Atletismo · 17 dez, 2004
No início de agosto, o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo me procurou para trocarmos idéias e impressões sobre o atletismo brasileiro, perspectivas e projeções. Em Atenas, quando fui retirar com ele os ingressos para o atletismo nos Jogos Olímpicos, nova conversa, que se repetiu alguns dias mais tarde quando trocamos telefonemas para comemorar e nos felicitar pela medalha de bronze na maratona obtida pelo Vanderlei Cordeiro de Lima.
Destas conversas surgiu o convite para que viesse a ocupar o cargo de Diretor de Desenvolvimento da CBAt, ao qual estariam ligados ou subordinados alguns programas importantes do atletismo nacional, como os Programas de Ajuda a Atletas de Alto Rendimento, aos Jovens Talentos, Heróis do Atletismo, Centros Nacionais de Treinamento, Campings e Clínicas, enfim, uma missão desafiadora que certamente demandará muito trabalho, muita dedicação e, sobretudo, alimentará e poderá dar vida ao sonho do presidente da Confederação, meu, e de todos os brasileiros, de transformar o Brasil numa verdadeira potência no atletismo, semelhante ao que já ocorre com alguns países do terceiro Mundo como Quênia, Etiópia, Jamaica, Marrocos entre outros.
Definimos que, em princípio - sem deixar de lado o apoio e cuidados aos atletas que atualmente estão em atividade e que certamente serão nosso representantes nos próximos Mundiais - nos Jogos Pan-Americanos do Rio e em Pequim/2008 deveremos dar especial atenção a projetos e programas visando resultados a longo prazo, formando uma nova geração muito forte e preparada para nos trazer as sonhadas medalhas à partir dos Jogos de 2012.
Além de correções e ajustes nos atuais programas - que sempre têm que ser feitos e que foram submetidos à aprovação no II Fórum Atletismo Brasil, realizado em São Paulo, com a participação de técnicos, atletas e dirigentes de federações estaduais - foi registrada a ênfase que se dará aos campings e clínicas, sobretudo com a participação dos melhores atletas em cada categoria e seus respectivos técnicos, preparando-os para os desafios que enfrentarão no futuro.
Aproveitando as experiências anteriores, os campings internacionais, preparativos às grandes competições como Mundiais e Jogos Olímpicos, terão duração reduzida a 10 ou 15 dias, no máximo, para adaptação ao clima, fuso horário e condições do local da competição. Esta redução no prazo não prejudicará a adaptação e evitará o desgaste, quer seja no relacionamento, quer seja no aspecto emocional ou mesmo na dificuldade em dotar estes campings de estruturas ideais para todas as modalidades.
Os campings que terão maior ênfase serão os nacionais, que serão realizados separados por modalidade e sempre reunindo os melhores atletas de cada categoria na respectiva modalidade, seus técnicos e, sempre que possível, com a presença de grandes especialistas, quer sejam eles nacionais ou estrangeiros. Tudo com o objetivo de aproveitar todas as potencialidades para melhorar a qualificação de nossos técnicos e o rendimento de nossos atletas. O atletismo terá seus campings separados em 10 segmentos, a saber: velocidade masculina, velocidade feminina, saltos horizontais, salto com vara, salto em altura, arremessos e lançamentos, meio fundo, fundo e maratona, marcha atlética e provas combinadas. Cada um destes segmentos teve um responsável designado que deverá indicar o período e condições de local e infra-estrutura que deseja para realizar o camping da modalidade. Sabemos que estes trarão resultados de curto prazo, mas a grande aposta é de muitos frutos a médio e longo prazo pela participação dos melhores atletas em todas as categorias e seus respectivos técnicos, propiciando que adquiram conhecimento e experiências com outros treinadores nacionais e internacionais. Aos atletas jovens será dada a oportunidade de conviverem por um determinado período com os melhores atletas de suas provas, seus ídolos e em geral seus ícones, que alimentam os sonhos de, um dia, se tornarem grandes campeões.
Os jovens sentirão e vivenciarão experiências e saberão desde cedo que para se tornar um campeão não basta apenas o talento e, sim, muito mais, como muita força de vontade, muito treino, muita dedicação, muita disciplina e ainda abrir mão de certas tentações, delícias e prazeres que os jovens que não têm ambições atléticas podem experimentar. Mas os que almejam ser campeões têm que, disciplinadamente, deixar de lado.
Sabemos que o caminho é longo, desafiador e que requer muito trabalho e dedicação de todos os envolvidos, mas temos o sonho e a certeza que o Brasil poderá se tornar uma verdadeira potência no cenário mundial do atletismo, talvez não em 2008, mas, certamente, nos Jogos Olímpicos de 2012.
Maratona · 17 nov, 2004
Espremido entre a Etiópia e o mar fica um país pequeno chamado Djibuti. Foi colônia francesa até 1977 e tem apenas 23.000 km². Fica próximo ao Quênia e Tanzania, todos países com tradição nas corridas de fundo e maratonas. E por que falar em Djibuti, país que poucos ouviram falar?
Simplesmente porque, nos anos 80, um técnico francês chamado Jacky Fournier tirou este pequeno e desconhecido país do anonimato, pelo menos no mundo esportivo.
O clima do país é exageradamente quente, de condições inóspitas, árido, seco e não tem muito a se fazer como atividade, assim, como outros países da região, as corridas são a melhor maneira de se alcançar ascensão social.
Um dia, Ahmed Saleh, aos 24 anos, ingressou numa prova cujo prêmio era uma cabra. Venceu com facilidade e foi incorporado às forças armadas, onde poderia se dedicar às corridas. Era com homens assim que Fournier trabalharia, levando-os a Paris. E lá foram Ahmed Saleh, Djama Robleh e Charmake. Com um treinamento adequado, apesar de terem que se acostumar ao frio e à neve, que desconheciam, participaram do 1º Campeonato do Mundo de Atletismo em 1983, em Helsinki. Acabou sendo frustrante. Saleh, impetuoso, não sabia correr em pelotão e o fez sempre em zigue-zague se desgastando para acabar caindo e fraturado a tíbia.
Recuperado, Saleh foi à forra e venceu a Maratona de Paris em 2h11min58, enquanto seu compatriota Robleh vencia a Maratona de Lyon, com 2h11min25, onde Saleh foi segundo, com 2h12min34. Foram duas maratonas em quatro semanas, o que acabou prejudicando o desempenho na maratona de Los Angeles, onde terminou em 20º, com 2h15min59, enquanto Robleh obteve um honroso 8º lugar, com 2h11min39 numa maratona olímpica que reuniu grandes nomes do atletismo mundial como Carlos Lopes, John Tracy, Rob de Castela e outros mais.
Saleh era ambicioso e queria mostrar sempre que era o melhor, enquanto Robleh seguia exatamente o planejamento do técnico. Saleh, às vezes, fugia do planejado para exagerar nos treinos, pagando o preço por isso. Mas a lição de Los Angeles foi positiva e deu a volta por cima em Hiroshima, onde estava sendo realizada a 1ª Copa do Mundo de Maratonas. Saleh marcou 2h08min09 a apenas 4 segundos do recorde mundial e seu compatriota Robleh fez 2h08min26, enquanto o inesperado Charmake fechou a equipe com 2h10min33, colocando o nome e a bandeira de Djibuti no lugar mais alto do pódio, não só na vitória individual de Saleh como por equipes.
Djibuti, assim, ficou definitivamente conhecida, pelo menos no atletismo mundial. Estes três atletas viraram heróis nacionais, com direito a assédio de diversas formas. Fournier, que os havia descoberto e revelado ao mundo, passou a ter dificuldades de controlá-los. Logo a seguir, Saleh foi à Maratona de Nova York e escapou do pelotão como um bólido disposto a bater a melhor marca mundial sem levar em conta as dificuldades do percurso.
Pagou o preço por siso. Extenuado, acabou surpreendido, no final, pelo italiano Pissolato.
O mesmo aconteceu em Chicago no ano seguinte, com o japonês Toshiniko Seko. Depois Saleh voltou a vencer, em Paris, em 1986.
Da força de Djibuti restava Saleh, que acreditava apenas nele, uma vez que Robleh estava sempre lesionado.
Em 1987, no mundial de Roma, Saleh estava seguro de que ganharia e acabou surpreendido pelo queniano radicado no Japão, Douglas Wakiihuri. O queniano marcou 2h11min48 e Saleh 2h12min30, mas, ainda assim, derrotou grandes nomes como Gelindo Bordin, Steve Moneghetti e Hugh Jones. Neste ano, Saleh venceu a Copa do Mundo de Maratona, em Seul, com 2h10min52.
Em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul, novamente se defrontaram Bordin, Waiikhuri e Saleh. Desta vez Saleh ficou em terceiro, com 2h10min59, enquanto Bordin venceu com 2h10min32. Saleh estava muito confiante em sua vitória, não só pela conquista na Copa do Mundo no mesmo percurso, em 1987, como porque havia corrido 2h07min07 em Rotterdan. Uma vez mais Saleh pagou por ter feito pouco dos seus e se isolado na liderança, sendo alcançado apenas na parte final da prova de Seul.
Depois dos Jogos de Seul, o grande feito de Saleh foi a segunda colocação obtida no mundial de Tóquio, em 1991, com 2h15min26. Em 2002, Ahmed Saleh criou o Centro de Formação e Desenvolvimento do Atletismo no Djibuti. Esta é a história de um homem que fez seu pequeno país ser conhecido mundialmente.
Maratona · 15 out, 2004
Neste mês vou falar de dois eventos em que estive e onde esteve também o Vanderlei Cordeiro de Lima, a Corrida Integração, em Campinas, e o Revezamento Pão de Açúcar, em São Paulo.
Em ambos, Vanderlei, com sua forma simples, simpática e humilde, roubou a cena e, seguramente, foi a grande atração.
No dia 19 de setembro, na Corrida Integração, que já venceu a prova em 1995,1997 e 1999, fez questão de comparecer e acabou recebendo uma bela homenagem dos organizadores da prova, a EPTV. Vanderlei passou muitos anos treinando em Campinas, tem vínculos com a cidade onde ainda possui apartamento e onde mora seu treinador, Ricardo DAngelo, e muitos amigos.
Mesmo tendo passado boa parte da madrugada anterior concedendo entrevista à uma TV do Japão, Vanderlei chegou ao local da prova às 9h15. Às 9h30 deu a largada e, a partir deste momento, passou a atender com humildade e simplicidade a todos que se aproximavam pedindo autógrafos ou fotos, com direito a interrupção apenas durante a premiação e a homenagem.
Todos se encantaram com a disposição do atleta em atender e falar com todos os fãs e admiradores. Permaneceu no Taquaral, local da corrida, até às 12h30, quando todos já tinham falado ou tirado fotos com ele. Foi uma verdadeira lição de quem é, e sempre será, simples e humilde e de que o sucesso e o assédio não lhe subiram à cabeça.
A Integração, que teve uma organização excelente, recebeu inúmeros corredores de elite. A vitória de Franck Caldeira, que repetiu a conquista do ano passado, foi realmente convincente. No feminino, a vitória foi da queniana Debora Menich, mas devemos louvar a corrida da baiana Marily dos Santos, que terminou em segundo e ainda foi prejudicada por alguns amigos da onça que, no intuito de aparecer, acabaram ajudando a queniana no ultimo quilômetro de prova.
No Revezamento Pão de Açúcar, Vanderlei foi, mais uma vez, a estrela. Na tarde de sexta-feira, dia 24, dominou as atenções ao visitar a Feira de Esportes e Saúde, que faz parte do evento, quer na entrevista coletiva, quer nas voltas que deu pelo local, sobretudo nos estandes da Nike, do PA Club e da SuperAção/Webrun. Uma vez mais atendeu a todos que lhe pediram fotos e autógrafos.
No domingo, dia 26, Vanderlei chegou cedo. Não só para participar da equipe nº 1 comandada por Abílio Diniz como o 7º homem, mas também para torcer pelos companheiros de Club BM&F, que teriam uma difícil e árdua batalha para derrotar a equipe do Cruzeiro. Vanderlei não correu na equipe BM&F, pois, como desde que correu a Maratona dos Jogos Olímpicos em Atenas não retornou aos treinos, o técnico Ricardo DAngelo decidiu poupá-lo. Escolheu como substituto um jovem de 19 anos, João Stingelin, que foi descoberto pelo próprio Vanderlei no Paraná e trazido para Campinas. Singelin, que estreava na prova, não deixou por menos e manteve a diferença de mais de 1 minuto sobre o Cruzeiro, fazendo com que a equipe BM&F, com patrocínio do Pão de Açúcar, se sagrasse bicampeã.
Na premiação, Vanderlei Cordeiro de Lima mostrava a sua simpatia e simplicidade e uma alegria redobrada ao ver o seu pupilo e descoberta João Stingelin, ainda juvenil, brilhar no lugar mais alto do pódio.
Maratona · 15 set, 2004
Ainda me lembro do alto conceito brasileiro nas corridas de fundo e maratonas, que começou no início dos anos 80, com o José João do Silva. Nesta época o nosso José João, que foi bicampeão da São Silvestre, treinando com o prof Carlos Ventura, participava de diversas provas internacionais e era um nome respeitado, com conquistas e colocações importantes em provas fora do País. Foi o nosso primeiro destaque internacional no fundo.
Na segunda metade da década de 80, quando começavam a despontar inúmeros quenianos e etíopes no cenário internacional, ocupando lugares antes reservados a europeus e australianos, alguns atletas nacionais passaram a representar com destaque o nosso País em provas internacionais, como Delmir dos Santos, Arthur Castro, Adauto Domingues, Eloi Schleder. E outros foram surgindo, como João Alves de Souza, o Passarinho, Diamantino Silveira Santos (que venceu a famosa Stramilano, na Itália) e outros mais.
Mas foi na década de 1990 que o Brasil passou a ser realmente considerado como um País respeitável nas provas de fundo, já totalmente dominadas pelos africanos. Na década 90, tivemos ótimos resultados no masculino e também bons no feminino, com Carmem de Oliveira Furtado, Silvana Pereira e Roseli Machado.
No masculino, tivemos feitos importantíssimos que devem ser lembrados, como o recorde mundial na Maratona de Ronaldo da Costa, em 1998, em Berlim; a medalha de bronze do Luís Antonio dos Santos na maratona do Mundial de Gottemborg, na Suécia, em 1995; a medalha de bronze por equipes conquistada em 1997, em Atenas, na Copa do Mundo de Maratona (equipe com Vanderlei Cordeiro de Lima, Luís Antonio dos Santos, Osmiro Silva e Valdenor dos Santos); a medalha de ouro na prova de 20km no Mundial Juvenil de 1994, em Lisboa, obtida por Clodoaldo Gomes da Silva; a medalha de bronze de Ronaldo da Costa no Mundial de Meia Maratona de 1994, em Oslo; a medalha de bronze por equipes no Mundial de Meia Maratona de 1992, em Tyneside (equipe com Arthur Castro, Delmir dos Santos e Ronaldo da Costa); além de medalha de prata no Mundial de Ekiden, em 1996, em Copenhagem; e bronze no Mundial de 1998, em Manaus; a vitória de Emerson Iser Bem no Cross das Amendoeiras em Portugal, em 1996 (em prova válida pelo Circuito Mundial de Cross); a vitória de Vanderlei Cordeiro de Lima na Maratona de Tóquio, em 1996 (derrotando no sprint final o português Antonio Pinto, um dos melhores nomes mundiais da época); além de outros bons resultados obtidos por diversos destes atletas no cenário internacional.
Depois destes anos de euforia, os nossos atletas, por razões diversas, passaram a não mais produzir resultados deste nível internacional, exceto algumas participações de Vanderlei Cordeiro de Lima e fomos ficando relegados a um segundo plano.
Mas parece que os bons tempos vão voltar, não só pela medalha de bronze com sabor de ouro conquistada pelo Vanderlei em Atenas, mas, sobretudo, porque desde 1998 não tínhamos dois atletas considerados ao mesmo tempo entre os melhores do mundo em corridas de rua. No ranking atual da IAAF, Vanderlei aparece na 8ª colocação e Marilson Gomes dos Santos na 39ª posição. Outros brasileiros poderão chegar lá, como Paulo Alves, Franck Caldeira e Romulo Wagner. No feminino, o caminho a percorrer é mais longo, pois estamos mais distantes das melhores do mundo, mas a luz já começa a aparecer no fim do túnel, com Ednalva Laureano, Fabiana Cristine, Michele Costa, Lucélia Peres e Zenaide Vieira, que foi finalista do Mundial Juvenil nos 3.000m com obstáculos.
Vemos, com alegria, que os bons tempos podem voltar. Resta torcer agora pelo sucesso de nossos atletas.
Maratona · 15 ago, 2004
Nascido em setembro de 1938, o britânico Ron Hill acabou se tornando dos grande nomes na história das maratonas casualmente. Foi num final de semana em que não tinha outra prova para correr e acabou disputando a Maratona de Liverpool, que venceu com 2h24min22. Mas sentiu-se desconfortável e, ao final, disse que nunca mais encararia outra. Coisa de maratonistas em final de prova. Hill já era um nome conhecido em Corridas de Rua e Cross, mas foi nas maratonas que se consagrou. Com dedicação e muito estudo acabou inserindo inovações e mudanças importantes na abordagem à prova.
Hill teve uma carreira longa, duradoura e indiscutivelmente foi quem mais tempo competiu em maratonas em alto nível, se bem que faltou um grande resultado olímpico.
Temos que considerar que em sua época ainda não havia ocorrido o boom das maratonas e que o campo para as descobertas e inovações ainda estava fértil, a começar pelos uniformes e material de corridas. Como químico na área têxtil, deu uma grande contribuição, revolucionando o desenvolvimento de modelos de calções e uniformes. Criou a confecção Ron Hill, de muito sucesso.
Outra grande contribuição de Hill foi na área de nutrição, na qual advogou e defendeu o carbo loading na preparação para participação nas provas de longa quilometragem, como a maratona. Basicamente, consistia na alimentação carregada em carboidratos nos últimos dias que antecedem a prova, depois de dias com alimentação forte em proteínas, acarretando uma maior reserva de carboidratos. Estes conhecimentos antecederam os tradicionais jantares ou festas de massas realizados antes das grandes maratonas.
Sua primeira grande vitória foi na antes tradicional Maratona Politécnica Harriers, com 2h20min59. Depois, participou dos 10.000m e maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio, ainda não muito conhecido, terminando num apagado 19º, em 2h25min34.4, depois de ter participado discretamente dos 10.000m, marcando 29min53. Continuou se dedicando aos estudos de como evoluir na prova. Aprendeu, com disciplina e rotina, as melhores formas de se desenvolver e, conhecendo cada vez mais as mudanças térmicas do corpo, também aos equipamentos e dietas.
A consagração de Ron Hill veio em 1969, aos 30 anos, no Europeu, em Atenas, onde o grande destaque era o belga Gaston Roelants. Hill surpreendeu vindo de trás e usando um uniforme diferente, mas adequado, de sua criação para vencer em 2h16min47.8, dando início a uma carreira vencedora não só do ponto de vista atlético, como comercial. A griffe Ron Hill passou a ser moda entre os corredores de longa distância.
Após ter se destacado em Atenas, no Europeu, Ron Hill conseguiu, em abril de 1970, uma grande vitória em Boston, com 2h10min30, novo recorde europeu. Logo após, nos Jogos da Commonwealth, em Edimburgh, nova vitória em 2h09min28, uma marca excepcional para a época.
Enquanto suas vitórias se seguiam, a griffe Ron Hill também crescia e se desenvolvia. Hill não se deu bem uma vez mais em Jogos Olímpicos, em Munique, na umidade excessiva do dia da prova, mesmo tendo liderado boa parte, terminou em 6º, com 2h16min30.6. Mas assistimos a consagração do norte-americano Frank Shorter, que foi, talvez, a responsável principal pelo grande boom das maratonas nos EUA.
Aos 34 anos, depois de Munique, Ron Hill, recordista mundial das 10 milhas (46min44), 15 milhas e 25km, este em 1h15min22.6, derrubando marca do fenomenal Emil Zatopek, tornou-se um atleta que correu o mundo, tendo vencido maratonas em todos os continentes, sendo um exemplo de longevidade e dedicação.
Este é Ron Hill, um exemplo e uma legenda na maratona pelos resultados conquistados e pelo desenvolvimento e inovações na preparação e abordagem à modalidade.
Maratona · 15 jul, 2004
Nesta edição, pouco antes dos Jogos Olímpicos de Atenas, nada mais certo do que falar de três grandes nomes do atletismo mundial em Olimpíadas para servir de motivação para nossos atletas e, sobretudo, servir de preparativo para todos nós, amantes do esporte, que em agosto estaremos com nossas atenções voltadas para a Grécia.
Vamos começar falando do finandês Johannnes Kolehmainem, que conquistou quatro medalhas de ouro e uma de prata nos Jogos de 1912 e 1920. Em 1912, em Estocolmo, Kolehmainen venceu os 5.000, os 10.000 e o cross country (que na época era modalidade olímpica) e foi medalha de prata por equipes no cross. Memorável foi a prova dos 5.000, quando teve uma árdua batalha para vencer, com recorde mundial, na época, com 14:36.6. Em 1916 não pôde dar continuidade às conquistas em função da não realização dos Jogos devido à 1ª Guerra Mundial. Quando os Jogos retomaram seu caminho, em 1920, em Antuérpia, venceu a maratona.
Outro destaque, considerado por muitos como o grande nome, é o checo Emil Zatopek, a Locomotiva Humana, que em 1948 ganhou os 10.000, em recorde mundial com 29:56.6. Aliás, Zatopek, que não era o favorito, imprimiu um ritmo alucinante, fazendo não só com que seus principais adversários não resistissem e desistissem, como também fez com que a arbitragem se equivocasse e anunciasse o final uma volta antes. Felizmente Zatopek fazia as contas e deu a volta adicional contra a orientação da arbitragem, para cumprir o percurso completo. Em Londres, três dias após a façanha dos 10.000, correu, ainda cansado, os 5.000 e foi medalha de prata. Mas foi em Helsinqui, na Finlândia, terra de fundistas, que veio a grande consagração de Zatopek, pois venceu, inicialmente com folga, os 10.000m, com 29:17.0. E quando todos esperavam que corresse apenas a maratona, surgiu para se alinhar e vencer os 5.000m, derrotando uma vez mais o francês Alain Mimoun, que já havia sido medalha de prata em Londres e nos 10.000 de Helsinqui (Mimoun iria conseguir sua sonhada medalha de ouro na maratona de 1956, em Melbourne, numa prova em que o próprio Zatopek, se recuperando de cirurgia, foi sexto).
Zatopek tem em seu cartel quatro medalhas de ouro e uma de prata. O mais marcante é o fato ter ganho três ouros em Helsinqui.
Propositalmente deixei por último aquele que considero o grande nome de todos os tempos: o finlandês Paavo Nurmi. Nos Jogos de 1920, em Antuérpia, Nurmi ganhou a medalha de ouro no cross e ainda venceu no cross por equipes. Também ganhou os 10.000m, tendo perdido apenas os 5.000m na estréia em Jogos Olímpicos, para o francês Joseph Guillemot, veterano da 1ª Guerra.
Nos Jogos de Paris, em 1924, tivemos um show de Nurmi em varias provas.
Venceu os 1.500m, e ainda teve que se poupar, pois 55 minutos após correria os 5.000m. Como sempre fazia, correu com cronômetros à mão, regulando o ritmo para não se desgastar em demasia. Resultado: nova vitória nos 5.000, deixando o compatriota Ville Ritola em segundo. No cross country, nova vitória de Nurmi sobre Ritola, com mais uma medalha de ouro por equipes e, finalmente, mais uma medalha de ouro, desta vez nos 3000m por equipe, prova em que foi uma vez o mais rápido de todos com 8:32. E o grande Nurmi não ficou satisfeito com a não escalação nos 10.000m, pois os dirigentes acharam que seria demasiado para ele. Decidiu, no mesmo dia da final dos 10.000, treinar forte a distância para mostrar que poderia vencer. Ao terminar, havia marcado um tempo superior ao de recorde mundial. Nurmi saiu de Paris com cinco medalhas de ouro (que poderiam ter sido seis se tivesse corrido os 10.000m).
Nos Jogos de Amsterdan, em 1928, Nurmi resolveu fazer uma incursão numa prova em que não era especialista, os 3.000 com obstáculos. Foi medalha de prata, perdendo para o compatriota Loukola. Nos 10.000m, mais uma vitória, derrotando o compatriota Ritola. Nos 5.000m, ganhou prata, perdendo para Ritola, mas numa prova que sempre ficou a dúvida se Nurmi se empenhou a fundo ou se deixou o compatriota vencer.
O grande Paavo Nurmi ainda sonhava em ganhar uma última medalha nos Jogos de 1932, em Los Angeles, onde disputaria a Maratona, mas foi proibido de participar poucos dias antes por ter recebido acima do permitido à época para disputar algumas corridas. Isso deixou Nurmi profundamente abalado e só foi redimido nos Jogos de 1952, em Helsinqui, quando foi escolhido para entrar no estádio carregando a Tocha Olímpica. Sem dúvida, Nurmi com suas nove medalhas de ouro e três de prata, é o exemplo a ser seguido.
Outros grandes nomes vieram depois, como Abebe Bikia, Lasse Viren, Waldemar Cierpinski, entre outros grandes nomes ainda virão .
Vamos torcer para vermos em Atenas, Pequim, e no futuro, o surgimento de novos ídolos e ícones para o nosso esporte.
Maratona · 15 jun, 2004
Todos pensamos, um dia, em poder assistir ao vivo uma Olimpíada. Isso mesmo para os não tão ligados aos esportes, pois, sabidamente este é o maior de todos os eventos, tanto que verdadeiros recordes de audiência e de publico são sistematicamente quebrados.
Felizmente, tive a oportunidade de estar presente em dois Jogos Olímpicos, o de Atlanta - que apesar de não ter tido o brilhantismo que se esperava, para mim já foi uma grande emoção ter estado presente como platéia - e o de Sidney - que foi um espetáculo e show em todos os aspectos, ainda mais por ter tido a honra de estar participando da delegação oficial do Brasil.
Mas milhões de brasileiros ainda querem ter a chance e a oportunidade de vivenciar esta experiência impar, quer seja como voluntário, como público, enfim, de alguma forma.
Vivemos o sonho, ou fantasia, obviamente fracassada do Brasília 2000, a da experiência anterior, também recusada, do Rio como candidata. Agora, novamente fomos colocados à margem do processo, não entrando sequer para as cinco candidatas finalistas. Mas se muitos se frustaram com a impossibilidade de realizar o sonho a curto ou médio prazo, se meditarem ou refletirem, verificarão o acerto da decisão. Temos como cidades finalistas: Paris, Madri, Londres, Nova Iorque e Moscou, exatamente nesta ordem pelas notas classificatórias nesta fase.
Observando as notas obtidas pelo Rio, pode-se questionar uma ou outra, mas, em nenhuma hipótese, pode-se alegar que temos condições superiores, na atual conjuntura, do que qualquer uma das classificadas. E, note-se bem que entre os critérios não consta uma avaliação do Programa Esportivo do País.
Neste caso, não seriamos a antepenúltima cidade entre as 9 participantes e, sim, seriamos desclassificados pela simples falta de um Programa de Esportes. Por incrível que pareça, o Brasil não dispõe até o momento de nenhum Programa Governamental que atenda este importante setor.
As únicas declarações oficiais dignas foram as do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, que admitiu achar válido o Comitê Olímpico Internacional ter incluído o critério de viabilidade de realização do Projeto como quesito e reconheceu que o Rio precisa melhorar o transporte e o meio ambiente se quiser partir para outra eventual futura candidatura. Aliás, Nuzman pode ser questionado quanto à forma por alguns, mas ninguém pode lhe negar os resultados obtidos quer à frente da Confederação de Vôlei, quer à frente do COB. Ele, graças à Lei Piva e ao seu trabalho, conseguiu melhorar a situação do Esporte de Alto Rendimento. Tanto, que depois da implantação dos benefícios desta Lei, algumas modalidades deram um verdadeiro salto em competitividade internacional e o que vem vivendo a ginástica não deve ser lembrado apenas pelos saltos, força e ritmo da fenomenal Daiane dos Santos e, sim, pela evolução de todo o conjunto, numa demonstração de que quando se quer, com pouco se consegue chegar lá.
Nuzman sabe que em termos de Programa de Esporte estamos zerados. Teve o mérito de salvar o Alto Rendimento, pelo menos o das modalidades que têm a projeção internacional por meta e a seriedade por postura.
No atletismo, os Programas de iniciação e desenvolvimento não recebem qualquer apoio, incentivo ou amparo do Governo Federal. Chegam até a ser ignorados ou desconhecidos. No Rio dependem do apoio do Bingo Arpoador (e hoje o apoio dos bingos não pode ser considerado como definitivo quando até os próprios têm sua existência contestada). Em São Paulo a Orcampi, que é a campeã estadual das categorias menores, recebe apoio de empresas como Unimed Campinas, DPaschoal, West Plaza e BHS Helicopter Táxis Aéreo muito mais pelo aspecto social do que propriamente desportivo. O mesmo vale para a Ong Symap com seus apoiadores. Outros programas dependem basicamente de apoios de Prefeituras e de algumas empresas locais, como é o caso da Ass. Toniello, de Sertãozinho. E nada de apoio ou reconhecimento do Governo Federal. Nem vamos falar dos outros Estados, sobretudo os menos industrializados, quando, por falta de apoio, o atleta se vê entre a Cruz e a Espada, ou seja, abandonar o esporte ou se transferir precocemente para os Estados mais desenvolvidos, abandonando, muitas vezes, antes do momento correto sua terra natal, suas raízes e sua família.
A nota negativa foram as declarações do ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, protestando pela eliminação do Rio e alegando a decisão como política, insinuando manobras de bastidores. Sugerimos ao ministro que faça uma autocrítica e pense exatamente no que fez pelo esporte nestes quase 18 meses que está à frente do Ministério. Aliás, nem precisará pensar muito, pois pouco fez em termos de implantação de um verdadeiro Programa de Esportes, afinal viajar e patrocinar eventos de grande porte não pode ser considerado neste quesito.
Esta história me lembra a de uma rainha da França, Maria Antonieta, que quando soube que o povo estava com fome, pois não havia pão, disse para servir-lhes brioches como se fosse a sua salvação. O nosso ministro, quando perguntam pelo Programa, costuma citar os eventos. Uma história, sabemos o final. A outra, ainda não.
Maratona · 15 maio, 2004
Todos os meses medito muito sobre qual o tema ou personagem que deverei abordar nesta coluna e, coincidentemente, neste momento de reflexão se realizava a Copa Brasil e Sul-Americano de Cross Country. Mergulhei nas lembranças dos anos 90, quando tínhamos um eficiente Calendário Brasileiro de Cross e, na mesma época, acumulamos inúmeras vitórias e feitos nas provas de fundo junto ao atletismo internacional.
Como dizem alguns, os fatos e feitos históricos estão aí para serem lidos e estudados, pois a história se repete, às vezes, deslocada no tempo e se manifestando de forma diversa. Lemos nas biografias de grandes estadistas e generais que suas leituras preferidas eram sobre a vida e obra de grandes personagens da história, nos quais se inspiravam.
Lembro-me que nos anos 90, quando era diretor de Cross da Confederação Brasileira, realizamos inúmeros eventos. Eram circuitos com etapas no Rio, Belo Horizonte, Crissiuma, São Paulo e, sobretudo, no eixo Cosmópolis(5 vezes), Artur Nogueira (4 vezes) e Mogi Guaçu (3 vezes), pois, além do apoio recebido pelas cidades do interior paulista, como eram tempos de vacas magras nos cofres da CBAt, a realização dos Circuitos àquela época dependiam de uma grande dose de esforço e contribuição nossa, o que ficava mais fácil na região de Campinas, onde eu residia.
Neste ano de 2004, o Brasil teve um desempenho sofrível no Sul-Americano de Cross, perdendo para Equador, no masculino, e Argentina, no feminino adultos, únicas categorias nas quais haviam equipes estrangeiras competindo.
E tudo isso em prova realizada em nosso próprio País. Não vamos jogar a responsabilidade nos atletas e, sim, fazer como os grandes Homens da história e estudar os feitos do passado para vermos o que podemos fazer e os bons exemplos que devemos seguir.
Na década de 90, o nosso Circuito Nacional de Cross e Copa Brasil contavam com a participação de TODOS os nossos melhores atletas e víamos na mesma prova atletas como José João da Silva, Arthur de Freitas Castro (indiscutivelmente um especialista na prova), Valdenor dos Santos, Vanderlei Cordeiro de Lima, Elenilson Silva, Delmir dos Santos, Daniel Lopes Ferreira, Adalberto Garcia, Emerson Iser Bem, Ronaldo da Costa, Jonhny Pazin, Diamantino Silveira, Luís Antônio dos Santos, Adauto Domingues,Wander Moura, Benedito Donizete, José Telles, Clodoaldo do Carmo, João Alves de Souza (Passarinho), Leonardo Guedes, Eduardo do Nascimento, entre outros.
As provas eram belíssimas, com publico se locomovendo de São Paulo para assistir. Os resultados eram imprevisíveis, dado o alto nível da disputa, o equilíbrio, o treinamento dos atletas, específico para a temporada de Cross. E era comum vermos atletas do quilate de um Delmir dos Santos, Vanderlei Cordeiro, Valdenor dos Santos, Luís Antonio dos Santos e outros não conseguirem a sonhada vaga para compor a seleção nacional que representaria o País no Mundial de Cross. Devemos o sucesso daquelas provas aos técnicos que acreditavam no Cross como importante para o treinamento dos seus atletas e consequente desempenho dos mesmos em outras provas da temporada, como o saudoso Asdrúbal Batista, Carlos Ventura, Ricardo DAngelo, Henrique Viana, Humberto Garcia, Marco Antonio Oliveira e José Luís Marques. Havia até entre eles uma saudável disputa para saber quem teria o maior número de atletas e teria a honra de ser o técnico da Seleção Brasileira no Mundial. Era fundamental o apoio que os clubes davam aos atletas e à temporada de Cross, como Funilense, Eletropaulo, Arpoador, São Paulo F.C. e o SESI, assim como o apoio de alguns lunáticos ou realistas (entre os quais me incluo) que acreditavam na importância do Cross para os atletas do País. Lembro que a Funilense, da qual era o responsável, para aumentar a temporada de Cross de seus atletas, levou às suas expensas durante 3 anos atletas para o famoso Cross de Cinqui Mulini, em SanVitório Olona, na Itália, e em outros 6 levou a equipe para atuar como convidada na Taça Européia de Clubes Campeões de Cross e ainda participar de outras provas como o Cross das Amendoeiras, em Portugal, e o de Cáceres, na Espanha.
Lembramos ainda que, em dezembro de 1992, graças ao esforço da CBAt e meu, encaramos o desafio e realizamos uma etapa do Circuito Mundial de Cross em São Paulo, no belo Jockey Clube, e que foi gravado pela TV Jockey e exibido no dia seguinte pela TV Bandeirantes em programa de 1 hora de duração em pleno horário nobre e que teve a participação de atletas de mais de 15 países e alguns atletas de destaque da época, como a portuguesa Albertina Dias, Tegla Lorupe, Simom Chemoyo, entre outros.
Se analisarmos o que os atletas brasileiros conquistaram na década de 90, veremos que ganhamos uma medalha de bronze na Copa do Mundo de Maratonas por equipes, em 1997, em Atenas, recorde mundial de Ronaldo da Costa, que também foi medalha de bronze no Mundial de Meia, em 1994, medalha de prata no Mundial de Revezamento em Estrada, em 1996, medalha de bronze no Mundial de Revezamento em Estrada, em 1998, medalha de bronze na Maratona no Mundial de 1995 com Luís Antonio dos Santos e medalha de bronze por equipes no Mundial de Meia Maratona de 1992. Sem esquecermos que os campeões da São Silvestre da década de 90, Ronaldo da Costa e Emerson Iser Bem participavam das temporadas de cross à época, especialmente Iser Bem, que viajava sempre com a delegação da Funilense aos campeonatos europeus, tendo vencido, inclusive, o Cross das Amendoeiras, uma das etapas do Circuito Mundial de Cross. E o Marílson Gomes dos Santos, campeão da São Silvestre de 2003, assim como o Rômulo Wagner, o vice, sempre participaram dos circuitos de cross na década de 90, de mundiais juvenis de cross, além de participação pela Funilense em provas na Europa.
Nada acontece por acaso e a história deve ser sempre trazida à memória e aproveitada em seus exemplos de sucesso
Apenas para confirmar a importância do treinamento e participação em corridas de cross para a melhora no desempenho de atletas nas demais provas, vamos lembrar alguns nomes (apenas alguns, pois se colocássemos todos certamente esgotaríamos a coluna apenas com a menção dos mesmos) de atletas estrangeiros que venceram maratonas, ganharam medalhas olímpicas e triunfaram em mundiais de pista que tenham tido ou ainda tenham participação ativa em cross: Paul Tergat, Carlos Lopes, Ingrid Kristiansen, Grete Waitz, Rosa Mota, Paula Radclife, Haile Gebrselassie, Adis Abebe, Domingos Castro, Deratu Tulu, Khalid Skah,, Liz MacColgan, Lynn Jennings,, Berhane Adere, Martin Fizz, Fernanda Ribeiro, Keninisa Bekele, John Ngugi, Abel Anton, Hendrick Ramaala, Zola Budd, Elana Mayer entre outros. Aliás, de uma relação de mais de 100 atletas de sucesso internacional que pesquisei, encontrei apenas dois sem participações em cross, o sul-africano John Tugwane (medalha de ouro na maratona olímpica de 1996, em Atlanta) e o maratonista marroquino (hoje naturalizado norte-americano) Khalid Kannouchi. Mas como ambos são de origem africana, é provável que tenham também participado, mas não posso confirmar, pois não encontrei menção em minhas fontes de consulta.
Sei que alguns argumentarão que o cross na Europa, onde foi lançado no século 19, é corrido em clima frio e muitas vezes com neve e não combina com o nosso clima tropical. Meia verdade, pois na década de 90, quando realizávamos com sucesso os circuitos nacionais de cross, o nosso clima era o mesmo de hoje e ao que me consta a África, que vem dominando a modalidade há mais de 15 anos, sempre teve clima semelhante ao nosso.
Realmente nada acontece por acaso.
Agora nos cabe aproveitar os exemplos e não admitirmos e acreditarmos que nosso sucesso na década de 90 seja casual e não tenha sofrido forte influência das nossas disputadas provas de cross e nas competições internacionais de nossos atletas nesta modalidade. Os fatos demonstram que existe uma extrema correlação entre eles. Vamos começar a trabalhar para voltarmos a ter os sucessos internacionais da década de 90. Alias, vou começar assim que terminar de escrever esta coluna. Aliás, o fato de escrever sobre o assunto não deixa de ser um início. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, vem vamos embora que esperar não é saber."
Maratona · 15 fev, 2004
A história de Derek Clayton pode ser resumida na frase: quilometragem excessiva e desgaste por falta de recuperação. Mas a deste britânico alto, de 1,88m, nascido em Lancashire, em novembro de 1942, que emigrou à Austrália aos 21 anos depois de ter passado tempos em Belfast na Irlanda do Norte, e cheia de feitos.
Aos 23 anos, depois de já estar há 2 na Austrália, Derek estréia em maratonas ganhando com 2h22min12 no Campeonato Estadual de Vitória, em Melbourne.
Derek Clayton que era um adepto dos princípios de treinamento de Arthur Lydhiard, dos treinamentos longos, fazia treinamento sempre com 250 km, por semana chegando aos 320 quilômetros em algumas semanas. Esta quilometragem excessiva, e a falta de atenção aos sinais do corpo, acabou custando a Clayton diversas interrupções e inclusive 7 cirurgias mais importantes, sendo 4 nos tendões-de-aquiles. Clayton não tinha a compreensão de que o descanso e a recuperação eram tão importantes e, por esta razão, sofreu tanto com lesões e, apesar de grandes marcas, não conseguiu nenhum grande resultado em Jogos Olímpicos
O maior feito de Derek Clayton foi em Fukuoka, em 3 de dezembro de 1967, na primeira incursão internacional. Depois de uma batalha com o japonês Seeshira Sasaki, passando os 5 km em 15min06, os 10 km 29min57, os 15 km em 44min57. Clayton passou os 20 km em 59min59, sendo a primeira vez que se correu em uma maratona neste ritmo. E no final a marca impressionante de 2h09min36.4, novo recorde mundial, melhorando em quase 3 minutos a marca de 2h12min25 e que era do japonês Shigematsu. O tempo era impressionante ainda mais porque antes da prova a melhor marca de Clayton para a distância era de 2h18min28. Sasaki, que a partir do km 34 tinha se curvado à superioridade de Clayton, ainda se esforçou para cruzar a linha de chegada em 2º, com 2h11min17, que foi, então, a segunda melhor marca mundial da maratona. O que na época talvez Clayton não tivesse associado ao recorde é que no início de 1967 teve que sofrer uma cirurgia no tendão-de-aquiles e, com isso, se viu afastado dos treinos por um longo período, o que o permitiu se recuperar e ganhar o vigor físico necessário para o posterior recorde mundial.
Clayton rodava cerca de 15.000 km por ano, o que lhe acarretava problemas de lesões e cirurgias, tendo, inclusive, participado e terminado em 7º na Maratona dos Jogos Olímpicos do México com sérios problemas de cartilagem. Foi um feito ter terminado o percurso em 2h27min23.8. Assim como fracassou nos Jogos de 1972 em Munique com uma 13ª colocação, em 2h19min49.
Outro grande feito de Derek Clayton foi no dia 30 de maio de 1969, em Antuérpia, na Bélgica, onde se organizou uma maratona com diversos atletas internacionalmente conhecidos para celebrar a inauguração de um túnel. Naquela época os rigores de medição de percurso não eram como os de hoje. A prova, corrida à noite, propiciaria grandes marcas e, no final, venceu Derek Clayton com surpreendentes 2h08min33.6, marca impressionante e os adversários chegando muito distantes, tendo o segundo colocado, o japonês Usmi, terminado quase 3 minutos depois. Houve polêmica sobre a validade do resultado e do mesmo ser o novo recorde mundial. Apenas nos anos 80 é que se concluiu que a prova deve ter sido corrida em distância menor, o que nunca foi aceito ou reconhecido por Clayton.
A confusão ainda foi maior, pois este recorde de 1969 só seria quebrado em outubro de 1981 por Alberto Salazar, na Maratona de Nova York, com 2h08min13, mas descobriu-se depois, que esta Maratona de Nova York se correu com 150 metros a menos. Mas, em dezembro de 1981, o australiano Robert de Castella marcou 2h08min18 em Fukuoka e passou a ser uma marca considerada mais acreditável.
Derek Clayton foi um grande corredor que pagou um preço caro, com lesões e cirurgias, por ter feito quilometragens excessivas e não ter dado atenção ao corpo e a sua recuperação. Mas, indiscutivelmente, marcou o mundo das maratonas com seus resultados impressionantes em Fukuoka em 1967 e na Bélgica em 1969.
Maratona · 15 jan, 2004
Todos sabemos que existe uma rivalidade histórica entre brasileiros e argentinos, sobretudo, no campo esportivo. Mas não podemos negar que temos que reverenciar o feito de alguns atletas do nosso vizinho, que conquistaram grandes glórias.
Nem vamos falar do grande Oswaldo Suares, que tanto brilhou em nossa São Silvestre. Vamos um pouco além. Vamos falar das glórias e conquistas olímpicas nas maratonas.
Nos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, o grande favorito para a maratona era o fenomenal Paavo Nurmi, que já havia conquistado 9 medalhas de ouro nas edições anteriores e estava se preparando para conquista sua 10ª medalha de ouro. Mas, poucos dias antes da prova, foi suspenso por acusação de atuar profissionalmente, recebendo cachês para participar de provas, situação terminantemente proibido naqueles anos.
Com a suspensão de Nurmi, o favorito passou a ser o jovem argentino Juan Carlos Zabala que, um ano antes, havia estabelecido o recorde mundial dos 30 km. O Jornal Los Angeles Times organizou uma maratona no mesmo percurso pouco tempo antes para testar a organização e Zabala participou. Estava 8 minutos à frente quando seu treinador o orientou a parar, pois estava sentindo problemas nos pés e deveria se poupar para a maratona olímpica.
No dia da maratona olímpica não deu outra, Zabala assumiu a liderança desde cedo, mas no km 25 foi ultrapassado pelo finlandês Virtanen que, sem conhecer a distância, não dosou corretamente e parou, deixando a briga entre o argentino Zabala e os britânicos McLeod e Ferris e com o finlandês Toivonem, a seguir. No final, o argentino prevaleceu, entrando no estádio com 1 minuto à frente, mas exausto. Em zigue zague e com dificuldades, chegou ao final para a sonhada medalha de ouro, terminando em 2h31min36, novo recorde olímpico, à frente do britânico Samuel Ferris, que fechou com 2h31min55. Viva a Artentina!
Quatro anos depois, Zabala tentou repetir seu êxito em Berlin, mas teve que parar, extenuado, depois de ter liderado a prova. Em 1948, em Londres, o belga Etienne Gailly, inexperiente na distância, assumiu cedo a liderança e no final pagou o preço. Liderou, foi ultrapassado e depois voltou à liderança no km 40. Entrou no estádio à frente, mas, correndo com dificuldades, assistiu o argentino Delfo Cabrera, estreando também em maratonas, ultrapassá-lo para ganhar a medalha de ouro com 2h34min51.6. Ainda foi passado pelo britânico Thomas Richards, que fez 2h35min07.6. Apesar de chegar com grande dificuldade, Gailly ganhou a medalha de bronze. Aliás, era a segunda vez que Londres sediava os Jogos Olímpicos e, em 1908, o italiano Dorando Pietri, que entrou à frente no estádio, acabou sendo desclassificado por ter sido ajudado para se levantar depois de ter caído, extenuado. Mas, desta vez, pelo menos o belga Gailly levava a medalha de bronze. Viva a Argentina!
Deve ser dito que outro argentino, Eusébio Guinez, terminou em 5º com 2h36min36.0
Cabrera ainda tentou repetir a vitória em 1952, em Helsinqui, mas encontrou o grande Zatopek, que venceu e conquistou a medalha olímpica na maratona depois de ter conquistado os 5.000 e 10.000 nos mesmos Jogos Olímpicos. Cabrera terminou em 6º, com 2h26min42.4
O fato é que temos que louvar as 2 medalhas de ouro já conquistadas pelos argentinos em maratonas e reconhecer que um dia queremos chegar lá. Mas, hoje em dia, com o que andam correndo os africanos e os japoneses, a tarefa não será muito fácil. Vamos aos desafios. Atenas e Pequim nos esperam.
Alimentação · 17 jun, 2026
Saúde · 17 jun, 2026
Atletismo · 17 jun, 2026