
Segundo os representantes da USP o campus fica tomado pelos atletas aos finais de semana (foto: Alexandre Koda/ www.webrun.com.br)
A polêmica taxa que regulamentaria a prática esportiva na Cidade Universitária de São Paulo continua despertando curiosidade entre os esportistas, sobretudo para os ciclistas e corredores. Algumas medidas para restringir o uso do campus por corredores e ciclistas devem entrar em vigor até o final deste ano.
No último dia 31/08 o campus da capital sediou o Segundo Fórum Permanente Espaço Público da USP e um dos assuntos programados foi o uso do espaço público pelos esportistas. O evento reuniu diversos participantes, entre professores, funcionários, acadêmicos e outros interessados.
Pelo tom do discurso dos representantes, as restrições permanecem e ainda podem aumentar. A USP não pode ser vista como um clube, como válvula de escape da falta de espaço público para lazer. Isso não é uma pista de corrida, afirma o professor de antropologia Pedro Jacob, que é mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade de Harvard.
Jacob acrescenta que é necessário criar regras de convivência dentro do Campus, por outro lado, um dos participantes do fórum, Nelson Evêncio, presidente da ATC (Associação dos Treinadores de Corrida de Rua de São Paulo), ressalta que já foram feitas inúmeras propostas por parte da associação para regulamentar a atividade no local.
Queremos permanecer com as atividades físicas por aqui e temos contrapartidas para isso. Nós nos prontificamos a reciclar o lixo que é jogado e até a fazer uma parceria com os estudantes de educação física da USP, que se tornariam estagiários de algumas assessorias esportivas e poderiam usar os dados dos nossos atletas para pesquisa, diz Evêncio.
O presidente alega também que não é contra o pagamento de taxas, caso elas venham a ser cobradas, pois cada assessoria esportiva pagaria um valor estipulado, de acordo com o porte da empresa, classificadas em grandes, médias e pequenas. Inclusive em 2003 chegou a existir um pagamento de R$ 150 por mês para os treinadores poderem armar tendas com colchonetes e outros acessórios oferecidos como infra-estrutura aos alunos, ressalta.
Para Toninho Macchione, diretor da Sptri (Federação Paulista de Triatlon), que também esteve no fórum de discussão, todos reclamam da falta de organização dos esportistas, porém a própria USP parece às vezes não querer organizar para manter o argumento de que se não há organização, então é preciso rigidez total.
Cristina Guarnieri, diretora de Relações Institucionais da Coordenadoria do campus da capital, conta que ainda não há nada formatado. Não definimos se haverá taxa ou não. Estamos estudando e certamente um dos objetivos deste fórum é nos ajudar a resolver estas questões, explica a diretora, que já contatou a ATC em busca de uma proposta atraente.
Para a dirigente, o mais importante em tudo isso é não perder de vista a missão social da Universidade, pois ela não foi feita para suprir a carência de parques públicos na cidade. Talvez, segundo Guarnieri, seja preciso redefinir o percurso para os esportistas, assim como foi feito para os eventos de corrida, que inclusive deixaram de acontecer com tanta frequência aos finais de semana devido o transtorno que gerava para nós.
Aos sábados, por exemplo, a gente percebe que o espaço ficou segmentado e aqui não foi feito só para os corredores, mas eles tomaram conta de um tal jeito, por própria negligência da Universidade, desabafa a diretora. Ela ainda esclarece que a USP abriga um hospital, além do que muitos funcionários e professores não conseguem chegar a tempo no serviço porque as ruas estão tomadas de corredores e ciclistas.
Falta de opções – Já estamos na segunda edição do fórum, mas infelizmente na USP a gente percebe que questões importantes como estas acabam sempre em filosofia, com pouca prática, comenta Nelson Evêncio. Já para o professor Euler Sandeville, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade, a situação é bastante delicada e a própria Universidade está aprendendo muito com o que está acontecendo.
Agora a pergunta central de Euler é o porquê das pessoas treinarem na USP e não em outros lugares. Há outros locais que poderiam ser usados para várias práticas esportivas aqui perto, mas as pessoas não têm essa visibilidade e a gente precisa amarrar a USP num projeto de entorno, reflete. O professor também diz que há muitas áreas verdes em volta do campus, que poderiam se transformar em locais para esporte. ” São políticas públicas que precisam acontecer, pois os recursos financeiros já estão na cidade, só precisam ser usados de outras formas.
Euler defende também que se todos continuarem no mesmo lugar não existirá pressão social para que se criem outros espaços para a prática do esporte, ou haja investimento nos que já foram criados. Opinião contrária a essa é a do diretor Toninho, da Sptri. Falar que os ciclistas estão liberados para pedalar em outros lugares, como Interlagos, de madrugada, por exemplo, não faz o menor sentido diz. Para Toninho, a USP continua sendo o lugar mais seguro para os atletas e não há alternativas, já que a extensão das ciclovias de São Paulo são muito pequenas quando comparado ao tamanho da cidade.
Benefícios sociais da corrida – Se o Campus está lotado de esportistas sem dúvida nenhuma isso não pode ser visto como algo negativo, ao contrário, é uma vantagem, pois quanto mais pessoas no local, menor os riscos de assalto e outros tipos de violência, relembra Evêncio, presidente da ATC, que também confessa existir muito desconhecimento sobre os benefícios sociais da corrida de rua.
É a única modalidade onde todos podem conversar enquanto praticam, despertando características como companheirismo, trabalho em equipe e disciplina, diz o diretor. Já para o presidente da Sptri, mesmo com tantos benefícios, a USP é uma autarquia (onde o recurso financeiro é público, mas o espaço não). “Sem dúvida nenhuma eles têm o direito de fechar o portão e deixar entrar quem quiser”.
No começo deste ano a USP informou que corredores e ciclistas deveriam se cadastrar e fazer uma carteirinha para ter acesso ao campus. A medida entraria em vigor após o Carnaval, mas até o fechamento desta matéria não havia sido implementada.
O que você achou das restrições? Deixe seu comentário no Fórum.
Este texto foi escrito por: Monique Barleben