Jacqueline Terto: uma (ultra) professora de fibra

Redação Webrun | Ultra Maratona · 29 dez, 2008

Atualmente ela trabalha com esporte adaptado (foto: Arquivo Pessoal)
Atualmente ela trabalha com esporte adaptado (foto: Arquivo Pessoal)

A ultramaratonista de Natal (RN) Jacqueline Terto começou a se interessar pelas corridas sob influência de seu professor de Educação Física aos 12 anos de idade e hoje, aos 41, já disputou diversas ultramaratonas pelo Brasil. Conheça a história de vida desta professora de educação física e psicóloga, que recentemente faturou a Jungle Marathon na Floresta Amazônica.

“Meu professor disse que um dia seria uma grande atleta”, lembra Jacqueline. “Adorei a idéia, pois sempre fui muito levada e vivia tomando ‘coça’ da mamãe por estar sempre correndo. Não fazia nada parada como uma pessoa normal”, brinca. Ela começou a se empolgar com a idéia de correr e logo no ano seguinte (1980) passou a disputar provas de fundo e tornou-se campeã numa competição de adultos. “Os 1.500 e os 3.000m eram as minhas especialidades”.

Como os bons resultados começaram a aparecer, ela resolveu disputar provas em alto rendimento, em nível de seleção brasileira, mas aos 17 anos teve um problema e precisou mudar o ritmo. “Isso somado à separação dos meus pais fez com que eu saísse do circuito, mas nunca deixei de correr”, desabafa a atleta.

A descoberta das provas de longa distância veio em 2005, ocasião em que seu companheiro de treinos Márcio Villar a convidou para disputar uma prova de 24 horas ininterruptas em São Caetano do Sul (SP). Ao contrário de outras pessoas, Jacqueline não desencorajou o amigo, pelo contrário, deu o maior apoio. “Na hora pedi que ele fizesse nossas inscrições. Tempos depois soube por ele mesmo que na verdade tudo o que ele queria era também ouvir um não meu para desistir em definitivo”, lembra a competidora.

Na prova de São Caetano ela obteve a sexta colocação na categoria geral feminina e foi a primeira na categoria 35 a 39 anos e ressalta que conseguiu concluir a prova graças a ajuda do Terapeuta Corporal Luiz Lacerda. “Ele cuidou de mim como se fosse sua atleta de anos”, lembra Jacque. “Por ser debutante cometi um festival de bobagens e acabei com desidratação, hiponatermia (ocasião em que a concentração do sódio no sangue cai vertiginosamente), falta de carboidrato e o estresse natural da prova. “Um desgaste muito além do necessário”, completa.

Depois da primeira ultramaratona ela não parou mais e hoje diz que “fica até sem graça fazer outras coisas”. Existem diversos formatos de ultra, como buscar a maior quilometragem em um determinado período, ou percorrer uma distância num tempo pré-determinado pela organização de prova. “É muito instigante ao nosso ego”, comenta empolgada.

Currículo – Ainda em 2005 ela correu da Praça da Sé até a cidade de Aparecida do Norte, num evento sem caráter de competição organizado pelo também ultramaratonista Carlos Dias. Em 2006 participou da Jungle Marathon na Floresta Amazônica, prova na qual os atletas passam sete dias correndo em trilhas, mangues e rios com uma mochila nas costas. Ela terminou em terceiro lugar, mas com a vontade de voltar e obter um melhor resultado. “No segundo dia já tinha estourado os pés todo. Bolhas com sangue de dar gosto! Terminei a prova apenas porque jamais havia deixado uma prova sem terminar em toda minha vida (e o meu limite ainda permitia tal bravura)”, relata Jacque.

Ainda no ano de 2006 venceu as 24 horas de Salvador com o recorde norte-nordeste da prova, correu uma prova no frio argentino, onde obteve o segundo lugar e foi campeã da Ultras de Mesquita Tudo pela Paz no Rio de Janeiro, prova em que guarda más recordações dos organizadores. Seus melhores resultados, porém, vieram este ano com as 24 horas de Curitiba e mais uma disputa da Jungle Marathon.

Na prova paranaense ela ficou com o vice, mas conquistou sua melhor marca nas 24 horas: 186 quilômetros percorridos. Já em meio às cobras, onças, macacos e outros companheiros da Jungle Marathon, ela liderou de ponta a ponta para se tornar campeã e ainda desbancar várias atletas estrangeiras. “Trabalhei dois anos visualizando essa vitória e lavei a alma, o espírito e os pés literalmente”, lembra Jacque emocionada. Ela diz que ainda chora ao lembrar do feito. “A emoção é indescritível com a bandeira do Brasil carregada com amor total e a certeza de que a Amazônia é nossa”.

Apesar de todas as conquistas, não só de flores viveu a carreira da superatleta. No início de 2008 pela segunda vez ela não conseguiu conquistar a Brazil 135, prova de 217 quilômetros na Serra da Mantiqueira, ocasião em que o limite máximo do esforço foi atingido. “Fui retirada no quilômetro 80 por apresentar um quadro de sangramento”, lamenta Jacqueline que teve dificuldades em superar a depressão por não ter completado uma prova pela primeira vez em mais de 20 anos. Da outra vez que tentou participar do evento, se lesionou duas semanas antes e ficou de fora.

Mas, para agüentar o ritmo forte nas duras competições é necessário ser uma super heroína e ter uma dedicação exclusiva aos treinamentos, certo? Errado. Pelo menos na opinião da carioca, que faz treinos “dentro da maior normalidade”. Ela sai de casa às cinco da manhã e corre trechos que variam entre 22 e 28 quilômetros nos dias de semana. Já aos sábados e domingos faz os famosos “longões” e passa por terrenos com subidas, areias fofas e trilhas.

“A alimentação também não reza o mais indicado”, brinca a ultraatleta. “Devido à correria no trabalho com muitas reuniões e decisões a serem tomadas diariamente, quase que vivo a base de lanches. Procuro então os que sejam mais nutritivos. À noite em casa procuro me alimentar melhor”, confessa. Já durante os treinamentos ela segue uma hidratação e suplementação religiosas de acordo com as necessidades de seu corpo.

Para bancar os altos valores das inscrições ela trabalha como a maioria dos brasileiros, já que grande parte dos ultramaratonistas não consegue patrocínio no Brasil. “Conto com a Academia Personal Studio e com o Terapeuta Luiz Lacerda, que me atende sem cobrar grandes honorários”.

Formada em Educação Física, ela se especializou em esporte adaptado, formou-se em psicologia esportiva e chegou ao grau de Mestre em Psicologia Social. “Atualmente trabalho coordenando projetos sociais em Vilas Olímpicas dentro de comunidades de baixa renda no Rio de Janeiro”, comenta Jacqueline. O trabalho tem o suporte da Prefeitura e visa oferecer práticas esportivas, sociais, de lazer e cultural para melhorar a qualidade de vida das pessoas. “Vivenciamos verdadeiros exemplos de garra e determinação que nos fazem refletir a vida diariamente”.

Futuro – Para a próxima temporada ela pretende garimpar mais patrocinadores, já que está complicado bancar tantas despesas com as competições. Ela também pretende dar vôos mais altos e encarar disputas fora do país. “Em janeiro vou tentar pela terceira vez a BR 135. Ela é a prova que estou me preparando para fazer muito bem, pois quero ir para a Bad Water”, relata a carioca. Para disputar a prova no deserto dos Estados Unidos, ela precisa apresentar um currículo notável de participações em longas distâncias.

Fora o lado competitivo, ela pretende encabeçar um grande projeto de cunho social, atravessando o país correndo em prol da pessoa com deficiência. Ela também acredita que um dia a imagem do ultramaratonista no Brasil vai mudar e eles não serão mais vistos como “malucos, mas sim como pessoas que buscam superar limites”. Ela finaliza dizendo que nunca desiste de seus sonhos e cita o poeta Carlos Drummond de Andrade. “Um Sonho que se sonha só é apenas um sonho; um sonho que se sonha junto vira realidade”.

Este texto foi escrito por: Alexandre Koda

Redação Webrun

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