Maria não pode parar

Redação Webrun | Maratona · 15 jan, 2003

A chegada de Baldaia ao vencer a Maratona de São Paulo no ano de 2002 (foto: Roberto Shibuya)
A chegada de Baldaia ao vencer a Maratona de São Paulo no ano de 2002 (foto: Roberto Shibuya)

Maria Zeferina Baldia não pode parar. Ela vice para correr e vencer, não importam os obstáculos…”

Os pés doem. Mas é preciso seguir em frente. Os pés doem. O asfalto está quente demais. O chão de terra está cheio de pedras, pedregulhos. Entrou um caco de vidro. Está sangrando. Os pés doem. É preciso seguir em frente. Correr mais rápido. Ir mais longe. Os pés doem. Não importa. Nada vai fazê-la parar.

Por 10 anos foi assim. Maria Zeferina Baldaia dividia a vida em duas partes. O trabalho na lavoura, demais afazeres em casa e escola, e correr. Nunca importou em que condições. Só queria correr. E correu. Em diversos tipos de locais, sempre descalça. Vencia a dor nos pés, a falta de uma alimentação adequada, qualquer obstáculo. Tudo para correr.

Maria Zeferina Baldaia é uma brasileira como milhões. Uma mulher que não se entrega. De tanto lutar, venceu. Mas sabe, precisa continuar vencendo, cada vez mais. E, para ela, correr é vencer.

Apareceu para o mundo com a conquista da Corrida Internacional de São Silvestre, em 2001. Agora, reconhecida como uma das grandes estrelas do atletismo nacional, batalha para se manter no topo. Todos os flashes estarão sobre ela dia 31 de dezembro, dia em que vai acelerar as passadas em busca do bicampeonato da mais tradicional corrida de rua do Brasil.

É pouco. O sonho leva Maria para lugares distantes. Ela quer estar em Atenas, na Grécia, em 2004. Quer correr. Quer ganhar uma medalha olímpica na maratona para o Brasil. Quem conhece a história da menina pobre que fazia poeira no canavial em Sertãozinho, não duvida que consiga.

Aos 12 anos começou a ajudar os pais na lavoura de cana. O dinheiro que a família ganhava era pouco para alimentar de acordo os nove filhos. O salário dava para pouco mais que o arroz e feijão. Carne, só em dia de pagamento.
“Eu, minha irmã e minha mãe acordávamos às cinco da manhã para fazer a marmita e esperar o caminhão. Cada dia íamos trabalhar numa cidade da região, ficava o dia inteiro, a comida esfriava, a água esquentava, para fazer necessidades era uma dificuldade, tinha que ir para o meio do canavial, uma falta de higiene. É uma coisa triste trabalhar na lavoura. Por falta de opção você acaba gostando. Tem o lado bom, pois tem o companheirismo entre os trabalhadores”, relembra.

A descoberta da corrida como esporte veio no mesmo ano, em uma gincana na escola. A motivação para correr a primeira prova foi um ídolo, a portuguesa Rosa Motta. “Me descobri atleta aos 12 anos. Lembro que estava de sandalinha e calça jeans e falei que não ia correr. Mas todo ano eu assistia, à meia noite do dia 31 de dezembro, a São Silvestre e sempre via a Rosa Motta. Então, perguntava para minha mãe se poderia ser uma atleta igual a ela. E minha dizia: ‘por que não? você é tão magrinha quanto ela’. E fiquei com aquilo na cabeça. Tirei a sandália, dobrei a calça e acabei ganhando.”

Apesar do sabor da vitória, o esforço para ser a mais veloz no percurso de 4 quilômetros quase acabou com a carreira recém iniciada. “Depois da corrida jurei que nunca mais ia correr porque doía tudo, tudo. Hoje sei que foi pela falta de experiência”, conta. O bom desempenho na “estréia” gerou um convite para integrar a equipe de atletismo de Sertãozinho. “Demorou um mês para eu aceitar. Foi quando tudo começou.”

Após dez anos disputando provas apenas na região, a vida de Maria Zeferina começava a mudar. Contratada pela Secretaria de Esporte de Ribeirão Preto, no projeto Adote um Atleta, pôde disputar corridas mais próximas de São Paulo. Foi quando conheceu o técnico Cláudio Ribeiro e começou a sentir que realizaria o sonho de ser atleta de elite. “Ele me emprestou um tênis e a partir daí não corri mais descalça. Corri a primeira vez de tênis em Franca e logo comecei a vencer pequenas provas na região. Me lembro que quando fui terceira em Poços de Caldas, ganhei R$ 100,00 e pude comprar meu primeiro par de tênis. Desci do pódio e corri na banca. Isso foi em 98. Eu só usava o tênis do Cláudio nas provas, continuava treinando sem tênis, para não gastar.”

A relação de conforto entre os pés da atleta e os tênis demorou um pouco a se consolidar. “No começo foi difícil de acostumar. Eu colocava o tênis e dava a largada, quando chegava na metade eu tirava porque tinha algo me incomodando, pesava pra mim. Então eu tirava e parecia que eu rendia mais.”

Com o tempo, foi se acostumando. “No início, não usava tênis adequado para corredor, então, quando juntei um dinheirinho, já dava para comprar tênis bom para corrida, me acostumei e não tirava mais durante a corrida.”

Quando deixou o projeto da prefeitura, em 96, dividiu os treinos (somente no final da tarde) com a lavoura até 99. Contratada por uma empresa, também de Ribeirão, trabalhava meio período e era dispensada para treinar visando os Jogos Operários. Paralelamente, começou a disputar provas maiores, como a Corrida Integração, e a ficar mais conhecida por estar sempre entre as cinco primeiras. Em agosto de 2000, perdeu o emprego e resolveu se dedicar exclusivamente ao atletismo.

Apesar do sacrifico, com os treinos em dois períodos, os resultados começaram a aparecer. “A primeira Maratona que disputei foi a de Dourados, em 2000, que o Cláudio me levou como treinamento de prova longa para eu fazer 30 km. Mas quando chegou na marca, as outras estavam a mais de 1 km. Então quis terminar e fiz 3 horas e 3 minutos. Como foi um tempo bom, ele me mandou para Curitiba, me preparei durante três meses e ganhei a prova.” Com o título em Curitiba, conseguiu o patrocínio da Companhia Energética Santa Elisa.

Confiante e com melhor preparação, o Brasil conheceu a avalanche Maria Zeferina Baldaia. Em 2001 venceu a 3ª Volta Internacional Pampulha, a Sargento Luis Gonzaguinha Rodrigues e, finalmente, a São Silvestre. “Foi quando ganhei o patrocínio da Mizuno. Na São Silvestre consegui realizar todos os meus sonhos e tive certeza que os treinamentos de 15 anos não foram em vão, cheguei ao lugar mais alto do pódio.”

Maria confessa nunca ter imaginado tanto para a carreira e que chega a ficar assustada com o sucesso. “Pedia a Deus que me desse um patrocinador, alguém que acreditasse em mim e que me desse um salário mínimo para eu largar a lavoura e me dedicar mesmo ao esporte, poder treinar dois períodos.

As coisas aconteceram de uma forma que eu fico até meio espantada, tudo de uma vez só.” Engana-se quem pensa que ela está satisfeita. “Creio que não cheguei no topo porque tenho que realizar um grande sonho: a Olimpíada de 2004. Estou treinando forte, cada dia mais, para no ano que vem estar buscando índice numa prova lá fora para representar o Brasil em 2004 e tentar buscar uma medalha.”

A campeã reconhece os méritos pelas conquistas, mas dá crédito ao treinador. “Um atleta sem técnico não consegue muita coisa. E posso dizer isso porque fiquei 10 anos treinando sozinha, e depois que comecei com o Cláudio é que as coisas começaram a caminhar pra valer. Até então, eu achava que quanto mais corresse melhor ia ficar. Saia correndo pelo meio do canavial de Sertãozinho. Hoje, sei que não é assim. Sei que existe todo um trabalho em conjunto, cada dia é um tipo de treinamento. É por aí que os atletas conseguem melhorar os resultados, baixar marcas, alcançar objetivos.”

A rotina de atleta de elite não é moleza. Maria treina uma média de oito horas diárias, em dois períodos. A metodologia da preparação varia de acordo com a competição. Para a São Silvestre, por exemplo, trabalhará mais velocidade, em relação à resistência. “Duas vezes na semana trabalho velocidade na pista, treino um dia na academia (força, nada com muito peso, em torno de 2 horas) e piscina para relaxamento quando o treino é mais longo que 20 a 25 km. Treino de segunda a domingo. Quando tem competição de segunda a sábado. Meu treino longo é de 30 a 35 km para maratona e 20 a 25 km para meia maratona”, explica ela.

Os sacrifícios de Maria Zeferina não se restringem ao esforço e disciplina nos treinos. Ela abriu mão da convivência com o filho para estar na elite do esporte. “Eu não tenho a rotina de mãe, me lembro corri até os sete meses de gravidez, quando o médico pediu para parar. Ele nasceu, fiquei com ele pouco tempo, até três meses, enquanto amamentei. Depois minha mãe ficou com ele e cuida até hoje. Eu não sei explicar como é o papel de mãe porque foi minha mãe quem criou meu filho. Até hoje ele a chama de mãe-vó. Eu sou Maria, Tata. Ele não me chama de mãe porque ficamos pouco tempo juntos. Sou mais uma irmã pra ele. Eu viajo tranqüila porque sei que a minha mãe está cuidando dele.”

Nada fica entre Maria e o atletismo. “Primeiramente me dedico aos treinamentos porque é uma coisa que não abro mão. Primeiro é o treino, depois a família e a diversão.” Mas, quando pode, procura passar a maior parte do tempo possível com a mãe, o filho e o irmão, principalmente nos finais de semana.

O nome do filho é um capítulo à parte. Escolheu ninguém menos que Michael Jordan para homenagear. “Ele é meu ídolo desde menina. Sempre fui fã dele, guardava recorte de jornal e resolvi que se tivesse um filho seria Michael Jordan. Se fosse menina, seria Rosa Motta, que venceu a São Silvestre por seis vezes.” A corredora portuguesa e o jogador de basquete norte-americano serviram de modelo para a futura campeã. “Sempre pensava nela para vencer os obstáculos, nos treinos, na força dela para ganhar a prova seis vezes.

Admiro o Michael pela raça, pela cor negra. Me chamava atenção a garra dele, o brilho nos olhos de querer vencer e então me apeguei nele.”

Se o preço pelas conquistas é estar longe da família, uma das compensações é poder ajudar a quem ama. Com o dinheiro ganho em provas e dos patrocinadores, ela conseguiu comprar três apartamentos (um para morar e dois como investimento), reformou a casa da mãe e auxilia a família. Com o carro que tem, por exemplo, leva o irmão deficiente para a fisioterapia. Com dinheiro no bolso, pode satisfazer as vontades do filho. “O esporte melhorou a situação financeira, mas a pessoa continua igual, não há porque e nem pra que mudar. Estou aproveitando o meu momento, porque sei que é uma coisa passageira, daqui a pouco vai acabar. Então, quero deixar boas lembranças, sendo sempre eu mesma.”

Com 1,50 metro de altura e 45 quilos, continua a mesma magrinha que a mãe comparava à Rosa Motta. Mas confessa: não come muito. Como precisa, se alimenta bem para agüentar o puxado ritmo de treinos e toma suplementos.

Cuida bem do corpo, mas não tem nenhuma rotina de preparação mental antes de corridas. Pelo contrário, procura sair para descontrair, tipo ir ao shopping. “Sei que muitos preferem ficar trancados pensando na corrida, mas comigo não dá certo.” Também não traça estratégia nas provas. “Procuro acompanhar o pelotão e quando sinto, puxo para vencer. Não tenho estratégia, é uma coisa pessoal, vou pela sensibilidade.”

Define carisma e humildade como características para o sucesso alcançado. Não se considera de ‘muito luxo’, mas gosta de estar sempre de batom e de unhas feitas. Há dois anos, pinta as unhas com o desenho da bandeira do Brasil ou cores e imagens que se identifiquem com o local da competição. Para as mulheres que desejam seguir seus passos, ensina: “Não desista nunca, não só no esporte, em qualquer sonho. Acredite no sonho, continue correndo atrás, lutando, pois um dia se consegue. Tudo é possível. Basta querer, acreditar e ter fé, que as coisas podem mudar um dia.”

Para vencer no atletismo, Maria Zeferina desafia os próprios limites e, principalmente, as melhores corredoras do País e do mundo. E tem opinião formada sobre as africanas, maiores adversárias das brasileiras nas provas de resistência. “Os brasileiros não são unidos, cada um quer ser melhor que o outro. O que falta é trabalhar em equipe, em grupo, igual aos estrangeiros. Eles fazem isso e dá certo. Os africanos não são bicho de sete cabeças. Se eles treinam forte, nós também treinamos. Eles têm pernas e nós também, o que falta é um ajudar o outro. Por que o Vanderlei ganhou a Maratona de São Paulo? Porque trabalhou em equipe com o Daniel Lopes, em conjunto com o Luís Antonio”, afirma, referindo-se ao fato de Daniel ter sido coelho de Vanderlei.

Maria acredita que quando houver união, os brasileiros vão dominar. “Gosto quando tem queniana na provas porque elas imprimem o ritmo. Quando só tem brasileiro fica aquele bloquinho do começo ao fim, a prova é decidida no último quilômetro. Quando tem estrangeira a prova é decidida na largada porque eles imprimem logo de início um ritmo e só acompanha quem está bem preparado. Quem não está fica para trás logo de cara. Eu adoro quando têm estrangeiras na prova, porque aprendo muito. Posso baixar na minha marca.”

Tanto quanto ganhar, Maria Zeferina Baldaia adora correr. E pretende permanecer em atividade mesmo quando o corpo não corresponder mais às exigências do alto rendimento. Costuma dizer que enquanto tiver forças nas perdas, estará correndo, seja com 80 ou 90 anos. “Nunca parei no atletismo, sempre continuava mesmo quando ninguém acreditava em mim. Tive altos e baixos. Dormi em banco de praça, pedi carona, dividi gasolina para ir nas provas, fiquei tempos sem treinar por causa do trabalho, mas sempre voltava para o atletismo. Fui 30ª, 20ª, 8ª, 5ª, até chegar em primeiro. Comecei com 4 quilômetros e cheguei na maratona.”

Nome: Maria Zeferina Rodrigues Baldaia
Idade: 30 anos
Nascimento: 29/8/72
Altura: 1,58m
Peso: 45 quilos

Principais Títulos em 2002:

  • 1º lugar na 8ª edição da Maratona Internacional de São Paulo
  • 2º lugar na 6ª edição da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro
  • 5º lugar na 13ª 10 mil Milhas da Garoto, em Vitória, no Espírito Santo
  • 1º lugar Equipe de 4 feminina (composta por Maria Zeferina Baldaia, Adriana de Souza, Luciene de Deus e Ednalva Laureano) – 10ª edição de Revezamento Pão de Açúcar

Principais Títulos em 2001:

  • 1ª lugar na São Silvestre
  • 1ª lugar no Troféu Cidade de São Paulo
  • 1ª lugar na Sargento Luis Gonzaguinha Rodrigues
  • 1ª lugar na 3° Volta Internacional da Pampulha
  • 1ª lugar Corrida de Reis

Este texto foi escrito por: Rafael de Marco – SuperAção

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