Não é difícil ver situações de hostilidade entre ciclistas, motoristas e corredores na Cidade Universitária. E neste sábado, quando o acidente que matou Álvaro Teno completou uma semana, não foi diferente: um grupo de ciclistas foi ultrapassado por um carro em que o motorista estava com o braço para fora da janela, fazendo aquele famoso gesto nada gentil com a mão.
Feliz, mas hoje triste correndo. Foto: Camila Pissolito/WebrunO mesmo grupo de bicicletas ficou exaltado quando se deparou com corredores atravessando a rua, e os apressaram com palavras igualmente nada gentis. Os corredores, por sua vez, responderam com mais palavrões. Estas duas situações aconteceram em menos de cinco minutos e envolveram atletas que estavam se dirigindo ao Black Run.
Pessoas de preto eram maioria no campus. Foto: Camila Pissolito/WebrunOrganizado por Karen Riecken, colega de treino de Álvaro, com o apoio da Associação de Treinadores de Corrida de São Paulo, o protesto nasceu com o intuito de homenagear as vítimas do ocorrido e contou com 3.4 mil pessoas confirmadas em sua página do Facebook. Na manhã de sábado (23/08), atletas vestindo preto em sinal de luto eram maioria no campus, onde aconteceu um abraço coletivo, além de orações e agradecimento da família de Álvaro.
Família que corre
Katia Manuel, que costuma treinar na Raia Olímpica com as Divas que Correm, compareceu ao Black Run acompanhada da família: meu pai é corredor e minha filha, com sete anos, já participou de diversas provas. O acidente impactou a minha família e mesmo minha filha sendo tão pequena, entendeu o ocorrido e também se preocupa com a nossa segurança.
A família de Karen esteve presente na USP para a homenagem. Foto: Camila Pissolito/WebrunO sentimento é de revolta. Não acredito que a reitoria deva se posicionar contra os corredores, mas sim oferecer melhores condições. Sinalização de velocidade para os veículos e reforço na segurança, principalmente para quem treina a noite, já seria um bom começo, sugere.
Podia ser eu
Para as amigas Katia, Claudia, Ana Cristina, Daniela e Nilceia, a sensação é de que poderia ter acontecido algo grave com as suas vidas. Todas estavam lá na hora do acidente e presenciaram a movimentação e resgate das vítimas.
Parar de correr na USP não é uma opção para este grupo. Foto: Camila Pissolito/WebrunSó naquele dia, passei quatro vezes onde aconteceu o atropelamento. Todas aqui passaram, seja quem treina seis, oito ou dez quilômetros, é um ponto em comum em todos os trajetos, diz Claudia.
Elas foram unânimes em relatar que os carros e ônibus não respeitam os corredores e ciclistas, além de um agravante: segundo o grupo, quando há festas na Universidade nas noites de sexta, é normal ver pessoas dirigindo alcoolizadas na hora em que chegam para treinar, por volta das 06h, no sábado.
A gente toma cuidado, sempre estamos muito atentas e observando a movimentação dos carros. Parar de correr não é uma opção, afirmam.
Os dois lados da situação
Para Lucas Horta, triatleta, tanto os ciclistas como os corredores podem melhorar suas atitudes: Acho que já há um respeito natural por parte dos atletas, mas ainda não é o suficiente. Como também pedalo além de correr, costumo presenciar o dobro de perigo.
Excepcionalmente no dia do acidente, o casal fez uma viagem. Foto: Camila Pissolito/WebrunAcompanhado de Eleonora Ferraro, Lucas diz não ter treinado no último sábado por conta de uma viagem ao interior para visitar a sogra: Resolvemos viajar e não estávamos aqui no dia. Infelizmente, o que aconteceu é reflexo do que já vem acontecendo há algum tempo, é fato que existem tanto motoristas bêbados, como imprudentes neste espaço. E vai continuar acontecendo se não houver mudanças, conclui.
Este texto foi escrito por: Camila Pissolito