Como correr e jogar futebol sem medo de se machucar

Redação Webrun | Corridas de Rua · 17 dez, 2010

Depois da lesão treinamento na piscina pode ajudar a manter o ritmo (foto: Divulgação)
Depois da lesão treinamento na piscina pode ajudar a manter o ritmo (foto: Divulgação)

Ficar sem jogar uma bolinha com os amigos no país do futebol pode parecer um grande sacrifício, mas também não é nada fácil quando um corredor sofre alguma lesão em campo e precisa se afastar das corridas para se recuperar. Mesmo que de forma amadora, o futebol, segundo treinadores, pode ser um grande risco para quem não abre mão de correr.

Reunir velhos companheiros para uma pelada representa a descontração da semana para muitas pessoas e também uma oportunidade de melhorar (ou manter) o condicionamento físico. Entretanto, quem corre deve estar atento aos perigos que a brincadeira oferece. Para o professor de educação física Nelson Evêncio, o futebol ajuda na preparação, mas o impacto da modalidade pode acabar machucando.

“No futebol além de correr em linha reta, o atleta corre se deslocando lateralmente ou de costas. Acelera e desacelera. Situação que aumenta as chances de contusão de joelho e no tornozelo”, explica Evêncio. Ainda de acordo com ele, apesar desta desvantagem, o futebol é o mais completo porque trabalha muito a agilidade. “Um jogador se beneficia muito com um treinamento de corrida. Inclusive cheguei a ter alunos jogadores de futebol que corriam para obter melhor performance em campo”.

Já o corredor que for jogar bola, segundo Nelson, não será tão favorecido, e a tese parece ser verídica quando analisamos uma pesquisa científica realizada pelo fisiologista Turíbio Leite de Barros, da Unifesp e do São Paulo Futebol Clube: um atleta profissional chega a completar um percurso de nove a 11 quilômetros durante os 90 minutos de uma partida. Sendo que os laterais e alas são os que mais correm, superam inclusive os atacantes. Estes, por outro lado, chegam a dar 50 piques de até 15 metros em altíssima velocidade.

Esportes incompatíveis? – “Tenho um amigo que foi pré selecionado para os jogos olímpicos de 1988 decidiu jogar bola um mês antes e quebrou a perna”, relata Nelson, que alerta sobre a necessidade de se afastar de qualquer jogo quando há alguma competição em vista.

“A gente tem um período que se chama específico, no qual o atleta faz um treinamento bem forte para chegar bem em uma prova. Nesse momento normalmente a musculatura é trabalhada ao limite, então qualquer esforço ou movimento de impacto pode provocar uma lesão”, garante.

História de vida também curiosa é a do atual técnico de corrida Moacir Marconi, que desde criança até o final da adolescência jogou futebol, mas acabou optando pelo atletismo. “Eu era apaixonado por futebol e era um bom jogador. Ao mesmo tempo tinha um excelente rendimento em corrida. Fazia cinco anos que estava correndo como profissional quando tentei dar uma chance para minha carreira futebolística. Fiz o teste no Londrina Esporte Clube para saber qual caminho deveria seguir e me surpreendi”.

Resultado? O corredor que antes era um bom jogador de futebol deixou de ser um bom atleta em campo. “O ritmo e o trabalho muscular de um corredor profissional é outro. Então é impossível ser extremamente bom nas duas coisas”, explica Marconi, que também chegou a brincar com a bola em período de descanso e se lesionou. “A recuperação foi bem lenta, por isso até em temporada de férias, quando não há nenhuma competição, é importante não se arriscar”, alerta.

Mais experiências – Leandro Gallo, também professor de educação física e atual dono de uma academia na região do Ipiranga, em São Paulo, foi uma das vítimas do esporte tradicionalmente brasileiro. “Estava jogando futsal e fui dividir uma bola, mas o peso do meu corpo foi para o meu pé que estava no chão. Houve uma entorse no tornozelo e uma fratura. Não teve jeito, foram 30 dias só de gesso”, relembra o professor, que após o acidente mudou por completo alguns hábitos.

“O futebol é um jogo de corpo, com mais contato físico, estava consciente dos problemas que poderiam surgir novamente, mas queria continuar a jogar. Então personalizei um tipo de treinamento para mim”, conta Leandro. Desde 1997 o atleta não teve mais nenhuma lesão, ele corre no mínimo duas vezes por semana (cada treino com duração de 1h e 1h30), faz um trabalho de musculação e de relaxamento com hidroginástica e permanece jogando futebol aos sábados.

De acordo com o treinador, o ideal é intercalar um dia de descanso após dois dias de atividades e não extrapolar em nenhum momento, tudo para prolongar ao máximo a carreira esportiva. “Se você não toma esse cuidado a qualquer momento pode não só sofrer uma contusão como também ter um overtraining, que é uma fraqueza acompanhada de desidratação, por exemplo”.

Antes de colocar um tênis ou um shorts não basta estar em dia apenas com os treinamentos, mas é preciso se atentar para os acessórios de segurança. Com a variedade de preços e opções para investir na prática esportiva nada é desculpa para deixar de se precaver, mesmo que a pratica seja amadora, garantem os treinadores.

“Passei a dar mais importância para os materiais esportivos depois de me machucar. Há necessidade de ter um bom tênis, protetores no tornozelo e caneleiras no caso do futebol. Só quando a gente sente na pele nos cuidamos mais”, diz Leandro, que também faz um resfriamento após um jogo (alongamento de cinco minutos para diminuir as chances de novas lesões).

Para Nelson Evência, o futebol em grama sintética pode aumentar o risco de lesão, por causa do piso mais escorregadio. Lesões de ligamento são mais frequentes e, neste caso, para evitá-las o treinador recomenda exercícios preventivos de propriocepção. Esse trabalho antes era feito apenas para pessoas que já tinham sofrido algum tipo de lesão. Hoje muita gente faz essa atividade como forma preventiva. “Ajuda a melhorar a percepção do corpo durante o impacto. É uma espécie de consciência corporal. Se uma pessoa vai pisar no buraco, por exemplo, ela imediatamente receberá uma ordem do cérebro para compensar o movimento errado”, diz Nelson.

A postura mais equilibrada e percepção dos movimentos, segundo o treinador, são conquistados por meio de exercícios de ginástica funcional. “Eu mesmo vivia torcendo o tornozelo e com esse trabalho melhorou bastante. Na trilha do Ibirapuera, onde tem bastante raíz, vivia sofrendo torção, mas com esse trabalho senti bastante diferença”, conta.

Como se recuperar – “Na piscina é possível tirar o impacto depois de sofrer uma lesão. Eu sabia que se fosse para dentro d’água não ia perder o ritmo”, conta o professor Leandro, que além de nadar fez fisioterapia e teve uma recuperação bem rápida, ao ponto de retornar as atividades de antes com um bom condicionamento. “Depois da liberação do meu médico voltei a correr e não senti fadiga, nem cansaço”, acrescenta.

Mas o professor adverte: cada caso é diferente do outro e é obrigatório buscar um médico especializado em esportes, no caso um ortopedista, que pode avaliar o paciente. “Só depois do paciente passar por esse médico é que ele seguirá para um fisioterapeuta. Quando alguém não procura ajuda de um profissional certo a recuperação demora mais”. Nelson também diz que a paciência e o respeito ao tempo é fundamental. “O que acontece com os atletas profissionais, sobretudo com jogadores de futebol, é que eles apressam a recuperação para voltar a competir, mas isso agrava mais o problema”, completa.

Texto escrito por: Monique Barleben 

Redação Webrun

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