
A compositora passou a vida lutando contra o preconceito (foto: Arquivo Pessoal/ Edinha Diniz)
Ó Abre Alas/Que eu quero passar /Eu sou da Lira,/Não posso negar/ Ó Abre Alas/Que eu quero passar (…).
Essa marchinha de carnaval composta por Chiquinha Gonzaga, por volta de 1899, para homenagear a escola de samba Rosas de Ouro, serve perfeitamente para ilustrar o papel dos batedores em uma corrida de rua. Policiais militares guiando motocicletas de gala, ou mesmo motos comuns; guardas civis metropolitanos; agentes de trânsito, enfim, qualquer que seja a viatura e o condutor do Abre-Alas, a responsabilidade é grande.
Cristiano Barbosa, responsável pela divisão de Corridas de Rua da Federação Paulista de Atletismo, afirma que a importância do batedor é zelar pela integridade física do atleta. O batedor com as motos tem que deixar o atleta numa condição que ele se preocupe apenas com a prova, para que não aconteça o que aconteceu na olimpíada, comenta ao se referir ao irlandês que se jogou em cima de Vanderlei Cordeiro, em Atenas.
E qual seria o padrão adotado pelos batedores, na hora de acompanhar os atletas? Seguir os primeiros colocados, seguir o pelotão todo? Cristiano explica: do primeiro até o último atleta deveria ter acompanhamento, mas é inviável, se não daqui a pouco teremos um desfile de motos, brinca. Segundo ele, a recomendação é que, após um determinado momento, cada dupla de motoqueiros acompanhe os líderes da prova, com o intuito de evitar invasões.
Curiosidades – Com a quantidade de provas que são realizadas nas ruas, é inevitável que aconteçam fatos curiosos com os Abre-Alas; uma delas lembra muito uma cena de filme, no melhor estilo James Bond. Durante a disputa de uma maratona, em São Paulo, os batedores escoltavam os atletas pela Avenida 23 de Maio, sentido centro, quando ouviram sirenes e avistaram uma luz brilhante à frente.
Era um fusca que estava sendo perseguido pela polícia e entrou no percurso, conta Cristiano. O motorista trocou tiros com a polícia e foi induzido a pegar um desvio, bem no meio da prova. Na volta, encontramos o carro batido no poste e cheio de furos de bala, completa. Por sorte não houve nenhum prejuízo para os corredores e nem para a prova.
Outros fatos curiosos que já aconteceram englobam desde a necessidade de se retirar bois e vacas do percurso, até um problema com o caminho correto a ser seguido, que deixou os Abre-Alas perdidos. Para informar o traçado, sempre há um fiscal na garupa de uma moto, que sinaliza para os atletas o trajeto correto.
Ivan Gomes Júnior é o motoqueiro responsável por levar o fiscal que orienta os corredores nas principais provas de São Paulo, como a São Silvestre. Há mais de 20 anos nessa área, ele comenta algumas peculiaridades sobre o assunto. Em uma das edições da São Silvestre teve um corredor que errou o caminho. O fiscal indicou um lado e ele foi para o outro.
Um fato que acontece com freqüência, principalmente em provas grandes, é o público querer ajudar o atleta. As pessoas jogam água, querem entregar um copo na mão do corredor, mas nada muito agressivo. Às vezes querem ajudar, mas acabam atrapalhando. Algumas vezes também animais entram na pista e os Abre-Alas precisam impedir que eles cheguem perto dos corredores.
Na São Silvestre de 2005, um cachorro entrou no percurso e foi correndo até o primeiro quilômetro com os líderes. Ele não tinha como sair, devido às grades e seguiu até a Consolação, aí abriram uma grade e ele foi embora, lembra Ivan.
O cabo Antônio Delfin, da 3ª Companhia Rocam/ Escolta, já trabalhou em diversas provas, principalmente na São Silvestre e comenta como os policiais são orientados a agir em caso de invasão. A gente acelera um pouco a moto e a coloca entre a pessoa que está tentando obstruir e o atleta. Ele explica também, que em geral seguem do primeiro ao quarto colocado, sempre em duplas, conforme o número de motos disponíveis.
Concentração – Além de muita concentração, é preciso estar preparado para qualquer eventualidade durante o percurso, pois fatos inusitados podem acontecer em cima de uma moto durante a corrida. O atleta dá um gole na água e joga o copinho no chão e a moto acaba escorregando. Outra coisa que acontece são com os chuveiros, colocados no trajeto. Às vezes somos obrigados a passar embaixo, mas geralmente está calor e é até bom.
Mas, segundo Cristiano Barbosa, além de curiosidades, já houve um caso trágico há alguns anos atrás, ocasião em que um motoqueiro perdeu a vida durante uma corrida. Ele foi tentar impedir que um veículo invadisse o percurso, mas acabou sendo atropelado e morreu.
Origens – Mas de onde vem os Abre-Alas? Em São Paulo, eles são o Pelotão de Escolta da Polícia Militar, filiado à Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicleta), criado em 1947. O objetivo inicial do grupamento era realizar a escolta do Governador do Estado, na época Ademar de Barros, motivo pelo qual ficaram conhecidos como escolta do governador. As motos utilizadas são da marca Harley Davidson, modelo Road King Police 1340cc, de cor vermelha.
Com o passar do tempo diversas celebridades e autoridades de relevância para o Governo utilizaram a escolta, que se tornou reconhecida internacionalmente como uma das mais eficientes do mundo. O sargento Carlos Eduardo Magalhães é autor do livro Rocam – Emoções e Aventuras Policiais Sobre 2 Rodas, no qual estão descritas diversas atividades e a história da Rocam. Segundo escreve o sargento, o grupamento é responsável por diversos eventos na cidade, desde desfiles e festas, até a escolta de provas como a São Silvestre e a Sargento Gonzaguinha.
Os Abre-Alas podem ser vistos nas principais provas de rua de São Paulo e do Brasil, sempre atentos com o trânsito de atletas e zelando pela integridade física dos mesmos. Muitas vezes são anônimos que fazem um serviço de grande importância, sem eles não há garantia de segurança.
Por volta do ano de 1899 Chiquinha Gonzaga se mudou para o bairro do Andaraí, no Rio de Janeiro, local onde cordões carnavalescos faziam grande sucesso. Certa vez, ao ouvir despreocupadamente os ensaios do cordão Rosa de Ouro, se sentou em seu piano e compôs uma marcha em homenagem ao grupo. Dessa forma foi criada a primeira música de carnaval.
Até então, nenhum compositor havia elaborado uma composição para um cordão carnavalesco, o que existia eram apenas refrões populares, sem melodia. A marcha “Ó Abre Alas” tornou-se o seu maior sucesso e é tocada até hoje em todos os bailes carnavalescos.
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, nasceu em 17 de outubro de 1847 no Rio de Janeiro e morreu no dia 28 de fevereiro de 1935. Durante toda sua vida ela lutou contra o preconceito sempre em nome de sua grande paixão, a música.
Letra de “Ó Abre Alas”
Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar
Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Para saber mais sobre a vida e obra de Chiquinha Gonzaga: www.chiquinhagonzaga.com.
Este texto foi escrito por: Alexandre Koda