agora só faltam 5 Km. Engraçado que exatamente neste momento eu olhei para o meu pé e notei que a ponta do meu pe esquerdo estava uma pouco vermelha: a bolha ou sei lá o que eu tinha nos meus dedos sangrou, atravessou a meia e manchou o tecido do tênis. Quem me conhece sabe que isso é ate usual, pois os meus pés ficam num estado depois de treinos e provas que parece que eu encontrei-os no lixo. O ponto positivo era que isso não estava me incomodando nem um pouco e foi só olhando mesmo que eu pude imaginar que deveria estar pior do que eu pensava. Alem disso, eu estava usando a meia emprestada pelo Adauto, o que deve ter me feito correr um pouco mais do que o que eu poderia. Em contra-partida, estava com o boné do Paxá, que devia estar me deixando mais lento. Já o relógio do Tadinho dava um equilibro entre os dois.
Faltando 3Km para o final, mesmo com tempo de sobra para eu chegar abaixo de 9 horas mesmo correndo bem lento, eu tive o ultimo súbito mais forte de querer desistir. E talvez por alguns instantes ate tenha decidido, tanto que comecei a andar despreocupado. Ai pensei: “O que? Vou deixar essa medalha de prata e bronze por poucos minutos ou segundos depois de tudo isso? De jeito nenhum!” E voltei a correr ate que em poucos minutos já avistei as torres de iluminação do estádio. Sabia que em pouso mais de 2Km etária lá dentro. E fui nessa tocada ate que quando faltava 1 único Km, fazendo as contas pelo tempo de prova, eu me conscientizei que a medalha de prata e bronze definitivamente era minha. E durante mais de 8 horas eu tinha bem claro para mim que, quando eu cruzasse a linha de chegada, o mais correto não seria pendurar a medalha no meu pescoço, mas sim no meu joelho…”
Vibrei demais na entrada do estádio lotado e esse resultado de 8h54′ para mm foi uma vitória inesquecível, talvez ate mais importante do que a minha melhor marca de 2001. Definitivamente, a Comrades Marathon é uma prova que exige muito do corpo, é claro, mas é uma prova que se vence com a cabeça.
Digo vence porque, muito mais do que em qualquer maratona, nesta prova chegar é vencer. E coincidentemente o slogan deste ano é “Because we can”. I could. E é por isso e muitos outros motivos que só são descobertos correndo os 89Km que a Comrades é “The Ultimate Human Race”.
Faço questão de informar que todos os 9 brasileiros terminaram a prova dentro do tempo limite, evidentemente todos com muitos méritos, com alguns destaques especiais:
.Paulo Souza, o brasileiro melhor colocado, com 8h42′
.Gabriela Jonsson: 9h46′, a primeira brasileira amadora a concluir a prova
.Meu amigo José Ben-Hur Goncalves, com 11h37′
.Gustave Bush, de 74 anos de idade, com 11h53′.
Este texto foi escrito por: Nato Amaral