Doping: a morte do espírito esportivo

Redação Webrun | Corridas de Rua · 05 ago, 2003

Maurren Maggi: suspensa provisoriamente pela IAAF (foto: Wander Roberto)
Maurren Maggi: suspensa provisoriamente pela IAAF (foto: Wander Roberto)

A mais rara e valorosa medalha da história olímpica não foi cunhada em ouro, mas a partir de um singelo parafuso. Sua história começou numa fria tarde austríaca de 1964, em Innsbruck, quando se disputava, pelos Jogos Olímpicos de Inverno, a prova de duplas no bobsled espécie de trenó, extremamente veloz, que desliza numa canaleta de gelo. A dupla britânica, liderada por Tony Nash, tinha completado a primeira descida e ocupava a segunda colocação na competição. Eles se preparavam para a segunda e decisiva descida quando fizeram uma descoberta desoladora: o parafuso que prendia o eixo traseiro de seu trenó havia rachado, o que os deixaria irremediavelmente fora da disputa.

No sopé da montanha gelada, o italiano Eugenio Monti, cuja dupla ocupava a primeira posição na disputa, tomou conhecimento da desgraça britânica. Sem hesitar, o italiano removeu o parafuso do eixo traseiro de seu trenó e ordenou que alguém o entregasse aos ingleses. Os britânicos consertaram o trenó, fizeram uma brilhante descida e ganharam a medalha de ouro. Quando perguntado sobre seu gesto, Monti evitou qualquer comoção: “Nash não ganhou porque eu lhe dei um parafuso. Nash ganhou porque foi o melhor condutor”. Monti perdeu aquela medalha de ouro, mas, anos mais tarde, foi o primeiro atleta a ganhar a medalha De Coubertin, concedida aos que se destacam pela profunda compreensão do ideal olímpico. Entretanto, nem mesmo essa condecoração valeu tanto quanto o parafuso sujo de graxa que Tony Nash fez chegar às suas mãos, com uma emocionada mensagem de agradecimento.

Viajamos no tempo até 1988, no Estádio Olímpico de Seul, onde foi disputada a final dos cem metros rasos para homens, no atletismo. Com uma performance estarrecedora, Ben Johnson conquistou o ouro e bateu o recorde mundial da prova com um tempo tão abaixo da marca anterior que levou os analistas à rediscussão os limites do homem. Não tardou para que o resultado do exame anti-dopping mostrasse que o canadense havia conseguido a façanha através do uso de anabolizantes. Poucas vezes no mundo do esporte alguém foi tão impiedosamente massacrado. Chegaram até a modificar em computador o vídeo da prova injustamente vencida por Johnson, para que sua imagem fosse literalmente apagada da história. O processo que Stálin utilizou para fazer Trotsky sumir dos anais da Revolução Russa foi reeditado para mostrar Carl Lewis cruzando a linha de chegada na primeira posição ainda que com um olhar aparvalhado para alguma assombração que não se via, mas que parecia correr alguns metros à sua frente. Flagrado novamente num exame em 1993, Johnson foi banido do esporte para sempre e hoje é apenas uma triste nota de rodapé na história do atletismo.

Avançando um pouco mais no tempo, chegamos ao momento atual, no qual rara é a semana em que não nos chegam imagens de esportistas chorando em coletivas de imprensa convocadas às pressas, para jurar inocência diante das acusações de dopagem. O último caso foi o de Maurren Maggi, uma das atletas mais queridas do esporte brasileiro. Não vou comentar aqui a situação específica de Maurren, mesmo porque ainda não foi feita a contra-prova de seu teste. Mas tenho que chamar a atenção para o quanto o espírito esportivo foi vilipendiado desde o gesto altruístico de Eugenio Monti até a época de Ben Johnson, em que o doping era tratado como crime e daquela época até os dias de hoje, nos quais chovem casos de dopagem. Curiosamente, os atletas são tratados de forma cada vez mais condescendente, quase como que se tivessem dado azar ao serem flagrados. Quase sempre, alegam inocência. Usaram um colírio, uma pomadinha, um descongestionante nasal, um ungüento para conjuntivite, um remedinho inocente qualquer que, por mera fatalidade, estava na lista de drogas proibidas pelo Comitê Olímpico.

Num mundo onde halterofilistas ingerem testosterona de animais selvagens, nadadoras aparecem da noite para o dia com físico mais desenvolvido do que o de Mark Spitz nos jogos de 1972, em que ex-campeãs aparecem mortas com pouco mais de 40 anos de idade e corredores chegam a trocar todo o sangue do corpo para melhorar a performance e disfarçar o doping, é difícil acreditar que atletas de elite, tão bem assessorados, possam cair na esparrela de usar qualquer medicação sem consultar antes um médico esportivo. Toda a retrospectiva que fiz, na verdade, foi apenas para mostrar como era mais belo o esporte na época em que estava livre da mácula do doping, onde o herói de hoje pode ser o acusado de amanhã. Que vergonha eu sinto de não ter vivido nos tempos de atletas como Eugenio Monti!

Marcos Caetano é carioca, tem 38 anos, é comentarista da ESPN Brasil e colunista de esportes dos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Pasquim. Treina com a Run for Life desde fevereiro de 2003.

Este texto foi escrito por: Marcos Caetano

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