Você sabe como são produzidos os pneus de uma bike?

Redação Webrun | Triathlon · 05 mar, 2011

Além dos pneus da Continental  a fábrica também possui compostos de outras marcas (foto: Arquivo Pessoal)
Além dos pneus da Continental a fábrica também possui compostos de outras marcas (foto: Arquivo Pessoal)

Ao comprar uma bike na loja muitas pessoas não sabem como ela é fabricada e, principalmente, qual o processo de produção dos pneus. O colaborador especial do Webrun, Cleiton Abilio, visitou a fábrica da Continental em Korbach, na Alemanha, e conta sua experiência.

Para muitos ciclistas e triatletas, os pneus da marca Continental fazem parte da própria história. Uma marca que desde seu início, em 1782, se dedicou à produção de pneus para bicicleta. Desvendar os mistérios e caminhar nas instalações de uma fábrica com mais de 100 anos de história é uma sensação que me desafia em torná-la transcritível. A magia, por trás de tantos anos, é facilmente percebida quando se vê a determinação e o compromisso, advindos do perfeccionismo alemão, na produção dos pneus. E não há dúvida alguma de que os princípios e valores, que nortearam os fundadores da Continental, assim o fazem até os dias de hoje.

A chegada a Korbach, quartel-general da Continental em todo o mundo, é facilmente percebida pela longa e alta chaminé que sustenta o símbolo da fábrica sobre toda a cidade. Esta produz pneus para tratores, carros, motos e bicicletas, assim como matérias de borracha para vários fins industriais. O prédio de decisões executivas e o edifício de produção dos pneus bicicletas foram construídos no início do século passado e, caminhar ao lado da linha de produção, ao som das máquinas e dos enormes rolos de borracha, também é um convite a observar a arquitetura de um local centenário. Aliás, a mistura entre tecnologia e história é algo bastante comum no continente europeu.

Desde a borracha, em estado pastoso, até o embalo, e passando pelo que há de mais incrível em toda a fabricação, que é o processo de produção manual de pneus feitos por mulheres e homens, no melhor estilo alemão, finalizando com a incrível sensação de descobrir algo que transpassa os pôsteres publicitários e salta à realidade dos olhos, a sensação que se tem é de que a lenda se retorna realidade. As mesmas mulheres, dos mencionados pôsteres publicitários, são as mesmas que trabalham na linha de produção dos pneus feitos a mão. E isso é, realmente, incrível!

Área de teste – Minha experiência começou com a apresentação da área de teste. O primeiro apresentando foi o de Resistência a Rolagem. Realizado numa pequena sala, com temperatura controlada, o pneu fica girando sobre um rolo de metal com carga pré-determinada, sendo monitorado por computadores, que transformam as informações em gráficos e valores numéricos. Há a necessidade de ser realizado em um pequeno espaço físico, porque a temperatura da sala deve ser controlada, uma vez que, o fator temperatura influencia nos resultados. O principal objetivo é determinar o quanto de energia é necessário para deslocar o pneu. E quanto menor a energia gasta, mais eficiente será o pneu.

Nesse mesmo local, acontece o teste de Resistência a Furos. Um aparelho, que se parece com uma maquina de costurar, transpassa uma agulha através do pneu e, logo em seguida, os dados aparecem na tela de um computador, logo ao lado, contabilizando a força necessária para tal feito. Existem diferentes tipos de agulha para este teste, desde mais grossas até mais finas.

Em seguida, saímos de lá e fui levado à outra sala, passando por enormes motores que giravam vários pneus cada um, sobre um rolo de metal com uma ondulação. Nessa parte, acontecem os Testes de Durabilidade. Mas o terceiro teste a me ser apresentando, não foi este, e sim o Teste de Pressão. Os pneus são devidamente instalados em aro, tendo a preocupação de utilizar-se um aro com o menor gancho disponível no mercado. Uma vez que, os fabricantes de rodas, tendem a diminuir os ganchos que prendem os pneus ao aro, no intuito de conseguir uma redução de peso.

O teste se inicia com o pneu sendo inflado com água, até o momento em que não mais suporta a pressão e se descola do ar. A pressão máxima é medida, anotada e assim serve para iniciar os parâmetros de recomendações, além de avaliar a eficiência da borda do pneu, que pode ser de ferro ou de algum material maleável que permita que seja dobrado.

O último teste apresentado foi o de Durabilidade. Os pneus chegam a ficar aproximadamente 10 dias ininterruptos girando da maneira que já mencionei, para poderem ser avaliados quanto a sua durabilidade.

Mas talvez o mais curioso e interessante fato que percebi, foi que em todos os locais de testes, não havia apenas pneus da marca da Continental, também havia pneus de outras marcas sendo testados. Quando questionei a respeito, a resposta já era o que eu esperava: conhecer o mercado e a evolução da concorrência, para definir estratégias e poder afirmar publicamente a qualidade superior do produto que constroem com tanto orgulho e dedicação.

Após conhecer os testes e o local onde são realizados, fomos para o início da linha de produção. O local é quente para os padrões de inverno europeu e inúmeros trabalhadores acompanham a o processo de criação da matéria-prima equipados com luvas e protetores de ouvidos.

Tecnologias – Existem vários elementos que dão qualidade e eficiência a um pneu, passando pelo desenho, espessura, construção e, o principal deles, a composição da borracha. O segredo é a borracha! E é justamente nesse quesito, que em 2008, a Continental apresentou ao mercado o Black Chili Compound. Cada fabricante investe elevados valores no desenvolvimento de tecnologias que possam melhorar o desempenho do pneu. Entretanto, o maior dilema na concepção de um pneu cada vez melhor sempre esbarrou na equação: Durabilidade/Resistência a Rolagem/Aderência. Sempre que uma dessas variáveis era melhorada, outra piorava. Então, podia-se melhorar a aderência dos pneus, mas isso iria sacrificar a durabilidade. Ou então, podia-se melhorar a durabilidade e a aderência, mas o gasto energético para deslocamento do pneu seria maior.

Com o Black Chili Compound, a Continental afirma ter conseguido um revolucionário elemento capaz de diminuir em 26% a resistência a rolagem, aumentar em 30% a aderência e mais 5% de durabilidade.
Durante o almoço na fábrica, acabei por conhecer um jovem holandês que havia competido como Moutain Biker profissional e atualmente ocupava um cargo dentro da empresa. Falávamos sobre cultura, esporte, política e quando o tema pneu foi mencionado, eu o questionei a respeito. Ele bem disse: “Conheça o Black Chili Compound. Pedale num pneu sem o Black Chili Compound e depois pedale em um com. Você vai sentir a diferença.”

De fato, alguns números estão aí para provar. O resultado obtido com esse novo elemento melhorou – e muito – o desempenho dos pneus Continental em sua linha de estrada. Tanto que uma conceituada revista alemã conferiu esses números e o GP4000S superou, no teste de Resistência a Rolagem, o Michelin Pro Race 3, por mim considerado um dos melhores pneus do mercado. Nesse teste, houve uma ligeira superioridade. Mesmo assim, o mesmo pneu conseguiu o melhor resultado no teste de Aderência.

Essa mistura de borracha é o maior segredo da Continental. Um segredo tão bem guardado, que os pneus com essa tecnologia apenas são fabricados em Korbach, na Alemanha.

Outra tecnologia muito interessante e que só a Continental possui é o Vectran. É um material caro e utilizado apenas nos melhores pneus. O que ele faz? Bem… eu tive em minhas mãos um pedaço de Vectran e uma tesoura. Então me disseram: “experimenta. Tenta cortar!”. Tentei insistentemente e não consegui. Testei a tesoura num pedaço de papel que estava logo à frente e esta estava bem afiada. Tentei perfurar com a ponta da tesoura e tive uma tremenda dificuldade. A partir daí, entendi como esse elemento, aplicado ao pneu, funciona como proteção. Enquanto a maioria dos fabricantes se utiliza do Nylon, o Vectran é extremamente confiável, mais leve, mais flexível em comparação a uma camada dupla de Nylon.

Mas talvez a melhor parte da magia de caminhar pela fábrica, foi ver com meus próprios olhos a maneira como os pneus são feitos. A atenção, a concentração e o detalhamento de uma atividade repetitiva, em busca da perfeição. São maquinas operadas individualmente, nas quais a borracha vem e vai, obedecendo a vontade do operador. A tira adesiva que nomeia o pneu é gentilmente colada por mão humana sobre enquanto está esticado e ainda não tomou completamente a sua forma. Cada pneu passa por isso. Cada pneu, feito orgulhosamente na Alemanha, passa pelas mãos desses funcionários. As mulheres, que são representadas nos pôsteres publicitários da marca, são verdadeiras funcionárias da fábrica, em Korbach.

E isso eu só fiquei sabendo durante a visita. E quando as vi trabalhando, novamente, aquela sensação indescritível de saber que, do outro lado do oceano, realmente os pneus são feitos dessa maneira, com tanta atenção e dedicação, se fez presente.

Tubulares – Talvez o que mais represente a qualidade dos pneus da Continental, no que tange a forma com que são feitos, seja o tema cujo qual eu estava mais interessado: os pneus tubulares. Assim como os clinchers, os tubulares seguem o mesmo nível de dedicação só que com um pouco mais de atenção, no momento de sua costura e acabamento. Entretanto, há um pneu tubular da Continental, que eu observei uma fase do seu processo de nascimento. Refiro-me ao pneu tubular Olympic.

O Olympic é um pneu projetado para o velódromo e é o top da sua linha. Seu custo gira em torno de EU$ 200 (duzentos euros!). Esse pneu, para mim, é o ápice do handmaking process alemão. Uma senhora, em pé, cuidadosamente costurava a borracha, se utilizando das mãos, agulha e a ajuda de uma pequena máquina, enquanto a linha, que servia para costura, passava dentro de um tubo de cola antes de se juntar ao pneu. Nesse momento, um dos guias que me acompanhava disse: “esse é um processo extremamente delicado. Pouquíssimos funcionários possuem habilidade para fazer isso.”

As perguntas começaram a surgir em minha mente e então questionei a respeito da produção dos pneus em território alemão. Aliás, a Continental é a única fabricante alemã de pneus de bicicleta, que produz os seus pneus em território nacional. Responderam-me que a razão principal da manutenção dessa política é a dificuldade de encontrar e criar mão-de-obra qualificada o suficiente para produzir no padrão alemão, é claro os pneus. Outra razão também é o compromisso com a história e o povo alemão, além de que, um produto que contenha a informação: Handmade in Germany, simplesmente já fala por si só.

Concorrentes – Analisando, de maneira particular, vejo que a Continental é uma empresa com história, qualidade e compromissada com o desempenho. Assim como muitas outras fabricantes de pneu para bicicletas ao redor do mundo. Conhecer uma marca, a sua história e o produto que oferece é parte da atitude que devemos tomar para escolher um produto. Atualmente no mercado, uma das maiores concorrentes da Continental é a também alemã Schwalbe, famosa na Europa pelos seus pneus de Mountain Bike, tão bem avaliados pelos consumidores e revistas especializadas.

Entretanto, a Schwalbe não fabrica nenhum de seus pneus em território alemão. E recentemente lançou no mercado um novo composto de borracha chamado de Triple Nano Compound. Esse composto novamente trouxe mais qualidade e competição entre os fabricantes de pneus de bicicleta. Enquanto a francesa Michelin, a tailandesa Vittoria, a holandesa Vredestein e outras, lutam pelo mercado europeu, quem sai ganhando são os consumidores que recebem melhores produtos e uma enorme variedade.

Este texto foi escrito por: Cleiton Abilio, especial para o Webrun

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