Jornalista Corre

Redação Webrun | Corridas de Rua · 29 nov, 2004

Camila é uma das poucas jornalistas que pratica esporte de aventura (foto: Arquivo pessoal)
Camila é uma das poucas jornalistas que pratica esporte de aventura (foto: Arquivo pessoal)

Os profissionais da comunicação vivem em busca da notícia. Mas atualmente eles também estão correndo atrás de uma vida mais saudável

São Paulo, 6 horas. O friozinho da madrugada ainda paira sobre a capital paulista. O sol se esconde entre as nuvens. As ruas estão vazias. No Parque do Ibirapuera é possível ver uma fina neblina que esconde algumas árvores. Num cenário esbranquiçado três mulheres se alongam. Mais à frente pessoas correm. Um rapaz pedala velozmente sua bicicleta. É o dia que começa bem cedo para os esportistas do Parque.

Neste cenário, Roberto Ferreira, com aparência de cinqüentão em boa forma, é apenas mais um aficionado por corrida e esporte. Mas o homem que molha a camisa seis vezes por semana, e já participou da Maratona de Paris é na verdade um jornalista com 30 anos de carreira.

Jornalista bem diferente daquele que está no imaginário popular. Aquele que fuma seis maços de cigarro por dia, passa horas na frente do computador e muitas vezes tem uma barriguinha saliente por cima das calças.

Parece que as coisas mudaram. O profissional que coloca à disposição do leitor notícias diárias também está preocupado com a saúde, como Roberto Ferreira. Ele começou a correr em 1983 e desde então não parou mais. Antes de começar a praticar exercícios físicos, ele pesava 20kg a mais.

Hoje, no seu currículo de atleta, ele soma 21 anos de corrida e diversas maratonas nacionais e internacionais. E maratona não é coisa para qualquer um. A prova tem 42km de distância e leva em média três horas para ser completada.

Mas para correr é preciso treinar. O único horário vago na agenda de Roberto é 6 horas. Acordar cedo trouxe alguns benefícios para a vida do profissional. “Fiquei mais ligado e também o meu humor melhorou muito. Além disso, não precisei gastar dinheiro com analista, só com tênis”, brinca Roberto. ”Quando não corro meu trabalho não rende”.

Mas a vida pessoal dele teve um empecilho. “Às vezes dava a maior briga com as mulheres por causa de acordar cedo e querer correr todos os dias. Claro que as mulheres viraram ex”, revela.

Hoje a paixão pela corrida se transformou em trabalho. Atualmente Roberto Ferreira é editor da revista especializada no esporte, a Running Br. Agora ele prepara para a prova Volta de Florianópolis, que acontece todos os anos na ilha de Santa Catarina.

De fato, a corrida atropelou a vida dos profissionais de comunicação e também de muitos outros. Alexandre Sukihama, conhecido pelos amigos como Sushi é um exemplo.

Atualmente editor de arte das revistas “Revenda e Construção” e “Atacadistas e Distribuidores”, Sushi não começou a correr por acaso. No final do ano de 2002 ele sofreu um acidente de moto.

“O acidente foi bem perto da editora, eu não estava prestando atenção e passei por um farol vermelho. Não estava rápido, mas um carro pegou a moto do lado esquerdo, acertando minha perna. Não quebrei nada, mas com a batida minha perna ficou inchada e teve um corte mais fundo que demorou para cicatrizar. Tive que fazer câmara hiperbárica para cicatrizar, senão ia ter que fazer encherto”, conta Sushi.

“Até cicatrizar demorou quase dois meses, aí fique mais uns três meses mancando e fazendo fisioterapia. Quando voltei a jogar bola com os amigos, uns oito meses depois do acidente, estava sem preparo nenhum e minha perna estava fraca. Não conseguia acompanhar o ritmo da galera, nem jogar o tempo todo”. Aconselhado por uns amigos Sushi, começou a correr para fortalecer a musculatura da perna. Com o novo esporte conseguiu benefícios a mais. “A corrida me deu mais disposição para o dia-a-dia, além de perder uns quilinhos”, conta satisfeito.

Hoje Sushi treina duas vezes por semana no Parque do Museu do Ipiranga, em São Paulo. No fim de semana ele prefere correr no Parque do Ibirapuera ou então no Parque Celso Daniel, em Santo André.
Mesmo com uma vida mais saudável, Sushi não abre mão de algumas coisinhas na sua alimentação. “Eu procuro comer de tudo, mas ainda abuso de frituras, enlatados e bebidas alcóolicas”, revela.

A corrida traz muitos benefícios para a saúde, como o caso de Sushi, que se recuperou de um acidente, e de Roberto Ferreira, que emagreceu mais de 20kg. O Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Dr. Nabil Ghorayeb, confirmou o risco de ser sedentário. “Diariamente 820 pessoas morrem de infarto no Brasil, por causa do sedentarismo”. Só essa frase já bastaria para que muitas pessoas começassem a correr.

O risco diminui quando a pessoa começa a praticar esportes regularmente. “Depois de seis meses se exercitando, o indivíduo tem uma melhora na qualidade de vida. Não é um chavão, é verdade”, brinca o médico e acrescenta: “diversas pesquisas provam isso”.

Uma dessas pesquisas foi realizada nos Estados Unidos. O risco de infarto diminui quando a pessoa se exercita durante 30 minutos diários. De 100% o risco cai para 66%.

Mas a prática de atividade física sem acompanhamento médico é pior que o sedentarismo. Dr. Ghorayeb contou que no mês de abril do ano passado oito pessoas morreram em São Paulo durante a prática de esporte. ”Normalmente isso acontece porque a pessoa tem uma doença pré-existente e não faz exames regulares”, conta. O mínimo que a pessoa deve fazer antes de se aventurar são dois exames médicos: o teste ergométrico e um exame de sangue completo.

Por falar em aventura não é só o homem que está conciliando o trabalho com o esporte. Algumas jornalistas fazem isso com um pouco mais de adrenalina.

Cheiro de mato, som dos pássaros e um belo céu azul. É nesse cenário que a jornalista Camila Christianini pratica seu esporte favorito, a corrida de aventura. O esporte é bastante radical e mistura trekking, canoagem e mountain bike. Além de técnicas de bússola, técnicas verticais como rapel, cavalgada, nado entre outros. A corrida de aventura é uma especié de rali humano.

O curioso é que Camila começou a praticar o esporte após fazer uma cobertura jornalística. “Minha primeira cobertura de corrida de aventura foi no começo de 2002 em Florianópolis, numa etapa do Circuito Ecomotion. Foram três dias de prova e me apaixonei por aquilo. Sempre fui muito ligada a esportes, e então resolvi que iria experimentar aquela situação de esforço ao extremo, em lugares inóspitos”, revela. Logo depois ela participou de uma prova de aventura de 50km. “A experiência foi emocionante! Depois de lá não parei mais”, conta.

Camila consegue conciliar o trabalho e o esporte de uma forma bem agradável. Às vezes isso se torna uma coisa só. “Sou uma das poucas jornalistas no Brasil que compete em algumas provas para passar aos leitores as emoções daquela competição”. Hoje ela é jornalista do portal de aventura Webventure.

Os benefícios que o esporte trouxe para a vida pessoal e profissional de Camila foram muitos. “Na corrida de aventura você aprende a lidar com situações imprevisíveis, a administrar a paciência, o cansaço, a relação com seus colegas de equipe. São momentos de prazer e estresse que se intercalam durante todo o percurso, por horas e horas. E é o que acontece na nossa vida profissional. A corrida de aventura complementa o aprendizado do dia-a-dia”.

Casos como o de Camila, Roberto e Sushi provam que os profissionais da comunicação estão antenados com a saúde e com o prazer de viver. Muitos podem até se “matar”, no bom sentido, para fazer uma matéria, colocar os jornais nas bancas ou colocar uma notícia no ar. Mas poucos deixam de se cuidar e o esporte é a maneira mais saudável de ter uma vida melhor.

Este texto foi escrito por: Donata Lustosa

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