Foto: FotoliaO termo “transgênero” é usado para referir-se às pessoas que não se identificam e não se sentem confortáveis com seu sexo de nascimento, sejam elas homens ou mulheres. Para ser considerado trans, não é preciso ter passado por cirurgias de mudança de sexo ou por tratamento hormonal. Uma pessoa que nasceu com o sexo masculino e se aceita assim é considerado um homem cis. Enquanto quem nasceu com o sexo masculino, porém se enxerga mulher, é uma mulher transgênero.
No início do ano passado, o COI (Comitê Olímpico Internacional) surpreendeu a muitos ao determinar que atletas transgêneros competissem nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 sem a necessidade de ter passado por cirurgia. A decisão teria sido reflexo de discussões que ocorreram em 2015, durante a Reunião de Consenso sobre Mudança de Sexo e Hiperandrogismo e, seguido os passos do que já é aceito na NCAA (Associação Atlética Universitária Nacional, dos Estados Unidos), uma das instituições pioneiras no mundo a ter regras específicas sobre a identificação sexual do competidor.
Se levarmos em consideração que, anteriormente a essa decisão de 2016, a regra que vigorava era de 2004 e previa que apenas pessoas que já tivessem passado por processos cirúrgicos de mudança de sexo e, fossem reconhecidas legalmente em seus países como transexuais, pudessem competir, a permissão do COI pode ser considerada um avanço e tanto.
Com essa determinação, pessoas como Chris Mosier, biatleta transgênero da seleção de Atletismo dos Estados Unidos, passaram a ter ao menos a oportunidade de disputar uma vaga para os Jogos Olímpicos. Chris tornou-se um ícone da luta LGBT no esporte, por ser um dos primeiros atletas consolidados a revelar publicamente ser um homem trans.
Ele começou a competir em 2009 no atletismo feminino, um ano depois revelou não se sentir confortável com seu gênero. Após muita militância, Chris foi integrado ao time masculino da seleção dos Estados Unidos. Ele já participou de diversas competições na categoria, porém não se classificou para participar das últimas Olimpíadas.
Apesar do avanço nas regras, hoje, os competidores ainda são obrigados a provar seus níveis de reposição hormonal. Em competições femininas, o índice de testosterona da atleta não pode estar maior que 10nmol/L, nos 12 meses anteriores à competição, por exemplo.
É aí que a polêmica surge dentro do esporte. Muitos questionam se é leal a disputa entre uma mulher cis e uma mulher trans, que em geral, passa pelo processo da puberdade ainda como uma pessoa do sexo masculino.
Para o treinador de corrida Nelson Evêncio, não há uma resposta definitiva para o tema. “O assunto é muito complicado, pois uma pessoa do sexo masculino leva vantagens anatômicas e fisiológicas sobre as do feminino, independente da questão hormonal. O COI quer, e tem que ser inclusivo, mas em alguns casos de mulheres trans na corrida, é nítida a vantagem corporal em relação às outras atletas”, opina.
Já o presidente do Comitê Desportivo LGBT do Brasil, Érico dos Santos, pensa um pouco diferente. “Acredito que a regra atual evita que a pessoa se sinta obrigada a passar por um processo cirúrgico ou que se discriminem aquelas que não têm condições de fazer a mudança de sexo. Querendo ou não, torna o esporte mais inclusivo. É importante frisar que essa decisão não se baseia apenas na questão moral e ética da causa trans, isso também é positivo pela parte científica e médica, já que a medida foi tomada não apenas por um comitê ético. Isso mostra que diferente do que muita gente pensa, esses atletas têm sim condição de disputar de igual para igual com outros no seu naipe de gênero”, afirma Érico.
No Brasil, o órgão que regulamenta as competições é a Confederação Brasileira de Atletismo. Segundo a própria CBAT, hoje, as regras seguidas são as mesmas da IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo), responsável por gerir o atletismo a nível mundial.
Para a IAAF, a diferença no desempenho atlético entre homens e mulheres é conhecida, predominante, devido aos altos níveis de hormônios andrógenos nos homens, que resultam na elevada força e desenvolvimento muscular, por isso é exigido o tratamento hormonal. A entidade preza que os casos de transexuais sejam analisados à parte e em sigilo, para preservar a individualidade do atleta.
Mas e na prática?
“Eu acredito que ainda existe muito preconceito sobre transexuais participarem de esportes em geral. Já ouvi muitos relatos sobre isso. As mulheres trans na corrida de rua, são as que mais sofrem com essa discriminação, principalmente na hora da inscrição já que elas são ‘colocadas’ para a categoria masculina e não feminina, o que compromete muito a questão da equalidade e da igualdade. É um fato grave e que pode comprometer muito a vida dos atletas trans e sua inserção tanto em corridas de rua, quanto em outros esportes”, diz Érico.
Nem sempre os organizadores dos eventos esportivos estão cientes das regras em vigor, talvez até pela baixa visibilidade e pouco espaço de debate dado à causa. E é por isso, que não é muito difícil se deparar com casos de despreparo e desconforto para participante e, também, para organizadores.
“Ano passado tivemos um caso que gerou uma grande confusão, era uma corrida estritamente feminina e uma participante alegou ser transgênero. Nossas dúvidas se deram graças ao aspecto técnico. Ficamos com medo dela, por exemplo, ganhar a prova. Após consultarmos um advogado, liberamos a inscrição normalmente. O episódio serviu para nos deixar mais alertas e mostrar que o mundo está evoluindo, não estávamos plenamente preparados para a situação”, conta um organizador que preferiu não se identificar.
Para o Presidente do Comitê Desportivo LGBT do Brasil, a prática de esportes é grande entre os transexuais, porém participar de competições acabou se tornando um tabu entre eles. “São pouquíssimas trans que correm em provas de rua, muito devido à exposição e ao preconceito das pessoas. Muitos correm, porém poucos participam de competições por causa da questão de ser aceito”, ressalta Érico.
Na visão do diretor geral da Global Vita, Arthur Trauczynski, cabe aos organizadores apenas incentivar a prática de esportes. “Não tivemos essa experiência de um atleta trans participando de alguma de nossas provas, mas para mim não é papel do organizador julgar. Nós devemos ser inclusivos, estimular o esporte e aceitar todos que querem participar do evento de igual maneira”.
Até porque, como lembra Arthur, não é responsabilidade da organização validar os resultados de quem participa dos eventos. “Julgar o que é leal e se é justo que homens cis e trans compitam juntos ou não nos diz respeito. A questão esportiva em si não é nossa preocupação primária, afinal, a responsabilidade sobre aferição é da federação contratada em todos os eventos justamente para essa função”, afirma.
Com tantas medidas para mudar esse cenário do esporte, por que atletas ainda enfrentam discriminação ao tentar se inscrever para provas que visam o público de um gênero específico? O que falta para acabar com esse preconceito? Será que um dia o esporte será de fato democrático e inclusivo?
“Com tudo, o mais importante é que os atletas agora possam se sentir mais seguros e, que essas medidas provoquem um efeito de inclusão daqui para frente. Nós esperamos que a evasão trans no esporte diminua, quando a pessoa pode ser ela mesma”, diz Érico.
Foto: FotoliaEste texto foi escrito por: Carolina Abrantes