Ultramaratonista corre do Oiapoque ao Chuí

Redação Webrun | Ultra Maratona · 29 mar, 2007

Carlos vai percorrer nove mil quilômetros (foto: Alexandre Koda / www.webrun.com.br)
Carlos vai percorrer nove mil quilômetros (foto: Alexandre Koda / www.webrun.com.br)

O ultramaratonista Carlos Dias se prepara para mais um desafio em sua carreira: correr nove mil quilômetros do Oiapoque (Amapá) ao Chuí (Rio Grande do Sul), os dois extremos do Brasil. Seu objetivo é mostrar, com a corrida, que o ser humano é capaz de superar as adversidades que lhes são impostas.

Carlos deve partir do Oiapoque no dia 27 de maio e encerrar a jornada após percorrer cerca de 75 quilômetros diários, num total de 120 dias. Algumas vezes ele terá que dormir em rede, barraca, ou até mesmo nos postos da Polícia Rodoviária Federal, que fornecerão apoio em algumas cidades. “Nos primeiros 20 dias serão 220 quilômetros de diferença de uma cidade para a outra, em percurso de Rodovia Federal de terra”, explica.

Mas essa predileção por provas inusitadas não é nova na vida de Carlos. Ele já participou de competições de longa distância na África, Estados Unidos e Europa e protagonizou outras expedições como essas. “Sempre que eu tive uma adversidade aprendi e cresci e muito. Vou mostrar com minhas próprias pernas que o Brasil tem muitas adversidades e que o brasileiro sabe lidar com elas”, comenta.

Equipamento – Para encarar essas adversidades, Carlos conseguiu o patrocínio de uma empresa chamada Crocs, que lançará no Brasil um calçado leve e indicado para ultramaratonistas. “É um produto feito nos Estados Unidos e era usado por velejadores e praticantes de esportes de aventura, que lidavam com água e queriam um sapato confortável e que aderisse ao terreno”, comenta. Segundo ele, o calçado ainda é antibactericida, combate o mau cheiro e economiza o esforço muscular.

Durante os nove mil quilômetros, ele vai utilizar pelo menos 30 pares do Crocs, que tem uma autonomia de 200 quilômetros, contra 350 de um tênis convencional. “Eles vão lançar o tênis nesse desafio que eu estou fazendo. Já treinei mais de 30 dias e me senti bem, já que ele trabalha o movimento lateral, para evitar torção do pé”.

A Travessia

O ultramaratonista também vai contar com o apoio de duas pessoas durante a jornada. Uma delas vai pedalar ao seu lado durante todo o tempo para fazer escolta, enquanto a outra estará num veículo e será responsável por levar ofícios nas cidades pelas quais ele vai passar. “A Polícia Rodoviária Federal também vai me acompanhar em alguns trechos no início da manhã e no fim da tarde, a partir de Tocantins”, lembra Carlos.

De acordo com ele, o custo total do projeto foi orçado em R$60 mil e, para conseguir arrecadar o montante, ele está vendendo cotas de patrocínios. Até o momento a Crocs já entrou com R$10 mil e outras entidades estão colaborando da forma que podem.

A Clínica Dr. Osmar de Oliveira, por exemplo, se prontificou a realizar um check-up no atleta para avaliar sua condição física. Uma empresa de massas, que produz macarrão à base de banana, vai fornecer o composto gratuitamente para ele.

Segundo Dr. Osmar de Oliveira, após um exame clínico básico e um exame ortopédico, o atleta apresentou ótimas condições de saúde e está preparado para encarar o desafio. “Avaliamos que o coração está com uma escuta perfeita e com uma freqüência cardíaca baixa. A pressão está boa, típica de um atleta e todos os reflexos estão normais”.

Alimentação – O médico ainda recomenda a perda de peso, aproximadamente 10 quilos, para evitar que o atleta carregue um fardo desnecessário durante a corrida. “Ele tem gordura suficiente para queimar nesse um mês que antecede a largada e, do ponto de vista muscular, eu orientei para que ele evitasse fazer grandes musculações, a não ser de membro inferior”. Carlos então vai tranqüilo, sabendo que a saúde está em perfeito estado. “As palavras do Dr. Osmar me trouxeram uma segurança ainda maior”.

Já sobre a comida durante o trajeto, o cardápio será basicamente composto por massas, como purê, pão com geléia e o macarrão de banana, assim como castanha de caju, água, soro e refrigerante de cola, para repor glicose e sais minerais. Mas, o fisioterapeuta David Homsi, que integra a equipe da clínica do Dr. Osmar de Oliveira, diz que ele precisa consumir proteínas também. “A partir de certo período, em vez de perder apenas gordura, você pode começar a perder músculo, que é a parte protéica do corpo e corre o risco de sofrer lesões. Então, é sempre importante colocar um pouco de proteína na dieta, como carne vermelha”.

David, juntamente com a equipe da clínica, vai acompanhar o progresso físico do atleta num determinado ponto da viagem, para avaliar se ele tem condições de prosseguir. “Durante uma semana eles vão me acompanhar em um estado, talvez Espírito Santo, Rio de Janeiro ou São Paulo, onde provavelmente estarei mais desgastado e terei perdido muito peso. Então, esse suporte médico e fisioterápico será importante”, avalia.

Epopeia

Algumas cidades que já tomaram conhecimento da epopéia de Carlos Dias, como São Bernardo do Campo (SP), São Caetano do Sul (SP), Guarapari (ES), Eunápolis (BA), Altamira (PA), entre outras, já se prontificaram a fazer uma grande festa de recepção quando ele chegar. “Em São Caetano, a prefeitura e o Imes estão preparando uma festa em conjunto”.

Ao final dos nove mil quilômetros e mais de 100 dias de corrida, Carlos Dias pretende mostrar que nada é impossível e que a força de vontade pode fazer com que o ser humano conviva com as dificuldades e as vença. “A emoção de um desafio desses é poder conhecer o país com as próprias pernas”, comenta. “Quero fazer com que as pessoas reflitam, quero causar impacto na minha passagem, sair do comum, mostrar que o ser humano é capaz de coisas diferentes”, completa.

Além disso, após completar o percurso, Carlos pretende usar essa nova experiência para completar um livro. “Estou escrevendo um livro que fala sobre adversidades. Sempre realizei grandes desafios que criam uma grande indignação nas pessoas e coloquei para mim mesmo que queria terminar esse livro durante o desafio e depois lançá-lo comercialmente”.

Sobre o atleta – Carlos Roberto Lima Dias sempre procurou aliar o esporte ao trabalho, com o intuito de manter a qualidade de vida. Antes de se tornar ultramaratonista, ele dobrava pára-quedas de uma equipe com o objetivo de ganhar saltos gratuitos aos sábados e domingos. “Na época eu tinha três coisas na minha cabeça: trabalhar, estudar e fazer a diferença no esporte, nem que fosse no jogo de botão. Não queria ser campeão mundial, recordista, mas queria fazer alguma diferença”.

Após algum tempo, ele resolveu partir para um desafio maior e colocou na cabeça que queria completar uma maratona. Depois de correr os 42,195 quilômetros da Maratona de São Paulo e chegar entre os últimos colocados e sentindo muitas dores no corpo, ele decidiu treinar diariamente para completar uma prova desse tipo sem dificuldade.

“Eu me formei em administração, consegui fazer pós-graduação e fiquei quase 10 anos numa empresa, cinco em outra, sempre correndo. Hoje não estou numa empresa fixa, mas trabalho com palestras para empresas e pousadas, corro e organizo ultramaratonas”, conta.

Motivação – Sempre com o lema “o que é difícil me dá motivação”, Carlos concluiu a primeira ultramaratona em 1997 e depois resolveu participar da Comrades, uma prova de 90 quilômetros nas montanhas da África. “As pessoas diziam que era impossível e isso me deixou indignado. Eu ganhei patrocínio do dono da empresa onde trabalhava, completei entre os últimos, mas foi uma prova mágica”.

Após finalizar a travessia do Oiapoque ao Chuí, Carlos Dias já tem em mente o próximo desafio: voltar para a Comrades. “Essa foi uma das provas que me mostrou que o ser humano não tem limites, quem coloca limites somos nós mesmos. Se você afirma que não consegue correr 500 metros, não vai conseguir, você tem que programar sua vida positivamente para conseguir algo”.

Este texto foi escrito por: Alexandre Koda

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