Perfil dos Atletas do XXIV Troféu Brasil de Atletismo

Redação Webrun | Atletismo · 17 fev, 2006

Gráfico com o nível de escolaridade dos atletas (foto: Nelson Evêncio)
Gráfico com o nível de escolaridade dos atletas (foto: Nelson Evêncio)

Uma pesquisa feita entre os dias 16 a 19 de junho, com parte dos atletas do Troféu Brasil 2005, realizado no Ginásio do Ibirapuera, revela o perfil sócio-demográfico dos atletas de elite do Brasil. A pesquisa envolveu 129 atletas selecionados entre os 772 inscritos, nas mais diversas provas, e foi feita pelo Prof. Nelson Evêncio, técnico de atletismo da região de São Paulo. Segundo Evêncio, o objetivo do trabalho é conhecer melhor os atletas e sua realidade particular, visando encontrar os pontos fortes e fracos, em busca de melhores resultados em grandes competições internacionais como: Jogos Panamericanos, Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos.

São Paulo – A pesquisa possibilitou o levantamento de muitos dados interessantes. 48% dos atletas abordados eram mulheres e 52% homens. A proporção de homens entre os inscritos foi um pouco maior, 57%, mas os números mostram que as mulheres também estão presentes no atletismo profissional em grande número. A maioria dos atletas é solteira (87,5%) e apenas 8,6% deles tem filhos.

Há pessoas que iniciaram o esporte com idade entre oito e 26 anos, porém as idades em que houve maior adesão foram entre 14 e 15 anos para homens (36%), 12 e 14 anos para as mulheres (39%), sendo que dos 21 anos em diante está adesão foi pouco significativa. A idade média dos atletas de ambos os sexos fica em torno de 24 anos, mas a pesquisa mostrou que há atletas ativos com até 40 anos.

O Troféu Brasil, um dos mais importantes eventos do atletismo brasileiro, teve (17%) dos atletas participando pela primeira vez, (19%) participando pela 2ª vez e (17%) participando pela 3ª vez, o que significa que (53%) dos atletas participam pela 1ª, 2ª ou 3ª vez. Da 6ª participação em diante, o número de atletas caiu significativamente. Isso pode refletir uma realidade brasileira: o pouco incentivo no esporte e o aumento das necessidades em decorrência do aumento da idade, fazem com que haja uma grande evasão dos atletas após determinado período.

Nos indicadores de experiência internacional, 75 (59%) atletas já participaram de torneios sulamericanos, 27 (21%) participaram de algum torneio mundial (menor, juvenil ou adulto), mas somente nove (7%) dos entrevistados já participaram de Jogos Olímpicos.

Patrocínio – Quanto ao patrocínio, constatou-se que 78% dos atletas recebem recursos de um clube (82% das mulheres e 70% dos homens). É uma proporção alta, possivelmente indicando que o patrocínio é importante para que o atleta alcance o nível do Troféu Brasil, porém, constatou-se que 24% destes atletas têm outro tipo de trabalho como fonte de renda complementar. Considerando todos os atletas, mesmo os que não têm patrocínio, 35% têm outro trabalho. Ou seja, o atleta brasileiro de alto nível nem sempre se dedica somente ao esporte.

Apenas 20% do total de atletas têm patrocinador individual e somente 51% recebem material esportivo para treinamentos, o que significa que quase metade da elite do atletismo brasileiro não recebe material esportivo para seus treinos. Um dado bem negativo e que é um grande problema a ser solucionado.

Os atletas que gozam de uma condição que seria considerada ideal no âmbito mundial, que recebem do clube e tem patrocinador individual, correspondem a somente 17% do total, e do contrário, os atletas que não recebem do clube e não possuem patrocinador individual, correspondem a 22% do total.

O nível de instrução dos atletas é bem superior à média da população brasileira. Nenhum dos atletas pesquisados era analfabeto, enquanto que segundo dados do IBGE 10,5% da população brasileira acima de 10 anos é analfabeta. O gráfico ao lado mostra uma comparação entre os dados do IBGE (PNAD 2003) e os dados da pesquisa com os atletas. Praticamente todos os atletas têm pelo menos o ginásio completo, enquanto que apenas 32% da população acima de 10 anos se encontram na mesma situação.

Mas o número que mais impressiona é que 71% dos atletas têm nível superior completo, ou está cursando, enquanto que apenas 9% da população acima de 10 anos conseguiu chegar a esse nível de estudo. É comum o atleta de alto nível ter bolsa de estudos em faculdades particulares o que é muito relacionado aos dados da pesquisa: 88% dos atletas disseram terem cursado ou cursarem faculdades particulares.

Na população, segundo o IBGE, 74% dos estudantes de nível superior estudam em escolas particulares, número significativamente menor do que entre os atletas. O que acontece é que o rendimento conseguido no atletismo juntamente com bolsas dadas pelas faculdades por causa do atletismo abre as portas para os estudos, quando a escola é que deveria levar o atleta à pratica esportiva. Se tomássemos como público da pesquisa atletas que não chegaram ao nível do Troféu Brasil, muito provavelmente teríamos um perfil educacional muito inferior, e a quase inexistência de patrocínio.

O curso mais procurado pelos atletas foi Educação Física, com 64%, seguido de Fisioterapia com 12% e Administração de Empresas com 5%. 76% dos atletas falam somente português, 16% falam inglês, 12% falam espanhol, 6% falam algum outro idioma e 6% falam dois idiomas além do português.

Somente 58% possuem computador em casa, mas 90% do total dos entrevistados acessam a Internet freqüentemente, o que comprova ser este um grande meio de comunicação dos mesmos. 12% não lêem nenhum livro por ano, 14% lêem um livro por ano, 27% lêem dois livros por ano e 53% lêem 3 ou mais livros por ano.

Conclusão – Conclui-se que para melhoramos o nível atlético de nossos esportistas, é necessário que haja um melhor investimento financeiro e a busca de parcerias com as marcas de material esportivo.
Na questão escolaridade os números são excelentes, porém é necessária que sejam feitas parcerias com escolas de idiomas e que os técnicos sejam grandes aliados no incentivo à leitura.

Esperamos que os dados coletados possam contribuir para a melhoria de nosso esporte, e que em breve sejam melhorados, através das Competições da Federação Paulista de Atletismo, e ou através dos investimentos que a CBAT vem fazendo, sobretudo com o patrocínio da Caixa Econômica Federal.

Bons treinos e um agradecimento especial para o Mestre Marcos Sanches, Estatístico.

Este texto foi escrito por: Prof. Nelson Evêncio

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